Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Foi a um Domingo...



 


O dia prometia. No ar havia a promessa de que iria acontecer… um grande “combibio”. Isto porque as pessoas, muito contentes por terem participado numa excursão organizada, e com destino à Asia Central, acharam por bem rever-se novamente. Mas essas pessoas excursionistas, muito agradadas que estavam com a companhia umas das outras, não chegavam para ocupar um autocarro. Só que naquela manhã ensolarada de Outubro, contudo havia a presença de tanta gente... que ocupavam... mais um outro autocarro. Mas de onde é que viera tanta gente? E iria comemora-se exactamente mais o quê?

Salette Sampaio mais o seu pai recém-viúvo também acederam ao convite. Salette, uma tal que também havia viajado na outra excursão. A mesma que também lhe havia deixado gratas e inesquecíveis recordações. O pai, esse ia mais como penetra. Sempre era uma forma de sair de casa e conhecer gente nova. Ou nem tão nova assim, mas que ele ainda lhe desconhecesse a existência.

E para além de Salette ia também a Engrácia Maria, também ela quarentona, e a pedir meças à condição de novas e muito gratificantes aventuras.

No dia anterior contudo, Rodolfo José, o organizador daquele programa de festas, telefonara a Salette. “Pois”, dissera-lhe ele, “que lamentava muito, mas as coisas não podiam acontecer como haviam sido previamente combinadas”. Os motoristas afinal não seriam os que eram para ser, pelo que assim... lhes desconhecia o contacto. Pelo que os mesmos, iriam somente a duas ou três das quatro paragens que estavam previamente combinadas. Pois que a Salette tivesse paciência e que viesse ter com os outros todos, à povoação de Alguidares de Cima e Capela. Lá estariam todos de braços e de garras muito abertas para a receber. Salette torceu logo ali o nariz. Ela detestava que lhe trocassem as voltas. Ainda mais depois de um desgosto tão grande. O pai, coitadito, lá continuava a carpir as mágoas. “A sua santinha fizera-lhe tanta falta!” Ainda para mais, agora tinha forçosamente que ir de "rojo" com a filha até à povoação dos Alguidares, que até ficara destituída da sua rica Junta de Freguesia.

Só que Rodolfo José não se desmarcou. Se tivessem assim tantos problemas, ele próprio os iria ali buscar. Nada de mais, atendendo à circunstância de que fora justamente o Rodolfo José quem se metera em tais assados. E se se metera em tal, ele teria que ter mais alguns ganhos, é que trabalhar para aquecer, não era agora nem nunca. E começou a telefonar aos outros excursionistas, dizendo-lhes que tivessem paciência, e que fossem buscar Salette Maria mais o seu pai ainda tão choroso e magoado.

No dia da festa, reúnem-se as hostes. Salette Maria mais o seu pai ainda conheciam alguns dos que não haviam estado na Ásia Menor e na Ásia Maior. Contudo Engrácia Maria só conhecia um ou outro e alto lá. Depois de visitadas as outras duas capelinhas previamente aceites pelos motoristas, lá se reúne todo um excelente conjunto. E que belo conjunto ali se reuniu! A próxima paragem prometia. Era exactamente a Terra dos Piços. Mais concretamente aquela que tem umas termas medicinais, tornadas famosas pela tal rainha que estava de passagem e se encantara realmente pelos efeitos benéficos prometidos por aquelas águas termais. E que belas canecas por ali existem! Com objectos perfuradores colocados erectamente lá dentro. Conforme se bebe, assim pinga no nariz.

A viagem começou com muita e saudável (duvidosa) animação. Primeiro a excursionista mais velhota, começou para ali a cantar uns salmos. Depois disso, uma só um pouquito mais nova, que era também uma forte adepta do Sporting, começou para ali a cantar a plenos pulmões o hino do seu clube do coração. Só que pouco ou nada tinha da Maria José Valério. E muito menos com a Maria Callas, que ela insistiu também ali em ofender a memória. E como ela insistia, senhores! E vai de dar agudos para trás e para a frente e com muitíssima determinação. Salette, a tal que estava danada desde o dia anterior, franzia a cara em dezassete. Engrácia, coitada pressionava os tímpanos e maldizia a sua sorte. O pobre viúvo, também já não sabia de que terra era. Depois foi a vez da tal sportinguista insistir nas anedotas, que levava diligentemente escritas num caderninho a rigor. E de "graça" em "graça", ela lá ia arrancando um ou outro bocejo, ou então um ou outro sorriso amarelo canário. Às tantas ela arriscou: “Sabem mesmo o que é um cigarro, queridos convivas?” “Ninguém sabe”, continuou ela para ali a dizer até ao limite do impossível. “Pois é um cilindro, que tem lume numa ponta e um idiota na outra”. E depois disso, ela ficou para ali a rir sozinha numa cor muito escarlate devido a tanta emoção.

Mais para o meio do autocarro ia Clementina na companhia do seu "rico" esposo. Eles que fumavam mais ou menos desde a pré-primária. E prefiguraram os dois ali, a personificação de dois dos idiotas. E isto, sem querem ou terem sequer solicitado tal classificação. “A coisa prometia mesmo”, pensava assim toda a gente.

Na cidade das Caldas, da tal Rainha, parou-se numa igreja muito antiga. Só que ninguém estava minimamente preparado nem para rezar, nem para fornecer ali qualquer informação suplementar. Mas mesmo assim saíram todos, depois de manifesto esforço por parte daqueles que eram mais coxos e inevitavelmente menos ligeiros. E lá foram eles todos para a igreja. Onde também andavam pendurados, uns dois ou três restauradores, que viram assim aquele “seu” espaço invadido, por hordas de gente que procurava tudo, menos aquilo que fazer.

Saídos do espaço, voltam uma vez mais bem enfileirados para o autocarro. Com as mesmas pressas do costume. E a volta seguinte era andar por ali, de autocarro a ver o mar e mais três ou quatro árvores. Com a sportinguista a gingar as ancas em perfusão e a continuar a dar azo ao seu ego tão inflamado.

E depois visto que estava o mar, mais as três ou quatro árvores, seguir-se-ia o restaurante. Que estava inserido numa enorme quinta e sem que tivesse mais nada à volta. E aquilo nem sequer era uma excursão de vendas, senhores! Porquê então um tão grande isolamento?

Na quinta iniciaram-se depois as hostilidades. Ali os grupos eram mais do que muitos. Todos à espera de vez. E conforme se iam despachando do “rissou e do cocrete”, e do espumante nacional, passavam para uma sala imensa, cheia de mesas de doze lugares. Pois aquilo teria que ser tudo cheio, claro estava.

Salette ficou com o pai e a sua amiga Engrácia. Ao lado de mais dois ou três conhecidos. E os outros? Haviam de se conhecer futuramente. Assim houvesse para tal... disposição.

O viúvo rezava pela alminha da que já lá tinha. Salette e a amiga esperavam uma sopa de peixe, que se fizera anunciar. Nada má, mas também nada de excepcional. É que era tanta gente. Como é que se consegue cozinhar com esmero para tanta, mas tanta, alminha exuberante?

Depois vieram outros peixes. E depois as carnes. A sobremesa. E o vinho de fraca qualidade também por ali circulava. Na mesa do lado, contrariamente ao espectável, circulava um mui sofrível vinho verde. Naturalmente ao contento da sportinguista, que quando se lembrava, se levantava do seu sítio e se punha a dançar de pernas bem abertas, de mãos no ar e a cantar: “Rapaziada, oiçam bem o que eu vos digo, e digam todos comigo: Viva o Sporting!” Cantava ela rejubilantemente, só que sempre sozinha. Mas porque seria?

Na mesa do outro lado, os ocupantes riam a bom rir, depois dos segredos de um empregado de mesa, muito pequenino e com um farfalhudo bigode. Sorrateiramente ele lá se lhes ia dirigindo. E atempadamente, os convivas tiveram oportunidade de se inteirarem de informações tão importantes como: “Arroz é de que género? Masculino ou feminino?” Pois… também ali ninguém sabia. Resposta pronta daquele muito impetuoso ser de avental preto: “Pois depende, meus amigos: se for de tomate, é menino. Mas se for de grelos”… vocês já sabem qual é a resposta, não é verdade?

“E o peixe mais forte que existe no mar?” Continuava o tal descarado. Seria o Tubarão. A Baleia Esbranquiçada? Ou a Orca? “Pois que não”, respondia o tal senhor estouvado. “É o bacalhau, porque depois de morto, ainda lhe fazem uma punhet@. Esclarecidos assim ficaram todos aqueles convivas. Esclarecida fiquei também eu. Assim como os meus riquíssimos leitores. E quem é que é amiguinho, quem é?

E ao repasto de fraca qualidade seguir-se-ia o baile da praxe. Num canto estavam os visitantes da Asia. Nada estava a ser como o que lhes havia sido prometido. Mas o que é que era aquilo, senhores? O Baile do Entrudo? Mas estava-se ainda no mês da República Desconsiderada.

No palco, um senhor obeso, estava repimpadamente sentado atrás de um pequenito órgão. E depois de iniciados três ou quatro acordes, começou a cantar, com uma voz de falsete, grande parte das músicas pimba da actualidade. E também as do antigamente. Todas as músicas pimba da actualidade. Todas as músicas pimba… do antigamente. O importante mesmo, era por todo aquela gente a dançar. Ainda por cima, logo após tão substancial repasto…

Ao largo ouvia-se ainda uma voz velhinha, desditosa e persistente que gritava: “Só eu sei, porque não fico em casa!” Pois. Tivessem uns e outros… toda essa certeza!?

Cá fora ainda se juntaram os tais “asiáticos” algo frustrados. Conviveriam ali. Era o que lhes restava. E falaram das agruras da vida e do preço excessivo do pitroil. E de uma e outra temática igualmente aliciante.

E depois de bastante tempo passado, também já estava o baile acabado. Seguir-se-ia o lanche ajantarado. Revelando os convivas uma voracidade já algo mediana. E da recolha sumária por parte de alguns, de bolos e de pão que fazia muita falta lá em casa. É que comer sempre se come todos os dias. Pelo menos é o que desejavelmente deve acontecer. E depois de muitos beijos e abraços, que regressaram mais uma vez… ao meio de transporte colectivo.

Engrácia para terminar ainda perguntou ao senhor Cinzento, seu colega no banco da camioneta, se ele havia gostado do convívio. “Sim!”, foi a resposta imediata e satisfeita que ela obteve. “Isto corre sempre tudo muito bem. Logo a mim, que já sofri tanto na vida. Que já tive que fingir tantas vezes… que estava tudo bem!”. Perante isto, Engrácia ficou convencida que existem pessoas que procuram na desventura, uma explicação determinada para o destino que lhes coube em sorte. Efectivamente seria muito pior, se o senhor Cinzento fosse acometido… por uma trombose qualquer.

E finalmente… e finalmente senhores, veio o regresso à casinha. E à boa vida efectiva.

Sugestão de leitura para esta semana: “A Doida do Candal” de Camilo Castelo Branco.
DIVIRTAMSEMAZÉ!

 
 

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Sonha sem medida, alongarás a vida.





Quando Ela o vira pela primeira vez, ficara-lhe indiferente. Pouco lhe tocara o facto dele se apresentar sempre de cara franzida e com roupa irrepreensivelmente engomada. Ainda menos lhe cativara o facto de o mesmo pouco falar. Ora se não falava era porque não queria, claro está. Ou seria também ele um sofredor de Mutismo Selectivo? Pois, num primeiro momento Ela não soubera nada disso, nem nada quisera saber.
Só que inexplicavelmente, ele lá lhe foi procurando a companhia. Buscava-lhe o olhar no silêncio da inevitabilidade dos dias que passavam. E por fim, mas no fim mesmo, ele lá lhe procurara, a palavra. E Ela ficou também a calcular que ele também lhe procurava o consolo. Erradamente, pois muitas são as vezes em que o coração de uma mulher tenta percorrer caminhos jamais idealizados pelo outro diabo. E, foi quase sem dar conta, que ela já estava na dele. E perdidamente exaltada.
Não que os olhos dele, olhos castanhos, cansados e tristes, lhe tivessem feito ver novas e prometedoras realidades. Não que as parcas e pobres palavras por ele proferidas tivessem nela um efeito de tal forma estimulante, que lhe melhorassem de forma significativa toda a sua existência. Não. O que contava é que ele estava ali. E sem aviso prévio, ele ia por ali estando, preenchendo-lhe depois e inexplicavelmente, todas as vagas do seu pensamento.
E, fora a partir dali, que ela sonhara em lhe poder mostrar que as noites de Estio são tão belas! Apascentara igualmente a ideia, de que, e numa noite qualquer, Ela lhe daria a mão e levá-lo-ia a ver as estrelas. E com isto, ela não se estava a referir a um despótico e pouco propositado orgasmo. Nem a outras cenas refractárias, retiradas à sorte de um qualquer Kama Sutra. Não! Ela quisera somente mostrar-lhe… as estrelas. Só isso. E se se deitassem e olhassem para cima, eles veriam juntos, constelações e constelações infinitas. Daria depois para imaginar vidas que, a existirem ou não, em planetas longínquos, também na direcção deles pudessem estar a olhar. Ao olharem para cima, eles perderiam a consciência de que estavam para ali amarrados à terra. E por poucos instantes até poderiam imaginar que estavam a voar. Finalmente livres de quaisquer amarras. E entrariam finalmente em toda aquela imensidão. Pois, todos esses exercícios, haviam sido já experienciados por Ela.
Em outras ocasiões, eles poderiam contar as vezes que o vento ondeava a seara madura. Ouvir-lhes a música que daí resultasse. E fazer jogos com perguntas engraçadas de fazer, em que a resposta era obtida através do número de vagas obtidas. Ou então através da contagem das ondas do mar. Verem os barcos que passavam no mar alto.
Quisera Ela também mostrar-lhe as maravilhas que constituem os dias de Outono. Mostrar-lhe todas as cambiantes florestais. Procurar com ele as paletas de cores, até ali desconhecidas. Para Ela era tudo tão simples, tão diáfano e infantil! Quisera pois Ela amá-lo na simplicidade suprema.
Houve uma altura em que para ele olhara e se enchera finalmente de coragem E quisera chegar a ele. Tentara emociona-lo. Pretender assim levá-lo finalmente com Ela? Tarefa desditosa. Mas, e… contra todas as expectativas, convidara-o a sair. Mandou-lhe uma carta. E depois ficou para ali à espera da volta do correio.
Contudo o tempo veio a confirmar que de nada valera aquele convite. Já que a vontade, se alguma vez existiu, aparentemente se perdera por essas ondas hertzianas afora. Se calhar a mensagem foi ter com as outras mensagens mortas à partida por não serem absolutamente necessárias. Quem sabe se estão todas no além a conversar, ainda meio tontas, sobre aquilo que lhes havia acontecido. Ou melhor: a falar daquilo que não havia acontecido.
Mas para Ela, a raiva se a houve, morrera quase à nascença. E a mágoa, se a houve não chegou sequer ao acto de contrição. Para sempre contudo, ficaram todas as expectativas criadas. E os cenários por ela (e por outros) imaginados, são bem capazes de habitar numa outra dimensão qualquer.
E os anos passaram. Muitos anos aliás. Ela já envelhecida, e munida de um saco, circulava com vagar por um Centro Comercial muito na berra. E das montras, ela via coisas a brilhar. Muitas coisas a brilhar. Depois ela vislumbrava também, roupas coleantes e de cores infinitas. E peles que haviam habitado em outros corpos, que depois seriam sacrificados à vaidade humana. Seguiam-se também lojas com muitos bolos e chocolates. E gelados e gomas em perfusão. Isto apesar da palavra “dieta”, fazer sempre parte da ordem do dia de uma comunidade amorfa.
E Ela, girava por lá. Não que aquele espaço fosse para Ela, o mais apetecido. Dos objectos que Ela por ali via, pouco ou mesmo nada tinha. A sua reforma era pequena, e não dava para muito. Mas também, disso não tinha assim tanta pena. As roupas, não era ali que Ela as comprava. Os chineses eram simpáticos e pediam-lhe poucos ”eulos”. Os ciganos da feira, também eram engraçados de ouvir. E depois disso, as vestimentas nela, duravam-lhe eternidades. E fora por mais do que uma vez, que ela se pusera a remendar. E conseguia fazê-lo com tal arte, que ninguém, mas mesmo ninguém, lhe havia notado a reparação.
O que ela gostava ali de ver, era o movimento das pessoas. Todo aquele frenesi. Umas pessoas, uma grande maioria, estavam sempre muito agitadas. Carregavam sacos e sacolas, que à primeira oportunidade lhes escorregavam das mãos. Outras mais como ela, olhavam somente e tomariam mentalmente nota daquilo que por ali estava exposto. “Quem sabe se lhes viria um dia um Euromilhões no sapatinho? Quem sabe se não iria acontecer uma dádiva (era mais fácil mesmo ganhar o Euromilhões), qualquer governamental? E passeavam-se assim mais calmas, alisando desta feita a espuma dos seus dias.
Ela, também gostava de ver a interacção entre os jovens, carregando com eles as suas inúmeras “maquinetas” modernas. Enquanto que os mais velhos, levavam os seus sacos de plástico, recheados de jornais e de outras demais recordações. E depois, Ela ainda tinha tempo para sorrir a quem por ela passava. Mas a maior parte nem lhe ligava. Achá-la-iam louca? “Olha o Raio da Velha! Mas que petulância!” Quase que pareciam dizer. Mas sempre existia um ou outro que lhe sorria também e com ela assim também interagia. Conseguindo-se à partida uma sinalética que recordava vagamente que mais do que as posses monetária que se guardavam nos bancos, pesava um pouco mais o facto de pertencerem ambos à condição humana.
E foi já perto da saída, que Ela olhou para um casal. Ele de fato elegante, unhas bem cuidadas e com a cara a rigor. Ela bem mais nova, também muito elegante e extremamente bem maquilhada. E os anéis dela refulgiam brilhos em todas as direcções possíveis. E foi por um brevíssimo instante, que Ela pareceu recordar uns tais de uns olhos castanhos. Que um dia no seu passado ela achara tristes. Ele, e por um momento também, pareceu também tê-la reconhecido. Pelo que a olhou mais um pouco, franziu o sobrolho… E, resolutamente, lá deu o braço à sua tão distinta madame, entrando logo em seguida em mais uma loja.
Dos sacos que eles levavam, saiam publicitações várias. Ela ainda teve a oportunidade de ver referências às Canetas Monte Alpinas. E também aos melhores relógios, que dizem ser os rolantes. E num ápice ela vislumbrou ainda outras publicidades a demais roupas das marcas mais luxuosas, que permanecem impolutas de tão desejadas no cimo desta côdea terrestre. Assim e com tanta coisa, seria de prever, que ninguém pudesse ficar levemente decepcionado. “Mas… e seria mesmo, ele?”
“Não”, pensa finalmente Ela. “Não podia ser!”, “Ou então até podia, só que não me reconheceu, no meio de tanta ruga... Ou então, ele não me quis reconhecer”.
Mas, e depois? Pois já nada disso importava. É que para trás das costas tudo fora jogado. Agora ficara-lhe somente alguma nostalgia de alguns dos tempos passados. Em que ela era mais jovem e ligeira. Em que via com muito melhores olhos, o nascer e o por do sol. Em que tinha os seus olhos verdes, ainda carregadinhos de esperança. Em que tinha ainda, a sua querida mãezinha. Em que tinha…
E por fim lá foi Ela. Lá foi prosseguindo o seu caminho. Sem muitas pressas, ou ânsias desnecessárias. Ela que levava com Ela, um único saco. Um saco somente. Que ia cheio de sonhos, polvilhadinhos de açúcar. E isso, bastava-lhe. Como aliás, sempre lhe havia bastado.
Sugestão de Leitura: O Imaginário Medieval de Jacques Le Goff.



DIVIRTAMSEMAZÉ!

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Mas que rica vida!




Era com alguma inveja, e também com algum assombro, que eu via perfilados no cais de Lisboa, aquela meia dúzia de paquetes gigantes, que pareciam oferecer uma existência para cima de estimulante a todos aqueles que neles viajavam. Era também com alguma curiosidade que eu via os tais passageiros na capital lusitana, a misturarem-se galhofeiramente com os locais. Ou então, a maravilharem-se continuamente com as pequenas lojecas de bairro, e a confraternizarem sem prosápias com os alfarrabistas. E a mim eles perguntaram, quando eventualmente me encontraram, sobre a localização exacta da bela Estação do Rossio.
Longe também já estão os meus tempos de menina e moça, em que me entretinha, nas longas e benfazejas tardes de estio, a assistir à série “O Barco do Amor”. E sabia de cor o nome da sua tripulação principal. Conhecia-lhes os gostos e demais tiques. E torcia para que todos os romances que por ali nascessem dessem certo. Regra geral, eram protagonizados por velhotes/as mais ou menos excêntricos/as e solitários/as. Ou então por gente um pouco mais nova mas com vivências geralmente a tocar fortemente na tónica da infelicidade.
Eis senão quando, se me apresentou também a mim, a possibilidade de também eu fazer um Cruzeiro. E seria justamente para terras algo longínquas e muito prometedoras. Não que eu me apresentasse propriamente numa das duas situações acima referenciadas. Acontece que eu achei que o programa apresentado valeria muito a pena. E não me decepcionei.
As ilhas visitadas revelar-se-iam muito belas, dotadas de atractivos muito próprios. E em Porto Rico, cantarolei até à exaustão a outrora famosa cançoneta do grupo belga. Sim desses mesmos que nos desejavam sempre ir na companhia de Deus Nosso Senhor. E que bonita ilha eu ali vi. E isto sem tomar qualquer rum.
Depois, jamais esquecerei Saint Croix, outra bela ilha. Com a sua guia que deve de ter saído de um regime militarista e muito aprofundado. Pois toda ela era gestos e vontades. E ai daquele que não a contentasse com uma obediência cega às suas ordens. A todos ela chamava, gritava e gesticulava. Permanentemente. Lembro divertida, a visita que ela nos fez a um Forte. Que servira igualmente de Presidio. E naqueles tempos, comunicara-nos ela, sujeito que para ali fosse, na sua grande maioria escravo, era alvo a abater. Sem qualquer apelo. E então que bem nos soube entrar para um local tão exíguo, onde em épocas transactas, também couberam mais de cinquenta cidadãos, desprovido de água? E o calor que ali se fazia, Santo Deus! Nós ali eramos bem menos (de cada vez, é claro) e sentimos ali e na pele toda a agrura do local. Aposto que ninguém, mas ninguém mesmo, quisesse um dia lá ficar.
Depois levou-nos quase por arrasto à Casa do Governador. E de nada valeram os protestos vagos e dolentes de um guarda que ali estava de serviço. Tratava-se de um dia de Domingo, pelo que aquele espaço não deveria ser aberto a qualquer visitante. E no entanto… passado algum minutos lá estávamos nós a gozar de uma temperatura condicionada de 17, 18 graus, bem diferentes da temperatura elevada que no exterior se fazia. Mas, e do governador? Pois nem um rasto. Mas também ninguém lhe sentiu assim muito a falta.
Saint Martin, lado francês e Saint Marteen lado holandês, constituiu também uma agradável surpresa. A divisória daqueles dois estados, era pontuada por umas simples demarcações, que cada um passa livremente e quando bem lhe aprouver. E que simpático foi ver as diferenças existentes entre aqueles dois lugares de diferentes inspirações? Eu gostei mais da parte francesa, mas isto são gostos… e os gostos não se discutem.
Antígua seguir-se-ia, e serviria de palco à minha estreia em passeio de helicóptero. E naquele passeio opcional, foram somente nove temerosas senhoras. A mim coube-me viajar na companhia de duas, já conhecidas de outras aventuras. Que ao se aperceberem do marco histórico que consistia para mim aquela iniciática viagem, me puseram à vontade. Não que eu tivesse a revelar especial pavor. Acredito mesmo que pouca será a coisa que me atemorize assim muito, contudo a atitude das senhoras foi muito cooperante e simpática. E fica aqui também registado o meu singelo agradecimento.
E de lá de cima, vimos um vulcão calmo, apesar de resfolgar cá para fora, algum fumo e um cheiro profundo a enxofre. E no sopé do vulcão, permanecem espectros daquilo que um dia foram casas habitadas. Totalmente desprovidas de telhados e de vida. A visão não é necessariamente tranquilizadora, muito antes pelo contrário. E vai-nos relembrando que apesar de humanos, e por vezes detentores de imensos egos, pouco ou nada podemos fazer perante a força e as vontades da nossa Mãe Natureza.
E como eu andei de passeio pelas alturas, não tive oportunidade de fazer a visita ao local em solo que o resto da comitiva beneficiou. E alguns dos que não voaram, falaram-me de uma personagem cubana que ali conheceram, que lhes explicou muitas coisas e que acabaria por compor imensamente o ramalhete. Mas como eu não a conheci não poderei dela falar.
Só sei que à tarde deu-se em mim uma verdadeira epifania. Sim senhores, eu vi a Luz! E nem sequer tive que ir ao Antigo Cinema Império. Diga-se em abono da verdade, que eu era a pessoa que mais detestava a praia. Perguntava-me a todo o momento, mas “porque- raio” é que as pessoas sazonalmente se deslocalizavam para o litoral a fim de se banharem nas águas salgadas, frias e tão intranquilas? Mas o que é que elas para ali iam fazer? Levar com a força bruta das ondas no corpo? E depois apanharem toneladas de areia, que tem a desdita de se enfiar um pouco por todo o lado. Nas poucas alturas em que assim me vi, assumi na totalidade a personalidade… de um croquete. E depois, eu acreditava mesmo, que já em alturas do Natal, a pessoa banhista ainda poderia construir um castelo de areia lá na sua sala.
E depois de banhos tormentosos, a pessoa estava para ali ao sol, e a “empastelar”. E a adquirir aquele tonzinho tão peculiar do vermelho da lagosta. Quando o dia acabava, o cidadão podia chegar a casa, quase, quase incandescente. E podia substituir desta maneira, e com muita facilmente, um portentoso candeeiro. E passados alguns anos nestas práticas, queixavam-se de sinais que apareciam, e rugas impossíveis de disfarçar. Provinham-se depois, bidões inteiros de botox.
Ora pelo exposto, é bom de ver que para mim a praia que me havia sido dada a conhecer, praticamente só tinha defeitos. Pois era! Contudo… Senhores! As Caraíbas são “outra loiça”. Definitivamente. Areia existe de facto. Ela é em magotes e bem fininha. Mas ali, e desculpem-me qualquer coisinha, só os tontinhos é que devem de gostar de para ali estar em cima da mesma. É que a água é óptima! Quente como se quer. Sem ondas. Que maravilha! O grau de salinidade é bastante elevado, o que se configura numa imensa mais-valia, para quem como eu tem um medo indisfarçado do mar. Dizem-me que poderão ainda ser, restícios de uma hora de nascimento de aflição. Pois se calhar...
Pois ali amiguinhos, eu flutuava, eu pairava e ouvia o mar. E diga-se em abono da verdade, que no meu caso o mar até foi bastante generoso. E os cardumes de peixinhos que nos passavam logo ali bem rentinho às nossas pernas? Tão encantadores! Tão ordeiros e sobretudo… tão discretos! Tenho a dizer que tal passeio teve a virtude de me transformar, no que às praias diz respeito. Na água eu andei, flutuei e fiquei com os meus dedinhos, todos encarquilhados. E esse passeio fez de mim a mais fiel adoradora das águas quentes e serenas das Caraíbas.
A partir daquele momento inicial, eu não faltei nunca à chamada para uns táxis locais. Que quase em aflição nos prometiam levar para as praias que eram “as melhores de todas”. E como nós pressionávamos os condutores? Primeiro, na tentativa, por vezes inglória, de regatear os melhores preços. E às vezes ainda conseguimos levar “a água ao nosso moinho”. Depois porque o taxista tinha mesmo… era que andar. E que não se perdesse em vãs conjecturas. É que a praia estava lá e à nossa espera. Ele assim o havia prometido. É que depois o barco partiria às seis. Tendo nós todos a obrigação de entrar no mesmo até às cinco e meia. Pelo exposto não havia mesmo tempo a perder. Refiro ainda, e a propósito, que muitas foram as gargalhadas que por ali se deram.
Santa Lúcia, Ilha bonita. Barbados a mais bonita de todas, para mim. Adorei igualmente as suas praias. E tenho a dizer que os nove dias de “excursão” se passaram efectivamente num ápice.
Ressalvo duas situações que considero singulares e particularmente tocantes: O jantar seria quase sempre realizado, no restaurante à la carte. Estava-se ali num maior convívio, e da forma mais descontraída. E era ali que pacificamente se esperavam as iguarias prometidas. Desde o início, nós ocupávamos os mesmos lugares à mesa. Ora na mesa que me coube em sorte, servia-nos um moço com os seus trinta anos (não mais), com um sorriso permanente na cara. Quem também por lá circulava muito, era um homem já cinquentão, de ascendência lusitana. Seus pais haviam emigrado em tempos para a Africa do Sul. E o mesmo fazia questão de nos vir cumprimentar amiúde, apercebendo-se também dos nossos gostos e demais opiniões. E como aquele senhor era também ele… tão opinioso! Quase no fim da semana, o tal moço de trinta anos e sorridente, faz-nos olhar finalmente para a sua placa de identificação. E Luís Fernandes era o que lá constava. Eu fiquei na dúvida se ele era de Goa, de Damão ou de Diu. O que eu sei é que o mesmo, aposto que sem saber uma única palavra do lusitano dialogar, ostentava com orgulho, aquela sua característica. Aquele seu legado. Necessariamente devido a uma qualquer ligação a um passado comum, que seguiria depois para outras localizações geográficas. E a par daquela natural constatação o mesmo sorria. Não parava de sorrir.
E ficaria ainda para a história o encontro daquelas duas primas direitas. Também elas de origens comuns. Contudo a vida havia-as separado. Os trilhos nem sempre confluem e as realidades tornam-se distanciadas entre si. E seria já na chamada existência de ouro, que aquelas duas se encontrariam, lá num Cruzeiro às Caraíbas. Tenho a dizer, que assim à primeira vista, tal situação é muito chique. Ora, não ver um familiar, para cima de um “ror” de anos e encontrá-la num Cruzeiro? Não foi numa Estação de Metro. Nem num Hipermercado ou Estação de Serviço. Foi nas Caraíbas… E em Cruzeiro.
Num segundo momento, poder-se-á pensar que a vida tem mesmo destas coisas. Reserva-nos sempre muitas surpresas. E é absolutamente imprevisível. E quando nós menos esperamos poderá mesmo colocar-nos novamente perante familiares desaparecidos, amigos perdidos, desavindos amores… Acho que é esta circunstância de se saber de que nada se controla, que ajuda a conferir à vida uma paleta fabulosa de cores, que a tornam irresistível e objectivamente tão preciosa.
Resta-me dizer que para mim, viajar é muito mais que contar milhas. É muito mais que tirar fotografias. Viajar é conhecer mas também é confraternizar, é sentir, é interagir, é comunicar distintas opiniões, é aperceber-se de distintas vivências. Mesmo com aquele que revelando um conhecimento muito vasto e muito solido, insiste em falar sobre a inutilidade das Bibliotecas Públicas. E que depois, prazerosamente, se pôs a comparar-me com a Ana Bacalhau dos Deolinda. E para quando o meu grupo musical, perguntava-me ele? E seria mais de que género? Ah senhor! Soubesse eu cantar como ela! Tivesse eu a sua postura e dinamismo em palco! É certo e sabido que viriam mais uns cobres para a minha conta bancária. E eu poderia viajar um pouco mais. Caríssimo H. foi um gosto conhecê-lo. E também foi muito tocante para mim aperceber-me que ao contrário daquilo que dizia, a sua ligação às Bibliotecas que são de todos nós, é muito forte e antiga. E não podia ser de outra maneira, avaliando o seu extenso saber, assim como pelo seu refinadíssimo sentido de humor. Do mais refinado que eu tenho conhecido. Ah… e viva o Sporting! Sempre! Definitivamente!
Sugestão de leitura para esta semana: “A Ilha dos Demónios (Margarida la Rocque)” de Dinah Silveira de Queiróz.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

O "aborto" ortográfico.




Se há coisa aberrante e que jamais contou com um “pingo” que fosse da minha simpatia, foi o amaldiçoado do Acordo Ortográfico. E após ter tido recentemente uma Formação em que a dada altura, foi abordado com algum detalhe tal assunto, eu confesso, fiquei ainda a odiá-lo mais.

Não que a formadora em questão fosse incompetente. Muito longe disso. Ela esforçou-se ao máximo (e sempre) para dar as melhores contribuições, a fim de que o entendimento de tal “aborto”, fosse possível. Contudo, nós sabemos todos que é impossível fazer um bom bolo, com maus ingredientes, por muito bom que seja o pasteleiro.

E a coisa, senhores, roça a mais pura e profunda imbecilidade. Onde não existe uma regra válida e perceptível. Só excepções. E más excepções. Porque “exceções”, não são definitivamente a mesma coisa.

Ora quis o azar que tivéssemos no nosso país, seres muito obtusos, que não tendo muito mais coisas para fazer, ou com que se preocupar, resolveram dedicar-se a tal absurdo. E existindo várias formas de dizer uma mesma coisa, uma mesma acção, achou-se por bem reduzir tudo à mesma coisa. À mesma comunidade. Impondo um sistema de fala e de linguística de nove ou dez milhões, a um universo composto por muitíssimo mais gente.

Na ascensão da Republica, houve essa necessidade. Procedeu-se a uma reforma da ortografia vigente. Mais tarde, quando o Salazar já estaria na sua meia-idade, realizou-se uma outra reforma. Contudo o brilhantismo maior surgiu já no início da década de noventa do século transacto, em que meia dúzia de iluminados tecnocratas, acharam assim de um pé para a mão, que tinham que fazer uma tal reforma, que abrangeria na totalidade, toda a comunidade mundial que eventualmente se expressasse em português. E como havia ainda uma ínfima e minúscula dose de bom senso, se tal é possível referir no que a tal assunto concerne, a forma da “imposição”, teria que ser ratificada pela totalidade dos oito países que compõem a chamada CPLP. E foi durante algum tempo, que se acreditou ingenuamente nessa possibilidade. Muito à imagem do “come e cala”. Mas o que aconteceu efectivamente, foi que a maioria dos países visados, se recusaram a assinar tal. Mas porque é que seria? Sendo que aquilo é “tão bom”! É mesmo um conceito tão vencedor!

E então depois, com a arrogância que caracteriza somente alguns, a meio do jogo, mudaram-se as regras. E, a tal idiotice passaria, com apenas os votos de três visados: a registar: Portugal (como é óbvio), o Brasil (igualmente óbvio e compreensível, uma vez que para eles, a “coisa” pouco ou nada muda) e Cabo Verde. Então, a vontade destes três estados soberanos seria imposta aos outros cinco, os tais que se recusaram a assinar à partida. Perante o exposto, tenha-se então a coragem de negar, que o espírito do Salazar não nos sopra ainda muito no cangote? Fale-se então, se tal for possível, em democracia e na vontade expressa de uma maioria? Pois… isso? É só para os outros. Estamos pois perante uma metrópole grandiosa e incontestável, apesar de minúscula territorialmente e de ter sido sujeita a um Resgate Externo Tenebroso e Humilhante. Mas de peito inchado fez pensar a alguns, que conseguiriam desta maneira, ter sete aprendizes, que precisam mesmo muito de aprender, “com quem é grande”.

E as mudanças? Pois são a coisa mais ridícula e obtusa, que me foi dado a assistir na vida.

Escreve-se somente aquilo que se lê: E desta maneira o Egipto perdeu o seu “p”. coitadinho! Mas os egípcios mantém-no. Ah valentes! Isso até é mesmo aconselhável atendendo às circunstâncias. Pela mesma ordem de ideias, a situação associada àquelas pessoas que se perdem a olhar para um ecrã televisivo sofreu também alterações. E deixaram de ser espectadores para passarem a… “espetadores”. Calculem! Mas tudo isto se pode explicar. É que todos sabemos que a televisão está cada vez pior. Poucos serão ainda aqueles, que a conseguem aguentar. Então, só lhes restará mesmo… espetar. Isto, se para tal, ainda conservarem o engenho e a arte. E depois, que o façam também os egípcios. O “Egito” é que já não consegue, coitado. Uma vez que (aparentemente) ele foi sumariamente decepado.

O “rectal”, também já perdeu o seu “c”. Pois… à primeira vista, parece-me que tal situação, será absolutamente antagónica à sua própria natureza. E vamos lá a ver se ele não perde mais nada! Porque se assim for, ele fica mesmo mesmo… um desgraçadinho. E a um desgraçado, tendencialmente não se sente afecto. No mínimo fica um “afeto”, que é o mesmo… que quase nada.

Algumas das palavras que possuíam hífen entre si, deixam de o ter. A tendência é juntar as duas palavras uma à outra: Mas como é omnipresente em toda esta idiotice, há sempre muitas excepções.

Desta maneira, deixamos de ter um “anti-religioso” e passamos a ter um “antirreligioso”. Cruzes, credo e canhoto! Digam lá que isto não parece ser mesmo coisa do demo. A palavra que surge, lembra-me tudo, menos a figura daquele que anda para aí a pregar a inexistência de Deus e a perseguir os adoradores Daquele em que ele se recusa a acreditar. Convenhamos, a palavra “Antirreligioso”, só me apela mesmo, a uma possível marca para um… raticida. Ah pois, eu já percebi. Mata ratos, mas também poderá matar… religiosos. Só basta mesmo… é prová-lo.

Por outro lado é aconselhável àquele que alguma vez escreveu palavras como: microondas ou microndas, que procure com urgência um sacerdote, e que lhe implore pelo perdão divino. É que a justiça do homem já o condenou. Pois contrariamente ao que por ali se clama, na inteligência torpe e tecnocrata daqueles “linguistas” da treta, a palavra vai ser: micro-ondas. Ou seja, fará o percurso inverso. Passará assim da infância muito recente à hora do parto. Muito à semelhança de um Benjamin Button qualquer. Isto porque se assume, que a palavra tem uma vida. E ocupará uma fase específica do seu estágio existencial. Umas palavras estarão assim mais próximas do seu nascimento/surgimento, outras já estarão na sua adolescência (na puberdade, e com borbulhas no rosto), outras na sua fase adulta. E por aí fora… Ora micro-ondas, são justamente aqueles “seres” que aquecem, mas que se recusam a descongelar convenientemente, os alimentos que nós queremos consumir. E o Salazar, não tinha com toda a certeza, nenhum “desses bichos” lá na cozinha. Nem mesmo a tão voluntariosa D. Maria. Eles só tinham mesmo guardado, era um daqueles raspadores das sobras, que assumiu a própria identidade daquele viúvo que nunca o foi. Um tal objecto que está tão em moda (cada vez mais, se me permitem) nos dias da actualidade.

E “cor de laranja” deixa de ter hífen, mas cor-de-rosa não. Assim, teremos duas cores com tratamentos diferenciados. Mas terá isto alguma coisa a ver com a política, senhores? Libertaram-se desta maneira os laranjinhas, de todas e quaisquer amarras, ao passo que o roseiral permanece para ali igual a si mesmo? Pois não é essa a explicação correcta, garantiram-me. As palavras estão é em tempos diferentes. Ou seja, asseguraram-me que a cor de laranja surgiu muito antes da cor-de-rosa. Daí o tratamento distinto. Mas isso também não me espanta nada, dilectos amigos. E o que é que me pode mais espantar agora? É que eu ainda aqui não confessei, mas tal temática que foi abordada em minha presença, a fim de que eu me pudesse tornar também sua fiel discípula, me fez passar muito mal. Tive mesmo alguns acessos de raiva assim como muitos suores frios. E por breves instantes, eu tive até mesmo, muita vontade de agredir alguém. E quem confessa a verdade…

Mas, e em relação às cores citadas? O que é que poderá ter acontecido? Pois... Não me parece que o Afonso Henriques se gostasse muito de passear de cor-de-rosa. É que  se os mouros o vissem assim trajado, seriam bem capazes de não o levar lá muito a sério. O que ele era bem capaz de ter, era umas pantalonas cor de laranja, que como se sabe, é uma cor muito mais viril. Além do mais, a senhora sua mãe, era pessoa para ter umas camisas de dormir, também em cor de laranja. Lá para as noites de devaneio, entre ela e o Conde de Andeiro. E a causa primeira, seria devida ao facto de que a cor de laranja lhe favoreceria bastante a tez, habitualmente sempre pálida e desgostosa, por ter um filho que lhe batia. E depois, porque trajada de cor de laranja, ela era muito mais visível ao toque, um bocado na onda: “Tu vê lá se me encontras. Mas se não me encontrares, fica sabendo que eu estou logo ali, por detrás daquela arca”.

Da mesma forma, não será expectável, achar que a Rainha Santa, tenha levado rosas, daquela cor que ainda não havia sido inventada. E à palavra do rei: “Mas o que é que tu levas aí, mulher? Escondido no avental?” ela tenha respondido: “São rosas senhor, são rosas! Mas repara bem, oh senhor do meu destino: são todas brancas, amarelas e vermelhas. Não trouxe nenhuma daquela cor que eu não sei dizer qual é.”

Resposta mais que provável do rei: “Pois, vai em paz, mulher! Que desta vez escapas! Mas tu já sabes, eu não gosto nada de subverter o sistema. E vê lá também se acabas, com essa mania de andares para aí a depenicar o jardim todo. É que manifestamente, tu não ganhas nada com isso. E eu depois fico prá aqui… sem nada para cheirar.”

O cor-de-rosa deve de ter sido inventado só no tempo do D. Sebastião. É mesmo provável que ele tenha seguido para Alcácer Quibir, com um modelito em rosa bebé. Ou será rosa-bebé? Assim como também um lencinho de assoar, bordadinho em ponto cruz.. E também não me custa nada a crer, que o próprio Cardeal D. Henrique, tenha tido em grande estimação, um belíssimo par de cintas de ligas, nessa mesma cor. Da cor de algumas das rosas.

Mas nós estamos em desvantagem. Declaradamente. É que eu acredito também que os inventores do “Acordo Ortográfico”, estejam muitíssimo bem informados. Muito mais do que nós (sic). Eles sabem disso tudo e de muito mais coisas. O que se passa, é que eles andaram para aí a perguntar às pessoas, como é que elas falavam. Se diziam “acto” ou “ato”, independentemente de também terem os sapatos desatados. Se diziam “óptimo” ou “ótimo”, isto apesar de se estar a viver na mais profunda penúria. Ou se diziam “eréctil” ou “erétil”, apesar de terem dado a última, antes do Vinte e Cinco de Abril. Logo a seguir “Às Conversas em Família” do Marcello Caetano.

E depois disso esses “especialistas” apuraram, veja-se lá a paciência, qual havia sido a palavra mais pronunciada. E seria justamente essa, a que ganhava. A tal que teria então a honra de figurar nos dicionários. Mas seguindo esta mesma lógica eu questiono: Então, e quando é que surgirá a palavra “treuze”? A palavra “chalxixa”? E a Salada de Carangueijo”? Ai, ai senhores tecnocratas! Garantidamente os senhores não fizeram todo o vosso “trabalhinho de casa”. Merecem pois um tautau…

A dada altura, foi suscitada naquela Formação, a possibilidade de no futuro, todos nós escrevermos: Campequeno. E não senhores, não se trata da variante mais mortal dos cupcakes, nem a referência a um qualquer homem que tenha apenas como seu, uma pequenita courela de terra. “Aquilo” quererá referir-se àquela Avenida Lisboeta que tem também aquele pavilhão de tortura animal e de outras tantas bestialidades humanas. Que está para ali colocado mesmo antes do Campo Grande. Ou será que um dia também escreveremos: Capgrande? E depois vejamos lá outra coisa, se eles, os tais iluminados, têm a certeza de que será mesmo assim que um dia se escreverá, porque não mudar logo tudo com esta reforma? Para quê deixar então para amanhã, aquilo que já se pode fazer hoje? Ai, aí António Variações, tu é que a sabias toda. E infelizmente, deixaste-nos demasiadamente cedo.

E além disso convenhamos, neste trabalho de recolha não houve dúvidas! Ganhou então a democracia (sic, outra vez!). E desprezaram-se naturalmente, as opiniões das três ou quatro pessoas mais cultas e avalisadas, que por ali também fossem a passar.

Mas eu questiono: tenho esse direito, ou não tenho? Se isto é assim, e se se escreve só aquilo que se diz, penso então haver aqui uma séria e muito preocupante discriminação. Mas quem é que foi à Ilha de S. Miguel, Açores, perguntar àqueles mui validos cidadãos, como é que eles falam? É que falar, e perdoem-me por favor o pleonasmo, é muito fácil. E para quando o surgimento… de uma tal medida mais abrangente? É que todos nós temos o direito, e o dever, de convosco falar. Entrevistem-nos a todos, pois então! É que em matéria tão importante como a que aqui é citada, nós não nos podemos fazer representar só por alguns. Façam então mais entrevistas. De todos os milhões. É que amiguinhos, ou há democracia… ou comemos mesmo todos.

Aqui fica então lançado o desafio, aos senhores tecnocratas, que claramente também não têm assim muito mais em que se ocupar. Comecem então lá por Rabo de Peixe, por exemplo, e ponham no papel todas aquelas palavras. Mas todas! Depois vão à Povoação, a Vila Franca do Campo, às Furnas… E continuem mesmo por aí fora. Nas outras ilhas e em todo o Continente. Na Madeira, poderão até apontar a palavra: "Quebanus". Esta eu dou-lhes de barato. E só depois disso queridíssimos, é que nós deveremos novamente conversar, sobre este verdadeiro atentado “abortivo”, que nada poderá ter a ver, com os reais  e soberanos interesses da Língua Portuguesa.

Sugestão de leitura para esta semana: “Vogais e Consoantes Politicamente Incorrectas” de Pedro Correia.
DIVIRTAMSEMAZÉ, mas por favor resistam a tal imbecilidade.





sexta-feira, 16 de maio de 2014

With love.



Queridos Senhores: esta é uma hora muito dolorosa para mim. Apresentou-se-me finalmente o dia da vossa partida. E acredito que este sentimento é capaz de ser comum a tantos outros, portugueses e portuguesas, que tal como eu, por vocês se apaixonaram. E que sabem também à partida, que vos amarão até ao final das suas vidas. Reconhecidamente. Mas dita a decência, que eu fale somente por mim. É que tudo o que tem a ver com sentimentos é matéria melindrosa e muitíssimo pessoal.
Recordo já com muita saudade, o dia em que vocês foram chamados. E depois, como vieram tão ligeiros, senhores! Tal qual o Pepe Rápido. Existem paixões que tardam a aparecer, contudo vocês… até parece que já estavam à espera. E vieram direitinhos, sorridentes e como muita vontade de nos fazer as contas. E bisbilhotarem-nos em tudo. Vieram fazer-nos as contas que nós não soubemos, não sabemos, nem nunca haveremos de saber fazer. É que reconhecidamente, vocês têm essa capacidade imanente e transcendental. Tudo onde vocês tocam, é muito bem capaz de se transformar em ouro. Pelo menos era aquilo que nós esperávamos à altura da vossa chegada. Conseguiram ou não? Bem, se não o conseguiram a culpa não é definitivamente vossa. Nós é que somos uns grandessíssimos estragadões e uns portentosíssimos calaceiros.
Mas vocês vieram e tomaram a vossa posição. E afortunadamente as vossas teorias e práticas obtiveram sempre, (mas sempre mesmo), muitos fiéis e insuspeitos seguidores. Vocês, queridos senhores, tiveram todo um país a seguir-vos indiscutivelmente, apesar dos cortes cegos e sucessivos. E outras tantas ilusões perdidas. Mas vocês estavam, estão e sempre estarão irredutíveis. Vocês é que a sabem toda. E a vosso lado até esteve mesmo, aquela senhora muito benemérita. Aquela da pedinchice nos supermercados. E que bem e tão assertivamente ela veio falar-nos dos bifes. Ora pois… quem somos nós para querer comer bifes todos os dias! Logo os bifinhos daquela tal vaca, que morreu faz tanto tempo! E depois, veio ainda com a ideia do Facebook. De estarmos todos sempre para ali… agarradinhos. Pois… nós somos mesmo uns desditosos e pouco agradecidos seres. Ali, sempre tão incrustadinhos às redes sociais, em vez de nos estarmos a escravizar ainda mais! Pois ainda bem que os senhores estiveram cá! Para nos por na linha, dar educação e resolver todos os nossos problemas.
E como se não bastasse, esteve também do vosso lado, aquele senhor muito altruista, bondoso e muitíssimo bem-intencionado. Um tal que teve, e tem, cargos muito reconhecidos nos bancos. O que nunca falha e que tem exactamente as mesmas dúvidas, que aquele o outro de Belém. E este radioso senhor,  veio assim gloriosamente afirmar, que nós (Portugueses) aguentamos! É claro que aguentamos! E vamos ainda conseguir aguentar muito mais. Ah pois claro! A mim, isso não me custa nada a acreditar. Ainda mais vindo da cabeça de uma pessoa tão boa e que na certa até já sofreu tanto na vida. Com tantas dificuldades financeiras. Coitadinho!
E toda a nossa dificuldade crónica, deveu-se ao facto de nós sermos todos uns grandessíssimos alucinados. Que não sabemos (nem nunca soubemos) qual é que é o nosso lugar. E nem somos sabedores, das nossas próprias possibilidades. Em suma, nós não sabemos fazer as tais contas. Só que vocês sabem! E ainda bem.
Tudo porque um dia nós achamos, que tínhamos direito a ter uma casa. Ter uma casa só nossa, imagine-se! E de aquisição facilitada, devido à acção concertada dos bancos e dos banqueiros, calcule-se! Querer uma casa só nossa? Pois… e que para longe vá o agouro. Então não soubemos nós na altura, que tal direito só pode ser reservado, para alguns pouquíssimos lusitanos? Pois afinal para que é que se fizeram as pontes? Tantas pontes? E os viadutos? Na certa que muito mais gente lá caberá ainda, sob a sua protecção. Assim e mais para o apertadinho, caberemos muitos mais, com certeza. E procedendo assim, deveremos também melhorar em muito, a nossa vida social. Desta maneira, prescindiremos alegremente das tais redes. E constatando isso, teremos que dar razão à tal senhora que tem como hobbie, alimentar os mais pobrezinhos. Temos é que ir reverencialmente beijar-lhe a sua mãozinha caridosa. É que mais tarde ou mais cedo, ela também terá que se ocupar de nós.
E mais a mais há que convir: para que é que nós precisamos de uma casa? Temos que estar é muito mais tempo na casa do patrão. E com franqueza, de onde é que veio a ideia das trinta e cinco horas de trabalho semanal, quando a semana é composta de cento e sessenta e oito horas. Cento e sessenta e oito, senhores! E porque não inverter as coisas? E folgar somente as trinta e cinco horas? Veja-se pois a discrepância.
E depois disso, ter feriados para quê? Para festejarmos a nossa inoperância e a de outros tantos que nos precederam. E que tiveram a sorte de morrer mais cedo, sem terem que assistir a todo este resgate? Pois. Aquele que de nós ainda conserva o emprego, agradece muito encarecidamente ao Divino, poder chegar assim ao fim do mês e receber metade do que recebia há dez anos atrás. É claro que tal é uma fortuna. Até é demais, senhores! O importante e o recomendado, é estar para ali no emprego e a desoras. E poder fazer a higiene pessoal nos balneários públicos. Que antigamente ocupavam os centros das praças. Sim, porque debaixo das pontes e viadutos ainda não existem chuveiros, nem bidés. E desculpem-me por favor queridos senhores, esta minha petulância, mas parece-me que tal situação é problema vosso. Essa medida do saneamento livre e popular, nunca foi previsto naquele vosso excelente e muito vencedor Memorando de Entendimento.
E depois, mantiveram sempre a vossa, Senhores! Austeridade é o que mais se quis e quer. E quando vocês vinham, apareciam sempre com os vossos fatos caros e pastas de cabedal. Sorridentes e muito confiantes pelos corredores do Aeroporto. Era aí que o meu coração mais rejubilava. E para meu sofrimento, por mais que uma vez eu ouvi, vozes de pessoas com os corações muito mais empedernidos que o meu, exclamarem: “Mas estes g@jos já cá estão outra vez?” Quando mais parecia que vocês nem de cá haviam saído. O que vocês devem de ter trabalhado!
Da mesma forma que foi imperdoável, aquilo por que fizeram passar a um dos vossos troikos. Precisamente lá no Aeroporto. Quando não o deixaram seguir livremente, alegando que existiam problemas com o seu visto. Mas onde é que já se viu tal desfaçatez! Impedir assim alguém de entrar? Logo alguém que é declaradamente um dos salvadores da nossa Pátria? Deste lusitano país, agora tão cheio de Sol? Fazer isto, logo aos Senhores que vieram sempre. Mesmo nos dias de maior intempérie. E até com ventania, quando um de vocês até é tão careca! Vieram porque reconhecidamente, vocês também nos amam. Querem sempre o nosso bem. E amarão para sempre, disso eu tenho a certeza. E depois de tanto sentimento, como foi possível sujeitarem-se assim a tais “agradecimentos”? Com franqueza!
Mas o país está melhor! Muito melhor! Pelo menos é o que dizem. Eu, é que ainda não dei assim… muito conta disso. Se calhar é devido ao facto de eu estar para aqui tão deprimida. Por causa da vossa tão recente partida. E de estar assim com os olhos tão inchados de tanto chorar. Na volta, perdi também alguma sensibilidade. E algum discernimento. Assim como uma parte muito considerável do meu salário. Mas se há melhorias (e quem sou eu para disso duvidar), a tudo isso vocês assistiram. E patrocinaram. E deram ainda mais força a que assim acontecesse. E isso apesar de, por alguns momentos, vocês ficaram para lá de desiludidos. Tão tristinhos! Mas isso aconteceu somente em pouquíssimas ocasiões. É que nós estamos aqui muito vergados, senhores. Com as calças já a meio das pernas. Para vos servir somente. E foi só muito raramente que, nós não seguimos a par e passo, no vosso jogo do monopólio. Como o esperado. Como o que vocês esperavam. “Às vezes foi mau”, pensarão vocês hoje. E declaradamente ainda assumiram perante nós, um vosso verdadeiro… terror. E licito! E que grande medo vocês têm, caríssimos. Afinal trata-se do vosso dinheiro. Ou melhor, vocês apresentaram-se aqui como os seus fidelíssimos depositários. Dinheiro esse, que terá que ser pago. Com juros de sangue. E que medo sentem então vocês, pelo fantasma arrepiante do Tribunal Constitucional! Qual Monstro do Lago Ness, qual carapuça!
Mas meus queridos senhores, vocês estão quase, a chegar às vossas casinhas. Vão deixar-nos portanto muita saudade. Assim como muito coração partido. O meu claramente está em fanicos. Irrecuperável até.
Só que há uma esperança, amiguinhos. Ainda nada está perdido. É que eu ouvi um dia destes (num programa de rádio), que vocês prometem voltar. Voltar muitas vezes e até daqui a muitos anos. E eu soube até, que o Nosso Primeiro já vos ofereceu o sofá da sala. Lá da sua casinha de Massamá, como é evidente. Que deve de ter sido paga também, à custa de tanto sacrifício…
Com amor desta cidadã perdidamente apaixonada, mas que também ficou, francamente espoliada.


Sugestão de leitura para esta semana: “Notícias do Paraíso” de David Lodge.
DIVIRTAMSEMAZÉ!

sábado, 10 de maio de 2014

Da Fina Flor ao Entulho.



Maria era uma senhora de muito fino trato. Sessentona, meã de altura, vestidinha de preto (porque já enviuvara havia muitos anos), ela comportava-se normalmente como se fizesse parte da linha mais apurada da mais importante aristocracia. E entrasse ela no Mercado do Peixe ou fosse ela à missa, ia sempre como quem paira. De costas muito direitas, de cabeça bem levantada, e de sorriso algo enigmático na face. “Pois que olhem para mim e aprendam”, parecia ela querer dizer.
Ora esta senhora, tinha algumas amigas com quem se comunicava sobre a mais variada temática, calcula-se. E tinha conhecidas a quem dava somente alguma atenção, mas não muita. Eu estaria necessariamente neste último conjunto. Das poucas vezes que conversámos, ela falou-me da família, que estava toda muito bem. E das viagens que fazia, que grande parte delas, eram para os lugares mais luxuosos e exóticos do mundo. Mas ela comigo sempre manifestara aquele distanciamento aconselhado à partida. Pelo menos até ao dia em que soube, que eu tinha tirado uma simples licenciatura em História. Eu e mais uns trezentos milhões. E também soube que eu trabalhava (à altura), num certo Museu de muito boa memória. Sim… porque até aí? Quase nada.
Ora foi numa viagem justamente, que eu tive a oportunidade de privar de mais de perto, com tão singular senhora. Já lá vão muitos anos. E a viagem foi realizada ao belíssimo país que é a Itália. Ora há que dizer, que na referida viagem também seguia um Senhor Padre, que lá nos ia explicando, sobre as características principais dos lugares de maior interesse em termos religiosos que por ali abundam. Refiro-me necessariamente à cidade de Pádua, Falo também de Assis. Mas principalmente do Monte Cassino, onde fora instituída pela primeira vez, a rigorosa ordem Beneditina. Já para não falar do Vaticano. E como eu gostei daquela viagem, senhores!
Só que com o tempo e a convivência, veio-se a verificar que a D. Maria (chamemos-lhe assim), tinha uma particularidade muito peculiar. Ela esquecia-se de tudo (mas mesmo de tudo aquilo que se possa imaginar), nos quartos de Hotel por onde pernoitava. Ora quis a sorte e o destino, que a D. Maria dormisse no mesmo quartinho que uma outra senhora, declaradamente originaria da linha mais comum do “povão”. E essa senhora, era da Ilha da Madeira e chamava-se Deolinda. Ora Deolinda era uma senhora muitíssimo religiosa. Pelo menos era o que parecia, já que estava sempre a dedilhar as contas de um terço. E era também muitíssimo organizada e calma.
E a convivência entre aquelas duas? Pois era mesmo algo muito engraçado de assistir. De um lado uma lacrimosa, a rezar pela alma daqueles que já lá tinha. Assim como de outros tantos que ainda por aqui andam a penar. Ao passo que a outra, distraída como era, lá ia apelando a que se comunicasse para o hotel precedente, a fim de que ela pudesse recuperar bens tão essenciais, como: uma camisa de noite da mais fina cambraia, uma blusa de seda do mais fino talhe, um saia em viés mas aberta de lado, um gancho da cabeça com umas cornucópias desenhadas, uns chinelos com pompons e purpurinas e até mesmo, metade de uma dentadura, senhores! A parte de baixo.
E assim, lá ia ela distribuindo os seus preciosos bens, pelas diferentes terras. É evidente que a compasso, ela também ia ficando com a sua bagagem muitíssimo mais leve. E a coisa lá ia assim prosseguindo.
Só que certo dia, já farta de tanto esquecimento, a boa da Deolinda, intervalando com as suas rezas, lá comunicou à colega: “Caramba! A senhora também perde tudo: Saias, blusas, dentes, langerie’s… É demais!”
Resposta pronta e disparada da proverbial boca da D. Maria: “É verdade D. Deolinda, eu perco tudo. Só não perco o cu. E não o perco, porque o tenho agarrado à c-n@.” E após tão definitiva conclusão, fez-se um enorme silêncio.
E quem é que foi o espectador principal, para além de mais de uma vintena pessoas? Pois foi mesmo… o Senhor Padre. Ah pois foi! Este ficou ali, e de uma assentada a saber de duas importantes coisas. Primeira: é com muita rapidez que um membro da mais pura Aristocracia pode descer… à chinela. Segunda e não menos importante: Parece que é muito mais fácil perder o cu que perder a c-n@. Pois é!… Pelo menos se levarmos em linha de conta a opinião de tão avalizada Senhora. Ao que parece a c-n@ está suficientemente segura para agarrar tudo a ela. Tomará conta, na certa (e responderá necessariamente por isso), a tudo aquilo que estiver ao seu redor. Mas… e em relação ao bom do sacerdote? Pois esse seguramente, nunca mais foi o mesmo.
Sugestão de leitura para esta semana: “Retrato de uma Senhora” de Henry James.



DIVIRTAMSEMAZÉ!




sábado, 3 de maio de 2014

O maior amor de todos.





Educar uma criança será tarefa bem complexa. Os pais tendem a informar-se e a inteirar-se sobre os melhores métodos pedagógicos. E após isso tendem a agir em conformidade. Acontece que existe toda uma série de teorias, que pretenderam (e pretendem), prostrar por terra sobre tudo aquilo que foi feito até aqui, sobre o que à educação implica. Também sabemos disso. Depois se calhar existem aqueles, que não querem assim saber das teorizações para nada. Acreditam bastar-lhes estar presente e educar. E usarem-se de algum instinto, bem misturado com uma dose generosa de bom senso. Há aqueles que devem recorrer à célebre “palmadinha pedagógica”, e depois não devem sentir lá grandes remorsos com isso. Existirão também os que defendem até à exaustão o valor do bom exemplo...
Pois meus amigos… este blogue não é de todo, vocacionado para tais questões. Essas serão mais da conta daqueles que são pais e/ou educadores. E têm dotes reconhecidos e a demonstrar, sobre tais problemáticas. Mas como aqui também se fala de tudo... E fala-se principalmente de Bibliotecas e do gosto pela leitura…
Vem todo este arrazoado de ideias (quiçá pouco fundamentadas), a propósito de algo que por vezes se depara na minha actividade profissional. Estabelecer quais as ideias base que devem de estar presentes, no Plano de Actividades a executar para o Publico mais novo. O livro, no meu entender terá que estar sempre presente. Faz sentido, não faz? Contudo as ideias devem de ser sempre as mais abrangentes possíveis. Capazes de abarcar o maior número possível de crianças. Não me parece que seja boa política, entrar em assuntos que são mais da responsabilidade dos pais e dos educadores. E entrar despudoradamente na sua esfera privada. Estar para ali a informar de que será conveniente, o menino tomar banho todos os dias, lavar os seus dentinhos após as refeições e ser sempre muito limpinho, será mais tarefa para outros que não nós, técnicos de biblioteca. 
É evidente que tais assuntos estão muitas vezes presentes nos livros. Mas ainda bem que assim é. A mãezinha quando quer, chega até nós e leva-os emprestados lá para a sua casa. E depois usa-se daquela informação, da forma como ela bem entender. Nós na Biblioteca poderemos (e deveremos a meu ver) falar mais do prazer que se consegue obter através da leitura. Assim como referir aspectos tão unificantes e de valor primordial, como o valor da solidariedade entre todos. Da necessidade imperiosa de se preservar o meio ambiente. De se respeitar a vida animal. Aceitar a diferença. É que a palavra de ordem terá que ser sempre “inclusão”. Jamais “exclusão” em qualquer sentido.
É que se entrarmos por aquilo que se passa, (ou se deve de passar lá por casa), estamos a assumir uma postura muito desagradável. Estamos a usar a vestimenta de coscuvilheiros. É que necessariamente, cada família terá os seus hábitos. E defenderá as ideias que recebeu, que adquiriu e que considera mais importantes de acordo com a sua própria situação. Se entrarmos por esses caminhos, sem querermos ou termos essa intenção, podemos estar a excluir e a fazer uso de uma série de preceitos que lamentavelmente poderão vir a tornar-se… preconceitos.
A esse propósito, lembro-me de uma situação, em que entrou um menino reguila com os seus quatro anos. Ele estava perfeitamente integrado do seu meio. Contava com a atenção permanente dos seus pais. Frequentava uma boa escola e tinha acesso aos meios necessários e considerados indispensáveis aos dias da actualidade. E o menino foi assistir com a mãe, numa biblioteca pública, a uma iniciativa que visava documenta-lo até à exaustão, sobre tudo aquilo que dele era esperado, no que concerne à sua higiene pessoal. Lá vinha a conversa do banho, da pasta dentífrica, da roupinha mudada todos os dias… E o menino escutava tudo aquilo e pensava.
Já cá fora ele, algo aflito perguntou à sua mãe:
“Olha mãe, nós estamos mal. Não fazemos o que a senhora da biblioteca aqui nos disse. É que eu tomo banho dia sim, dia não. E aqueles meninos que nem têm assim tanta roupa? E aqueles outros que lamentavelmente nem comem em casa a primeira refeição, (porque não a têm), quanto mais lavarem os dentes?” Pois…
A mãe? Essa ficou sem qualquer vontade de ali regressar. Mas não ficou foi com qualquer espécie de peso de consciência em relação aos seus hábitos de higiene. Nem ao seu papel de mãe. Afinal os seus filhos andam limpos. Sempre andaram. E felizmente também estão muito bem alimentados. E perfeitamente documentados, atendendo às circunstâncias. E quem é que no seu perfeito juízo, poderá afirmar o contrário?
Da mesma forma certa vez soube, de uma mãe que andava a tentar implementar os mais elementares hábitos de higiene ao seu catraio, também de quatro anos. E dizia: “Lava as mãos Rui! Tu tens que comer sempre com as mãos muito limpinhas. Se assim o não fizeres, além de ficares doente, serás um… cascão.”
Noutra altura: “Vai lavar os dentes Rui! Se o não fizeres, para além de ficares com os dentes todos podres e a cair, serás para sempre… um cascão.” E a coisa lá continuava em idênticos moldes. Presume-se que tal referência tenha a ver com a personagem da Turma da Mónica, com o mesmo nome, que ajudou a abrilhantar gloriosamente, as nossas boas mas já algo longínquas infâncias.
Só que o pior deu-se certo dia, quando aqueles dois esperavam pacientemente para pagar as suas compras, numa fila do supermercado. E à frente deles, (bem na sua frente) estava um senhor que sofria de Vitiligo. Foi então que Rui, arregalando desmesuradamente os seus olhitos juvenis e abrindo plenamente umas goelas muito saudáveis de não fumador, parlamentou:
“Olha mãe. Este senhor aqui… é cascão!” É evidente, que se tivesse por ali havido uma passagem subterrânea, aquela muito bem-intencionada mãe, teria ido para lá, passar uma temporada.
Sugestão de leitura para esta semana: “O Príncipe” de Nicolau Maquiavel.




E beijemos todos, as nossas Mãezinhas. Se tivermos ainda a suprema ventura, de contar com a sua companhia e mimos.
DIVIRTAMSEMAZÉ!