O Américo tem 76
anos, mas está convencido que tem 33. Calha assim, como já dizia o outro. E
quando entra na Grande e Majestática Casa de Livros, entra sempre muitíssimo
bem-disposto. Por inerência, vem sempre com uma piada na ponta da língua. E as
piadas? Essas variam muito pouco: se calha a estar-se na Invernia, o Américo lá
diz: “Já viram o Sol esplendoroso que raia lá fora? Mas que rico dia de praia!”.
Mas se se está no pino do Verão, ele sentencia: “Olhe com que vendaval e
chuvada se apresenta hoje o dia. E o frio que está, valha-nos Deus Nosso Senhor!”
Mas , e o pessoal
guardião das muitas monografias (mas menos Cd’s, Dvd’s e Cd’roms)? Pois só tem
mesmo que estar muito atento. E em caso de dúvida, ir consultar o Borda-d’Água.
Perante tanta graciosidade, e tanto sentido de humor, o pessoal ali a laborar,
só pode mesmo esboçar o seu sorriso número cento e sessenta e sete. E tentar virar o
bico ao prego.
Certo dia, a Bibliotecária
responsável, foi brindada com um excelente epíteto. O Américo chamou-lhe:
Máquina de Coser Antiga. E mais lhe disse tão circunstancial e delicado senhor.
Ao referir-se que a sua douta e preferencialmente bem informada gargalhada, lhe
fazia lembrar a máquina de costura da sua avó, (velha Singer e com pedais)
quando a sua dilecta e aprumada velhota se prestava ao serviço da costura. A
Bibliotecária sorriu com uma tonalidade a puxar para os tons de amarelo. Mas tentou disfarçar, pois as pessoas
na biblioteca querem muito silêncio, pois regra geral estão para ali a ler. Imagine-se!
Outro dia,
o Américo chamou-lhe de… Crocodilo, quando ela estava a envergar uma bonita boina
castanha e neoliberal. É que o governo lusitano, não permite das outras. E o Américo afirmou
(justificando a sua tão douta conclusão): é que o mundo está em convulsão.
Hellas! E acredita-se que lá para o ano 2050, quando se generalizar o
descongelamento efectivo das calotes polares, a coisa é capaz de mudar ainda
mais. E por isso, (lá referiu o Américo), os crocodilos envergarão uns belíssimos
chapéus. A Bibliotecária aqui ficou algo confundida. Qual é que era afinal a
ligação? E não soube se haveria de responder com o seu sorriso número trinta e
sete, se com a sua cara de indignação número um. Mas ela não teve que esperar muito.
É que o Américo logo disparou dizendo-lhe que a Bibliotecária é uma copiona. Orgulha-se disso (SIC),
e mais uma vez ali, ela só estava a copiar os crocodilos. “Ah então era isso?”,
concluiu a profissional. E mais pensou a tão indignada (mas camuflada) senhora: tudo indicava que
dali para a frente, seria sempre a piorar. E até poderia haver uma altura, em
que ele passasse à acção. E não se responsabilizasse mais por actos contra a
humanidade, perpetrados pela pessoa do Américo.
E aquele senhor
é frequência muito assídua daquele espaço. Mas certa vez, ele ausentou-se por uns
dias. E ao regressar (de olho quase à Belenenses), informou os técnicos, de que
havia sido submetido a uma intervenção às cataratas. E depois disso, ele orientou-se. E serviu-se
dos seus préstimos, assim como de toda a sua simpatia, para que o pessoal presente lhe administrasse as
gotinhas da praxe nos olhos sedutores. Então foi a P., foi o N. e até esteve ao seu serviço, a
Bibliotecária responsável.
Quando chegou à
vez desta última, ela pediu-lhe naturalmente que o Américo fizesse o obséquio
de se sentar. E depois, que se reclinasse um pouco, para que assim ela lhe pudesse pôr as
gotinhas. Resposta pronta do homem: “Olhe, vamos mazé ali mais p’ra dentro.” Ai Santa
Quitéria! Foi aí que a dedicada profissional lhe respondeu: “Oh Senhor Américo, com
franqueza! Ou é aqui, ou então o senhor vai ficar com os seus olhinhos… na mais
profunda secura”. É que contra factos…
No Verão ele entra
na Biblioteca com uns calçõezinhos muito curtos. Daqueles que eram usados pelos
jogadores de futebol dos anos oitenta. E que bela perninha ele ainda hoje ostenta,
não haja dúvida! Com pelanquinha suplementar e em magotes. E depois diz que
na praia é ele quem faz mais sucesso. Afirmando mesmo que todas as mulheres lhe
caem aos pés. E só não caem mesmo, as que são invisuais e as que preferem a
companhia… de outras mulheres. Sim porque ele é muito macho. Assim se apresenta.
E depois continua: "Uma vez aconteceu que duas das mulheres, tiveram até que ser
hospitalizadas tal foi a comoção sofrida". Só por porem os olhos em cima de tal
Adónis. As pobrezinhas sofreram logo ali, de um desmaio duplo e absolutamente
incapacitante. Cruzes, senhores!
E antes de entrar
e ao sair da Biblioteca e de calções, o Américo chega mesmo a fazer alguns
exercícios de alongamentos, especialmente no Verão para que todos possam
assistir muito comovidamente, a toda aquela sua portentosa extensão muscular. E é nessa altura, que ele executa na perfeição, uma série de movimentos sincopados e exigentes
que prostram por terra, mesmo a pessoa que é de todas, a mais empedernida. Já se
viram mesmo ali duas senhoras muito jeitosas, varadas a olhar para ele: Seriam
as mesmas que da outra vez desmaiaram? Pois não se sabe. E houve mesmo até um
homem, que lhe chegou a imitar os exercícios. Só mesmo um cão é que num certo dia,
lhe fez um xixi para as pernas.
E naquela casa
de livros, o Américo senta-se preferencialmente ao pé das senhoras. Pois é
claro. Outra coisa não seria possível. Num dia, ele julgou estar a fazer uma
boa acção a uma quarentona que envergava com muita desenvoltura, uns jeans de
cintura descaída. Já lá vão alguns anos. Ora acontecia que no processo a
senhora mostrava um pouco da sua roupa interior. Mas só dava mesmo conta disso,
aquele que estivesse a… olhar para lá. Ora mas o “nosso” herói d’hoje, o Américo nasceu mesmo
para ajudar ou não é? Pelo que prontamente ele lhe disse: “A senhora tem mazé as suas cuecas
a cair! ”
Naquele dia,
houve um momento em que todos os presentes daquela douta sala de leitura
ficaram prá ali muito estáticos. E por pouco (mas por muito pouco mesmo) é que
o senhor Américo não saiu dali com uma valente estalada na cara.
Por estas e por
muitas outras tantas que aqui não cabem, não é à toa que se diz que o Senhor
Américo seria capaz de servir de inspiração para um livro com mais de seiscentas
páginas. E posto isso, naturalmente que ainda ficaria muita coisa para contar. Só
que o espaço é pouco e o tempo voa. Vejo-me então pois obrigada a acabar este
relato com uma bela pérola. A mais bela jóia (segundo a minha modesta opinião),
oriunda da grande calibragem do Américo.
Um dia ele quis
porque quis, mostrar aos funcionários da biblioteca as suas fotografias de
quando ele fora tropa. Pois... E era lá, que naturalmente ele constava assim como uma série de
mancebos, que com ele foram dar o couro lá para uma ex-colónia atlântica. Ora,
a bibliotecária ia vendo aquilo, e o Américo lá lhe ia explicando os cenários. E com
muito detalhe mesmo. E dizia ele: “Aqui está o Transmontano, aqui está o
Regafoles e aqui estou eu… o Picha de Aço”.
“Picha de Aço?” E
a bibliotecária ficou a pensar. Será que ele se estava a designar a ele próprio
de Picha de Aço? Em acto contínuo, lá lhe repondeu o Américo: “Está espantada?
Não tem motivo para tal.” Santo Nome do Senhor.
A Bibliotecária por
um breve instante, ponderou responder. Mas reconsiderou. Afinal porque é que
tinha que estar admirada com o que dali vinha? Já eram tantas as "pérolas desbroncas". Ela,
que felizmente nunca lhe havia conhecido os “interiores”. Nem queria! E sabia
lá ela da sua enorme capacidade para erguer pesos?
Mas ele continuou: “Sim, Picha de Aço era como eu era conhecido lá na Companhia”. Perante
o exposto, imagine-se pois a qualidade do ambiente que era vivido naquele quartel.
Será que também foi por isso que o Américo e todos os seus companheiros
perderam a guerra? Acho que tal, pode muito bem ter sido uma possibilidade. Mas
pelo menos restou uma certeza: o Américo? Esse perdeu o juízo. E nunca mais o
encontrou.
Sugestão de
leitura para esta semana: “Casanova – O
Contágio do Prazer” de Jean-Didier
Vincent.
DIVIRTAMSEMAZÉ!

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