Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Toca a alegrar, minha gente...


Porque, tristezas não pagam dívidas... E a troika também já não sai de cá...
DIVIRTAMSEMAZÉ!!!

domingo, 28 de outubro de 2012

Sem ser nada divertido...


Mas eu gosto... é muito.

Cá para estes lados, está-se a tentar divertir. Mas nem sempre com sucesso. É a crise...

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

São cinco no Continente, menos uma nos Açores...


Não sei muito bem porquê, mas gosto de ilhas. Mas de ilhas distantes. Gosto da sensação de se estar p’rá ali, no meio do mar e sem outras terras como horizonte. Sentir todo aquele isolamento!... E como será viver uma grande tempestade, na Ilha do Corvo, por exemplo? Mas depois (e passados alguns dias), eu vivo algo contraditório com este meu gosto. É que reavaliada a situação eu gosto de saber que a minha presença nas ilhas é temporária. Que tenho o meu dia de regresso mapeado. É que passado algum tempo, não é para mim muito confortável, saber-me num espaço diminuto. Sentir-me um pouco como uma “prisioneira” de um pedaço de terra muralhado a toda a volta…pelo mar. Sentir-me assim tão cativa, começa a fazer-me… alguma confusão. E eu que nem sei nadar!… Resumindo, pode-se dizer que eu gosto de ilhas, só que gosto delas para as visitar. Não gostaria de residir numa.
Mas o meu pensamento de hoje vai para uma viagem, que eu fiz há alguns anos, à Ilha de S. Miguel, Açores. Foi exactamente numa altura, em que na cidade de Ponta Delgada, decorria um Seminário de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas. Como sabem eu faço parte da primeira espécie aqui referenciada. Mas e em minha defesa, (ou melhor, para denegrir ainda mais um pouco, a minha imagem), eu tenho a dizer que o dito Congresso não foi propriamente a minha primeira motivação para fazer a viagem. Nem sequer a 13ª hipótese. E olhem que quem diz a verdade…
Sei que se aprende sempre muita coisa nos ditos congressos. Mas existem também, algumas apresentações que eu considero bastante “secantes”. Como as de algumas pessoas que arrogantemente nos vêm dizer, que descobriram a pólvora da Biblioteconomia. Que acham mesmo, que antes de suas existências, as Bibliotecas eram residuais e pouco importantes. Alguns até devem achar, que antes deles, as bibliotecas nem sequer existiam enquanto tal. Desculpem-me lá a franqueza.
Ora eu estava ali. Naquela terra tão desconhecida para mim. Pelo que, do Seminário, eu assisti ao que potencialmente mais me poderia agradar (que foi muito pouco, lamento), e desbravei totalmente as brumas daquela Ilha. Apercebi-me que para isso, não seria necessário muito tempo de permanência. Pelo que considero que vi grande parte da mesma, nos sete dias que ali estive.
No avião que me levaria até tais paragens, deu-se a situação que eu considero como a mais rocambolesca, que eu vivi em idênticas circunstâncias. Lá em cima viajava-se na mais perfeita tranquilidade. Depois de algum tempo, houve um ou outro ponto em que ocorreu alguma turbulência, mas positivamente nada digno de nota. Eu que ia na companhia de alguns amigos. Mais ou menos a meio da viagem, vinha muito descansadamente e pela vigia abaixo, um senhor já com alguma idade, que me pareceu estar vestido à Comandante. E vinha ali com um ar todo lampeiro. Mas depois e sem que nada o fizesse prever (pelo menos para a minha consideração de leiga), o homem vira-se e desata literalmente a correr pelo corredor fora em direcção ao cockpit.
Lindo! Essa foi efectivamente uma imagem muito tranquilizadora! Até mesmo para mim que não tenho medo nenhum de andar de avião. Que até quando vejo um no ar, fico embasbacada a olhar para ele. Às vezes chego mesmo a mandar-lhe… um beijinho.
Passado muito pouco tempo, depois de tão comovedora cena, começa-se a ouvir pelos transmissores, numa voz algo fanhosa: “Informamos toda a tripulação e mais os senhores passageiros, que o avião está com uma pequena avaria num dos motores. Temos a intenção de reparar a dita, mal consigamos aterrar no Aeroporto de Ponta Delgada”.
Muito emocionante, não é? Mas, olho para todos os lados e verifico que ninguém, mas mesmo ninguém, pareceu dar qualquer importância, àquilo que fora dito. “Estaria eu a delirar?” Pensei para os meus botões e mais fechos éclairs. Às vezes isso pode acontecer, não é? Ainda mais quando estamos a tão grande altitude! Mas depois olho mais para trás e vejo que a minha amiga J. estava imensamente pálida. Ela, tal como eu parecia estar muito assustada, com tão oportuna narração. Mas de resto estava toda a gente, e muito sinistramente, calma com o que ali fora dito. Mais parecia que nem sequer tinham ouvido. Eu, enfim… entreguei a causa a Deus. Que fosse o que Deus quisesse. É nestas alturas (e como que por milagre), que altos níveis de religiosidade vêm ao de cima. E lembramo-nos muito, do teor das nossas aulas da catequese.
Mas decididamente, eu não conseguia deixar de pensar naquilo. Para mim isso era inevitável. É que avaliando bem as coisas, que necessidade tínhamos nós, de saber da ocorrência de tal avaria? É que aparentemente, nenhum dos passageiros estava capacitado para proceder àquela reparação. Ainda mais, e mesmo que um de nós fosse um exímio mecânico de aeronaves, não me parece que fosse humanamente possível proceder à dita reparação… em pleno voo. Encostado a uma nuvem, por exemplo. Se calhar, seria conveniente encostar à berma, sei lá? Pensando bem, será melhor fazer essa pergunta, à minha amiga Guiduxa. Ou então… aconselhar-me com o Mitt Romney.
E depois lá continuei a pensar. Eu, aqui confesso… sou algo propensa a essa tão complexa actividade. E pensei em todos aqueles voos, que infelizmente resultam em desastres, que vitimam todos os seus ocupantes. Imaginei que os mesmos, antes de terem subido “lá para o andar de cima”, podem ter sido, devidamente informados sobre a real dimensão da avaria. E sobre aquilo que os tripulantes esperariam ainda conseguir fazer. Mas depois… viria o silêncio. Sei que é um assunto muito sério e delicado. Nada divertido mesmo. Mas eu questiono-me: o que é que se ganha em ter tanta informação à hora de se “desencarnar"? Penso que só mesmo… uma crise suplementar de nervos. Será que o sonho daquele comandante do voo para os Açores, era o de anunciar a alguém que o “fim da linha” estava próximo? Sugerir assim, que nos arrependêssemos de todos os nossos actos tresloucados. E pedíssemos à Divina Providência, misericórdia e compreensão. Assim como… um lugar cativo e de preferência com boas vistas? E com boa vizinhança…? E seria o tal piloto… Testemunha de Jeová? Ou Adventista do Sétimo Dia? Ou então um dos Últimos Santos?
Eu que felizmente não tinha medo de andar de avião, também não fiquei com receio especial a partir daquele dia. Contudo eu tenho aqui que confessar uma coisa, vocês merecem: Quando finalmente, eu pisei o solo açoriano, apeteceu-me fazer o mesmo que o papa, quando chega a um país pela primeira vez. Tive vontade de me ajoelhar e de beijar aquele chão sagrado e sem sacudidelas desnecessárias. Beijar embevecidamente aquele alcatrão da pista com pedras e tudo. Acho que também não devem de andar por ali muitos cães, a fazer as suas necessidades.
Passada esta tão bela abertura de cena, a permanência naquela Ilha, foi bastante boa. E que bem que se come por aquelas paragens! Recusei contudo provar tubarão. Já bem basta os tubarões desta sociedade. Aqueles que querem ficar com todo o nosso dinheirinho! Sacrifiquei-me assim, e renunciei a tal pitéu. Esperando que um parente qualquer, daquele tubarão sacrificado (e que alguma vez se cruze comigo), tenha a mesma atenção que eu tive, para com o seu familiar. Por mim era até escusado pescarem-se tais criaturas. Eles que até nadam tão felizes, pelo Oceano a fora… Com os seus dentes cortantes, mas exibindo caras sempre tão sorridentes! E como eu me lembro da simpatia do Bruce, que era aquele tubarão do filme: “À procura de Nemo”, dos Estúdios da Pixar!... Que Tubarão tão simpático e tão politicamente correcto! A falar com os outros peixinhos, a quem ele chamava carinhosamente de… Migalhitas: “Como é que estão as minhas Migalhitas?” Dizia ele sempre a sorrir. E depois gargalhava. Tão querido, que era aquele bichinho! Sempre tão esforçado para se tornar… vegetariano. E como eu o compreendi e tanto o quis imitar. Deixar definitivamente de me alimentar de carne… Só que depois, tive que me render à evidência da minha fraqueza. Quando por exemplo estou defronte: de belos enchidos, de Arroz de Pato e de Cozido à Portuguesa… E por isso, quem é que no seu perfeito juízo, poderá jurar que não vai cometer o pecado da gula?
Já na cidade capital, e num bar, houve um simpático senhor, que eu nunca conhecera mais gordito, que me ofereceu um copo de Vinho de Cheiro. Eu que até sou apreciadora da bebida de Baco. Mas como convém, bebo moderadamente. Porém ainda bem que aquele senhor teve aquela gentileza para comigo. Assim eu não tive que gastar um cêntimo numa bebida que verdadeiramente, eu não apreciei.
Já instalados num simpático, porém modesto hotel, nós decidimos comprar duas viagens, onde se incluíam visitas guiadas aos locais mais emblemáticos da Ilha. Quem nos guiaria, seria uma simpática senhora, que nos chamava a todo o momento de colegas, pois tal como nós, era também licenciada em História. No curioso grupo que se conseguiu formar, faziam parte duas mulheres (que eram mãe e filha). Elas tinham as suas origens nos Açores. Eram luso-descendentes e viviam nos Estados Unidos da América. Só que lamentavelmente nem uma nem outra falavam uma única palavra de português. A mais velha dizia que tinha ido para a América quando era ainda muito pequena. A sua filha, naturalmente já lá havia nascido.
E tudo poderia ter corrido muito bem, não fora o facto das mesmas serem altamente desconfiadas e acharem que se a guia não falasse somente em inglês, era porque estávamos… a gozar com elas. Tudo bem! O inglês é uma das línguas mais faladas do mundo. A primeira mais falada é o mandarim… Contudo a língua oficial de Portugal… é o português. Ou melhor, era. Porque agora eu acho que mudámos para … o Acordês. Só que as senhoras insistiam. Queriam que se falasse somente em inglês. Elas que deviam de achar, que todos aqueles nossos constantes risos eram muito… suspeitos e despropositados. No início, elas ainda contaram com todo o nosso respeito e consideração. Mas depois, não. É que sendo aquelas senhoras tão chatas e antipáticas, acabaram mesmo por ser, o motivo de toda a chacota. Foram elas que com a sua tão “original” forma de estar, acabaram por “cavar” a sua própria desdita. E a gargalhada ali, foi uma constante. E mais: posso dizer que não sentimos com isso, qualquer tipo de arrependimento. Mas esta história terá que continuar para a semana.
Sugestão de leitura: “Mau tempo no Canal” de Vitorino Nemésio.
DIVIRTAMSEMAZÉ!

sábado, 20 de outubro de 2012

Ser mais papista que o papa...


Esta expressão já foi ouvida por toda a gente, pelo menos uma meia dúzia de vezes. A frase, como todos bem sabemos, fala de um exagero inusitado e absolutamente contraproducente, atendendo ao facto de que muitas vezes… o que está estabelecido, já se basta por si. A pessoa tem um cargo, uma identidade e uma função. Mas, e depois há sempre aquele que a supera, para se fazer… de bonito e perdoe-me, até de falacioso, grosso modo. O papa, sendo um líder espiritual e carismático, é alguém necessariamente parcial, pois representa somente uma facção da realidade. Contudo e na defesa das suas ideologias ele tem contado sempre, com gente que ainda é mais… fundamentalista do que ele próprio. Isto seguindo uma via… absolutamente despropositada.
O mesmo se passa com o nosso país, que vive já há algum tempo, num plano de resgate para todos os efeitos suicidário. A situação da Grécia (e infelizmente) comprova essa teoria. Como é do conhecimento geral e planetário, tivemos que mandar vir gente de fora para fazer as contas por nós. E governar assim a “nossa casa”. Tudo porque os que deveriam de ter feito isso, das duas, três: ou se desresponsabilizaram de todo o processo, ou usaram-se da causa pública em benefício próprio. Ou então, parecendo-se bem-intencionados, mostraram-se a posteriori seres absolutamente incapazes para proceder às necessárias reformas e dinâmicas que nos guiariam, a um bom nível de desenvolvimento sócio/económico e político eficaz. Mas pronto, internamente não se conseguiu, pelo que teve que vir gente de fora para nos acertar a contabilidade.
Chegados cá, e usando de toda a propriedade do mundo, eles conseguiram dar-nos verdadeiras lições de como se pode… viver com muito pouco. Mas não se pode... é investir em nada. E depois teremos que pagar, toda a nossa imensa dívida, com taxas de juros absolutamente incontroláveis. Mas isto estou eu para aqui a dizer. Eu que sou uma leiga na matéria. Nem sequer sou das áreas das Economias. Só que gosto muito, é de pagar as minhas continhas. E atempadamente.
Ora agora e desde o início deste resgate, é de bom-tom o governo lusitano, assumir-se como sendo “mais papista que o papa”. E neste processo, claro está, não entra qualquer religião, só mesmo a do vil capital. E nós… vivemos assim… na mais profunda alegria. E muito exultantes. É que os senhores da Troika, de tempos a tempos, vêm-nos cá visitar. E vêm sempre muito sorridentes e dinâmicos. Nas suas pastinhas, eles devem de trazer apurados estudos financeiros. E mais contas, muitas contas. Devem de transportar com eles, verdadeiros tratados sobre tudo aquilo que eles esperam de nós. Eles que são uns crentes, ou melhor… se calhar, eles até fingem que acreditam. Depois de (bem, espera-se) instalados, eles arregaçam as mangas e põe-se a “bisbilhotar” em tudo. E que contentes, eles parecem ficar!.. Por fim chega a vez de eles lançarem os seus “bitaites”. E transmitem-nos as desditas com os seus dentes a brilhar:
“Portugueses. Para conseguirem pagar os empréstimos que nos requereram, vocês têm que cortar as vossas unhas… muito rentes!”
Contudo o nosso sacrossanto governo, ouve muito embevecido tais conselhos. Ficam inclusivamente com os olhos lacrimejantes de tanta emoção. E muito determinados, eles expõem por sua vez:
“Quais unhas rentes, qual quê? Beneméritos e muito capazes Senhores da Troika! Nós estamos aqui para vos agradar somente. E para demonstrar o nosso tão grande amor pelas vossas pessoas, nós vamos obrigar o nosso povo, que (des)governámos, durante toda a vida, a cortar as falangetas. É que o povo pode perfeitamente sobreviver, mantendo somente dois terços dos dedos”.
Mas depois e passados somente algumas horas, os tais dos bons alunos do presente, mas que foram cábulas e muito ineficazes no passado, contra-argumentam dizendo, que podemos até fazer mais. É que até conseguiremos sobreviver, com os braços. Decepando totalmente… os próprios… punhos.
E nós, que somos simplesmente a “raia miúda” andamos para aqui todos em bolandas. Rezamos à Senhora de Fátima. E depois pomo-nos a apontar culpas. E auto-flagelamo-nos (apesar de alguns de nós, ainda conseguirem ter as contas… relativamente em dia). Depois, vêm todas as teorias provenientes das cabeças iluminadas, dos mais celebres pensadores lusitanos. Muitos deles que no passado, também já estiveram no “poleiro”, mas só agora é que vêm com as suas soluções mágicas… sempre tão adiadas.
Outros preferem enveredar pela teoria derrotista de que já não há nada a fazer… Mais parecem aves de rapina. Sempre a mirar-nos com os seus olhares cortantes. E que põe sempre as culpas… nos mesmos. Só que a desgraçada da culpa… morrerá sempre solteira. Assim, haverá uma altura em que nada mais poderá ser feito, pois o doente que é Portugal, morrerá com tamanha cura de emagrecimento. E aí já nem haverá ovo nenhum, para se poder mandar às instalações do FMI em Lisboa. Mas o governo insiste em continuar com esta escalada de destruição maciça, deste país sénior de 869 anos. País que começou logo mal, já que surge como resultado da luta efectiva e corporal de um filho, que teve a coragem de bater na sua pobre mãe. A tal senhora que devia de ser uma visionária. Ela também e na altura, já não devia de ter muitas esperanças, nisto. E meus amigos, tudo aquilo que nasce torto…
Mas sabendo disto tudo, lá se continua a cair no mesmo erro crasso e a embarcar na necessidade de se ser um “bom aluninho”. Ficar no quadro de honra… da desgraça. E achar que se fica muito bem na fotografia. Mas haverá algum benefício em se ser bom aluno, sem que se tenha mérito para isso? Ou seja, querer parecer um bom aluno, quando efectivamente nunca se conseguiu demonstrar, ser sequer um aluno aplicado. É que isso nunca se conseguiu…? Sinceramente… a mim parece-me que não. Mas eu positivamente não percebo nada destas coisas. Estudei Passados, Culturas e Acontecimentos. E não fiz lá muitas contas. Nem de somar, nem de sumir. Mas será que existirá algum benefício, em se querer ultrapassar o estipulado à partida e atendendo às presentes circunstâncias? E será que isso funciona somente no campo da economia? Sugiro que aprendamos um pouco… com as vivências.
Hoje venho aqui relatar uma estória de alguém que quis imitar o Passos Coelho, num particular. Essa pessoa quase que usou o Primeiro-Ministro, como seu verdadeiro mentor espiritual. Usando como imagem de eleição, a ligação extremosa e tão comovente do nosso líder governamental e dos seus colegas, aos Senhores da Troika.
Maria Inês trabalha numa Biblioteca Pública. Tem trinta e picos anos. É solteira e muito boa profissional. Ela é muito esforçada e tem o prazer efectivo, de dar o seu melhor no seu desempenho profissional. A Biblioteca onde trabalha é de pequena dimensão, pelo que tem a trabalhar com ela, somente um outro técnico profissional. Têm mais ou menos da mesma idade um do outro. Ele é também bastante esforçado e competente. Porém às vezes, é algo ranzinza, mas não faz isso por mal. É já dele mesmo, ser assim.
Ora os dois, que já são colegas faz algum tempo, partilham um espaço, uma amizade e o gosto de receber bem os leitores que ali tomam o seu assento. Necessariamente que estes dois já construíram uma boa e salutar… cumplicidade. Só que a Inês tem um pouquinho de peso a mais. E tal situação perturba-a de alguma maneira. Pensa na estética, mas também pensa na saúde. E queixa-se por vezes disso à sua superior hierárquica. Lamenta-se, dizendo que o diabo da gordura em excesso se junta toda, ou na parte superior dos braços, ou nas coxas ou então na barriga. E para demonstrar essa sua teoria, ela chega a levantar-se da cadeira, para mostrar o seu volume, que não é assim tão grande como ela pensa.
A extremosa chefe que é muito boa pessoa é também uma excelente e muito assertiva profissional, olha para ela. Depois tenta conforta-la dizendo-lhe que não se deve de martirizar muito com o peso que tem a mais. Porque até considera que Inês está muito bem assim. E quando a líder fala assim, ela fá-lo de coração e usando da sua mais profunda sinceridade. A Inês talvez finja acreditar. É que passado pouco tempo, ela lá continua com as suas lamentações. A chefe, já quase em desespero de causa e para demonstrar que não é com certeza a única a pensar assim, chama o seu outro seu colaborador (que é homem), e pergunta-lhe: “Oh Tiago. Você não acha que a sua colega está bem como está? Ela que até consegue ser uma rapariga tão interessante? Consegue mesmo manter tantos interesses?” E o mesmo não se fazendo rogado, responde prontamente:
“Pois é claro que sim!” E para amenizar um pouco mais, todo aquele ambiente de lamurias, ele lá continua: “Mas o que eu acho, é que ela deveria de usar e abusar do uso de decotes. Usar decotes grandes, daqueles que chegam facilmente… ao umbigo.” 
E agora atrevam-se lá a dizer que os homens são distraídos, na observação destas coisas? É que a Inês enverga um bonito e generoso busto.
É claro que tal paródia alegra sobremaneira aqueles três. E a mais outros tantos, a quem se vai contando toda aquela alegoria. Só que tudo indica que a Inês vai efectivamente ultrapassar-se em todos os seus procedimentos. E mesmo na sua própria forma de vestir. Foi ela mesma quem assim o afirmou. Pelo que tudo indica, que quer o colega, quer os leitores daquela biblioteca, e a breve trecho, serão presenteados com uma bonita e muito entusiasmante imagem. É que a Inês mostrará não só, os seus bonitos seios, como ainda (e lá mais para baixo), ela exporá um pequeno, porém muito vigoroso… tufo.
Agora pensando bem e para concluir: não é propriamente a nudez que gera transtorno. Até poderá alegrar (e em grande escala), as hostes. O problema é que devido à exposição de tanta pele e com a ocorrência das intempéries e correntes de ar, a Inês poderá perfeitamente contrair uma grave pneumonia, que poderá colocar em risco… a sua própria existência.
Sugestão de leitura para esta semana: “Peito Grande, Ancas Largas” de Mo Yan.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


PS: E não é que a União Europeia vai receber o Prémio Nobel da Paz? Mas a que mais é que nós ainda iremos assistir?
Outra coisa: até parece que já estou a ver o Tiago a cantar esta canção mal entra com sua colega para a Biblioteca. Isto, e com os leitores embasbacados a olhar… Mas depois, e quando acaba a hora do expediente, a canção é outra e em palcos distintos.
DIVIRTAMSEMAZÉ!

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Por favor, espera por mim...



António Soares nasceu nos anos 40 na Beira Alta, numa aldeia perto da cidade de Viseu. Tornou-se a seu tempo num rapaz muito forte. E de mau génio, quando a vida assim o exigia. Criado no meio das fragas e pastoreando duas dúzias de ovelhas, António soube desde sempre, que o pão custa muito a ganhar. Mas depressa chegou aos vinte anos. E ir para África foi o seu destino, assim como para milhares de rapazes da sua idade. Iria lutar numa terra estranha, com gente que tal como ele, não sabia muito bem ao que ia. Teria que matar homens, que ele nunca conhecera e que positivamente não tinha grande motivo para odiar. Mas era preciso partir. O Estado Português assim lhe exigia. Ia lutar pela manutenção do Grande Império Lusitano, já semi-rachado com a Independência do Brasil no século XIX e com a anexação de Goa, à Índia já em pleno século XX.
Na sua terra, António deixaria Maria que era a sua bem-amada. Maria nem queria pensar no dia em que António sairia da aldeia para ir para a Guerra Colonial. Mas os dois acharam que o amor deles era suficientemente forte para durar, dois ou três anos de ausência de uma das partes do casal apaixonado. Devido a essa certeza, acharam que era descabido formalizarem efectivamente essa união. Teriam tempo de casar, quando António regressasse são e salvo de Angola.
O dia da despedida para aqueles dois foi absolutamente angustiante. Na curva da estrada, muito aquele par chorou, abraçados um ao outro. Maria aflita jurava ao seu prometido, amor eterno. António por sua vez jurava que ia ter muito cuidado, e não se ia deixar abater lá nos matos africanos. Mas sabia lá ele se regressaria algum dia? Sabia lá ela se ia tornar a ver aquele rapaz/homem quase, quase a assumir funções de soldadito? Tudo indicava que o amor dos dois iria resistir a tudo aquilo. E, já perto da hora da passagem da camioneta da carreira, eles dão mais um abraço, dão mais três ou quatro beijos, castos, para não escandalizarem quem para ali foi, também com o intuito de se despedir de António. Como era o caso da mãe dele, já viúva e das três irmãs, que ainda estavam solteiras. António havia-as proibido de o acompanharem a Lisboa, para se despedirem dele, no cais da Rocha do Conde de Óbidos.
A guerra decorreu da maneira que António não conseguira imaginar. A luta era constante e prostrara por terra, alguns dos seus companheiros. António fez-se duro. De arma nos braços ele teve que matar para não morrer. Ele teve que martirizar para reivindicar um estatuto inglório e muito lamentável. Ele teve que ver aquilo que jamais quisera ter visto. E sabia que, para todo o sempre ele iria recordar e sofrer continuamente com tais memórias. Mas contrariamente a tudo o que era espectável em similares circunstâncias, António ainda conseguiu sentir o fascínio de África. O tal fascínio que tanta gente jura que existe, porque tal como António, também com ele fora… inoculada. Porém António não esqueceu nunca, quem deixara na sua aldeia. A sua querida Maria, que permanecia lá na terra à sua espera e do seu amor. Fora ela quem assim lho afiançara. E ele não tinha nenhum motivo para duvidar. Pelo que lhe escrevera todas as vezes que lhe foram possíveis, em aerogramas de letra pequena onde não cabia a aproximação a uma milésima parte do afecto que ele sentia pela namorada. Uma vez, conseguiu mesmo falar pela televisão e por alturas do Natal. É claro que não se esqueceu de referir a mãe e as manas. Mas o seu maior cuidado estava com a namorada. Fora o nome dela, que ele primeiro proferira. Ela também lhe escrevera cartas (e amiúde), no primeiro ano e meio em que o namorado esteve ausente. Mas depois as cartas começaram a espaçar-se mais. E no último ano as cartas cessaram por completo e de parte a parte. Mas o regresso também não estava longe e quando estivessem juntos, falariam muitíssimo mais do que aquilo que as cartas e os aerogramas conseguiam comportar.
E lá passaram os dois anos e meio. Mas a sua permanência ali, foi acrescida de mais oito meses, devido a penalização por prática de acção lesiva às regras de conduta em casos tais. António que desde o início da sua permanência em África, e no palco de guerra, riscava num calendário dia a dia, todos os dias que passavam. E contava também os dias que ainda lhe faltavam, para o seu regresso à Lusa Pátria. Teve que contar depois, mais 230 dias. E toda a sua permanência ali lhe parecera imensa. Três anos para ele equivaleram a trinta. E nunca mais via a aproximação do seu regresso a casa. Mas e a custo, lá chegou o tal dia abençoado. Ele sobrevivera sem mazelas. E mais uma vez, fez toda aquela travessia, no Vera Cruz.
Passados trinta e tal dias, depois de ter deixado solo angolano, António pisou a terra sagrada da sua aldeia. A esperá-lo tinha umas irmãs muito contentes, porém algo apreensivas e uma mãe rejubilante, mas algo revoltada com alguma coisa, que António não percebeu de imediato.
Depois de todos os abraços e de todos os beijos, António foi informado (com todo o cuidado que a missão exigia), que Maria, o seu amor imenso e tão afirmativo, estava já casada com o Arménio do Chico Sapateiro. Como justificação, a moça alegara aos mais próximos, que sofrera muito com a ausência de António, pois ela amara-o muito. E para espalhar melhor as suas mágoas, ela usava e abusava dos ouvidos dos amigos e vizinhos. Mas usou especialmente a audição e o ombro firme e solícito do Arménio, que na altura andava a aprender a colocar devidamente… umas meias-solas. Ora toda aquela aproximação fez com que aquele homem e aquela mulher se unissem mais, se amassem muito e até encomendassem um herdeiro, antes do firmar do casamento. Maria foi para o casório, com o buxo muito inchado e apertado num vestidinho cor de pérola. É que a cor branca era impensável em tais circunstâncias à altura.
António nem queria acreditar no que estava a ouvir. A vida para ele parecia que terminava ali. Ele que não morrera na guerra parecia que ia morrer em solo pacificado, às mãos de uma ingrata, impaciente e muito dada mulher. E sem que ninguém visse, o António pôs-se a chorar. Chorou tanto como nunca havia chorado na sua vida. Logo ele que acreditava que, homem que é homem não chora. Mas ali teve mesmo que ser. Correu a serra. Trilhou caminhos do passado que jamais esquecera. Repisou memórias até à exaustão. Sofreu os horrores de um coração partido e enganado. Chorou depois e ainda um pouco mais, mas por fim, lá reagiu. É que a vida para ele não podia acabar ali. Seria muito injusto. Ele que andara na guerra, sujeito a todos os perigos e vinha agora morrer por via de uma desapacientada e desnaturada mulher? Não. Isso não poderia ser assim. Pelo que arribou (é que o tempo cura até os corações mais empedernidos ou rachados), procurou novamente o amor e encontrou-o na pessoa da Deolinda.
Deolinda era também sua vizinha. Era cerca de seis ou sete anos, mais velha que António. E ela, que até já perdera a esperança de se casar! É que naqueles tempos, ficar solteira no meio rural era tramado! Deolinda tinha como escolaridade, somente a terceira classe da instrução primária. Tinha um irmão já casado e a viver em Lisboa. Agora ela já abeirava os trinta. E devido à sua timidez e a alguma falta de glamour, nunca fora uma rapariga lá muito namoradeira. É claro que ela sonhava encontrar um senhor, que a tirasse da casa dos pais e daquela aldeia. E lhe proporcionasse uma vida, semelhante àquelas que ela às vezes ouvia relatar na telefonia, quando calhava ir à Venda do Marchante e escutava o folhetim radiofónico. Porém já quase trintona, via esse seu intento, cada vez mais longínquo. Era habitual nas aldeias, que rapariga que ficasse solteira tinha como destino mais provável, tomar conta dos pais até à morte daqueles. E depois continuar a tomar conta dos seus parcos haveres, que regra geral eram compostos por uma casa modesta, e uma courela de terra. Mas agora o António vivia aquele grande desgosto. O amor da sua vida arranjara um substituto. E era a vez dele olhar para o lado e ver que havia ali uma moça que o poderia acompanhar na aventura que é a vida. E sem fazer muitas perguntas.
Não se pode dizer que António se tenha apaixonado por Deolinda. E a rapariga?… Bem ela gostava dele. Se não gostasse era-lhe mais difícil aceitar o que a vida lhe estava a propor. Agora amar, ou sentir paixão? Bem, a Deolinda não percebia lá muito dessas coisas.
Mas António, que já sentira o tal fascínio por África, decidiu lá regressar. E agora não ia para a frente de guerra, nem ia sozinho. Ia tentar a sua sorte por lá e na companhia da sua agora esposa Deolinda. E os dois deram-se bem por lá. Arranjaram condições para terem uma vida honesta e frutificante. Foram também muito ajudados por outros portugueses que também lá viviam e lá tinham organizado, toda a sua vida.
Passado algum tempo, António e Deolinda tiveram uma filha. E eram felizes. Só que passados alguns anos, dá-se o vinte e cinco de Abril e a descolonização. António ainda chegou a pensar que a permanência dele e da família que ele criara, ainda seria possível em Angola após a sua declarada independência. Poderia passar perfeitamente, de português a angolano sem grandes traumas. Mas depressa abandonou essa ideia, quando assistiu ao encarniçar da luta armada e à expulsão em massa de quem nascera em Portugal ou se consorciara com portugueses. Quer uns, quer outros eram ali personas non gratas. E sem trazerem quase nada consigo, regressaram os três e de avião à agora ex-metrópole.
O início da vida daquela família em Portugal não foi nada fácil. Ter que recomeçar toda uma existência não é algo que se faça com facilidade e de um dia para o outro. Mas, com uma ajuda daqui e outra dali, eles instalaram-se num apartamento nos arredores de Lisboa. E… continuaram a viver. A filha estudou, o António empregou-se numa grande empresa como carregador. E a Deolinda ocupou-se da casa e da educação da filha. Dedicou-se também à costura, reciclando os conhecimentos que ela havia adquirido quando ainda era jovem e vivia na sua aldeia.
E os anos passavam. Mas sem que nada o fizesse prever, a Deolinda adoece. Tudo indica que a maleita que padece é da maior gravidade. O diagnóstico que lhe fazem não deixa margem para qualquer esperança. E Deolinda morre, deixando uma filha já adulta e um marido quase a abeirar o estado de velhice. É óbvio que quer a filha, quer o pai, sofreram ali um profundo desgosto. É que aquela família fora feliz à sua maneira. Deolinda aprendera a amar e a respeitar até ao limite do impensável, aquele homem que a tirara de um destino solitário. Aquela filha era a luz dos seus olhos e a razão da sua existência. António, ao seu jeito, também se habituou ao que a vida lhe possibilitara. Mas agora, ficou desolado com a perca sofrida e mais uma vez chorou, mas desta vez, sem ter qualquer problema em ser visto.
Passaram alguns meses e António regressa já reformado à aldeia que o vira nascer. Era o tempo das colheitas e da festa do lugar. Sua mãe entretanto havia morrido. Na aldeia ficara somente uma irmã, casada com um homem de uma aldeia vizinha. As outras duas irmãs haviam também casado, mas haviam emigrado para países europeus. E António visitou os locais da sua infância, trilhou mais uma vez, carreiros que nunca esquecera. Cheirou aromas, que há muitos anos não sentira, comeu petiscos já há muito esquecidos, mas agora recordados. E… junto à Quermesse, no adro da igreja ele vê uma cara envelhecida, mas com uns traços que lhe recordam alguém. Trata-se de uma mulher de estatura baixa e toda vestida de preto. À cabeça trazia um lenço preto que lhe tapava um pouco a face, mas António reconheceu-a. Era Maria, a sua amada do passado. E ali ele pensou. Era tempo de reconstruir. E de usar os ensinamentos que a vida lhe dera. Na velhice (como em qualquer outra etapa da vida), não é aconselhável, a manutenção de ódios ou de demais querelas. Os anos vividos trazem-nos a capacidade, da compreensão efectiva. E este era o tempo para António saber o que se passara de facto. É que afinal, e vendo bem as coisas, ele não tinha motivos nenhuns para estar revoltado com o curso da vida que trilhara. Fora feliz com Deolinda, de quem tivera uma linda filha, que até já estava orientada… Se ele não tivesse constituído família com Deolinda, jamais conheceria aquela que ele agora mais amava na vida. Que era a sua descendente. E ali o António resolveu meter conversa com a Maria. E soube que a Maria também já estava viúva há uns anos. Tivera dois filhos.
Hoje, sei que estão juntos. Matrimoniaram-se. Agora e finalmente um com o outro. E são também muito felizes. É fantástico poder assistir a estas circularidades da vida!...
Sugestão de leitura para esta semana: “Eu Hei-de Amar uma Pedra” de António Lobo Antunes. 
DIVIRTAMSEMAZÉ!!!


O Plácido é só o meu tenor favorito. Mas com a visualização deste vídeo eu tenho que concluir o seguinte: O magano do Plácido está muito mais giro em velho, do que alguma vez foi em novo, não concordam? Na volta ele tem a síndrome do Vinho do Porto. A velhice fez-lhe bem.
DIVIRTAMSEMAZÉ!!!

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Um rito de passagem.



Maria Carlota gostava de rir. Maria Carlota gostava muito de ler. Maria Carlota gostava muitíssimo… de viajar. Maria Carlota gostava ainda mais de se divertir. Até aqui tudo bem. Mas Maria Carlota tinha necessariamente que arranjar um emprego, pois não tinha riqueza pessoal ou familiar que lhe permitisse sobreviver com dignidade… sem bulir.
Maria Carlota tirou uma licenciatura em quatro anos. Não fez como uns e outros, que adquiriram uma licenciatura só porque têm muita experiência de vida. Em apenas um mês, eles conseguem com muitos créditos, obter uma licenciatura, só porque são muito interventivos e dinâmicos. E que grande experiência de vida eles devem de ter! É mais ou menos como a pescada, ou seja: “Antes de ser, já a tinham e sabiam toda!”
Mas não se pode dizer que Maria Carlota tenha perdido muitas noites de sono, a estudar para tirar “o canudo”. Pois nunca fora daquelas que mal chegavam a casa e se punham logo a estudar, revisando toda a matéria que fora dada no dia. Não. O que Maria Carlota fazia era estudar somente nos dias que antecediam as Frequências. E depois rezar ao Senhor para que esse seu genuíno e muito apurado esforço… bastasse. E bastou, com notas muito medianas, mas todas acima dos 14 valores.
Saída da Faculdade, havia que procurar emprego. Os pais não a obrigaram a aceitar o primeiro emprego que aparecesse e que pudesse por definição ser o menos adequado para a “senhora dona marquesa”. Mas a licenciatura estava conseguida. Aquilo que aparecesse apareceria, sem grandes traumas ou stresses violentos. E foi efectivamente… o que aconteceu. Maria Carlota foi feliz como recepcionista em lojas e museus. Mas também foi muito feliz a secretariar alguns dos Professores Doutores mais influentes da nossa praça. E para não variar muito, foi feliz a fazer estágios nas mais variadas instituições. Mas por fim, lá lhe apareceu a possibilidade de fazer um estágio, que seria realizado numa Biblioteca Pública.
E Maria Carlota nem queria acreditar na sorte que estava a ter. Não que andasse noite e dia, e com uma lanterna na mão à procura de um emprego capaz. Simplesmente aproveitava todas as oportunidades que chegavam até si. Não tinha por isso, qualquer problema em trabalhar onde quer que fosse. No entanto aquele estágio a executar numa biblioteca superava todas as suas espectativas. É que Maria Carlota adorava ler. Sempre gostara. Tal gosto estava embutido nos seus genes. E era no meio dos livros e nas Bibliotecas, onde ela mais queria trabalhar.
Antes de entrar na Instituição, foi avisada pelos seus agora superiores hierárquicos, de que não alimentasse qualquer esperança de ficar por lá. O lugar a jogo não era para ninguém com formação superior, mas sim para alguém que tivesse conhecimentos médios e firmados dentro da área da biblioteconomia. Além do mais a Carlota só para ali tinha entrado, porque fora a única da povoação, que mostrara interesse em trabalhar naquela área específica. Contudo a referida biblioteca estava em grande crescimento, pelo que, toda a força laboral e especializada… era insuficiente.
Maria Carlota aceitou com um sorriso no rosto, todas aquelas recomendações. Afinal tinha que agradecer a franqueza que estavam ali a ter para com ela. É que de nada vale andar a iludir impunemente as pessoas. No caso concreto, a Maria Carlota só tinha era que agradecer a possibilidade de aprender um pouco mais sobre uma área onde ela nunca havia trabalhado, aproveitar ao máximo o tempo que ali estivesse a estagiar e chegando ao fim do estágio, agradecer mais uma vez a possibilidade que lhe fora concedida, dizer adeus aos colegas e chefias e... procurar novamente uma outra ocupação.
Quando entrou na Biblioteca, fora-lhe logo comunicado pelos agora colegas, que as chefias estavam algo apreensivas com a sua permanência ali. E era legítimo da parte deles, não era? É que, e uma vez que o lugar não era para ninguém licenciado, pensaram que a Carlota se ia de alguma maneira impor e não realizar parte daquilo que lhe seria solicitado. Ou seja: temeram que a Carlota, não perdesse uma oportunidade para se “armar ao pingarelho”.
Depois também lhe foi dito pelos colegas, que por mais que Carlota ambicionasse, ela não poderia ficar ali. É que a Carlota fartava-se de rir e as chefias não apreciavam lá muito, as pessoas que se riam até ficarem sem ar e com uma cor arroxeada. Tal, também era legítimo. É que muita gente não consegue ler ou estudar convenientemente numa Biblioteca, onde se está para ali a gargalhar. Só que a Carlota ria, “rai’s parta”. E por mais que se esforçasse e risse o mais silenciosamente de que era capaz, no fim sempre se conseguia ouvir qualquer coisa. Aquilo agora é que não estava mesmo nada no programa. Aí é que a coisa parecia piorar um pouco. Carlota a nossa heroína de hoje gostava de rir, oh se gostava! Mas também gostava de trabalhar. E depois ela achava que uma coisa… não impedia necessariamente… a outra. Só que o chefe não gostava de risos, pronto! E estava no seu direito. Mas, e o que é que se havia de fazer em tais circunstâncias? Bem, tudo indicava que a Maria Carlota também não ficaria ali, porque o lugar não era para técnicos superiores. Tal realidade fora-lhe comunicada sempre. Além do mais, se ela deixasse de se rir, ela deixaria de viver. Morreria triste, seca e peca. Não, de todo! E a Carlota decidiu continuar a ser exactamente, como fora até ali.
A estadia naquele local foi muito ao gosto de Maria Carlota. Os colegas eram muito simpáticos. Os chefes também, se bem que o chefe que mandava mais, não lhe ligava assim muita importância. Dava-lhe uma saudação seca e formal (às vezes nem isso), e lá prosseguia com a sua vidinha. Mas a Maria Carlota também não se preocupava lá muito com isso. Tal também não lhe tirava o sono. E depois ela queria mesmo, era saber como é que tudo aquilo funcionava. E ali aprendeu mesmo muito: Aprendeu a registar… livros, a catalogar… livros, a classificar… livros, a cotar… livros, a forrar… livros, a arrumar… livros e a sugerir…. os melhores livros.
Aprendeu também a fazer um Serviço de Referência condigno. Se bem que para isso tenham contribuído muito, todas as leituras que ela havia realizado até ali. Só que também não se importava nada, em carregar com uns valentes… baldes de massa de cimento, passar uma casa, toda a pano e limpar umas grandes vidraças ou prateleiras se tal fosse necessário. Não fazia isso, para engraxar ninguém, pois tal nunca fora do seu génio, era antes para interagir com os outros e ter o prazer de ver as coisas a funcionarem devidamente. Mas ela sabia que, chegado o fim do estágio (tal fora-lhe sempre dito), a “porta da rua era serventia da casa”.
Contudo, quando faltava pouco mais de um mês para o estágio acabar, e numa altura em que ela carregava duas dúzias e meia de livros para forrar, enquanto se equilibrava e descia umas escadas muito ingremes, passa por ela o chefe (o tal que não gostava de muitas risotas), e disse-lhe:
“Vá lá abaixo pousar os livros. E depois, venha ao meu gabinete pois eu preciso de lhe dar uma palavrinha!”.
Naquele momento, mais pareceu a Maria Carlota que lhe fugiam todos os degraus, por debaixo dos pés. Mas afinal o que é que o chefe queria dela? Seria devido a alguma risota que ela tivesse dado nalguma altura, que o tivesse escandalizado particularmente? Se calhar fora mesmo isso. É que quando Maria Carlota se ria, ouvia-se mesmo a uma grande distância. E numa Biblioteca tal situação não é nada aconselhável. Mas, ela e a medo, lá foi colocar os livros ao andar debaixo, e depois subiu as escadas duas a duas, e lá entrou receosa no gabinete do Doutor.
O mesmo, e contrariamente a tudo o que Carlota mais temera, disse-lhe que até estava a gostar muito do trabalho dela. Pelos vistos, até mesmo das gargalhadas. Ou apesar das mesmas. Mas isso, ele não lhe disse. E ela também não perguntou. Depois o seu superior hierárquico disse-lhe que já contava com os seus predicados. Para ele, ela já era tida como um membro efectivo de uma equipa a todos os níveis, triunfante. E mais disse, aquele muito competente chefe (porém pouco risonho). Ele afirmou que em equipas vencedoras, não se mexe. Ela não estava mesmo nada à espera de ouvir aquilo. E naquele dia ela foi efectivamente… muito feliz.
Maria Carlota ficou assim muito contente, quase que pulava de alegria, por cima de todos os papéis e agrafadores. E até por pouco, ela não foi dar um beijinho na testa do chefe. Mas tinha que haver algum decoro, não é verdade? Quer dizer, aquele senhor, estava ali a dizer bem dela, mas uma actitude irrefletida, poderia por tudo a perder, não é verdade? E tinham-lhe falado tanto daquele chefe… Mas afinal o que o incomodava a ele, não deveria de ser… a risota. Era talvez mais, a falta de profissionalismo. Mas para que Maria Carlota pudesse continuar ali, ela teria que prosseguir com os seus estudos. E foi exactamente o que aconteceu. A partir dali, Maria Carlota e o seu "magnifico chefe", foram muito mais amiguinhos.
Durante anos, a Carlota permaneceu ali com muita alegria e empenhamento. Trabalhava e estudava em simultâneo, pela primeira vez na sua vida. Agora havia que aproveitar a verdadeira benesse, que a vida e a vontade daquele chefe lhe estavam a dar. Ela procurou ser sempre muito competente. Tentando melhorar sempre o nível do seu procedimento profissional. Só que continuava… era a rir-se. E ria mesmo muito, aquela magana. E muito alto! Mas fazia as coisas que lhe eram solicitadas com bastante esmero, é preciso que tal seja dito.
Passados alguns anos, vêm as provas de acesso a um lugar efectivo na instituição. Tal era imperioso. E Maria Carlota concorreu também, como é logico. Às provas, vieram centenas de pessoas das mais variadas proveniências. É mais do que certo que deveriam de ter currículos excelentes, com provas dadas nas mais variadas instituições. Seriam por isso, muito conhecedores das mais variadas realidades. Só que a Maria Carlota sabia era um pouco mais, daquela realidade ali presente, que os restantes. Mas ali (e para todos os efeitos), estavam todos para o mesmo, e em igualdade de circunstâncias.
Para aquelas provas, Maria Carlota estudou muito. Muito mais do que alguma vez ela estudara na Faculdade. Fez-se a Prova Escrita… E depois para a realização da entrevista, ela aguardava a sua vez, sentada numa cadeira situada num corredor, na companhia de todos os outros candidatos ao cargo. E eles eram mesmo muitos… Mas por Carlota… passaram também naquele dia, todos os seus colegas de trabalho. E para a atormentarem um pouco mais, lá lhe diziam e invariavelmente:
“Oh p’ra ela! Que está aqui… tão sossegadinha! E sem se estar a rir nem nada. Mas porque é que será? Oh mulher, tu ri-te!” E a Maria Carlota que estava ali em grande sofrimento, fingia apenas que não os conhecia de lado nenhum. Ela que estava a tremer toda por dentro. E só ansiava por poder sair dali o mais rapidamente possível. Mas todo aquele mal-estar durou até ao momento em que uma jovem candidata muito simpática se chega ao pé dela e lhe segreda: “Sabes, há aqui entre nós, uma candidata, que já trabalha aqui… faz muito tempo!”
É evidente que aquela solícita senhora desconhecia completamente que estava a falar com a visada. Mas a tal dama que se dignasse a olhar para as mãos de Carlota! Veria não só, os seus numerosos calos provocados pelo constante carregar de baldes de massa, como também umas unhas ruidas até ao sabugo, devido ao stresse e ao enervamento efectivo pelo qual, ela estava a passar… estando ali tão “sogadita”.
Sugestão de leitura para esta semana: “Uma Comédia Ligeira” de Eduardo Mendoza. 
DIVIRTAMSEMAZÉ!

 
A propósito: verifique-se o talento destes dois jovens gregos! Não sabemos o teor da conversa que antecedeu a sua tão brilhante actuação. Mas assistimos ao referido número, com muito deslumbramento. Ficamos mesmo com lágrimas verdadeiras no canto do olho.
E perante isto é muito legítimo fazer-se a seguinte pergunta: “Como é que um país com gente tão talentosa está assim a modos… como dizer? Numa crise caótica, já vai para três anos? E nós, que também somos seres tão geniais e competentíssimos, estamos no mesmo barco da desgraça, vai para dois? A única resposta, simples e inquestionável é: A CULPA É DOS POLÍTICOS QUE NÃO RECONHECEM AS CAPACIDADES IMANENTES E CRESCENTES, DO POVO QUE (DES)GOVERNAM. Só sabem falar na necessidade de AUSTERIDADE, SEMPRE MAIS AUSTERIDADE… E depois vêm discursar à televisão, COM UMAS OLHEIRAS POSTIÇAS, vertendo… para dar mais efeito, muitas lágrimas de crocodilo.


Mas resistam ao máximo ao pacto de agressões que foi tão malignamente, concertado... e apesar de tudo, DIVIRTAMSEMAZÉ!!!