Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sábado, 25 de janeiro de 2014

E a fé, que move montanhas?



O passeio seria para Israel. Para uma Terra que é Santa para tantos, mas nunca por nunca a mais pacificada. E naquele grupo, composto por três dezenas de pessoas muito devotas e abnegadas, iam também uns três padres. Que sendo também pessoas, tinham a obrigação de serem ainda muito mais santas. E aquele passeio prometia.
Do grupo fazia ainda parte, uma simpática família composta por cinco elementos. Pai e mãe, septuagenários, mas ainda cheios de genica. Um tio pouco falador, mas muito religioso. Também septuagenário, mas no início da década. E um casal composto pelo filho e sobrinho dos três primeiros, que ia na companhia de sua mulher: por definição nora e também sobrinha dos mais velhotes. E a coisa continuava a prometer.
Várias vezes, ficaram na mesma mesa de refeições que Celina, que sendo já pré-quarentona era solteira assumida e de bem com a vida. Viajava era com o seu avô, também ele muito religioso. Só que não gostava nada, era de viajar sozinho. Nem mesmo que fosse para a terra natal de Jesus Cristo. E o grupo convivia. E o grupo rezava. E o grupo ria com devoção e comia com muita parcimónia: queijinho, vegetais e cordeiro. E que ninguém lá falasse num fiambrinho da perna.
E os cinco? Que não os da Enid Blyton? Pois andavam sempre uns com os outros. O casal mais novo era só harmonia. Um beijinho aqui, um abracinho lá mais para a frente. E um apalpãozinho quando ninguém mais estivesse a ver, lá pelo meio do Monte das Oliveiras... E os mais velhos? Pois os mais velhos só rezavam.
E tanto era assim, que o tio solteirão era de todos os trinta o que era mais devoto. Mesmo mais dedicado àquela sacrossanta causa, que os três funcionários de Deus. E queria porque queria, ir no autocarro a ler partes intermináveis da Bíblia. E depois a cantar Salmos que nunca mais acabavam. Assim como outras músicas de cantores civis, mas também elas muitíssimo inspiradoras. E como ele cantava com tanta emoção aquela canção do Dino Meira? Aquela em que um homem vestido de branco, desce de um avião e chega cá abaixo. E depois disso, põe-se logo a beijar o chão de um país? Isto quer não tenha cumprimentado aquele país, anteriormente. E que depois, envergando vestes brancas e esvoaçantes, ele vai a saltitar todo contente, para cima de um palanque? E a seguir, muitas são as mensagens que ele para ali dirige a todauma  muito extensa audiência? Exactamente lá em cima, sossegado e empoleirado no tal do palanque? Que nada mais era que o palco mais importante para todo o mundo religioso e católico? Pelo menos durante algum tempo.
Pois o tio, tudo isso fazia, tudo isso cantava e tudo isso lia. E por causa disso, os outros peregrinos tinham que ir sempre, sempre muito caladinhos. Era pois obrigatório ir a ouvir todas aquelas predicas. Quando muito os outros podiam fazer, era manear os ombros e cantar um lá-lá-lá por alturas do refrão. Isto é, caso eles não soubessem com precisão todas as letras das canções. Mas ali jogava-se em casa, não era?Muitos sabiam e cantavam aquilo tudo. Mais ou menos para o desafinado.
E um padre africano, muito mal-encarado, que em certo dia veio, corredor fora, ralhar com muita altivez à Celina e ao seu avô. Sim, porque o avô de Celina sendo muito religioso, quase beato, achava muita graça à tal da canção do Homem vestido de Branco. Achava-lhe graça mesmo! Para gozar! E quem nunca pecou que lhe atire a primeira pedra. E ele divertia-se muito a ouvir a canção porque certa vez, um amigo da neta lhe dissera que a tal da música, era muitíssimo profunda.
Pelo que… sem poder fazer nada, mal o avô de Celina ouvia a tal trova, desatava-se logo a rir-se. Mas às gargalhadas, senhores!
O padre africano, esse ficou logo muitíssimo mal impressionado. E quase que lhes negou todas as bem-aventuranças para os próximos vinte anos. Mas depois a coisa lá serenou.
E os anos também se passaram sobre aquela tão feliz ocorrência. E sobre aquele muito inspirado passeio. O padre mais velho entretanto morreu. Mas os outros dois, continuam a guardar muito bem as almas. Como pastores de um rebanho muito pró-inusitado.
E o casal mais novo? Pois ainda tiveram tempo de festejar com muita emoção as suas Bodas de Prata. Relembrando anos e anos de felicidade mutua e de muitos carinhos. Assim como do nascimento dos seus três rebentos. Só que passadas poucas semanas… eles divorciaram-se.
E o tio salmista e muito palrador? Pois arranjou finalmente a sua própria noiva. E tal qual ele, ela também é toda muito devota. E muito mansinha e dedicada in extremis àquele seu amor tardio. Não é à toa que se diz: “Que não há amor como o serôdio”. 


E crê-se que os dois, lado a lado e de mão dada, vão cantando muitos Salmos por esta vida fora. Presume-se até que lamentem o facto de o encontro deles se ter dado tão tarde. Mas se calhar, ainda bem que assim foi. É que se sabe que a Divina Providência nunca falha. Àquele homem, o amor conjugal, apareceu-lhe quase aos oitenta anos. Após muitas cantorias e outros tantos rosários trilhados. E aquele casal tardio, juntos poderão até ir ver, um outro Homem Vestido de Branco, que mora agora lá para o Vaticano. Este Homem que é muito mais cool que os outros. Muito mais bem-disposto e muito menos convencional. Que não se envergonha de usar uns ténis sem marca por debaixo da batina branca e engomada. E que tendencialmente não quererá excluir ninguém de dentro daquilo em que ele acredita. Que até talvez suba para um palanque. Pode ser forçado a tal. Mas que desde início, mais do que se projectar, o que aquele Francisco quer, é comparar-se aos seus semelhantes. E ver a vida como ela é. Sem artificialismos. E não como outros tantos queriam que fosse há já algum tempo atrás. Outros tais, que se esqueceram de interpretar devidamente as mensagens originais, Daquele mesmo que um certo dia, nasceu em Belém.  
Sugestão de leitura para esta semana: “O Parente Mais Próximo” de John Boyne
DIVIRTAMSEMAZÉ!
 

Sem comentários: