O
passeio seria para Israel. Para uma Terra que é Santa para tantos, mas nunca
por nunca a mais pacificada. E naquele grupo, composto por três dezenas de
pessoas muito devotas e abnegadas, iam também uns três padres. Que sendo também
pessoas, tinham a obrigação de serem ainda muito mais santas. E aquele passeio
prometia.
Do
grupo fazia ainda parte, uma simpática família composta por cinco elementos.
Pai e mãe, septuagenários, mas ainda cheios de genica. Um tio pouco falador,
mas muito religioso. Também septuagenário, mas no início da década. E um casal
composto pelo filho e sobrinho dos três primeiros, que ia na companhia de sua
mulher: por definição nora e também sobrinha dos mais velhotes. E a coisa continuava a
prometer.
Várias
vezes, ficaram na mesma mesa de refeições que Celina, que sendo já
pré-quarentona era solteira assumida e de bem com a vida. Viajava era com o seu
avô, também ele muito religioso. Só que não gostava nada, era de viajar sozinho.
Nem mesmo que fosse para a terra natal de Jesus Cristo. E o grupo convivia. E o grupo
rezava. E o grupo ria com devoção e comia com muita parcimónia: queijinho,
vegetais e cordeiro. E que ninguém lá falasse num fiambrinho da perna.
E
os cinco? Que não os da Enid Blyton? Pois andavam sempre uns com os outros. O casal
mais novo era só harmonia. Um beijinho aqui, um abracinho lá mais para a
frente. E um apalpãozinho quando ninguém mais estivesse a ver, lá pelo meio do Monte das
Oliveiras... E os mais velhos? Pois os mais velhos só rezavam.
E
tanto era assim, que o tio solteirão era de todos os trinta o que era mais devoto.
Mesmo mais dedicado àquela sacrossanta causa, que os três funcionários de Deus. E queria porque queria, ir
no autocarro a ler partes intermináveis da Bíblia. E depois a cantar Salmos que nunca mais
acabavam. Assim como outras músicas de cantores civis, mas também elas
muitíssimo inspiradoras. E como ele cantava com tanta emoção aquela canção do
Dino Meira? Aquela em que um homem vestido de branco, desce de um avião e chega
cá abaixo. E depois disso, põe-se logo a beijar o chão de um país? Isto quer não tenha cumprimentado aquele país, anteriormente. E que depois, envergando vestes
brancas e esvoaçantes, ele vai a saltitar todo contente, para cima de um palanque?
E a seguir, muitas são as mensagens que ele para ali dirige a todauma muito extensa
audiência? Exactamente lá em cima, sossegado e empoleirado no tal do palanque?
Que nada mais era que o palco mais importante para todo o mundo religioso e
católico? Pelo menos durante algum tempo.
Pois
o tio, tudo isso fazia, tudo isso cantava e tudo isso lia. E por causa disso,
os outros peregrinos tinham que ir sempre, sempre muito caladinhos. Era pois
obrigatório ir a ouvir todas aquelas predicas. Quando muito os outros podiam fazer, era manear os ombros e cantar um lá-lá-lá
por alturas do refrão. Isto é, caso eles não soubessem com precisão todas as letras das canções.
Mas ali jogava-se em casa, não era?Muitos sabiam e cantavam aquilo tudo. Mais ou menos para o desafinado.
E
um padre africano, muito mal-encarado, que em certo dia veio, corredor fora,
ralhar com muita altivez à Celina e ao seu avô. Sim, porque o avô de Celina
sendo muito religioso, quase beato, achava muita graça à tal da canção do Homem
vestido de Branco. Achava-lhe graça mesmo! Para gozar! E quem nunca pecou que lhe atire a primeira pedra. E ele divertia-se muito a ouvir a canção porque certa vez, um amigo da
neta lhe dissera que a tal da música, era muitíssimo profunda.
Pelo
que… sem poder fazer nada, mal o avô de Celina ouvia a tal trova, desatava-se
logo a rir-se. Mas às gargalhadas, senhores!
O
padre africano, esse ficou logo muitíssimo mal impressionado. E quase que lhes
negou todas as bem-aventuranças para os próximos vinte anos. Mas depois a coisa
lá serenou.
E
os anos também se passaram sobre aquela tão feliz ocorrência. E sobre aquele
muito inspirado passeio. O padre mais velho entretanto morreu. Mas os outros
dois, continuam a guardar muito bem as almas. Como pastores de um rebanho muito
pró-inusitado.
E
o casal mais novo? Pois ainda tiveram tempo de festejar com muita emoção as
suas Bodas de Prata. Relembrando anos e anos de felicidade mutua e de muitos
carinhos. Assim como do nascimento dos seus três rebentos. Só que passadas poucas
semanas… eles divorciaram-se.
E
o tio salmista e muito palrador? Pois arranjou finalmente a sua própria noiva. E tal qual
ele, ela também é toda muito devota. E muito mansinha e dedicada in extremis àquele seu amor tardio. Não é à toa que se diz: “Que não há amor como o serôdio”.
E
crê-se que os dois, lado a lado e de mão dada, vão cantando muitos Salmos por
esta vida fora. Presume-se até que lamentem o facto de o encontro deles se
ter dado tão tarde. Mas se calhar, ainda bem que assim foi. É que se sabe que a Divina
Providência nunca falha. Àquele homem, o amor conjugal, apareceu-lhe
quase aos oitenta anos. Após muitas cantorias e outros tantos rosários trilhados. E
aquele casal tardio, juntos poderão até ir ver, um outro Homem Vestido de
Branco, que mora agora lá para o Vaticano. Este Homem que é muito mais cool que os outros. Muito mais
bem-disposto e muito menos convencional. Que não se envergonha de usar uns ténis
sem marca por debaixo da batina branca e engomada. E que tendencialmente não quererá excluir
ninguém de dentro daquilo em que ele acredita. Que até talvez suba para um
palanque. Pode ser forçado a tal. Mas que desde início, mais do que se
projectar, o que aquele Francisco quer, é comparar-se aos seus semelhantes. E
ver a vida como ela é. Sem artificialismos. E não como outros tantos queriam
que fosse há já algum tempo atrás. Outros tais, que se esqueceram de
interpretar devidamente as mensagens originais, Daquele mesmo que um certo dia,
nasceu em Belém.
Sugestão
de leitura para esta semana: “O Parente Mais
Próximo” de John Boyne
DIVIRTAMSEMAZÉ!

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