Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Guardado está o bocado...



O Américo tem 76 anos, mas está convencido que tem 33. Calha assim, como já dizia o outro. E quando entra na Grande e Majestática Casa de Livros, entra sempre muitíssimo bem-disposto. Por inerência, vem sempre com uma piada na ponta da língua. E as piadas? Essas variam muito pouco: se calha a estar-se na Invernia, o Américo lá diz: “Já viram o Sol esplendoroso que raia lá fora? Mas que rico dia de praia!”. Mas se se está no pino do Verão, ele sentencia: “Olhe com que vendaval e chuvada se apresenta hoje o dia. E o frio que está, valha-nos Deus Nosso Senhor!”
Mas , e o pessoal guardião das muitas monografias (mas menos Cd’s, Dvd’s e Cd’roms)? Pois só tem mesmo que estar muito atento. E em caso de dúvida, ir consultar o Borda-d’Água. Perante tanta graciosidade, e tanto sentido de humor, o pessoal ali a laborar, só pode mesmo esboçar o seu sorriso número cento e sessenta e sete. E tentar virar o bico ao prego.
Certo dia, a Bibliotecária responsável, foi brindada com um excelente epíteto. O Américo chamou-lhe: Máquina de Coser Antiga. E mais lhe disse tão circunstancial e delicado senhor. Ao referir-se que a sua douta e preferencialmente bem informada gargalhada, lhe fazia lembrar a máquina de costura da sua avó, (velha Singer e com pedais) quando a sua dilecta e aprumada velhota se prestava ao serviço da costura. A Bibliotecária sorriu com uma tonalidade a puxar para os tons de amarelo. Mas tentou disfarçar, pois as pessoas na biblioteca querem muito silêncio, pois regra geral estão para ali a ler. Imagine-se!
Outro dia, o Américo chamou-lhe de… Crocodilo, quando ela estava a envergar uma bonita boina castanha e neoliberal. É que o governo lusitano, não permite das outras. E o Américo afirmou (justificando a sua tão douta conclusão): é que o mundo está em convulsão. Hellas! E acredita-se que lá para o ano 2050, quando se generalizar o descongelamento efectivo das calotes polares, a coisa é capaz de mudar ainda mais. E por isso, (lá referiu o Américo), os crocodilos envergarão uns belíssimos chapéus. A Bibliotecária aqui ficou algo confundida. Qual é que era afinal a ligação? E não soube se haveria de responder com o seu sorriso número trinta e sete, se com a sua cara de indignação número um. Mas ela não teve que esperar muito. É que o Américo logo disparou dizendo-lhe que a Bibliotecária é uma copiona. Orgulha-se disso (SIC), e mais uma vez ali, ela só estava a copiar os crocodilos. “Ah então era isso?”, concluiu a profissional. E mais pensou a tão indignada (mas camuflada) senhora: tudo indicava que dali para a frente, seria sempre a piorar. E até poderia haver uma altura, em que ele passasse à acção. E não se responsabilizasse mais por actos contra a humanidade, perpetrados pela pessoa do Américo.
E aquele senhor é frequência muito assídua daquele espaço. Mas certa vez, ele ausentou-se por uns dias. E ao regressar (de olho quase à Belenenses), informou os técnicos, de que havia sido submetido a uma intervenção às cataratas. E depois disso, ele orientou-se. E serviu-se dos seus préstimos, assim como de toda a sua simpatia, para que o pessoal presente lhe administrasse as gotinhas da praxe nos olhos sedutores. Então foi a P., foi o N. e até esteve ao seu serviço, a Bibliotecária responsável.
Quando chegou à vez desta última, ela pediu-lhe naturalmente que o Américo fizesse o obséquio de se sentar. E depois, que se reclinasse um pouco, para que assim ela lhe pudesse pôr as gotinhas. Resposta pronta do homem: “Olhe, vamos mazé ali mais p’ra dentro.” Ai Santa Quitéria! Foi aí que a dedicada profissional lhe respondeu: “Oh Senhor Américo, com franqueza! Ou é aqui, ou então o senhor vai ficar com os seus olhinhos… na mais profunda secura”. É que contra factos…
No Verão ele entra na Biblioteca com uns calçõezinhos muito curtos. Daqueles que eram usados pelos jogadores de futebol dos anos oitenta. E que bela perninha ele ainda hoje ostenta, não haja dúvida! Com pelanquinha suplementar e em magotes. E depois diz que na praia é ele quem faz mais sucesso. Afirmando mesmo que todas as mulheres lhe caem aos pés. E só não caem mesmo, as que são invisuais e as que preferem a companhia… de outras mulheres. Sim porque ele é muito macho. Assim se apresenta. E depois continua: "Uma vez aconteceu que duas das mulheres, tiveram até que ser hospitalizadas tal foi a comoção sofrida". Só por porem os olhos em cima de tal Adónis. As pobrezinhas sofreram logo ali, de um desmaio duplo e absolutamente incapacitante. Cruzes, senhores!
E antes de entrar e ao sair da Biblioteca e de calções, o Américo chega mesmo a fazer alguns exercícios de alongamentos, especialmente no Verão para que todos possam assistir muito comovidamente, a toda aquela sua portentosa extensão muscular. E é nessa altura, que ele executa na perfeição, uma série de movimentos sincopados e exigentes que prostram por terra, mesmo a pessoa que é de todas, a mais empedernida. Já se viram mesmo ali duas senhoras muito jeitosas, varadas a olhar para ele: Seriam as mesmas que da outra vez desmaiaram? Pois não se sabe. E houve mesmo até um homem, que lhe chegou a imitar os exercícios. Só mesmo um cão é que num certo dia, lhe fez um xixi para as pernas.
E naquela casa de livros, o Américo senta-se preferencialmente ao pé das senhoras. Pois é claro. Outra coisa não seria possível. Num dia, ele julgou estar a fazer uma boa acção a uma quarentona que envergava com muita desenvoltura, uns jeans de cintura descaída. Já lá vão alguns anos. Ora acontecia que no processo a senhora mostrava um pouco da sua roupa interior. Mas só dava mesmo conta disso, aquele que estivesse a… olhar para lá. Ora mas o “nosso” herói d’hoje, o Américo nasceu mesmo para ajudar ou não é? Pelo que prontamente ele lhe disse: “A senhora tem mazé as suas cuecas a cair!
Naquele dia, houve um momento em que todos os presentes daquela douta sala de leitura ficaram prá ali muito estáticos. E por pouco (mas por muito pouco mesmo) é que o senhor Américo não saiu dali com uma valente estalada na cara.
Por estas e por muitas outras tantas que aqui não cabem, não é à toa que se diz que o Senhor Américo seria capaz de servir de inspiração para um livro com mais de seiscentas páginas. E posto isso, naturalmente que ainda ficaria muita coisa para contar. Só que o espaço é pouco e o tempo voa. Vejo-me então pois obrigada a acabar este relato com uma bela pérola. A mais bela jóia (segundo a minha modesta opinião), oriunda da grande calibragem do Américo.
Um dia ele quis porque quis, mostrar aos funcionários da biblioteca as suas fotografias de quando ele fora tropa. Pois... E era lá, que naturalmente ele constava assim como uma série de mancebos, que com ele foram dar o couro lá para uma ex-colónia atlântica. Ora, a bibliotecária ia vendo aquilo, e o Américo lá lhe ia explicando os cenários. E com muito detalhe mesmo. E dizia ele: “Aqui está o Transmontano, aqui está o Regafoles e aqui estou eu… o Picha de Aço”.
“Picha de Aço?” E a bibliotecária ficou a pensar. Será que ele se estava a designar a ele próprio de Picha de Aço? Em acto contínuo, lá lhe repondeu o Américo: “Está espantada? Não tem motivo para tal.” Santo Nome do Senhor.
A Bibliotecária por um breve instante, ponderou responder. Mas reconsiderou. Afinal porque é que tinha que estar admirada com o que dali vinha? Já eram tantas as "pérolas desbroncas". Ela, que felizmente nunca lhe havia conhecido os “interiores”. Nem queria! E sabia lá ela da sua enorme capacidade para erguer pesos?
Mas ele continuou: “Sim, Picha de Aço era como eu era conhecido lá na Companhia”. Perante o exposto, imagine-se pois a qualidade do ambiente que era vivido naquele quartel. Será que também foi por isso que o Américo e todos os seus companheiros perderam a guerra? Acho que tal, pode muito bem ter sido uma possibilidade. Mas pelo menos restou uma certeza: o Américo? Esse perdeu o juízo. E nunca mais o encontrou.
Sugestão de leitura para esta semana: “Casanova – O Contágio do Prazer” de Jean-Didier Vincent.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


sábado, 15 de fevereiro de 2014

O apagão.


Eu adoro ler! E leio tudo. Bem tudo é como quem diz. As histórias vividas no Oeste Americano, que envolvem cowboys e outros moços que faziam muitas malfeitorias, nunca me interessaram por ai além. E também não tenho assim uma grande apetência para as questões místicas. Pronto. Afinal eu já não leio tudo.
Ora sendo pois cidadã ligada à História, é essa a minha licenciatura, pélo-me por ler romances históricos. E se bem que os tratados académicos da praxe, sejam os mais inquestionáveis eu não me fico só pela sua leitura. Às vezes, os romances históricos têm a capacidade de me fazer sonhar. E fazendo algum desconto à capacidade e liberdade criativa do autor, com a sua leitura eu consigo vivenciar de alguma forma, aqueles ambientes do passado. Tenho além disso, um gosto muito especial por ler informação, daquilo que se passou durante a vigência do Estado Novo. Não que eu admire as ditaduras e a falta da liberdade. Nada disso! Gosto muito de poder ler e escrever, aquilo que bem entender e que não vá contra (obviamente) a liberdade do outro. E o Salazar há que convir, era um ditador um pouco à imagem e semelhança deste pequeno país. Ruralizado e religiosos. E só mesmo num país como o nosso é que um Salazar, mais os seus colegas, se aguentariam no poder quase por cinquenta anos.
Depois eu gosto muito de ter informação, sobre a mentalidade dominante, à época. É por isso também, que sou uma grande admiradora da obra de Fernando Dacosta. É que aquele autor viveu mesmo aquilo tudo. E bem de perto. Conheceu efectivamente as pessoas mais emblemáticas. E contou mesmo, com a simpatia da própria D. Maria, a santinha que era também governanta de sua iminência de Santa Comba Dão. É pois para mim um prazer imenso poder ouvi-lo. E até já foi meu convidado lá no “meu” estaminé.
Mas não é de Fernando Dacosta que eu aqui hoje vou falar. Vou-me hoje dedicar a uma história que recentemente eu ouvi, e que me mereceu toda a atenção. E também me provocou imensas e sonoras gargalhadas. É que parece que António de Oliveira Salazar, havia tido como amante, uma senhora catita e residente em zona limítrofe à da cidade de Lisboa. Na zona norte. E a senhora vivia e trabalhava numa grande e bela Quinta, (agora Quinta Municipal), que era (e é) enfeitada por belíssimos e muito exemplificativos azulejos. Peças de arte com pouca rivalidade. E era num determinado dia da semana, que os encontros tórridos daqueles dois, se davam. Não ouvi falar de que dia é que era. Se calhar era um qualquer, ao gosto da vontade dos amantes. E nesse dia havia sempre um apagão da electricidade, para disfarçar os encontros secretos dos insaciáveis.
Ora, reza a tradição que Salazar era um homem casto. A quem o sexo não deveria de interessar por aí além. Também há registos directos e indirectos que sustentam, que o homem era poupadinho até à quinta casa. Era da carteira dele que vinha o pagamento do seu próprio consumo de electricidade lá em S. Bento. E da conta da água. Era também ele, quem pagava a sua própria comida. E tinha também as suas próprias galinhas. Que viviam pacatamente, lá pelos jardins. Pacatamente, pelo menos até ao dia em que alguém se lembrava de comer, uma bela galinha à cabidela. Ai, deveriam de se sacrificar sempre as mais gorduchinhas. Deviam de fazer também umas belas canjas. E as galinhas que iam sobrevivendo, e mais ou menos uma vez por dia, lá se esforçavam a pôr o seu próprio ovo. Nunca li, foi grandes referências sobre um gosto particular do ditador, para as gemadas ou ovos estrelados. Mexidos é que talvez não. Era bem capaz de soar a oponente.
Ora sendo o homem assim, e tendo este tipo de comportamentos, a sua imagem não se liga lá muito bem, com esta outra que alguém me contou um dia destes. Ele que era amante e vinha com regularidade visitar o objecto do seu desejo. E por isso, se apagavam todas as luzes para que ninguém o visse. Nem ninguém desconfiasse sequer, sobre a presença do homem ali.
É que o Salazar é tido unanimemente como alguém inteligente. Que não deveria de ter especiais dificuldades, em ligar uma causa a um efeito. Seria retrógrado e autoritário? Pois era bem capaz. Porém inteligente. E só assim se consegue explicar todo o tempo que ele teve à frente dos comandos deste país.
Mas se à conta dele se provocassem assim tais apagões, eu até parece que já estou a ver: Manuel e Joaquim conheciam-se há muitos anos. Desde os tempos de escola. Foram comparsas e colegas de carteira, quando o mestre-escola assim os deixava. Às vezes também envergavam umas orelhas de burro, por alturas em que erravam na tabuada. E ficavam assim naquela figura de jericos à janela. Só que o curso deles, durara somente três anos. Pois feita essa aprendizagem, onde no máximo eles aprenderam a juntar as letras, (Para Salzar isso chegava e bastava), era necessário que os rapazes fossem trabalhar. Para provir ao sustento dos de casa. E foram mais que muitos os irmãos quer de Manuel, quer de Joaquim. Agora eram vizinhos, quase porta com porta. Haviam crescido e aprenderam na pele, o que a vida tanto lhes custava a ganhar. Empregaram-se os dois na estiva. E iam para o Porto de Lisboa todos os dias de comboio.
Aquela manhã não seria assim muito diferente das outras. Quando Manuel se chega mais para perto de Joaquim e lhe segreda ao ouvido: “Ouve lá o Jaquim! Mas que raio de história é essa, de agora e todas as Quintas-Feiras, às 9 horas em ponto da noite, haver um apagão, que nos deixa as ruas em trevas?” Isto caso o ditador fosse ver a amante em dias certos.
Aqueles trabalhadores tinham mesmo que segredar. É que não se sabia quem estava ao pé deles. Assim como até o próprio revisor, que desconfiavam que pudesse ser pertencente à PIDE. Ou então ser somente um informador. Sem cartão de sócio. Ou então era mesmo só “Piquinha Azedo”.
Responde o Joaquim: “Pois eu não sei Manel. É que eu nem dei conta. É que não é necessária qualquer luz, para aquilo que eu mais a minha Maria estávamos a fazer. Para aquilo, é só preciso algum tacto e muita imaginação. E o escuro que nem breu até é muito conveniente. É que lá a minha Maria, não quer que eu lhe conheça a sua irmã gémea. Só a posso cheirar”
Responde-lhe o Manuel: “Pois nós lá em casa estávamos a começar a comer a sopa. Uma sopinha de beldroegas sem batatas, muito apetitosa. Os moços também já se alapavam. E estávamos todos à luz do “pitrolino”, como é nosso costume. Quem nos dera ter dinheiro para ter luz eléctrica em casa! Mas àquela hora, a rua ficou que nem breu. E os moços começaram a rir-se para ali e a fazerem comentários daquilo que já ouvem por todo o lado… A luz apagara-se mesmo antes de começarmos todos a cantar a Casa Portuguesa: ‘Uma Casa Portuguesa fica bem, pão e vinho sobre a mesa. E se à porta humildemente bate alguém, senta-se à mesa com a gente…” E continuou aquele competente estivador: “Sabes Jaquim, lá em casa, nós temos que acabar de vez, com esta mania de ter que cantar a Casa Portuguesa. Especialmente naquela parte em que se faz referência a alguém que bate à porta. É que bom mesmo, é que não apareça ninguém. É que já existem tão pouquinhas beldroegas…”
“Pois olha, eu estava no quentinho! E no bem bom!”, continua a segredar o Joaquim, revelando mesmo um certo ar de refastelado.
Ao lado dos homens, viajava pacatamente Argentina. A solteirona da cena. E trabalhadora no Escritório da Câmara lá da Capital. E ao ouvir os entre-dentes daqueles dois, especialmente ao se aperceber do passatempo do Joaquim, benze-se e tenta apagar da memória, alguma imagem do vizinho mais da sua esposa, em actividades libidinosas. “Era a isso então, que se dedicavam, aqueles desavergonhados?” Pensava a Argentina, bem seca de carnes e de sentimentos. “E depois era uma dor de alma ver tantos cachopos, todos em carreirinha, pelas ruas. Com muita fome e de narizes ranhosos. Passassem eles o tempo a rezar o terço que valia bem mais a pena”. Concluía assim tão desditosa senhora.
Bem, tudo isto para dizer, que se a intenção era disfarçar, provocando um apagão da electricidade sempre que os amantes se encontravam, tal não me parece ser uma máscara lá muito válida. É que com a continuidade daqueles apagões, mesmo a hora diferentes e em dias desencontrados, o mais previsível seria, toda a gente começar para ali a desconfiar. E a fazer as devidas ligações às visitas do estadista à sua amante. E a má-língua começaria logo, mal alguém avistasse a ponta do nariz salazarento a assomar, cheio de tesão, para fora da janela da viatura. Depois disso, dar-se-ia de uma forma concentrada na comunidade, toda a sensação de choque e de horror. E de alguma inveja, no clube de fãs. Porque os há sempre.
Mas e procedendo assim? Não seria então o próprio Salazar a pôr-se a jeito de ser descoberto? Ou não era? E depois, seria Salazar também algum exibicionista? Bem, só falta mesmo, é alguém ter-se lembrado de dizer, que certa noite o conseguiu ver todo nu, a arrastar a sua portentosa genitália, pela floresta fora. E a tocar em simultâneo, um conjunto de guizos. É que só falta mesmo isso…
Sugestão de leitura para esta semana: As Máscaras de Salazar” de Fernando Dacosta. DIVIRTAMSEMAZÉ!


sábado, 8 de fevereiro de 2014

A três pulos.




Era eu ainda menina e moça, quando me ocupava da recepção de um modesto porém muito emblemático Museu. Isto apenas nos dias em que os simpáticos funcionários folgavam. Ou seja, nos Domingos e em alguns feriados. E nos dias em que os outros trabalhavam, ocupava eu um lugar numa Universidade deste país. A dedicar-me a estudar vidas passadas.
E naquelas longas tardes de Estio, em que estava de guarda no supracitado Museus, eu fazia-me também acompanhar dos melhores amigos. Ou seja, Livros, jornais e Revistas. Mas também de uma ou outra pessoa idosa que por lá calhasse a passar e necessitasse (tal como eu) de companhia. E eram mesmo muitos, naqueles idos anos noventa, os velhotes que permaneciam aos Domingos pela freguesia que também lhes servia de residência. E como eu passei muitas tardes bem passadas. Não mentes perversas. Eu não mantive com nenhum deles, nenhuma tórrida e louca paixão. Não. Os maganos tinham todos idade para ser meus avós. Além de que nem eles eram pedófilos, nem eu me seduzia pelas artes obscuras da gerontofilia. Éramos amigos, e pronto.
Naquela tarde de Agosto, tive por companhia o Senhor E. Senhor bem composto, de boas maneiras e facilitadas falas, mas também um exímio seguidor na linha dura do Lenine. E qual é que era, um dos grandes amigos, deste meu amigo octogenário? Quem sabe se não o maior? Pois era mesmo o Jornal do Avante.
E sentados que estávamos os dois, num banco de jardim, bem colocado à entrada do dito Museu, o meu amigo E. saca do periódico marxista, órgão oficial da imprensa escrita do seu bem-amado partido e diz-me: “Olha rapariga. Tu lê isto. É que aqui está contida toda a verdade. E tudo aquilo que toda a gente deveria de saber. Para se poder mudar o rumo, que o mundo perigosamente está a tomar”.
Eu confesso, não sigo, nem nunca me senti seduzida pelas linhas orientadoras do partido da foice e do martelo. Jamais acreditei nelas. Respeito-as e integro-as num espaço e num tempo de características muito próprias.
Contudo se ele me estava a ceder o jornal, do seu coração, aquilo que ele mais gostava de ler, (pois nada daquilo se incompatibilizava com o curso dos seus próprios pensamentos), eu peguei no dito jornal e “li”. E como eu “li” tudo aquilo, senhores!
Eu “li” todas as notícias que ali vinham escarrapachadas. Só que não o fiz do modo mais convencional e esperado. Qual quê? É que a tarde tinha que ser divertida não só para mim, como para aquele dilecto e pouco convencional amigo.
E naquela tarde eu “li que Álvaro Cunhal, havia comprado um belíssimo Porsche da cor das cerejas. Esse que fora sempre o carro da minha adoração. E já instalado no Porsche, o muito contente Álvaro Cunhal foi fazer umas compras para a cadeia de lojas Yves Saint Lourent. Ali adquirira as últimas modas, que lhe assentavam todas muito bem. E depois fora com a sua escultural namorada passar umas férias, para a Riviera Francesa.
Depois também “li”, que o muito participativo António Dias Lourenço, havia ido muito decididamente, comprar uma pochete nas lojas Valentino. E depois de uma apuradíssima escolha, ele decidira-se por uma de cor bordeaux. Toda debruada com pérolas negras da Rússia. Essa pochete ficava-lhe também muito bem. Combinava na perfeição com a sua tez morena. E depois disso, muito orgulhoso, Dias Lourenço foi no seu avião particular para os Estados Unidos. Iria assim assistir à entrega dos Óscares.
Por fim, eu ”li”, que a simpática deputada Odete Santos, havia ido fazer uma intervenção cirúrgica a Moscovo. Tratava-se de uma operação para lhe retirar alguma da "pelanca" sobrante, assim como também remover alguma da gordura que lhe estava mais localizada. E a operação havia conhecido um verdadeiro sucesso. É que depois, com a Dra. Odete já totalmente restabelecida, ela viveria uma escaldante relação amorosa com o jovem e esbelto cirurgião. O mesmo que lhe fizera as reparações. Que era também muito belo e simpático. E depois juntos, e de mãos dadas, eles foram esquiar para as famosas estâncias da Sibéria.
Escusado será dizer que tanto eu como o meu amigo, nos rimos que nem uns perdidos. Sempre com ele a dizer-me, que tais notícias não podiam constar em tão sério Jornal. “É que não podiam mesmo”, dizia ele entre o divertido e o algo exaltado. É que aquele era o Jornal do Avante, não era nem a Caras, nem a Holla. Além disso as personalidades que eu citara, tinham vidas muitíssimo mais recatadas e humildes. E a todo o momento, E. pedia-me a restituição do Jornal. Só que eu, negava-lhe sempre a entrega. Protelei-a o mais possível. É que eu tinha ainda que “ler” mais. Achava eu que o relato de tão preciosos acontecimentos, não podia acabar por ali. Afinal não fora mesmo o Senhor E. que tanto insistira para eu ler tal periódico? Para eu aprender? Por fim, e aproximada que estava a hora do encerramento do Museu, eu entreguei-lhe o Jornal, dizendo-lhe:
“Veja lá então com os seus próprios olhos, senhor. Será então capaz de negar a veracidade de uma palavra sequer, das que eu prá aqui tão dedicadamente lhe estive a “ler” Vá! Veja lá se é capaz?” E foi então que E. pondo a mão no bolso da camisa, muito amargurado me respondeu:
“Ora bolas! Esqueci-me dos óculos para ler ao perto”. E muito eu me ri mais uma duzia de velhotes que também por ali estavam sentados.
Aquela foi efectivamente uma tarde memorável. E na melhor das companhias. Com muita risota à mistura. E mesmo no finalzinho da mesma, aquele meu amigo, disse-me uma coisa que eu jamais esquecerei:
“Sabes rapariga. Foi também para isso que nós lutámos. Para tu poderes estar aqui a falar de quem te vier à cabeça. Sem teres medo de ser aprisionada. E depois seres torturada. E isto, apesar de me estares para aqui a torturar a mim”.
E é bem verdade isso que ele me disse. Nesse aspecto eu estou absolutamente grata a todos aqueles que lutaram para que eu e toda a gente possamos falar livremente. Também já não nos resta muito mais. E assim ler, tudo aquilo que nos der na real gana. Um obrigado eterno a todos esses lutadores. Pertençam eles aos quadrantes políticos que pertencerem.
Sugestão de leitura para esta semana: “Manifesto do Partido Comunista” de Carl Marx.
DIVIRTAMSEMAZÉ!