Um ano destes, decidi ir assistir ao lançamento de um livro que versava sobre a
seguinte situação: Estava-se ainda no tempo do Estado Novo, quando uma
militante comunista (obviamente na situação de clandestinidade) certo dia se
apaixonou irremediavelmente por um inspector da Pide. Se calhar quando o mesmo
lhe estava fazer perguntas e/ou a realizar-lhe torturas. O livro intitula-se: Cartas
Vermelhas e é da autoria de Ana Cristina Silva.
O que é facto
é que o amor nasceu entre os dois. Ora nada mais inconveniente para as duas
facções, mas particularmente para o lado da marxista-leninista. É que devido a
essa situação, a militante comunista foi expulsa do partido. Sem apelo nem
agravo.
Ora sendo esta
história verdadeira, mereceu-me algumas reflexões. Mas não pensei neste caso
específico, por desconhecer as suas particularidades, mas numa situação
genérica que tivesse as mesmas características. Ou seja: pensei numa qualquer
comunista que se apaixonasse por um qualquer inspector da Pide, e sem me reportar
concretamente à história ali debatida.
Em primeiro
lugar eu pensei exactamente sobre o que estaria subjacente ao início de uma ligação
emocional que envolvesse dois membros daquelas díspares organizações. E é mais
ou menos coisa aceite, de que nestas coisas do amor, os opostos costumam atrair-se.
Como as polaridades de uma pilha, que funciona em conjunto apesar de ser
constituída por duas partes, aparentemente… antagónicas. E esta situação em
particular, só me veio confirmar essa regra. É fácil pois para mim, imaginar a
militante inicialmente muito bem-intencionada, a aprender tudo sobre a doutrina
marxista, e a aprender a viver na mais absoluta clandestinidade. Isto sem nunca
deixar rastos que a pudessem incriminar, atrás de si.
De repente o impensável aconteceu. E ela
foi detida para prestar as declarações que na certa a incriminariam. Quer a
ela, quer também ao seu Partido. Contudo ela vispou o homem e pensou: “Oh meu Marx.
Mas que Pide tão jeitoso é este, que os meus olhos vislumbram. Pena mesmo é ele
ser da Pide”.
E o magano do
Pide que não lhe era de todo indiferente? Depois ela repara que para além do
mesmo ser muito atraente fisicamente, ele era também muito sedutor, quando tenta (e
às vezes consegue), arrancar uma simples informação. Sempre mais informação. Ela repara
mesmo no jeito que o mesmo põe, nas actividades próprias de todos aqueles que
tiveram a desventura de terem pertencido à Pide. O Pide que queria sempre ouvir
mais, para depois ir contar tudo ao seu superior hierárquico. Em envolvências
cobardes que não só envolviam a organização, como outros indivíduos que iam
prestando serviços, quando solicitados. Mas a comunista, essa verificava no
jeito que o mesmo Pide da sua adoração, punha ao observar o mais desavisado.
Sempre com um sorriso no rosto. Que ela interpretava como sendo um jeito
sedutor, quando que na realidade tratava-se de uma meia perversão. Já para não
falar numa perversão total.
Imagino também
que o Pide possa ter olhado com gulodice para aquela comunista, outrora
disfarçada. E possa também ter pensado: “Ah magana, como tu és tão jeitosa! E
que bem tu distribuías os papéis, sempre, sempre a olhar para os lados.” E
depois continuaria a pensar: “ E que bem que tu deves de ficar nos teus tempos
de lazer, quando empoes o teu martelo. Bem ao alto. E pões a tua foice no bolso
do teu avental”. Sim, porque comunista que se preze jamais usaria uma liga. Tal
artefacto é próprio daquele que é fascistóide e/ou pequeno/grande burguês. E
depois deve de para ali ter continuado: “Ah Fogosa! E que bem tu assobias ‘A
Internacional? Ali quando tomas o teu duche, e quando pensas que ninguém te está a
ouvir! Mas eu ouço tudo aquilo que tu dizes, sua boazuda! Atrevidona é o que tu
és, paixão dos meus inquéritos. Tu que és a verdadeira merecedora de todos os
meus pulsares cardíacos. E a causador de parte da disfuncionalidade da minha
bílis. Vermelhudazuda!”
E depois
lamentar-se-ia: “ E que cruel destino é este, que resolveu pôr-nos assim
apaixonadamente um pelo outro. Fisicamente frente a frente, mas diametralmente
opostos nas nossas posições socio/politicas”.
E reflexões
similares poderiam continuar até ao infinito. Ou pelo menos até ao final da
vida de um deles, pois como sabemos tudo é transitório e com fim à vista.
Devido a esse
factor. A essa ironia (desgraçada) do destino, a comunista acabaria por ser
expulsa do Partido Comunista. Sem qualquer contemplação.
E aos meus
olhos de leiga eles procederam muito mal. Afinal quem é que pode escolher quem
ama? Sei que foi a atitude mais acertada para a continuidade da função
politica, que tinha como finalidade afastar a Ditadura do panorama politico
português. Mas vendo bem a coisa, porque não tentar acolher nos braços, o facínora do
Pide? Ele que até estava apaixonado. Era mais do que certo, que estava também com
os seus “alqueires muito mal medidos”. Nem seria capaz de arrebanhar o gado
todo. É que ele era devotadamente um Pide. E isso só por si denunciava, uma
demência qualquer. Mas, porque que não então acolher o Pide e tentar trazê-lo
para o lado oposto ao do que ele enfileirava? E assim a militante jeitosa, poderia
aproximar-se do seu amado e segredar-lhe ao ouvidinho: “Ouve meu amor: Sol da
minha vida, eu amo-te muito. Mas tu não vês que andas a trilhar por maus
caminhos, rapaz? Vira-te mazé para aqui para este lado e fica mazé comigo. Juntos, nós
podemos até divertimo-nos bastante. E ir distribuir muitos papéis para todo o
lado. E depois dançar sozinhos no quarto, ao som bem baixo da música do: ‘Kalinka’.
Ali bem quentinhos. No silêncio do nosso esconderijo. Vem meu amor. Eu acredito
piamente que tu não te irás arrepender. E depois quem sabe, se com o decorrer
do tempo, a coisa não muda? E juntos, nós ainda iremos fazer parte do próprio
do Comité Central.
Sugestão de
leitura para esta semana: A Casa dos Amores Impossíveis” de Cristina
Lopez Barrio.
DIVIRTAMSEMAZÉ!
Apenas uma breve nota: Uma vez alguém me disse que neste Blogue existia muita anarquia. Na altura eu fiquei danada, oh como fiquei. Mas hoje tenho que dar razão a essa pessoa: Então não é que na semana passada se agradecia tanto a Deus pelas graças recebidas, enquanto que hoje se colocam pessoas para aqui a... gemer?
DIVIRTAMSEMAZÉ!
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