Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

O amor não escolhe as melhores conveniências.



Um ano destes, decidi ir assistir ao lançamento de um livro que versava sobre a seguinte situação: Estava-se ainda no tempo do Estado Novo, quando uma militante comunista (obviamente na situação de clandestinidade) certo dia se apaixonou irremediavelmente por um inspector da Pide. Se calhar quando o mesmo lhe estava fazer perguntas e/ou a realizar-lhe torturas. O livro intitula-se: Cartas Vermelhas e é da autoria de Ana Cristina Silva.
O que é facto é que o amor nasceu entre os dois. Ora nada mais inconveniente para as duas facções, mas particularmente para o lado da marxista-leninista. É que devido a essa situação, a militante comunista foi expulsa do partido. Sem apelo nem agravo.
Ora sendo esta história verdadeira, mereceu-me algumas reflexões. Mas não pensei neste caso específico, por desconhecer as suas particularidades, mas numa situação genérica que tivesse as mesmas características. Ou seja: pensei numa qualquer comunista que se apaixonasse por um qualquer inspector da Pide, e sem me reportar concretamente à história ali debatida.
Em primeiro lugar eu pensei exactamente sobre o que estaria subjacente ao início de uma ligação emocional que envolvesse dois membros daquelas díspares organizações. E é mais ou menos coisa aceite, de que nestas coisas do amor, os opostos costumam atrair-se. Como as polaridades de uma pilha, que funciona em conjunto apesar de ser constituída por duas partes, aparentemente… antagónicas. E esta situação em particular, só me veio confirmar essa regra. É fácil pois para mim, imaginar a militante inicialmente muito bem-intencionada, a aprender tudo sobre a doutrina marxista, e a aprender a viver na mais absoluta clandestinidade. Isto sem nunca deixar rastos que a pudessem incriminar, atrás de si.
De repente o impensável aconteceu. E ela foi detida para prestar as declarações que na certa a incriminariam. Quer a ela, quer também ao seu Partido. Contudo ela vispou o homem e pensou: “Oh meu Marx. Mas que Pide tão jeitoso é este, que os meus olhos vislumbram. Pena mesmo é ele ser da Pide”.
E o magano do Pide que não lhe era de todo indiferente? Depois ela repara que para além do mesmo ser muito atraente fisicamente, ele era também muito sedutor, quando tenta (e às vezes consegue), arrancar uma simples informação. Sempre mais informação. Ela repara mesmo no jeito que o mesmo põe, nas actividades próprias de todos aqueles que tiveram a desventura de terem pertencido à Pide. O Pide que queria sempre ouvir mais, para depois ir contar tudo ao seu superior hierárquico. Em envolvências cobardes que não só envolviam a organização, como outros indivíduos que iam prestando serviços, quando solicitados. Mas a comunista, essa verificava no jeito que o mesmo Pide da sua adoração, punha ao observar o mais desavisado. Sempre com um sorriso no rosto. Que ela interpretava como sendo um jeito sedutor, quando que na realidade tratava-se de uma meia perversão. Já para não falar numa perversão total.
Imagino também que o Pide possa ter olhado com gulodice para aquela comunista, outrora disfarçada. E possa também ter pensado: “Ah magana, como tu és tão jeitosa! E que bem tu distribuías os papéis, sempre, sempre a olhar para os lados.” E depois continuaria a pensar: “ E que bem que tu deves de ficar nos teus tempos de lazer, quando empoes o teu martelo. Bem ao alto. E pões a tua foice no bolso do teu avental”. Sim, porque comunista que se preze jamais usaria uma liga. Tal artefacto é próprio daquele que é fascistóide e/ou pequeno/grande burguês. E depois deve de para ali ter continuado: “Ah Fogosa! E que bem tu assobias ‘A Internacional? Ali quando tomas o teu duche, e quando pensas que ninguém te está a ouvir! Mas eu ouço tudo aquilo que tu dizes, sua boazuda! Atrevidona é o que tu és, paixão dos meus inquéritos. Tu que és a verdadeira merecedora de todos os meus pulsares cardíacos. E a causador de parte da disfuncionalidade da minha bílis. Vermelhudazuda!”
E depois lamentar-se-ia: “ E que cruel destino é este, que resolveu pôr-nos assim apaixonadamente um pelo outro. Fisicamente frente a frente, mas diametralmente opostos nas nossas posições socio/politicas”.
E reflexões similares poderiam continuar até ao infinito. Ou pelo menos até ao final da vida de um deles, pois como sabemos tudo é transitório e com fim à vista.
Devido a esse factor. A essa ironia (desgraçada) do destino, a comunista acabaria por ser expulsa do Partido Comunista. Sem qualquer contemplação.
E aos meus olhos de leiga eles procederam muito mal. Afinal quem é que pode escolher quem ama? Sei que foi a atitude mais acertada para a continuidade da função politica, que tinha como finalidade afastar a Ditadura do panorama politico português. Mas vendo bem a coisa, porque não tentar acolher nos braços, o facínora do Pide? Ele que até estava apaixonado. Era mais do que certo, que estava também com os seus “alqueires muito mal medidos”. Nem seria capaz de arrebanhar o gado todo. É que ele era devotadamente um Pide. E isso só por si denunciava, uma demência qualquer. Mas, porque que não então acolher o Pide e tentar trazê-lo para o lado oposto ao do que ele enfileirava? E assim a militante jeitosa, poderia aproximar-se do seu amado e segredar-lhe ao ouvidinho: “Ouve meu amor: Sol da minha vida, eu amo-te muito. Mas tu não vês que andas a trilhar por maus caminhos, rapaz? Vira-te mazé para aqui para este lado e fica mazé comigo. Juntos, nós podemos até divertimo-nos bastante. E ir distribuir muitos papéis para todo o lado. E depois dançar sozinhos no quarto, ao som bem baixo da música do: ‘Kalinka’. Ali bem quentinhos. No silêncio do nosso esconderijo. Vem meu amor. Eu acredito piamente que tu não te irás arrepender. E depois quem sabe, se com o decorrer do tempo, a coisa não muda? E juntos, nós ainda iremos fazer parte do próprio do Comité Central.
Sugestão de leitura para esta semana: A Casa dos Amores Impossíveis” de Cristina Lopez Barrio.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


Apenas uma breve nota: Uma vez alguém me disse que neste Blogue existia muita anarquia. Na altura eu fiquei danada, oh como fiquei. Mas hoje tenho que dar razão a essa pessoa: Então não é que na semana passada se agradecia tanto a Deus pelas graças recebidas, enquanto que hoje se colocam pessoas para aqui a... gemer? 
DIVIRTAMSEMAZÉ!

sábado, 25 de janeiro de 2014

E a fé, que move montanhas?



O passeio seria para Israel. Para uma Terra que é Santa para tantos, mas nunca por nunca a mais pacificada. E naquele grupo, composto por três dezenas de pessoas muito devotas e abnegadas, iam também uns três padres. Que sendo também pessoas, tinham a obrigação de serem ainda muito mais santas. E aquele passeio prometia.
Do grupo fazia ainda parte, uma simpática família composta por cinco elementos. Pai e mãe, septuagenários, mas ainda cheios de genica. Um tio pouco falador, mas muito religioso. Também septuagenário, mas no início da década. E um casal composto pelo filho e sobrinho dos três primeiros, que ia na companhia de sua mulher: por definição nora e também sobrinha dos mais velhotes. E a coisa continuava a prometer.
Várias vezes, ficaram na mesma mesa de refeições que Celina, que sendo já pré-quarentona era solteira assumida e de bem com a vida. Viajava era com o seu avô, também ele muito religioso. Só que não gostava nada, era de viajar sozinho. Nem mesmo que fosse para a terra natal de Jesus Cristo. E o grupo convivia. E o grupo rezava. E o grupo ria com devoção e comia com muita parcimónia: queijinho, vegetais e cordeiro. E que ninguém lá falasse num fiambrinho da perna.
E os cinco? Que não os da Enid Blyton? Pois andavam sempre uns com os outros. O casal mais novo era só harmonia. Um beijinho aqui, um abracinho lá mais para a frente. E um apalpãozinho quando ninguém mais estivesse a ver, lá pelo meio do Monte das Oliveiras... E os mais velhos? Pois os mais velhos só rezavam.
E tanto era assim, que o tio solteirão era de todos os trinta o que era mais devoto. Mesmo mais dedicado àquela sacrossanta causa, que os três funcionários de Deus. E queria porque queria, ir no autocarro a ler partes intermináveis da Bíblia. E depois a cantar Salmos que nunca mais acabavam. Assim como outras músicas de cantores civis, mas também elas muitíssimo inspiradoras. E como ele cantava com tanta emoção aquela canção do Dino Meira? Aquela em que um homem vestido de branco, desce de um avião e chega cá abaixo. E depois disso, põe-se logo a beijar o chão de um país? Isto quer não tenha cumprimentado aquele país, anteriormente. E que depois, envergando vestes brancas e esvoaçantes, ele vai a saltitar todo contente, para cima de um palanque? E a seguir, muitas são as mensagens que ele para ali dirige a todauma  muito extensa audiência? Exactamente lá em cima, sossegado e empoleirado no tal do palanque? Que nada mais era que o palco mais importante para todo o mundo religioso e católico? Pelo menos durante algum tempo.
Pois o tio, tudo isso fazia, tudo isso cantava e tudo isso lia. E por causa disso, os outros peregrinos tinham que ir sempre, sempre muito caladinhos. Era pois obrigatório ir a ouvir todas aquelas predicas. Quando muito os outros podiam fazer, era manear os ombros e cantar um lá-lá-lá por alturas do refrão. Isto é, caso eles não soubessem com precisão todas as letras das canções. Mas ali jogava-se em casa, não era?Muitos sabiam e cantavam aquilo tudo. Mais ou menos para o desafinado.
E um padre africano, muito mal-encarado, que em certo dia veio, corredor fora, ralhar com muita altivez à Celina e ao seu avô. Sim, porque o avô de Celina sendo muito religioso, quase beato, achava muita graça à tal da canção do Homem vestido de Branco. Achava-lhe graça mesmo! Para gozar! E quem nunca pecou que lhe atire a primeira pedra. E ele divertia-se muito a ouvir a canção porque certa vez, um amigo da neta lhe dissera que a tal da música, era muitíssimo profunda.
Pelo que… sem poder fazer nada, mal o avô de Celina ouvia a tal trova, desatava-se logo a rir-se. Mas às gargalhadas, senhores!
O padre africano, esse ficou logo muitíssimo mal impressionado. E quase que lhes negou todas as bem-aventuranças para os próximos vinte anos. Mas depois a coisa lá serenou.
E os anos também se passaram sobre aquela tão feliz ocorrência. E sobre aquele muito inspirado passeio. O padre mais velho entretanto morreu. Mas os outros dois, continuam a guardar muito bem as almas. Como pastores de um rebanho muito pró-inusitado.
E o casal mais novo? Pois ainda tiveram tempo de festejar com muita emoção as suas Bodas de Prata. Relembrando anos e anos de felicidade mutua e de muitos carinhos. Assim como do nascimento dos seus três rebentos. Só que passadas poucas semanas… eles divorciaram-se.
E o tio salmista e muito palrador? Pois arranjou finalmente a sua própria noiva. E tal qual ele, ela também é toda muito devota. E muito mansinha e dedicada in extremis àquele seu amor tardio. Não é à toa que se diz: “Que não há amor como o serôdio”. 


E crê-se que os dois, lado a lado e de mão dada, vão cantando muitos Salmos por esta vida fora. Presume-se até que lamentem o facto de o encontro deles se ter dado tão tarde. Mas se calhar, ainda bem que assim foi. É que se sabe que a Divina Providência nunca falha. Àquele homem, o amor conjugal, apareceu-lhe quase aos oitenta anos. Após muitas cantorias e outros tantos rosários trilhados. E aquele casal tardio, juntos poderão até ir ver, um outro Homem Vestido de Branco, que mora agora lá para o Vaticano. Este Homem que é muito mais cool que os outros. Muito mais bem-disposto e muito menos convencional. Que não se envergonha de usar uns ténis sem marca por debaixo da batina branca e engomada. E que tendencialmente não quererá excluir ninguém de dentro daquilo em que ele acredita. Que até talvez suba para um palanque. Pode ser forçado a tal. Mas que desde início, mais do que se projectar, o que aquele Francisco quer, é comparar-se aos seus semelhantes. E ver a vida como ela é. Sem artificialismos. E não como outros tantos queriam que fosse há já algum tempo atrás. Outros tais, que se esqueceram de interpretar devidamente as mensagens originais, Daquele mesmo que um certo dia, nasceu em Belém.  
Sugestão de leitura para esta semana: “O Parente Mais Próximo” de John Boyne
DIVIRTAMSEMAZÉ!
 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O amor é cego, mas vê muito ao longe - Parte II.





Depois seguiu-se a resposta dos senhores. Muito inspiradora também. Mas necessariamente exagerada. Vejai também com os vossos olhos. E tomai então particular atenção.

Todo o homem que pensar em casar,
Veja primeiro o que faz, seja um ás.
Nem que ande um ano a escolher,
Nunca lhe chega a aparecer,
Mulher nenhuma capaz.

Lurdes são patetas,
Marias vaidosas.
Miquelinas pretas,
Armindas mancosas.
Palmiras taradas,
Rosas malcriadas,
Luisas caloteiras.
Fernandas carecas,
Celestes marrecas,
Alices matreiras.
Carolinas e Julietas são forretas,
Deolindas e Preciosas são manhosas,
Teresas são mal-encaradas,
Alziras envergonhadas,
E as Albertinas gulosas.
Emílias ciumentas,
Claras trapalhonas,
Lauras rabujentas,
Zulmiras lambonas.
Amélias traiçoeiras,
Angelinas feiticeiras,
Laurindas ranhosas.
Auroras trocistas,
Marianas chupistas,
Leonores mentirosas.
Antónias e Margaridas, atrevidas.
Conceições e Clementinas são traquinas,
Lucindas são borrachonas,
Etelvinas toleironas,
E as Adelaides ladinas.

Estas que eu falei
Pois são as melhores.
Porque as que saltei,
Ainda são piores.
Vivem regaladas, muito bem pintadas
Parecem alguém,
E o pobre marido
Muito mal vestido,
Nem tabaco tem.

Mais uma vez reitero a minha inexistente responsabilidade, face às conclusões aqui apresentadas. E que culpas é que têm as Miquelinas, Santo Deus! E as Celestes, coitadinhas! Mais informo que os nomes apresentados eram os que mais se usavam "no antigamente". E desconheço se existem novas versões sobre este assunto, mas com os nomes 'telenovelisticos'. Além disso, a referência que consagra o uso do tabaco, também é muito lamentável. Mas era como se pensava em tempos de outrora, em que o uso do tabaco era mesmo considerado de bom-tom. Sabe-se que chegou mesmo a ser recomendado pelos médicos como terapia. Designadamente para o tratamento da tuberculose. Eram outros tempos. Com outros paradigmas.
Sugestão de leitura para esta semana: “Um Casamento Apropriado” de Doris Lessing.


DIVIRTAMSEMAZÉ!

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

O amor é cego, mas vê muito ao longe.




Hoje tenho o especial prazer de fazer serviço Público. Não que tal tarefa me seja estranha, pois a minha vida profissional é dedicada ao público, numa tentativa por vezes vã, de minorar de alguma forma, as dificuldades vivenciadas pelos cidadãos em busca de mais e de melhor conhecimento. De mais informação.
Mas hoje eu vou partilhar convosco uma récita que ouvi, a uma senhora com muitos anos e ainda mais predicados. Que certa vez aconselhou outras suas parceiras, a escolherem bem os seus pares, no que toca a uma ligação matrimonial futura. E como todas elas estavam bem-dispostas! Portanto se quem me lê é uma senhora e pretende encontrar o seu par, é conveniente tomar em atenção estes versos. Se por ventura é uma senhora que se pretende consorciar com outra senhora (e como todos nós sabemos isso actualmente até está muito na moda), pois que espere para a semana que vem. Poderá obter uma resposta a uma sua natural inquirição. E depois haja em conformidade. No caso de hoje o conselho é para as heterossexuais. Faça bem a sua escolha, amiguinha. Para depois não dizer... que se errar, foi porque não foi avisada.

Para contentar a mulher, podem crer.
Escrevi esta canção, com razão.
Dos homens eu vou contar, dos homens eu vou falar,
Prestem pois muita atenção.

Antónios chalados,
Xicos aldrabões.
Josés descarados,
Joaquins calões.
Alfredos peludos,
Fernandos trombudos,
Armandos mariolas.
Paulos caloteiros,
Ruis zaragateiros,
Carlos estarolas.
Álvaros e Lucianos, levianos,
Alexandres e Joões são burlões.
Mários são desdentados,
Manuéis envergonhados,
Armindos são borrachões.
Augustos sebentos,
Luíses lambareiros,
Rogérios sarnetos,
Júlios interesseiros.
Eduardos canhotos,
Eugénios marotos,
Albanos fanhosos,
Jorges gastadores.
Adolfos manhosos,
Adelinos e Albertos pouco espertos,
Heitores e Agostinhos são ladinos.
Camilos amaricados,
Jaimes são endiabrados,
E os Afonsos são anjinhos.

Antes de casar,
Veja o que faz.
Não chega a encontrar,
Um homem capaz.
Siga o meu conselho,
Case com um velho, rico e fagueiro.
Mas não case a medo,
Porque ele morre cedo,
E deixa dinheiro.

Informo que não tenho qualquer tipo de responsabilidade nas conclusões que aqui são postadas. É que eu não detenho assim tantos conhecimentos sobre o assunto. Com tantos nomes... Mas a quem eu ouvi isto, já era alguém bem vivido. E também já havia visto… muita coisa. Mesmo até aquele tal porco a andar de bicicleta. Portanto, aqui fica o aviso.
Outra coisa: penso que não se devem recusar in loco os Alfredos e os Eduardos. Coitadinhos! Os defeitos deles… não me parecem ser assim muito expressivos.
Sugestão de leitura para esta semana: “Casamento por Anúncio” de Jean-Claude Carriere.



Para a semana fica a resposta dos homens.
Entretanto... DIVIRTAMSEMAZÉ!