Era eu ainda menina e moça,
quando me ocupava da recepção de um modesto porém muito emblemático Museu. Isto
apenas nos dias em que os simpáticos funcionários folgavam. Ou seja, nos Domingos e
em alguns feriados. E nos dias em que os outros trabalhavam, ocupava eu um lugar
numa Universidade deste país. A dedicar-me a estudar vidas passadas.
E naquelas longas tardes de
Estio, em que estava de guarda no supracitado Museus, eu fazia-me também
acompanhar dos melhores amigos. Ou seja, Livros, jornais e Revistas. Mas também de
uma ou outra pessoa idosa que por lá calhasse a passar e necessitasse (tal como
eu) de companhia. E eram mesmo muitos, naqueles idos anos noventa, os
velhotes que permaneciam aos Domingos pela freguesia que também lhes servia de
residência. E como eu passei muitas tardes bem passadas. Não mentes perversas. Eu
não mantive com nenhum deles, nenhuma tórrida e louca paixão. Não. Os maganos
tinham todos idade para ser meus avós. Além de que nem eles eram pedófilos, nem
eu me seduzia pelas artes obscuras da gerontofilia. Éramos amigos, e pronto.
Naquela tarde de Agosto, tive por
companhia o Senhor E. Senhor bem composto, de boas maneiras e facilitadas
falas, mas também um exímio seguidor na linha dura do Lenine. E qual é que era,
um dos grandes amigos, deste meu amigo octogenário? Quem sabe se não o maior?
Pois era mesmo o Jornal do Avante.
E sentados que estávamos os dois,
num banco de jardim, bem colocado à entrada do dito Museu, o meu amigo E. saca
do periódico marxista, órgão oficial da imprensa escrita do seu bem-amado
partido e diz-me: “Olha rapariga. Tu lê isto. É que aqui está contida toda a
verdade. E tudo aquilo que toda a gente deveria de saber. Para se poder mudar o
rumo, que o mundo perigosamente está a tomar”.
Eu confesso, não sigo, nem nunca
me senti seduzida pelas linhas orientadoras do partido da foice e do martelo. Jamais
acreditei nelas. Respeito-as e integro-as num espaço e num tempo de
características muito próprias.
Contudo se ele me estava a ceder
o jornal, do seu coração, aquilo que ele mais gostava de ler, (pois nada daquilo
se incompatibilizava com o curso dos seus próprios pensamentos), eu peguei no
dito jornal e “li”. E como eu “li” tudo aquilo, senhores!
Eu “li” todas as notícias que ali
vinham escarrapachadas. Só que não o fiz do modo mais convencional e esperado. Qual
quê? É que a tarde tinha que ser divertida não só para mim, como para aquele
dilecto e pouco convencional amigo.
E naquela tarde eu “li que Álvaro
Cunhal, havia comprado um belíssimo Porsche da cor das cerejas. Esse que fora sempre o carro da minha adoração. E já instalado no Porsche, o muito contente Álvaro Cunhal
foi fazer umas compras para a cadeia de lojas Yves Saint Lourent. Ali adquirira as
últimas modas, que lhe assentavam todas muito bem. E depois fora com a sua
escultural namorada passar umas férias, para a Riviera Francesa.
Depois também “li”, que o muito participativo António
Dias Lourenço, havia ido muito decididamente, comprar uma pochete nas lojas
Valentino. E depois de uma apuradíssima escolha, ele decidira-se por uma de cor
bordeaux. Toda debruada com pérolas negras da Rússia. Essa pochete ficava-lhe também muito bem. Combinava
na perfeição com a sua tez morena. E depois disso, muito orgulhoso, Dias
Lourenço foi no seu avião particular para os Estados Unidos. Iria assim
assistir à entrega dos Óscares.
Por fim, eu ”li”, que a simpática
deputada Odete Santos, havia ido fazer uma intervenção cirúrgica a Moscovo.
Tratava-se de uma operação para lhe retirar alguma da "pelanca" sobrante, assim como
também remover alguma da gordura que lhe estava mais localizada. E a operação havia conhecido um verdadeiro sucesso. É que depois, com a Dra. Odete já totalmente restabelecida, ela viveria uma escaldante
relação amorosa com o jovem e esbelto cirurgião. O mesmo que lhe fizera as reparações. Que era também muito belo e
simpático. E depois juntos, e de mãos dadas, eles foram esquiar para as famosas estâncias da Sibéria.
Escusado será dizer que tanto eu
como o meu amigo, nos rimos que nem uns perdidos. Sempre com ele a dizer-me,
que tais notícias não podiam constar em tão sério Jornal. “É que não podiam mesmo”,
dizia ele entre o divertido e o algo exaltado. É que aquele era o Jornal do Avante,
não era nem a Caras, nem a Holla. Além disso as personalidades que eu citara, tinham
vidas muitíssimo mais recatadas e humildes. E a todo o momento, E. pedia-me a restituição
do Jornal. Só que eu, negava-lhe sempre a entrega. Protelei-a o mais possível.
É que eu tinha ainda que “ler” mais. Achava eu que o relato de tão preciosos acontecimentos,
não podia acabar por ali. Afinal não fora mesmo o Senhor E. que tanto insistira
para eu ler tal periódico? Para eu aprender? Por fim, e aproximada que estava a hora
do encerramento do Museu, eu entreguei-lhe o Jornal, dizendo-lhe:
“Veja lá então com os seus próprios
olhos, senhor. Será então capaz de negar a veracidade de uma palavra sequer, das que eu
prá aqui tão dedicadamente lhe estive a “ler” Vá! Veja lá se é capaz?” E foi
então que E. pondo a mão no bolso da camisa, muito amargurado me respondeu:
“Ora bolas! Esqueci-me dos óculos
para ler ao perto”. E muito eu me ri mais uma duzia de velhotes que também por ali estavam sentados.
Aquela foi efectivamente uma
tarde memorável. E na melhor das companhias. Com muita risota à mistura. E mesmo
no finalzinho da mesma, aquele meu amigo, disse-me uma coisa que eu jamais
esquecerei:
“Sabes rapariga. Foi também para
isso que nós lutámos. Para tu poderes estar aqui a falar de quem te vier à
cabeça. Sem teres medo de ser aprisionada. E depois seres torturada. E isto, apesar de me estares para aqui a torturar a mim”.
E é bem verdade isso que ele me
disse. Nesse aspecto eu estou absolutamente grata a todos aqueles que lutaram
para que eu e toda a gente possamos falar livremente. Também já não nos resta muito mais. E assim ler, tudo aquilo
que nos der na real gana. Um obrigado eterno a todos esses lutadores. Pertençam
eles aos quadrantes políticos que pertencerem.
Sugestão de leitura para esta
semana: “Manifesto do Partido Comunista”
de Carl Marx.
DIVIRTAMSEMAZÉ!
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