Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sábado, 8 de fevereiro de 2014

A três pulos.




Era eu ainda menina e moça, quando me ocupava da recepção de um modesto porém muito emblemático Museu. Isto apenas nos dias em que os simpáticos funcionários folgavam. Ou seja, nos Domingos e em alguns feriados. E nos dias em que os outros trabalhavam, ocupava eu um lugar numa Universidade deste país. A dedicar-me a estudar vidas passadas.
E naquelas longas tardes de Estio, em que estava de guarda no supracitado Museus, eu fazia-me também acompanhar dos melhores amigos. Ou seja, Livros, jornais e Revistas. Mas também de uma ou outra pessoa idosa que por lá calhasse a passar e necessitasse (tal como eu) de companhia. E eram mesmo muitos, naqueles idos anos noventa, os velhotes que permaneciam aos Domingos pela freguesia que também lhes servia de residência. E como eu passei muitas tardes bem passadas. Não mentes perversas. Eu não mantive com nenhum deles, nenhuma tórrida e louca paixão. Não. Os maganos tinham todos idade para ser meus avós. Além de que nem eles eram pedófilos, nem eu me seduzia pelas artes obscuras da gerontofilia. Éramos amigos, e pronto.
Naquela tarde de Agosto, tive por companhia o Senhor E. Senhor bem composto, de boas maneiras e facilitadas falas, mas também um exímio seguidor na linha dura do Lenine. E qual é que era, um dos grandes amigos, deste meu amigo octogenário? Quem sabe se não o maior? Pois era mesmo o Jornal do Avante.
E sentados que estávamos os dois, num banco de jardim, bem colocado à entrada do dito Museu, o meu amigo E. saca do periódico marxista, órgão oficial da imprensa escrita do seu bem-amado partido e diz-me: “Olha rapariga. Tu lê isto. É que aqui está contida toda a verdade. E tudo aquilo que toda a gente deveria de saber. Para se poder mudar o rumo, que o mundo perigosamente está a tomar”.
Eu confesso, não sigo, nem nunca me senti seduzida pelas linhas orientadoras do partido da foice e do martelo. Jamais acreditei nelas. Respeito-as e integro-as num espaço e num tempo de características muito próprias.
Contudo se ele me estava a ceder o jornal, do seu coração, aquilo que ele mais gostava de ler, (pois nada daquilo se incompatibilizava com o curso dos seus próprios pensamentos), eu peguei no dito jornal e “li”. E como eu “li” tudo aquilo, senhores!
Eu “li” todas as notícias que ali vinham escarrapachadas. Só que não o fiz do modo mais convencional e esperado. Qual quê? É que a tarde tinha que ser divertida não só para mim, como para aquele dilecto e pouco convencional amigo.
E naquela tarde eu “li que Álvaro Cunhal, havia comprado um belíssimo Porsche da cor das cerejas. Esse que fora sempre o carro da minha adoração. E já instalado no Porsche, o muito contente Álvaro Cunhal foi fazer umas compras para a cadeia de lojas Yves Saint Lourent. Ali adquirira as últimas modas, que lhe assentavam todas muito bem. E depois fora com a sua escultural namorada passar umas férias, para a Riviera Francesa.
Depois também “li”, que o muito participativo António Dias Lourenço, havia ido muito decididamente, comprar uma pochete nas lojas Valentino. E depois de uma apuradíssima escolha, ele decidira-se por uma de cor bordeaux. Toda debruada com pérolas negras da Rússia. Essa pochete ficava-lhe também muito bem. Combinava na perfeição com a sua tez morena. E depois disso, muito orgulhoso, Dias Lourenço foi no seu avião particular para os Estados Unidos. Iria assim assistir à entrega dos Óscares.
Por fim, eu ”li”, que a simpática deputada Odete Santos, havia ido fazer uma intervenção cirúrgica a Moscovo. Tratava-se de uma operação para lhe retirar alguma da "pelanca" sobrante, assim como também remover alguma da gordura que lhe estava mais localizada. E a operação havia conhecido um verdadeiro sucesso. É que depois, com a Dra. Odete já totalmente restabelecida, ela viveria uma escaldante relação amorosa com o jovem e esbelto cirurgião. O mesmo que lhe fizera as reparações. Que era também muito belo e simpático. E depois juntos, e de mãos dadas, eles foram esquiar para as famosas estâncias da Sibéria.
Escusado será dizer que tanto eu como o meu amigo, nos rimos que nem uns perdidos. Sempre com ele a dizer-me, que tais notícias não podiam constar em tão sério Jornal. “É que não podiam mesmo”, dizia ele entre o divertido e o algo exaltado. É que aquele era o Jornal do Avante, não era nem a Caras, nem a Holla. Além disso as personalidades que eu citara, tinham vidas muitíssimo mais recatadas e humildes. E a todo o momento, E. pedia-me a restituição do Jornal. Só que eu, negava-lhe sempre a entrega. Protelei-a o mais possível. É que eu tinha ainda que “ler” mais. Achava eu que o relato de tão preciosos acontecimentos, não podia acabar por ali. Afinal não fora mesmo o Senhor E. que tanto insistira para eu ler tal periódico? Para eu aprender? Por fim, e aproximada que estava a hora do encerramento do Museu, eu entreguei-lhe o Jornal, dizendo-lhe:
“Veja lá então com os seus próprios olhos, senhor. Será então capaz de negar a veracidade de uma palavra sequer, das que eu prá aqui tão dedicadamente lhe estive a “ler” Vá! Veja lá se é capaz?” E foi então que E. pondo a mão no bolso da camisa, muito amargurado me respondeu:
“Ora bolas! Esqueci-me dos óculos para ler ao perto”. E muito eu me ri mais uma duzia de velhotes que também por ali estavam sentados.
Aquela foi efectivamente uma tarde memorável. E na melhor das companhias. Com muita risota à mistura. E mesmo no finalzinho da mesma, aquele meu amigo, disse-me uma coisa que eu jamais esquecerei:
“Sabes rapariga. Foi também para isso que nós lutámos. Para tu poderes estar aqui a falar de quem te vier à cabeça. Sem teres medo de ser aprisionada. E depois seres torturada. E isto, apesar de me estares para aqui a torturar a mim”.
E é bem verdade isso que ele me disse. Nesse aspecto eu estou absolutamente grata a todos aqueles que lutaram para que eu e toda a gente possamos falar livremente. Também já não nos resta muito mais. E assim ler, tudo aquilo que nos der na real gana. Um obrigado eterno a todos esses lutadores. Pertençam eles aos quadrantes políticos que pertencerem.
Sugestão de leitura para esta semana: “Manifesto do Partido Comunista” de Carl Marx.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


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