Eu adoro ler! E leio tudo. Bem tudo é como quem diz. As histórias
vividas no Oeste Americano, que envolvem cowboys e outros moços que faziam
muitas malfeitorias, nunca me interessaram por ai além. E também não tenho
assim uma grande apetência para as questões místicas. Pronto. Afinal eu já não
leio tudo.
Ora sendo pois cidadã ligada à História, é essa a minha licenciatura, pélo-me
por ler romances históricos. E se bem que os tratados académicos da praxe,
sejam os mais inquestionáveis eu não me fico só pela sua leitura. Às vezes, os
romances históricos têm a capacidade de me fazer sonhar. E fazendo algum
desconto à capacidade e liberdade criativa do autor, com a sua leitura eu
consigo vivenciar de alguma forma, aqueles ambientes do passado. Tenho além
disso, um gosto muito especial por ler informação, daquilo que se passou
durante a vigência do Estado Novo. Não que eu admire as ditaduras e a falta da
liberdade. Nada disso! Gosto muito de poder ler e escrever, aquilo que bem
entender e que não vá contra (obviamente) a liberdade do outro. E o Salazar há
que convir, era um ditador um pouco à imagem e semelhança deste pequeno país. Ruralizado
e religiosos. E só mesmo num país como o nosso é que um Salazar, mais os seus
colegas, se aguentariam no poder quase por cinquenta anos.
Depois eu gosto muito de ter informação, sobre a mentalidade dominante,
à época. É por isso também, que sou uma grande admiradora da obra de Fernando
Dacosta. É que aquele autor viveu mesmo aquilo tudo. E bem de perto. Conheceu efectivamente
as pessoas mais emblemáticas. E contou mesmo, com a simpatia da própria D.
Maria, a santinha que era também governanta de sua iminência de Santa Comba
Dão. É pois para mim um prazer imenso poder ouvi-lo. E até já foi meu convidado
lá no “meu” estaminé.
Mas não é de Fernando Dacosta que eu aqui hoje vou falar. Vou-me hoje
dedicar a uma história que recentemente eu ouvi, e que me mereceu toda a
atenção. E também me provocou imensas e sonoras gargalhadas. É que parece que
António de Oliveira Salazar, havia tido como amante, uma senhora catita e
residente em zona limítrofe à da cidade de Lisboa. Na zona norte. E a senhora
vivia e trabalhava numa grande e bela Quinta, (agora Quinta Municipal), que era
(e é) enfeitada por belíssimos e muito exemplificativos azulejos. Peças de arte
com pouca rivalidade. E era num determinado dia da semana, que os encontros
tórridos daqueles dois, se davam. Não ouvi falar de que dia é que era. Se
calhar era um qualquer, ao gosto da vontade dos amantes. E nesse dia havia
sempre um apagão da electricidade, para disfarçar os encontros secretos dos
insaciáveis.
Ora, reza a tradição que Salazar era um homem casto. A quem o sexo não
deveria de interessar por aí além. Também há registos directos e indirectos que
sustentam, que o homem era poupadinho até à quinta casa. Era da carteira dele
que vinha o pagamento do seu próprio consumo de electricidade lá em S. Bento. E
da conta da água. Era também ele, quem pagava a sua própria comida. E tinha
também as suas próprias galinhas. Que viviam pacatamente, lá pelos jardins. Pacatamente,
pelo menos até ao dia em que alguém se lembrava de comer, uma bela galinha à
cabidela. Ai, deveriam de se sacrificar sempre as mais gorduchinhas. Deviam de
fazer também umas belas canjas. E as galinhas que iam sobrevivendo, e mais ou
menos uma vez por dia, lá se esforçavam a pôr o seu próprio ovo. Nunca li, foi
grandes referências sobre um gosto particular do ditador, para as gemadas ou
ovos estrelados. Mexidos é que talvez não. Era bem capaz de soar a oponente.
Ora sendo o homem assim, e tendo este tipo de comportamentos, a sua
imagem não se liga lá muito bem, com esta outra que alguém me contou um dia
destes. Ele que era amante e vinha com regularidade visitar o objecto do seu
desejo. E por isso, se apagavam todas as luzes para que ninguém o visse. Nem
ninguém desconfiasse sequer, sobre a presença do homem ali.
É que o Salazar é tido unanimemente como alguém inteligente. Que não
deveria de ter especiais dificuldades, em ligar uma causa a um efeito. Seria
retrógrado e autoritário? Pois era bem capaz. Porém inteligente. E só assim se
consegue explicar todo o tempo que ele teve à frente dos comandos deste país.
Mas se à conta dele se provocassem assim tais apagões, eu até parece
que já estou a ver: Manuel e Joaquim conheciam-se há muitos anos. Desde os
tempos de escola. Foram comparsas e colegas de carteira, quando o mestre-escola
assim os deixava. Às vezes também envergavam umas orelhas de burro, por alturas
em que erravam na tabuada. E ficavam assim naquela figura de jericos à janela. Só
que o curso deles, durara somente três anos. Pois feita essa aprendizagem, onde
no máximo eles aprenderam a juntar as letras, (Para Salzar isso chegava e
bastava), era necessário que os rapazes fossem trabalhar. Para provir ao
sustento dos de casa. E foram mais que muitos os irmãos quer de Manuel, quer de
Joaquim. Agora eram vizinhos, quase porta com porta. Haviam crescido e aprenderam
na pele, o que a vida tanto lhes custava a ganhar. Empregaram-se os dois na
estiva. E iam para o Porto de Lisboa todos os dias de comboio.
Aquela manhã não seria assim muito diferente das outras. Quando Manuel
se chega mais para perto de Joaquim e lhe segreda ao ouvido: “Ouve lá o Jaquim!
Mas que raio de história é essa, de agora e todas as Quintas-Feiras, às 9 horas
em ponto da noite, haver um apagão, que nos deixa as ruas em trevas?” Isto caso
o ditador fosse ver a amante em dias certos.
Aqueles trabalhadores tinham mesmo que segredar. É que não se sabia
quem estava ao pé deles. Assim como até o próprio revisor, que desconfiavam que
pudesse ser pertencente à PIDE. Ou então ser somente um informador. Sem cartão
de sócio. Ou então era mesmo só “Piquinha Azedo”.
Responde o Joaquim: “Pois eu não sei Manel. É que eu nem dei conta. É
que não é necessária qualquer luz, para aquilo que eu mais a minha Maria
estávamos a fazer. Para aquilo, é só preciso algum tacto e muita imaginação. E
o escuro que nem breu até é muito conveniente. É que lá a minha Maria, não quer
que eu lhe conheça a sua irmã gémea. Só a posso cheirar”
Responde-lhe o Manuel: “Pois nós lá em casa estávamos a começar a
comer a sopa. Uma sopinha de beldroegas sem batatas, muito apetitosa. Os moços
também já se alapavam. E estávamos todos à luz do “pitrolino”, como é nosso costume.
Quem nos dera ter dinheiro para ter luz eléctrica em casa! Mas àquela hora, a
rua ficou que nem breu. E os moços começaram a rir-se para ali e a fazerem
comentários daquilo que já ouvem por todo o lado… A luz apagara-se mesmo antes
de começarmos todos a cantar a Casa Portuguesa: ‘Uma Casa Portuguesa fica bem,
pão e vinho sobre a mesa. E se à porta humildemente bate alguém, senta-se à
mesa com a gente…” E continuou aquele competente estivador: “Sabes Jaquim, lá
em casa, nós temos que acabar de vez, com esta mania de ter que cantar a Casa
Portuguesa. Especialmente naquela parte em que se faz referência a alguém que
bate à porta. É que bom mesmo, é que não apareça ninguém. É que já existem tão
pouquinhas beldroegas…”
“Pois olha, eu estava no quentinho! E no bem bom!”, continua a
segredar o Joaquim, revelando mesmo um certo ar de refastelado.
Ao lado dos homens, viajava pacatamente Argentina. A solteirona da
cena. E trabalhadora no Escritório da Câmara lá da Capital. E ao ouvir os
entre-dentes daqueles dois, especialmente ao se aperceber do passatempo do
Joaquim, benze-se e tenta apagar da memória, alguma imagem do vizinho mais da sua
esposa, em actividades libidinosas. “Era a isso então, que se dedicavam,
aqueles desavergonhados?” Pensava a Argentina, bem seca de carnes e de
sentimentos. “E depois era uma dor de alma ver tantos cachopos, todos em
carreirinha, pelas ruas. Com muita fome e de narizes ranhosos. Passassem eles o
tempo a rezar o terço que valia bem mais a pena”. Concluía assim tão desditosa
senhora.
Bem, tudo isto para dizer, que se a intenção era disfarçar, provocando
um apagão da electricidade sempre que os amantes se encontravam, tal não me
parece ser uma máscara lá muito válida. É que com a continuidade daqueles
apagões, mesmo a hora diferentes e em dias desencontrados, o mais previsível
seria, toda a gente começar para ali a desconfiar. E a fazer as devidas
ligações às visitas do estadista à sua amante. E a má-língua começaria logo, mal
alguém avistasse a ponta do nariz salazarento a assomar, cheio de tesão, para
fora da janela da viatura. Depois disso, dar-se-ia de uma forma concentrada na
comunidade, toda a sensação de choque e de horror. E de alguma inveja, no clube
de fãs. Porque os há sempre.
Mas e procedendo assim? Não seria então o próprio Salazar a pôr-se a
jeito de ser descoberto? Ou não era? E depois, seria Salazar também algum
exibicionista? Bem, só falta mesmo, é alguém ter-se
lembrado de dizer, que certa noite o conseguiu ver todo nu, a arrastar a sua
portentosa genitália, pela floresta fora. E a tocar em simultâneo, um conjunto
de guizos. É que só falta mesmo isso…
Sugestão de leitura para esta semana: As Máscaras de Salazar” de
Fernando Dacosta. DIVIRTAMSEMAZÉ!

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