Maria era uma senhora de muito fino trato. Sessentona, meã de altura, vestidinha de preto (porque já enviuvara havia muitos anos), ela comportava-se normalmente como se fizesse parte da linha mais apurada da mais importante aristocracia. E entrasse ela no Mercado do Peixe ou fosse ela à missa, ia sempre como quem paira. De costas muito direitas, de cabeça bem levantada, e de sorriso algo enigmático na face. “Pois que olhem para mim e aprendam”, parecia ela querer dizer.
Ora esta senhora, tinha algumas amigas com quem se comunicava sobre a mais variada temática, calcula-se. E tinha conhecidas a quem dava somente alguma atenção, mas não muita. Eu estaria necessariamente neste último conjunto. Das poucas vezes que conversámos, ela falou-me da família, que estava toda muito bem. E das viagens que fazia, que grande parte delas, eram para os lugares mais luxuosos e exóticos do mundo. Mas ela comigo sempre manifestara aquele distanciamento aconselhado à partida. Pelo menos até ao dia em que soube, que eu tinha tirado uma simples licenciatura em História. Eu e mais uns trezentos milhões. E também soube que eu trabalhava (à altura), num certo Museu de muito boa memória. Sim… porque até aí? Quase nada.
Ora foi numa viagem justamente, que eu tive a oportunidade de privar de mais de perto, com tão singular senhora. Já lá vão muitos anos. E a viagem foi realizada ao belíssimo país que é a Itália. Ora há que dizer, que na referida viagem também seguia um Senhor Padre, que lá nos ia explicando, sobre as características principais dos lugares de maior interesse em termos religiosos que por ali abundam. Refiro-me necessariamente à cidade de Pádua, Falo também de Assis. Mas principalmente do Monte Cassino, onde fora instituída pela primeira vez, a rigorosa ordem Beneditina. Já para não falar do Vaticano. E como eu gostei daquela viagem, senhores!
Só que com o tempo e a convivência, veio-se a verificar que a D. Maria (chamemos-lhe assim), tinha uma particularidade muito peculiar. Ela esquecia-se de tudo (mas mesmo de tudo aquilo que se possa imaginar), nos quartos de Hotel por onde pernoitava. Ora quis a sorte e o destino, que a D. Maria dormisse no mesmo quartinho que uma outra senhora, declaradamente originaria da linha mais comum do “povão”. E essa senhora, era da Ilha da Madeira e chamava-se Deolinda. Ora Deolinda era uma senhora muitíssimo religiosa. Pelo menos era o que parecia, já que estava sempre a dedilhar as contas de um terço. E era também muitíssimo organizada e calma.
E a convivência entre aquelas duas? Pois era mesmo algo muito engraçado de assistir. De um lado uma lacrimosa, a rezar pela alma daqueles que já lá tinha. Assim como de outros tantos que ainda por aqui andam a penar. Ao passo que a outra, distraída como era, lá ia apelando a que se comunicasse para o hotel precedente, a fim de que ela pudesse recuperar bens tão essenciais, como: uma camisa de noite da mais fina cambraia, uma blusa de seda do mais fino talhe, um saia em viés mas aberta de lado, um gancho da cabeça com umas cornucópias desenhadas, uns chinelos com pompons e purpurinas e até mesmo, metade de uma dentadura, senhores! A parte de baixo.
E assim, lá ia ela distribuindo os seus preciosos bens, pelas diferentes terras. É evidente que a compasso, ela também ia ficando com a sua bagagem muitíssimo mais leve. E a coisa lá ia assim prosseguindo.
Só que certo dia, já farta de tanto esquecimento, a boa da Deolinda, intervalando com as suas rezas, lá comunicou à colega: “Caramba! A senhora também perde tudo: Saias, blusas, dentes, langerie’s… É demais!”
Resposta pronta e disparada da proverbial boca da D. Maria: “É verdade D. Deolinda, eu perco tudo. Só não perco o cu. E não o perco, porque o tenho agarrado à c-n@.” E após tão definitiva conclusão, fez-se um enorme silêncio.
E quem é que foi o espectador principal, para além de mais de uma vintena pessoas? Pois foi mesmo… o Senhor Padre. Ah pois foi! Este ficou ali, e de uma assentada a saber de duas importantes coisas. Primeira: é com muita rapidez que um membro da mais pura Aristocracia pode descer… à chinela. Segunda e não menos importante: Parece que é muito mais fácil perder o cu que perder a c-n@. Pois é!… Pelo menos se levarmos em linha de conta a opinião de tão avalizada Senhora. Ao que parece a c-n@ está suficientemente segura para agarrar tudo a ela. Tomará conta, na certa (e responderá necessariamente por isso), a tudo aquilo que estiver ao seu redor. Mas… e em relação ao bom do sacerdote? Pois esse seguramente, nunca mais foi o mesmo.
Sugestão de leitura para esta semana: “Retrato de uma Senhora” de Henry James.
DIVIRTAMSEMAZÉ!

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