Não sei muito bem porquê, mas gosto de ilhas. Mas de ilhas distantes. Gosto da sensação de se estar p’rá ali, no meio do mar e sem outras terras como horizonte. Sentir todo aquele isolamento!... E como será viver uma grande tempestade, na Ilha do Corvo, por exemplo? Mas depois (e passados alguns dias), eu vivo algo contraditório com este meu gosto. É que reavaliada a situação eu gosto de saber que a minha presença nas ilhas é temporária. Que tenho o meu dia de regresso mapeado. É que passado algum tempo, não é para mim muito confortável, saber-me num espaço diminuto. Sentir-me um pouco como uma “prisioneira” de um pedaço de terra muralhado a toda a volta…pelo mar. Sentir-me assim tão cativa, começa a fazer-me… alguma confusão. E eu que nem sei nadar!… Resumindo, pode-se dizer que eu gosto de ilhas, só que gosto delas para as visitar. Não gostaria de residir numa.
Mas o meu pensamento de hoje vai para uma viagem, que eu fiz há alguns anos, à Ilha de S. Miguel, Açores. Foi exactamente numa altura, em que na cidade de Ponta Delgada, decorria um Seminário de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas. Como sabem eu faço parte da primeira espécie aqui referenciada. Mas e em minha defesa, (ou melhor, para denegrir ainda mais um pouco, a minha imagem), eu tenho a dizer que o dito Congresso não foi propriamente a minha primeira motivação para fazer a viagem. Nem sequer a 13ª hipótese. E olhem que quem diz a verdade…
Sei que se aprende sempre muita coisa nos ditos congressos. Mas existem também, algumas apresentações que eu considero bastante “secantes”. Como as de algumas pessoas que arrogantemente nos vêm dizer, que descobriram a pólvora da Biblioteconomia. Que acham mesmo, que antes de suas existências, as Bibliotecas eram residuais e pouco importantes. Alguns até devem achar, que antes deles, as bibliotecas nem sequer existiam enquanto tal. Desculpem-me lá a franqueza.
Ora eu estava ali. Naquela terra tão desconhecida para mim. Pelo que, do Seminário, eu assisti ao que potencialmente mais me poderia agradar (que foi muito pouco, lamento), e desbravei totalmente as brumas daquela Ilha. Apercebi-me que para isso, não seria necessário muito tempo de permanência. Pelo que considero que vi grande parte da mesma, nos sete dias que ali estive.
No avião que me levaria até tais paragens, deu-se a situação que eu considero como a mais rocambolesca, que eu vivi em idênticas circunstâncias. Lá em cima viajava-se na mais perfeita tranquilidade. Depois de algum tempo, houve um ou outro ponto em que ocorreu alguma turbulência, mas positivamente nada digno de nota. Eu que ia na companhia de alguns amigos. Mais ou menos a meio da viagem, vinha muito descansadamente e pela vigia abaixo, um senhor já com alguma idade, que me pareceu estar vestido à Comandante. E vinha ali com um ar todo lampeiro. Mas depois e sem que nada o fizesse prever (pelo menos para a minha consideração de leiga), o homem vira-se e desata literalmente a correr pelo corredor fora em direcção ao cockpit.
Lindo! Essa foi efectivamente uma imagem muito tranquilizadora! Até mesmo para mim que não tenho medo nenhum de andar de avião. Que até quando vejo um no ar, fico embasbacada a olhar para ele. Às vezes chego mesmo a mandar-lhe… um beijinho.
Passado muito pouco tempo, depois de tão comovedora cena, começa-se a ouvir pelos transmissores, numa voz algo fanhosa: “Informamos toda a tripulação e mais os senhores passageiros, que o avião está com uma pequena avaria num dos motores. Temos a intenção de reparar a dita, mal consigamos aterrar no Aeroporto de Ponta Delgada”.
Muito emocionante, não é? Mas, olho para todos os lados e verifico que ninguém, mas mesmo ninguém, pareceu dar qualquer importância, àquilo que fora dito. “Estaria eu a delirar?” Pensei para os meus botões e mais fechos éclairs. Às vezes isso pode acontecer, não é? Ainda mais quando estamos a tão grande altitude! Mas depois olho mais para trás e vejo que a minha amiga J. estava imensamente pálida. Ela, tal como eu parecia estar muito assustada, com tão oportuna narração. Mas de resto estava toda a gente, e muito sinistramente, calma com o que ali fora dito. Mais parecia que nem sequer tinham ouvido. Eu, enfim… entreguei a causa a Deus. Que fosse o que Deus quisesse. É nestas alturas (e como que por milagre), que altos níveis de religiosidade vêm ao de cima. E lembramo-nos muito, do teor das nossas aulas da catequese.
Mas decididamente, eu não conseguia deixar de pensar naquilo. Para mim isso era inevitável. É que avaliando bem as coisas, que necessidade tínhamos nós, de saber da ocorrência de tal avaria? É que aparentemente, nenhum dos passageiros estava capacitado para proceder àquela reparação. Ainda mais, e mesmo que um de nós fosse um exímio mecânico de aeronaves, não me parece que fosse humanamente possível proceder à dita reparação… em pleno voo. Encostado a uma nuvem, por exemplo. Se calhar, seria conveniente encostar à berma, sei lá? Pensando bem, será melhor fazer essa pergunta, à minha amiga Guiduxa. Ou então… aconselhar-me com o Mitt Romney.
E depois lá continuei a pensar. Eu, aqui confesso… sou algo propensa a essa tão complexa actividade. E pensei em todos aqueles voos, que infelizmente resultam em desastres, que vitimam todos os seus ocupantes. Imaginei que os mesmos, antes de terem subido “lá para o andar de cima”, podem ter sido, devidamente informados sobre a real dimensão da avaria. E sobre aquilo que os tripulantes esperariam ainda conseguir fazer. Mas depois… viria o silêncio. Sei que é um assunto muito sério e delicado. Nada divertido mesmo. Mas eu questiono-me: o que é que se ganha em ter tanta informação à hora de se “desencarnar"? Penso que só mesmo… uma crise suplementar de nervos. Será que o sonho daquele comandante do voo para os Açores, era o de anunciar a alguém que o “fim da linha” estava próximo? Sugerir assim, que nos arrependêssemos de todos os nossos actos tresloucados. E pedíssemos à Divina Providência, misericórdia e compreensão. Assim como… um lugar cativo e de preferência com boas vistas? E com boa vizinhança…? E seria o tal piloto… Testemunha de Jeová? Ou Adventista do Sétimo Dia? Ou então um dos Últimos Santos?
Eu que felizmente não tinha medo de andar de avião, também não fiquei com receio especial a partir daquele dia. Contudo eu tenho aqui que confessar uma coisa, vocês merecem: Quando finalmente, eu pisei o solo açoriano, apeteceu-me fazer o mesmo que o papa, quando chega a um país pela primeira vez. Tive vontade de me ajoelhar e de beijar aquele chão sagrado e sem sacudidelas desnecessárias. Beijar embevecidamente aquele alcatrão da pista com pedras e tudo. Acho que também não devem de andar por ali muitos cães, a fazer as suas necessidades.
Passada esta tão bela abertura de cena, a permanência naquela Ilha, foi bastante boa. E que bem que se come por aquelas paragens! Recusei contudo provar tubarão. Já bem basta os tubarões desta sociedade. Aqueles que querem ficar com todo o nosso dinheirinho! Sacrifiquei-me assim, e renunciei a tal pitéu. Esperando que um parente qualquer, daquele tubarão sacrificado (e que alguma vez se cruze comigo), tenha a mesma atenção que eu tive, para com o seu familiar. Por mim era até escusado pescarem-se tais criaturas. Eles que até nadam tão felizes, pelo Oceano a fora… Com os seus dentes cortantes, mas exibindo caras sempre tão sorridentes! E como eu me lembro da simpatia do Bruce, que era aquele tubarão do filme: “À procura de Nemo”, dos Estúdios da Pixar!... Que Tubarão tão simpático e tão politicamente correcto! A falar com os outros peixinhos, a quem ele chamava carinhosamente de… Migalhitas: “Como é que estão as minhas Migalhitas?” Dizia ele sempre a sorrir. E depois gargalhava. Tão querido, que era aquele bichinho! Sempre tão esforçado para se tornar… vegetariano. E como eu o compreendi e tanto o quis imitar. Deixar definitivamente de me alimentar de carne… Só que depois, tive que me render à evidência da minha fraqueza. Quando por exemplo estou defronte: de belos enchidos, de Arroz de Pato e de Cozido à Portuguesa… E por isso, quem é que no seu perfeito juízo, poderá jurar que não vai cometer o pecado da gula?
Já na cidade capital, e num bar, houve um simpático senhor, que eu nunca conhecera mais gordito, que me ofereceu um copo de Vinho de Cheiro. Eu que até sou apreciadora da bebida de Baco. Mas como convém, bebo moderadamente. Porém ainda bem que aquele senhor teve aquela gentileza para comigo. Assim eu não tive que gastar um cêntimo numa bebida que verdadeiramente, eu não apreciei.
Já instalados num simpático, porém modesto hotel, nós decidimos comprar duas viagens, onde se incluíam visitas guiadas aos locais mais emblemáticos da Ilha. Quem nos guiaria, seria uma simpática senhora, que nos chamava a todo o momento de colegas, pois tal como nós, era também licenciada em História. No curioso grupo que se conseguiu formar, faziam parte duas mulheres (que eram mãe e filha). Elas tinham as suas origens nos Açores. Eram luso-descendentes e viviam nos Estados Unidos da América. Só que lamentavelmente nem uma nem outra falavam uma única palavra de português. A mais velha dizia que tinha ido para a América quando era ainda muito pequena. A sua filha, naturalmente já lá havia nascido.
E tudo poderia ter corrido muito bem, não fora o facto das mesmas serem altamente desconfiadas e acharem que se a guia não falasse somente em inglês, era porque estávamos… a gozar com elas. Tudo bem! O inglês é uma das línguas mais faladas do mundo. A primeira mais falada é o mandarim… Contudo a língua oficial de Portugal… é o português. Ou melhor, era. Porque agora eu acho que mudámos para … o Acordês. Só que as senhoras insistiam. Queriam que se falasse somente em inglês. Elas que deviam de achar, que todos aqueles nossos constantes risos eram muito… suspeitos e despropositados. No início, elas ainda contaram com todo o nosso respeito e consideração. Mas depois, não. É que sendo aquelas senhoras tão chatas e antipáticas, acabaram mesmo por ser, o motivo de toda a chacota. Foram elas que com a sua tão “original” forma de estar, acabaram por “cavar” a sua própria desdita. E a gargalhada ali, foi uma constante. E mais: posso dizer que não sentimos com isso, qualquer tipo de arrependimento. Mas esta história terá que continuar para a semana.
Sugestão de leitura: “Mau tempo no Canal” de Vitorino Nemésio.
Esta expressão já foi ouvida por toda a gente, pelo
menos uma meia dúzia de vezes. A frase, como todos bem sabemos, fala de um
exagero inusitado e absolutamente contraproducente, atendendo ao facto de que muitas
vezes… o que está estabelecido, já se basta por si. A pessoa tem um cargo, uma identidade
e uma função. Mas, e depois há sempre aquele que a supera, para se fazer… de
bonito e perdoe-me, até de falacioso, grosso modo. O papa, sendo um líder
espiritual e carismático, é alguém necessariamente parcial, pois representa somente uma
facção da realidade. Contudo e na defesa das suas ideologias ele tem contado sempre,
com gente que ainda é mais… fundamentalista do que ele próprio. Isto seguindo uma
via… absolutamente despropositada. O mesmo se passa com o nosso país, que vive já há
algum tempo, num plano de resgate para todos os efeitos suicidário. A situação
da Grécia (e infelizmente) comprova essa teoria. Como é do conhecimento geral e
planetário, tivemos que mandar vir gente de fora para fazer as contas por nós.
E governar assim a “nossa casa”. Tudo porque os que deveriam de ter feito isso,
das duas, três: ou se desresponsabilizaram de todo o processo, ou usaram-se da
causa pública em benefício próprio. Ou então, parecendo-se bem-intencionados, mostraram-se
a posteriori seres absolutamente
incapazes para proceder às necessárias reformas e dinâmicas que nos guiariam, a
um bom nível de desenvolvimento sócio/económico e político eficaz. Mas pronto, internamente
não se conseguiu, pelo que teve que vir gente de fora para nos acertar a
contabilidade. Chegados cá, e usando de toda a propriedade do mundo,
eles conseguiram dar-nos verdadeiras lições de como se pode… viver com muito pouco. Mas
não se pode... é investir em nada. E depois teremos que pagar, toda a nossa imensa
dívida, com taxas de juros absolutamente incontroláveis. Mas isto estou eu para
aqui a dizer. Eu que sou uma leiga na matéria. Nem sequer sou das áreas das Economias.
Só que gosto muito, é de pagar as minhas continhas. E atempadamente. Ora agora e desde o início deste resgate, é de bom-tom
o governo lusitano, assumir-se como sendo “mais papista que o papa”. E neste
processo, claro está, não entra qualquer religião, só mesmo a do vil capital. E
nós… vivemos assim… na mais profunda alegria. E muito exultantes. É que os
senhores da Troika, de tempos a tempos, vêm-nos cá visitar. E vêm sempre muito
sorridentes e dinâmicos. Nas suas pastinhas, eles devem de trazer apurados
estudos financeiros. E mais contas, muitas contas. Devem de transportar com
eles, verdadeiros tratados sobre tudo aquilo que eles esperam de nós. Eles que
são uns crentes, ou melhor… se calhar, eles até fingem que acreditam. Depois de
(bem, espera-se) instalados, eles arregaçam as mangas e põe-se a “bisbilhotar” em
tudo. E que contentes, eles parecem ficar!.. Por fim chega a vez de eles
lançarem os seus “bitaites”. E transmitem-nos as desditas com os seus dentes a
brilhar: “Portugueses. Para conseguirem pagar os empréstimos
que nos requereram, vocês têm que cortar as vossas unhas… muito rentes!” Contudo o nosso sacrossanto governo, ouve muito embevecido
tais conselhos. Ficam inclusivamente com os olhos lacrimejantes de tanta emoção. E muito
determinados, eles expõem por sua vez: “Quais unhas rentes, qual quê? Beneméritos e muito
capazes Senhores da Troika! Nós estamos aqui para vos agradar somente. E para
demonstrar o nosso tão grande amor pelas vossas pessoas, nós vamos obrigar o
nosso povo, que (des)governámos, durante toda a vida, a cortar as falangetas. É
que o povo pode perfeitamente sobreviver, mantendo somente dois terços dos dedos”. Mas depois e passados somente algumas horas, os tais
dos bons alunos do presente, mas que foram cábulas e muito ineficazes no
passado, contra-argumentam dizendo, que podemos até fazer mais. É que até conseguiremos
sobreviver, com os braços. Decepando totalmente… os próprios… punhos. E nós, que somos simplesmente a “raia miúda” andamos
para aqui todos em bolandas. Rezamos à Senhora de Fátima. E depois pomo-nos a
apontar culpas. E auto-flagelamo-nos (apesar de alguns de nós, ainda conseguirem
ter as contas… relativamente em dia). Depois, vêm todas as teorias provenientes
das cabeças iluminadas, dos mais celebres pensadores lusitanos. Muitos deles
que no passado, também já estiveram no “poleiro”, mas só agora é que vêm com as
suas soluções mágicas… sempre tão adiadas. Outros preferem enveredar pela teoria derrotista de
que já não há nada a fazer… Mais parecem aves de rapina. Sempre a mirar-nos com
os seus olhares cortantes. E que põe sempre as culpas… nos mesmos. Só que a
desgraçada da culpa… morrerá sempre solteira. Assim, haverá uma altura em que nada mais poderá ser feito, pois o doente que é Portugal, morrerá com tamanha
cura de emagrecimento. E aí já nem haverá ovo nenhum, para se poder mandar às
instalações do FMI em Lisboa. Mas o governo insiste em continuar com esta
escalada de destruição maciça, deste país sénior de 869 anos. País que começou
logo mal, já que surge como resultado da luta efectiva e corporal de um filho,
que teve a coragem de bater na sua pobre mãe. A tal senhora que devia de ser
uma visionária. Ela também e na altura, já não devia de ter muitas esperanças,
nisto. E meus amigos, tudo aquilo que nasce torto… Mas sabendo disto tudo, lá se continua a cair no mesmo
erro crasso e a embarcar na necessidade de se ser um “bom aluninho”. Ficar no
quadro de honra… da desgraça. E achar que se fica muito bem na fotografia. Mas
haverá algum benefício em se ser bom aluno, sem que se tenha mérito para isso?
Ou seja, querer parecer um bom aluno, quando efectivamente nunca se conseguiu demonstrar,
ser sequer um aluno aplicado. É que isso nunca se conseguiu…? Sinceramente… a mim
parece-me que não. Mas eu positivamente não percebo nada destas coisas. Estudei Passados, Culturas e Acontecimentos. E não fiz lá muitas contas. Nem de somar,
nem de sumir. Mas será que existirá algum benefício, em se querer ultrapassar o
estipulado à partida e atendendo às presentes circunstâncias? E será que isso
funciona somente no campo da economia? Sugiro que aprendamos um pouco… com as vivências. Hoje venho aqui relatar uma estória de alguém que quis
imitar o Passos Coelho, num particular. Essa pessoa quase que usou o Primeiro-Ministro,
como seu verdadeiro mentor espiritual. Usando como imagem de eleição, a ligação
extremosa e tão comovente do nosso líder governamental e dos seus colegas, aos
Senhores da Troika. Maria Inês trabalha numa Biblioteca Pública. Tem
trinta e picos anos. É solteira e muito boa profissional. Ela é muito esforçada e tem o prazer efectivo, de dar o seu melhor no seu desempenho profissional. A
Biblioteca onde trabalha é de pequena dimensão, pelo que tem a trabalhar com
ela, somente um outro técnico profissional. Têm mais ou menos da mesma idade um do
outro. Ele é também bastante esforçado e competente. Porém às vezes, é algo
ranzinza, mas não faz isso por mal. É já dele mesmo, ser assim. Ora os dois, que já são colegas faz algum tempo,
partilham um espaço, uma amizade e o gosto de receber bem os leitores que ali tomam
o seu assento. Necessariamente que estes dois já construíram uma boa e salutar…
cumplicidade. Só que a Inês tem um pouquinho de peso a mais. E tal situação
perturba-a de alguma maneira. Pensa na estética, mas também pensa na saúde. E
queixa-se por vezes disso à sua superior hierárquica. Lamenta-se, dizendo que o
diabo da gordura em excesso se junta toda, ou na parte superior dos braços, ou nas
coxas ou então na barriga. E para demonstrar essa sua teoria, ela chega a
levantar-se da cadeira, para mostrar o seu volume, que não é assim tão grande
como ela pensa. A extremosa chefe que é muito boa pessoa é também uma
excelente e muito assertiva profissional, olha para ela. Depois tenta conforta-la
dizendo-lhe que não se deve de martirizar muito com o peso que tem a mais. Porque
até considera que Inês está muito bem assim. E quando a líder fala assim, ela fá-lo
de coração e usando da sua mais profunda sinceridade. A Inês talvez finja
acreditar. É que passado pouco tempo, ela lá continua com as suas lamentações.
A chefe, já quase em desespero de causa e para demonstrar que não é com certeza
a única a pensar assim, chama o seu outro seu colaborador (que é homem), e
pergunta-lhe: “Oh Tiago. Você não acha que a sua colega está bem como está? Ela
que até consegue ser uma rapariga tão interessante? Consegue mesmo manter
tantos interesses?” E o mesmo não se fazendo rogado, responde prontamente: “Pois é claro que sim!” E para amenizar um pouco mais,
todo aquele ambiente de lamurias, ele lá continua: “Mas o que eu acho, é que ela deveria
de usar e abusar do uso de decotes. Usar decotes grandes, daqueles que chegam
facilmente… ao umbigo.” E agora atrevam-se lá a dizer que os homens são distraídos, na
observação destas coisas? É que a Inês enverga um bonito e generoso busto. É claro que tal paródia alegra sobremaneira aqueles
três. E a mais outros tantos, a quem se vai contando toda aquela alegoria. Só
que tudo indica que a Inês vai efectivamente ultrapassar-se em todos os seus
procedimentos. E mesmo na sua própria forma de vestir. Foi ela mesma quem assim
o afirmou. Pelo que tudo indica, que quer o colega, quer os leitores daquela
biblioteca, e a breve trecho, serão presenteados com uma bonita e muito
entusiasmante imagem. É que a Inês mostrará não só, os seus bonitos seios, como
ainda (e lá mais para baixo), ela exporá um pequeno, porém muito vigoroso… tufo. Agora pensando bem e para concluir: não é propriamente
a nudez que gera transtorno. Até poderá alegrar (e em grande escala), as
hostes. O problema é que devido à exposição de tanta pele e com a ocorrência
das intempéries e correntes de ar, a Inês poderá perfeitamente contrair uma grave
pneumonia, que poderá colocar em risco… a sua própria existência. Sugestão de leitura para esta semana: “Peito Grande, Ancas Largas” de Mo Yan. DIVIRTAMSEMAZÉ!
PS: E não é que a União Europeia vai receber o Prémio
Nobel da Paz? Mas a que mais é que nós ainda iremos assistir?
Outra coisa: até parece que já estou a ver o Tiago a
cantar esta canção mal entra com sua colega para a Biblioteca. Isto, e com os
leitores embasbacados a olhar… Mas depois, e quando acaba a hora do expediente,
a canção é outra e em palcos distintos.
António Soares nasceu nos anos 40 na Beira Alta, numa
aldeia perto da cidade de Viseu. Tornou-se a seu tempo num rapaz muito forte. E
de mau génio, quando a vida assim o exigia. Criado no meio das fragas e
pastoreando duas dúzias de ovelhas, António soube desde sempre, que o pão custa
muito a ganhar. Mas depressa chegou aos vinte anos. E ir para África foi o seu
destino, assim como para milhares de rapazes da sua idade. Iria lutar numa
terra estranha, com gente que tal como ele, não sabia muito bem ao que ia. Teria
que matar homens, que ele nunca conhecera e que positivamente não tinha grande
motivo para odiar. Mas era preciso partir. O Estado Português assim lhe exigia.
Ia lutar pela manutenção do Grande Império Lusitano, já semi-rachado com a
Independência do Brasil no século XIX e com a anexação de Goa, à Índia já em
pleno século XX.
Na sua terra, António deixaria Maria que era a sua bem-amada.
Maria nem queria pensar no dia em que António sairia da aldeia para ir para a
Guerra Colonial. Mas os dois acharam que o amor deles era suficientemente forte
para durar, dois ou três anos de ausência de uma das partes do casal
apaixonado. Devido a essa certeza, acharam que era descabido formalizarem efectivamente
essa união. Teriam tempo de casar, quando António regressasse são e salvo de
Angola. O dia da despedida para aqueles dois foi absolutamente
angustiante. Na curva da estrada, muito aquele par chorou, abraçados um ao
outro. Maria aflita jurava ao seu prometido, amor eterno. António por sua vez
jurava que ia ter muito cuidado, e não se ia deixar abater lá nos matos
africanos. Mas sabia lá ele se regressaria algum dia? Sabia lá ela se ia tornar
a ver aquele rapaz/homem quase, quase a assumir funções de soldadito? Tudo indicava
que o amor dos dois iria resistir a tudo aquilo. E, já perto da hora da
passagem da camioneta da carreira, eles dão mais um abraço, dão mais três ou
quatro beijos, castos, para não escandalizarem quem para ali foi, também com o
intuito de se despedir de António. Como era o caso da mãe dele, já viúva e das
três irmãs, que ainda estavam solteiras. António havia-as proibido de o
acompanharem a Lisboa, para se despedirem dele, no cais da Rocha do Conde de
Óbidos. A guerra decorreu da maneira que António não conseguira
imaginar. A luta era constante e prostrara por terra, alguns dos seus
companheiros. António fez-se duro. De arma nos braços ele teve que matar para
não morrer. Ele teve que martirizar para reivindicar um estatuto inglório e
muito lamentável. Ele teve que ver aquilo que jamais quisera ter visto. E sabia
que, para todo o sempre ele iria recordar e sofrer continuamente com tais
memórias. Mas contrariamente a tudo o que era espectável em similares
circunstâncias, António ainda conseguiu sentir o fascínio de África. O tal
fascínio que tanta gente jura que existe, porque tal como António, também com
ele fora… inoculada. Porém António não esqueceu nunca, quem deixara na sua
aldeia. A sua querida Maria, que permanecia lá na terra à sua espera e do seu
amor. Fora ela quem assim lho afiançara. E ele não tinha nenhum motivo para
duvidar. Pelo que lhe escrevera todas as vezes que lhe foram possíveis, em
aerogramas de letra pequena onde não cabia a aproximação a uma milésima parte
do afecto que ele sentia pela namorada. Uma vez, conseguiu mesmo falar pela
televisão e por alturas do Natal. É claro que não se esqueceu de referir a mãe
e as manas. Mas o seu maior cuidado estava com a namorada. Fora o nome dela,
que ele primeiro proferira. Ela também lhe escrevera cartas (e amiúde), no
primeiro ano e meio em que o namorado esteve ausente. Mas depois as cartas
começaram a espaçar-se mais. E no último ano as cartas cessaram por completo e de
parte a parte. Mas o regresso também não estava longe e quando estivessem
juntos, falariam muitíssimo mais do que aquilo que as cartas e os aerogramas conseguiam
comportar. E lá passaram os dois anos e meio. Mas a sua
permanência ali, foi acrescida de mais oito meses, devido a penalização por prática
de acção lesiva às regras de conduta em casos tais. António que desde o início
da sua permanência em África, e no palco de guerra, riscava num calendário dia
a dia, todos os dias que passavam. E contava também os dias que ainda lhe
faltavam, para o seu regresso à Lusa Pátria. Teve que contar depois, mais 230
dias. E toda a sua permanência ali lhe parecera imensa. Três anos para ele
equivaleram a trinta. E nunca mais via a aproximação do seu regresso a casa.
Mas e a custo, lá chegou o tal dia abençoado. Ele sobrevivera sem mazelas. E
mais uma vez, fez toda aquela travessia, no Vera Cruz. Passados trinta e tal dias, depois de ter deixado solo
angolano, António pisou a terra sagrada da sua aldeia. A esperá-lo tinha umas
irmãs muito contentes, porém algo apreensivas e uma mãe rejubilante, mas algo
revoltada com alguma coisa, que António não percebeu de imediato. Depois de todos os abraços e de todos os beijos, António
foi informado (com todo o cuidado que a missão exigia), que Maria, o seu amor
imenso e tão afirmativo, estava já casada com o Arménio do Chico Sapateiro.
Como justificação, a moça alegara aos mais próximos, que sofrera muito com a
ausência de António, pois ela amara-o muito. E para espalhar melhor as suas
mágoas, ela usava e abusava dos ouvidos dos amigos e vizinhos. Mas usou especialmente
a audição e o ombro firme e solícito do Arménio, que na altura andava a
aprender a colocar devidamente… umas meias-solas. Ora toda aquela aproximação
fez com que aquele homem e aquela mulher se unissem mais, se amassem muito e até
encomendassem um herdeiro, antes do firmar do casamento. Maria foi para o
casório, com o buxo muito inchado e apertado num vestidinho cor de pérola. É
que a cor branca era impensável em tais circunstâncias à altura. António nem queria acreditar no que estava a ouvir. A
vida para ele parecia que terminava ali. Ele que não morrera na guerra parecia que
ia morrer em solo pacificado, às mãos de uma ingrata, impaciente e muito dada
mulher. E sem que ninguém visse, o António pôs-se a chorar. Chorou tanto como
nunca havia chorado na sua vida. Logo ele que acreditava que, homem que é homem
não chora. Mas ali teve mesmo que ser. Correu a serra. Trilhou caminhos do
passado que jamais esquecera. Repisou memórias até à exaustão. Sofreu os
horrores de um coração partido e enganado. Chorou depois e ainda um pouco mais,
mas por fim, lá reagiu. É que a vida para ele não podia acabar ali. Seria muito
injusto. Ele que andara na guerra, sujeito a todos os perigos e vinha agora
morrer por via de uma desapacientada e desnaturada mulher? Não. Isso não
poderia ser assim. Pelo que arribou (é que o tempo cura até os corações mais
empedernidos ou rachados), procurou novamente o amor e encontrou-o na pessoa da
Deolinda. Deolinda era também sua vizinha. Era cerca de seis ou
sete anos, mais velha que António. E ela, que até já perdera a esperança de se
casar! É que naqueles tempos, ficar solteira no meio rural era tramado!
Deolinda tinha como escolaridade, somente a terceira classe da instrução
primária. Tinha um irmão já casado e a viver em Lisboa. Agora ela já abeirava
os trinta. E devido à sua timidez e a alguma falta de glamour, nunca fora uma rapariga lá muito namoradeira. É claro que ela
sonhava encontrar um senhor, que a tirasse da casa dos pais e daquela aldeia. E
lhe proporcionasse uma vida, semelhante àquelas que ela às vezes ouvia relatar
na telefonia, quando calhava ir à Venda do Marchante e escutava o folhetim
radiofónico. Porém já quase trintona, via esse seu intento, cada vez mais longínquo.
Era habitual nas aldeias, que rapariga que ficasse solteira tinha como destino
mais provável, tomar conta dos pais até à morte daqueles. E depois continuar a tomar
conta dos seus parcos haveres, que regra geral eram compostos por uma casa
modesta, e uma courela de terra. Mas agora o António vivia aquele grande
desgosto. O amor da sua vida arranjara um substituto. E era a vez dele olhar
para o lado e ver que havia ali uma moça que o poderia acompanhar na aventura
que é a vida. E sem fazer muitas perguntas. Não se pode dizer que António se tenha apaixonado por
Deolinda. E a rapariga?… Bem ela gostava dele. Se não gostasse era-lhe mais
difícil aceitar o que a vida lhe estava a propor. Agora amar, ou sentir paixão?
Bem, a Deolinda não percebia lá muito dessas coisas. Mas António, que já sentira o tal fascínio por África,
decidiu lá regressar. E agora não ia para a frente de guerra, nem ia sozinho.
Ia tentar a sua sorte por lá e na companhia da sua agora esposa Deolinda. E os
dois deram-se bem por lá. Arranjaram condições para terem uma vida honesta e frutificante.
Foram também muito ajudados por outros portugueses que também lá viviam e lá
tinham organizado, toda a sua vida. Passado algum tempo, António e Deolinda tiveram uma
filha. E eram felizes. Só que passados alguns anos, dá-se o vinte e cinco de
Abril e a descolonização. António ainda chegou a pensar que a permanência dele
e da família que ele criara, ainda seria possível em Angola após a sua declarada
independência. Poderia passar perfeitamente, de português a angolano sem
grandes traumas. Mas depressa abandonou essa ideia, quando assistiu ao
encarniçar da luta armada e à expulsão em massa de quem nascera em Portugal ou
se consorciara com portugueses. Quer uns, quer outros eram ali personas non gratas. E sem trazerem
quase nada consigo, regressaram os três e de avião à agora ex-metrópole. O início da vida daquela família em Portugal não foi nada
fácil. Ter que recomeçar toda uma existência não é algo que se faça com
facilidade e de um dia para o outro. Mas, com uma ajuda daqui e outra dali,
eles instalaram-se num apartamento nos arredores de Lisboa. E… continuaram a
viver. A filha estudou, o António empregou-se numa grande empresa como
carregador. E a Deolinda ocupou-se da casa e da educação da filha. Dedicou-se também
à costura, reciclando os conhecimentos que ela havia adquirido quando ainda era
jovem e vivia na sua aldeia. E os anos passavam. Mas sem que nada o fizesse prever,
a Deolinda adoece. Tudo indica que a maleita que padece é da maior gravidade. O
diagnóstico que lhe fazem não deixa margem para qualquer esperança. E Deolinda
morre, deixando uma filha já adulta e um marido quase a abeirar o estado de
velhice. É óbvio que quer a filha, quer o pai, sofreram ali um profundo
desgosto. É que aquela família fora feliz à sua maneira. Deolinda aprendera a
amar e a respeitar até ao limite do impensável, aquele homem que a tirara de um
destino solitário. Aquela filha era a luz dos seus olhos e a razão da sua
existência. António, ao seu jeito, também se habituou ao que a vida lhe
possibilitara. Mas agora, ficou desolado com a perca sofrida e mais uma vez
chorou, mas desta vez, sem ter qualquer problema em ser visto. Passaram alguns meses e António regressa já reformado
à aldeia que o vira nascer. Era o tempo das colheitas e da festa do lugar. Sua
mãe entretanto havia morrido. Na aldeia ficara somente uma irmã, casada com um
homem de uma aldeia vizinha. As outras duas irmãs haviam também casado, mas
haviam emigrado para países europeus. E António visitou os locais da sua infância,
trilhou mais uma vez, carreiros que nunca esquecera. Cheirou aromas, que há
muitos anos não sentira, comeu petiscos já há muito esquecidos, mas agora
recordados. E… junto à Quermesse, no adro da igreja ele vê uma cara envelhecida,
mas com uns traços que lhe recordam alguém. Trata-se de uma mulher de estatura baixa
e toda vestida de preto. À cabeça trazia um lenço preto que lhe tapava um pouco
a face, mas António reconheceu-a. Era Maria, a sua amada do passado. E ali ele
pensou. Era tempo de reconstruir. E de usar os ensinamentos que a vida lhe dera.
Na velhice (como em qualquer outra etapa da vida), não é aconselhável, a manutenção
de ódios ou de demais querelas. Os anos vividos trazem-nos a capacidade, da
compreensão efectiva. E este era o tempo para António saber o que se passara de
facto. É que afinal, e vendo bem as coisas, ele não tinha motivos nenhuns para
estar revoltado com o curso da vida que trilhara. Fora feliz com Deolinda, de
quem tivera uma linda filha, que até já estava orientada… Se ele não tivesse constituído
família com Deolinda, jamais conheceria aquela que ele agora mais amava na
vida. Que era a sua descendente. E ali o António resolveu meter conversa com a
Maria. E soube que a Maria também já estava viúva há uns anos. Tivera dois
filhos. Hoje, sei que estão juntos. Matrimoniaram-se. Agora e
finalmente um com o outro. E são também muito felizes. É fantástico poder assistir
a estas circularidades da vida!... Sugestão de leitura para esta semana: “Eu Hei-de Amar uma Pedra” de António Lobo Antunes. DIVIRTAMSEMAZÉ!!!
O Plácido é só o meu tenor favorito. Mas com a
visualização deste vídeo eu tenho que concluir o seguinte: O magano do Plácido
está muito mais giro em velho, do que alguma vez foi em novo, não concordam? Na
volta ele tem a síndrome do Vinho do Porto. A velhice fez-lhe bem.
Maria Carlota gostava de rir. Maria Carlota gostava muito
de ler. Maria Carlota gostava muitíssimo… de viajar. Maria Carlota gostava ainda
mais de se divertir. Até aqui tudo bem. Mas Maria Carlota tinha necessariamente
que arranjar um emprego, pois não tinha riqueza pessoal ou familiar que lhe permitisse
sobreviver com dignidade… sem bulir. Maria Carlota tirou uma licenciatura em quatro anos.
Não fez como uns e outros, que adquiriram uma licenciatura só porque têm muita
experiência de vida. Em apenas um mês, eles conseguem com muitos créditos,
obter uma licenciatura, só porque são muito interventivos e dinâmicos. E que
grande experiência de vida eles devem de ter! É mais ou menos como a pescada,
ou seja: “Antes de ser, já a tinham e sabiam toda!” Mas não se pode dizer que Maria Carlota tenha perdido
muitas noites de sono, a estudar para tirar “o canudo”. Pois nunca fora daquelas
que mal chegavam a casa e se punham logo a estudar, revisando toda a matéria
que fora dada no dia. Não. O que Maria Carlota fazia era estudar somente nos
dias que antecediam as Frequências. E depois rezar ao Senhor para que esse seu
genuíno e muito apurado esforço… bastasse. E bastou, com notas muito medianas,
mas todas acima dos 14 valores. Saída da Faculdade, havia que procurar emprego. Os
pais não a obrigaram a aceitar o primeiro emprego que aparecesse e que pudesse por
definição ser o menos adequado para a “senhora dona marquesa”. Mas a
licenciatura estava conseguida. Aquilo que aparecesse apareceria, sem grandes
traumas ou stresses violentos. E foi efectivamente… o que aconteceu. Maria
Carlota foi feliz como recepcionista em lojas e museus. Mas também foi muito
feliz a secretariar alguns dos Professores Doutores mais influentes da nossa
praça. E para não variar muito, foi feliz a fazer estágios nas mais variadas
instituições. Mas por fim, lá lhe apareceu a possibilidade de fazer um estágio,
que seria realizado numa Biblioteca Pública. E Maria Carlota nem queria acreditar na sorte que
estava a ter. Não que andasse noite e dia, e com uma lanterna na mão à procura
de um emprego capaz. Simplesmente aproveitava todas as oportunidades que chegavam
até si. Não tinha por isso, qualquer problema em trabalhar onde quer que fosse.
No entanto aquele estágio a executar numa biblioteca superava todas as suas
espectativas. É que Maria Carlota adorava ler. Sempre gostara. Tal gosto estava
embutido nos seus genes. E era no meio dos livros e nas Bibliotecas, onde ela
mais queria trabalhar. Antes de entrar na Instituição, foi avisada pelos seus
agora superiores hierárquicos, de que não alimentasse qualquer esperança de ficar
por lá. O lugar a jogo não era para ninguém com formação superior, mas sim para
alguém que tivesse conhecimentos médios e firmados dentro da área da
biblioteconomia. Além do mais a Carlota só para ali tinha entrado, porque fora
a única da povoação, que mostrara interesse em trabalhar naquela área
específica. Contudo a referida biblioteca estava em grande crescimento, pelo
que, toda a força laboral e especializada… era insuficiente. Maria Carlota aceitou com um sorriso no rosto, todas
aquelas recomendações. Afinal tinha que agradecer a franqueza que estavam ali a
ter para com ela. É que de nada vale andar a iludir impunemente as pessoas. No
caso concreto, a Maria Carlota só tinha era que agradecer a possibilidade de
aprender um pouco mais sobre uma área onde ela nunca havia trabalhado, aproveitar
ao máximo o tempo que ali estivesse a estagiar e chegando ao fim do estágio,
agradecer mais uma vez a possibilidade que lhe fora concedida, dizer adeus aos colegas
e chefias e... procurar novamente uma outra ocupação. Quando entrou na Biblioteca, fora-lhe logo comunicado
pelos agora colegas, que as chefias estavam algo apreensivas com a sua permanência
ali. E era legítimo da parte deles, não era? É que, e uma vez que o lugar não
era para ninguém licenciado, pensaram que a Carlota se ia de alguma maneira impor
e não realizar parte daquilo que lhe seria solicitado. Ou seja: temeram que a
Carlota, não perdesse uma oportunidade para se “armar ao pingarelho”. Depois também lhe foi dito pelos colegas, que por mais
que Carlota ambicionasse, ela não poderia ficar ali. É que a Carlota fartava-se de
rir e as chefias não apreciavam lá muito, as pessoas que se riam até ficarem
sem ar e com uma cor arroxeada. Tal, também era legítimo. É que muita gente não
consegue ler ou estudar convenientemente numa Biblioteca, onde se está para ali
a gargalhar. Só que a Carlota ria, “rai’s parta”. E por mais que se esforçasse
e risse o mais silenciosamente de que era capaz, no fim sempre se conseguia
ouvir qualquer coisa. Aquilo agora é que não estava mesmo nada no programa. Aí
é que a coisa parecia piorar um pouco. Carlota a nossa heroína de hoje gostava
de rir, oh se gostava! Mas também gostava de trabalhar. E depois ela achava que
uma coisa… não impedia necessariamente… a outra. Só que o chefe não gostava de
risos, pronto! E estava no seu direito. Mas, e o que é que se havia de fazer em
tais circunstâncias? Bem, tudo indicava que a Maria Carlota também não ficaria
ali, porque o lugar não era para técnicos superiores. Tal realidade fora-lhe comunicada
sempre. Além do mais, se ela deixasse de se rir, ela deixaria de viver. Morreria
triste, seca e peca. Não, de todo! E a Carlota decidiu continuar a ser exactamente,
como fora até ali. A estadia naquele local foi muito ao gosto de Maria
Carlota. Os colegas eram muito simpáticos. Os chefes também, se bem que o chefe
que mandava mais, não lhe ligava assim muita importância. Dava-lhe uma saudação
seca e formal (às vezes nem isso), e lá prosseguia com a sua vidinha. Mas a Maria Carlota também não
se preocupava lá muito com isso. Tal também não lhe tirava o sono. E depois ela
queria mesmo, era saber como é que tudo aquilo funcionava. E ali aprendeu mesmo
muito: Aprendeu a registar… livros, a catalogar… livros, a classificar… livros,
a cotar… livros, a forrar… livros, a arrumar… livros e a sugerir…. os melhores livros. Aprendeu também a fazer um Serviço de Referência
condigno. Se bem que para isso tenham contribuído muito, todas as leituras que
ela havia realizado até ali. Só que também não se importava nada, em carregar com
uns valentes… baldes de massa de cimento, passar uma casa, toda a pano e limpar
umas grandes vidraças ou prateleiras se tal fosse necessário. Não fazia isso,
para engraxar ninguém, pois tal nunca fora do seu génio, era antes para interagir
com os outros e ter o prazer de ver as coisas a funcionarem devidamente. Mas
ela sabia que, chegado o fim do estágio (tal fora-lhe sempre dito), a “porta da
rua era serventia da casa”. Contudo, quando faltava pouco mais de um mês para o
estágio acabar, e numa altura em que ela carregava duas dúzias e meia de livros
para forrar, enquanto se equilibrava e descia umas escadas muito ingremes,
passa por ela o chefe (o tal que não gostava de muitas risotas), e disse-lhe: “Vá lá abaixo pousar os livros. E depois, venha ao meu
gabinete pois eu preciso de lhe dar uma palavrinha!”. Naquele momento, mais pareceu a Maria Carlota que lhe
fugiam todos os degraus, por debaixo dos pés. Mas afinal o que é que o chefe
queria dela? Seria devido a alguma risota que ela tivesse dado nalguma altura,
que o tivesse escandalizado particularmente? Se calhar fora mesmo isso. É que
quando Maria Carlota se ria, ouvia-se mesmo a uma grande distância. E numa
Biblioteca tal situação não é nada aconselhável. Mas, ela e a medo, lá foi
colocar os livros ao andar debaixo, e depois subiu as escadas duas a duas, e lá
entrou receosa no gabinete do Doutor. O mesmo, e contrariamente a tudo o que Carlota mais
temera, disse-lhe que até estava a gostar muito do trabalho dela. Pelos vistos,
até mesmo das gargalhadas. Ou apesar das mesmas. Mas isso, ele não lhe disse. E
ela também não perguntou. Depois o seu superior hierárquico disse-lhe que já
contava com os seus predicados. Para ele, ela já era tida como um membro efectivo
de uma equipa a todos os níveis, triunfante. E mais disse, aquele muito
competente chefe (porém pouco risonho). Ele afirmou que em equipas vencedoras,
não se mexe. Ela não estava mesmo nada à espera de ouvir aquilo. E naquele dia
ela foi efectivamente… muito feliz. Maria Carlota ficou assim muito contente, quase que
pulava de alegria, por cima de todos os papéis e agrafadores. E até por pouco,
ela não foi dar um beijinho na testa do chefe. Mas tinha que haver algum decoro,
não é verdade? Quer dizer, aquele senhor, estava ali a dizer bem dela, mas uma
actitude irrefletida, poderia por tudo a perder, não é verdade? E tinham-lhe
falado tanto daquele chefe… Mas afinal o que o incomodava a ele, não deveria de
ser… a risota. Era talvez mais, a falta de profissionalismo. Mas para que Maria
Carlota pudesse continuar ali, ela teria que prosseguir com os seus estudos. E
foi exactamente o que aconteceu. A partir dali, Maria Carlota e o seu "magnifico chefe", foram muito mais amiguinhos. Durante anos, a Carlota permaneceu ali com muita
alegria e empenhamento. Trabalhava e estudava em simultâneo, pela primeira vez
na sua vida. Agora havia que aproveitar a verdadeira benesse, que a vida e a
vontade daquele chefe lhe estavam a dar. Ela procurou ser sempre muito competente.
Tentando melhorar sempre o nível do seu procedimento profissional. Só que
continuava… era a rir-se. E ria mesmo muito, aquela magana. E muito alto! Mas
fazia as coisas que lhe eram solicitadas com bastante esmero, é preciso que tal
seja dito. Passados alguns anos, vêm as provas de acesso a um
lugar efectivo na instituição. Tal era imperioso. E Maria Carlota concorreu
também, como é logico. Às provas, vieram centenas de pessoas das mais variadas
proveniências. É mais do que certo que deveriam de ter currículos excelentes,
com provas dadas nas mais variadas instituições. Seriam por isso, muito
conhecedores das mais variadas realidades. Só que a Maria Carlota sabia era um
pouco mais, daquela realidade ali presente, que os restantes. Mas ali (e para
todos os efeitos), estavam todos para o mesmo, e em igualdade de circunstâncias. Para aquelas provas, Maria Carlota estudou muito.
Muito mais do que alguma vez ela estudara na Faculdade. Fez-se a Prova Escrita…
E depois para a realização da entrevista, ela aguardava a sua vez, sentada numa
cadeira situada num corredor, na companhia de todos os outros candidatos ao
cargo. E eles eram mesmo muitos… Mas por Carlota… passaram também naquele dia, todos
os seus colegas de trabalho. E para a atormentarem um pouco mais, lá lhe diziam
e invariavelmente: “Oh p’ra ela! Que está aqui… tão sossegadinha! E sem
se estar a rir nem nada. Mas porque é que será? Oh mulher, tu ri-te!” E a Maria
Carlota que estava ali em grande sofrimento, fingia apenas que não os conhecia
de lado nenhum. Ela que estava a tremer toda por dentro. E só ansiava por poder
sair dali o mais rapidamente possível. Mas todo aquele mal-estar durou até ao
momento em que uma jovem candidata muito simpática se chega ao pé dela e lhe segreda:
“Sabes, há aqui entre nós, uma candidata, que já trabalha aqui… faz muito
tempo!” É evidente que aquela solícita senhora desconhecia completamente
que estava a falar com a visada. Mas a tal dama que se dignasse a olhar para as
mãos de Carlota! Veria não só, os seus numerosos calos provocados pelo
constante carregar de baldes de massa, como também umas unhas ruidas até ao
sabugo, devido ao stresse e ao enervamento efectivo pelo qual, ela estava a
passar… estando ali tão “sogadita”. Sugestão de leitura para esta semana: “Uma Comédia Ligeira” de Eduardo Mendoza. DIVIRTAMSEMAZÉ!
A propósito: verifique-se o talento destes dois jovens
gregos! Não sabemos o teor da conversa que antecedeu a sua tão brilhante actuação.
Mas assistimos ao referido número, com muito deslumbramento. Ficamos mesmo com lágrimas verdadeiras no canto do olho.
E perante isto é muito legítimo fazer-se a seguinte
pergunta: “Como é que um país com gente tão talentosa está assim a modos… como
dizer? Numa crise caótica, já vai para três anos? E nós, que também somos seres
tão geniais e competentíssimos, estamos no mesmo barco da desgraça, vai para
dois? A única resposta, simples e inquestionável é: A CULPA É DOS POLÍTICOS QUE NÃO RECONHECEM AS CAPACIDADES IMANENTES E
CRESCENTES, DO POVO QUE (DES)GOVERNAM. Só sabem falar na necessidade de
AUSTERIDADE, SEMPRE MAIS AUSTERIDADE… E depois vêm discursar à televisão, COM UMAS OLHEIRAS
POSTIÇAS, vertendo… para dar mais efeito, muitas lágrimas de crocodilo.
Mas resistam ao máximo ao pacto de agressões que foi tão malignamente, concertado... e apesar de tudo, DIVIRTAMSEMAZÉ!!!