António Soares nasceu nos anos 40 na Beira Alta, numa
aldeia perto da cidade de Viseu. Tornou-se a seu tempo num rapaz muito forte. E
de mau génio, quando a vida assim o exigia. Criado no meio das fragas e
pastoreando duas dúzias de ovelhas, António soube desde sempre, que o pão custa
muito a ganhar. Mas depressa chegou aos vinte anos. E ir para África foi o seu
destino, assim como para milhares de rapazes da sua idade. Iria lutar numa
terra estranha, com gente que tal como ele, não sabia muito bem ao que ia. Teria
que matar homens, que ele nunca conhecera e que positivamente não tinha grande
motivo para odiar. Mas era preciso partir. O Estado Português assim lhe exigia.
Ia lutar pela manutenção do Grande Império Lusitano, já semi-rachado com a
Independência do Brasil no século XIX e com a anexação de Goa, à Índia já em
pleno século XX.
Na sua terra, António deixaria Maria que era a sua bem-amada.
Maria nem queria pensar no dia em que António sairia da aldeia para ir para a
Guerra Colonial. Mas os dois acharam que o amor deles era suficientemente forte
para durar, dois ou três anos de ausência de uma das partes do casal
apaixonado. Devido a essa certeza, acharam que era descabido formalizarem efectivamente
essa união. Teriam tempo de casar, quando António regressasse são e salvo de
Angola.
O dia da despedida para aqueles dois foi absolutamente angustiante. Na curva da estrada, muito aquele par chorou, abraçados um ao outro. Maria aflita jurava ao seu prometido, amor eterno. António por sua vez jurava que ia ter muito cuidado, e não se ia deixar abater lá nos matos africanos. Mas sabia lá ele se regressaria algum dia? Sabia lá ela se ia tornar a ver aquele rapaz/homem quase, quase a assumir funções de soldadito? Tudo indicava que o amor dos dois iria resistir a tudo aquilo. E, já perto da hora da passagem da camioneta da carreira, eles dão mais um abraço, dão mais três ou quatro beijos, castos, para não escandalizarem quem para ali foi, também com o intuito de se despedir de António. Como era o caso da mãe dele, já viúva e das três irmãs, que ainda estavam solteiras. António havia-as proibido de o acompanharem a Lisboa, para se despedirem dele, no cais da Rocha do Conde de Óbidos.
A guerra decorreu da maneira que António não conseguira imaginar. A luta era constante e prostrara por terra, alguns dos seus companheiros. António fez-se duro. De arma nos braços ele teve que matar para não morrer. Ele teve que martirizar para reivindicar um estatuto inglório e muito lamentável. Ele teve que ver aquilo que jamais quisera ter visto. E sabia que, para todo o sempre ele iria recordar e sofrer continuamente com tais memórias. Mas contrariamente a tudo o que era espectável em similares circunstâncias, António ainda conseguiu sentir o fascínio de África. O tal fascínio que tanta gente jura que existe, porque tal como António, também com ele fora… inoculada. Porém António não esqueceu nunca, quem deixara na sua aldeia. A sua querida Maria, que permanecia lá na terra à sua espera e do seu amor. Fora ela quem assim lho afiançara. E ele não tinha nenhum motivo para duvidar. Pelo que lhe escrevera todas as vezes que lhe foram possíveis, em aerogramas de letra pequena onde não cabia a aproximação a uma milésima parte do afecto que ele sentia pela namorada. Uma vez, conseguiu mesmo falar pela televisão e por alturas do Natal. É claro que não se esqueceu de referir a mãe e as manas. Mas o seu maior cuidado estava com a namorada. Fora o nome dela, que ele primeiro proferira. Ela também lhe escrevera cartas (e amiúde), no primeiro ano e meio em que o namorado esteve ausente. Mas depois as cartas começaram a espaçar-se mais. E no último ano as cartas cessaram por completo e de parte a parte. Mas o regresso também não estava longe e quando estivessem juntos, falariam muitíssimo mais do que aquilo que as cartas e os aerogramas conseguiam comportar.
E lá passaram os dois anos e meio. Mas a sua permanência ali, foi acrescida de mais oito meses, devido a penalização por prática de acção lesiva às regras de conduta em casos tais. António que desde o início da sua permanência em África, e no palco de guerra, riscava num calendário dia a dia, todos os dias que passavam. E contava também os dias que ainda lhe faltavam, para o seu regresso à Lusa Pátria. Teve que contar depois, mais 230 dias. E toda a sua permanência ali lhe parecera imensa. Três anos para ele equivaleram a trinta. E nunca mais via a aproximação do seu regresso a casa. Mas e a custo, lá chegou o tal dia abençoado. Ele sobrevivera sem mazelas. E mais uma vez, fez toda aquela travessia, no Vera Cruz.
Passados trinta e tal dias, depois de ter deixado solo angolano, António pisou a terra sagrada da sua aldeia. A esperá-lo tinha umas irmãs muito contentes, porém algo apreensivas e uma mãe rejubilante, mas algo revoltada com alguma coisa, que António não percebeu de imediato.
Depois de todos os abraços e de todos os beijos, António foi informado (com todo o cuidado que a missão exigia), que Maria, o seu amor imenso e tão afirmativo, estava já casada com o Arménio do Chico Sapateiro. Como justificação, a moça alegara aos mais próximos, que sofrera muito com a ausência de António, pois ela amara-o muito. E para espalhar melhor as suas mágoas, ela usava e abusava dos ouvidos dos amigos e vizinhos. Mas usou especialmente a audição e o ombro firme e solícito do Arménio, que na altura andava a aprender a colocar devidamente… umas meias-solas. Ora toda aquela aproximação fez com que aquele homem e aquela mulher se unissem mais, se amassem muito e até encomendassem um herdeiro, antes do firmar do casamento. Maria foi para o casório, com o buxo muito inchado e apertado num vestidinho cor de pérola. É que a cor branca era impensável em tais circunstâncias à altura.
António nem queria acreditar no que estava a ouvir. A vida para ele parecia que terminava ali. Ele que não morrera na guerra parecia que ia morrer em solo pacificado, às mãos de uma ingrata, impaciente e muito dada mulher. E sem que ninguém visse, o António pôs-se a chorar. Chorou tanto como nunca havia chorado na sua vida. Logo ele que acreditava que, homem que é homem não chora. Mas ali teve mesmo que ser. Correu a serra. Trilhou caminhos do passado que jamais esquecera. Repisou memórias até à exaustão. Sofreu os horrores de um coração partido e enganado. Chorou depois e ainda um pouco mais, mas por fim, lá reagiu. É que a vida para ele não podia acabar ali. Seria muito injusto. Ele que andara na guerra, sujeito a todos os perigos e vinha agora morrer por via de uma desapacientada e desnaturada mulher? Não. Isso não poderia ser assim. Pelo que arribou (é que o tempo cura até os corações mais empedernidos ou rachados), procurou novamente o amor e encontrou-o na pessoa da Deolinda.
Deolinda era também sua vizinha. Era cerca de seis ou sete anos, mais velha que António. E ela, que até já perdera a esperança de se casar! É que naqueles tempos, ficar solteira no meio rural era tramado! Deolinda tinha como escolaridade, somente a terceira classe da instrução primária. Tinha um irmão já casado e a viver em Lisboa. Agora ela já abeirava os trinta. E devido à sua timidez e a alguma falta de glamour, nunca fora uma rapariga lá muito namoradeira. É claro que ela sonhava encontrar um senhor, que a tirasse da casa dos pais e daquela aldeia. E lhe proporcionasse uma vida, semelhante àquelas que ela às vezes ouvia relatar na telefonia, quando calhava ir à Venda do Marchante e escutava o folhetim radiofónico. Porém já quase trintona, via esse seu intento, cada vez mais longínquo. Era habitual nas aldeias, que rapariga que ficasse solteira tinha como destino mais provável, tomar conta dos pais até à morte daqueles. E depois continuar a tomar conta dos seus parcos haveres, que regra geral eram compostos por uma casa modesta, e uma courela de terra. Mas agora o António vivia aquele grande desgosto. O amor da sua vida arranjara um substituto. E era a vez dele olhar para o lado e ver que havia ali uma moça que o poderia acompanhar na aventura que é a vida. E sem fazer muitas perguntas.
Não se pode dizer que António se tenha apaixonado por Deolinda. E a rapariga?… Bem ela gostava dele. Se não gostasse era-lhe mais difícil aceitar o que a vida lhe estava a propor. Agora amar, ou sentir paixão? Bem, a Deolinda não percebia lá muito dessas coisas.
Mas António, que já sentira o tal fascínio por África, decidiu lá regressar. E agora não ia para a frente de guerra, nem ia sozinho. Ia tentar a sua sorte por lá e na companhia da sua agora esposa Deolinda. E os dois deram-se bem por lá. Arranjaram condições para terem uma vida honesta e frutificante. Foram também muito ajudados por outros portugueses que também lá viviam e lá tinham organizado, toda a sua vida.
Passado algum tempo, António e Deolinda tiveram uma filha. E eram felizes. Só que passados alguns anos, dá-se o vinte e cinco de Abril e a descolonização. António ainda chegou a pensar que a permanência dele e da família que ele criara, ainda seria possível em Angola após a sua declarada independência. Poderia passar perfeitamente, de português a angolano sem grandes traumas. Mas depressa abandonou essa ideia, quando assistiu ao encarniçar da luta armada e à expulsão em massa de quem nascera em Portugal ou se consorciara com portugueses. Quer uns, quer outros eram ali personas non gratas. E sem trazerem quase nada consigo, regressaram os três e de avião à agora ex-metrópole.
O início da vida daquela família em Portugal não foi nada fácil. Ter que recomeçar toda uma existência não é algo que se faça com facilidade e de um dia para o outro. Mas, com uma ajuda daqui e outra dali, eles instalaram-se num apartamento nos arredores de Lisboa. E… continuaram a viver. A filha estudou, o António empregou-se numa grande empresa como carregador. E a Deolinda ocupou-se da casa e da educação da filha. Dedicou-se também à costura, reciclando os conhecimentos que ela havia adquirido quando ainda era jovem e vivia na sua aldeia.
E os anos passavam. Mas sem que nada o fizesse prever, a Deolinda adoece. Tudo indica que a maleita que padece é da maior gravidade. O diagnóstico que lhe fazem não deixa margem para qualquer esperança. E Deolinda morre, deixando uma filha já adulta e um marido quase a abeirar o estado de velhice. É óbvio que quer a filha, quer o pai, sofreram ali um profundo desgosto. É que aquela família fora feliz à sua maneira. Deolinda aprendera a amar e a respeitar até ao limite do impensável, aquele homem que a tirara de um destino solitário. Aquela filha era a luz dos seus olhos e a razão da sua existência. António, ao seu jeito, também se habituou ao que a vida lhe possibilitara. Mas agora, ficou desolado com a perca sofrida e mais uma vez chorou, mas desta vez, sem ter qualquer problema em ser visto.
Passaram alguns meses e António regressa já reformado à aldeia que o vira nascer. Era o tempo das colheitas e da festa do lugar. Sua mãe entretanto havia morrido. Na aldeia ficara somente uma irmã, casada com um homem de uma aldeia vizinha. As outras duas irmãs haviam também casado, mas haviam emigrado para países europeus. E António visitou os locais da sua infância, trilhou mais uma vez, carreiros que nunca esquecera. Cheirou aromas, que há muitos anos não sentira, comeu petiscos já há muito esquecidos, mas agora recordados. E… junto à Quermesse, no adro da igreja ele vê uma cara envelhecida, mas com uns traços que lhe recordam alguém. Trata-se de uma mulher de estatura baixa e toda vestida de preto. À cabeça trazia um lenço preto que lhe tapava um pouco a face, mas António reconheceu-a. Era Maria, a sua amada do passado. E ali ele pensou. Era tempo de reconstruir. E de usar os ensinamentos que a vida lhe dera. Na velhice (como em qualquer outra etapa da vida), não é aconselhável, a manutenção de ódios ou de demais querelas. Os anos vividos trazem-nos a capacidade, da compreensão efectiva. E este era o tempo para António saber o que se passara de facto. É que afinal, e vendo bem as coisas, ele não tinha motivos nenhuns para estar revoltado com o curso da vida que trilhara. Fora feliz com Deolinda, de quem tivera uma linda filha, que até já estava orientada… Se ele não tivesse constituído família com Deolinda, jamais conheceria aquela que ele agora mais amava na vida. Que era a sua descendente. E ali o António resolveu meter conversa com a Maria. E soube que a Maria também já estava viúva há uns anos. Tivera dois filhos.
Hoje, sei que estão juntos. Matrimoniaram-se. Agora e finalmente um com o outro. E são também muito felizes. É fantástico poder assistir a estas circularidades da vida!...
Sugestão de leitura para esta semana: “Eu Hei-de Amar uma Pedra” de António Lobo Antunes.
DIVIRTAMSEMAZÉ!!!
O dia da despedida para aqueles dois foi absolutamente angustiante. Na curva da estrada, muito aquele par chorou, abraçados um ao outro. Maria aflita jurava ao seu prometido, amor eterno. António por sua vez jurava que ia ter muito cuidado, e não se ia deixar abater lá nos matos africanos. Mas sabia lá ele se regressaria algum dia? Sabia lá ela se ia tornar a ver aquele rapaz/homem quase, quase a assumir funções de soldadito? Tudo indicava que o amor dos dois iria resistir a tudo aquilo. E, já perto da hora da passagem da camioneta da carreira, eles dão mais um abraço, dão mais três ou quatro beijos, castos, para não escandalizarem quem para ali foi, também com o intuito de se despedir de António. Como era o caso da mãe dele, já viúva e das três irmãs, que ainda estavam solteiras. António havia-as proibido de o acompanharem a Lisboa, para se despedirem dele, no cais da Rocha do Conde de Óbidos.
A guerra decorreu da maneira que António não conseguira imaginar. A luta era constante e prostrara por terra, alguns dos seus companheiros. António fez-se duro. De arma nos braços ele teve que matar para não morrer. Ele teve que martirizar para reivindicar um estatuto inglório e muito lamentável. Ele teve que ver aquilo que jamais quisera ter visto. E sabia que, para todo o sempre ele iria recordar e sofrer continuamente com tais memórias. Mas contrariamente a tudo o que era espectável em similares circunstâncias, António ainda conseguiu sentir o fascínio de África. O tal fascínio que tanta gente jura que existe, porque tal como António, também com ele fora… inoculada. Porém António não esqueceu nunca, quem deixara na sua aldeia. A sua querida Maria, que permanecia lá na terra à sua espera e do seu amor. Fora ela quem assim lho afiançara. E ele não tinha nenhum motivo para duvidar. Pelo que lhe escrevera todas as vezes que lhe foram possíveis, em aerogramas de letra pequena onde não cabia a aproximação a uma milésima parte do afecto que ele sentia pela namorada. Uma vez, conseguiu mesmo falar pela televisão e por alturas do Natal. É claro que não se esqueceu de referir a mãe e as manas. Mas o seu maior cuidado estava com a namorada. Fora o nome dela, que ele primeiro proferira. Ela também lhe escrevera cartas (e amiúde), no primeiro ano e meio em que o namorado esteve ausente. Mas depois as cartas começaram a espaçar-se mais. E no último ano as cartas cessaram por completo e de parte a parte. Mas o regresso também não estava longe e quando estivessem juntos, falariam muitíssimo mais do que aquilo que as cartas e os aerogramas conseguiam comportar.
E lá passaram os dois anos e meio. Mas a sua permanência ali, foi acrescida de mais oito meses, devido a penalização por prática de acção lesiva às regras de conduta em casos tais. António que desde o início da sua permanência em África, e no palco de guerra, riscava num calendário dia a dia, todos os dias que passavam. E contava também os dias que ainda lhe faltavam, para o seu regresso à Lusa Pátria. Teve que contar depois, mais 230 dias. E toda a sua permanência ali lhe parecera imensa. Três anos para ele equivaleram a trinta. E nunca mais via a aproximação do seu regresso a casa. Mas e a custo, lá chegou o tal dia abençoado. Ele sobrevivera sem mazelas. E mais uma vez, fez toda aquela travessia, no Vera Cruz.
Passados trinta e tal dias, depois de ter deixado solo angolano, António pisou a terra sagrada da sua aldeia. A esperá-lo tinha umas irmãs muito contentes, porém algo apreensivas e uma mãe rejubilante, mas algo revoltada com alguma coisa, que António não percebeu de imediato.
Depois de todos os abraços e de todos os beijos, António foi informado (com todo o cuidado que a missão exigia), que Maria, o seu amor imenso e tão afirmativo, estava já casada com o Arménio do Chico Sapateiro. Como justificação, a moça alegara aos mais próximos, que sofrera muito com a ausência de António, pois ela amara-o muito. E para espalhar melhor as suas mágoas, ela usava e abusava dos ouvidos dos amigos e vizinhos. Mas usou especialmente a audição e o ombro firme e solícito do Arménio, que na altura andava a aprender a colocar devidamente… umas meias-solas. Ora toda aquela aproximação fez com que aquele homem e aquela mulher se unissem mais, se amassem muito e até encomendassem um herdeiro, antes do firmar do casamento. Maria foi para o casório, com o buxo muito inchado e apertado num vestidinho cor de pérola. É que a cor branca era impensável em tais circunstâncias à altura.
António nem queria acreditar no que estava a ouvir. A vida para ele parecia que terminava ali. Ele que não morrera na guerra parecia que ia morrer em solo pacificado, às mãos de uma ingrata, impaciente e muito dada mulher. E sem que ninguém visse, o António pôs-se a chorar. Chorou tanto como nunca havia chorado na sua vida. Logo ele que acreditava que, homem que é homem não chora. Mas ali teve mesmo que ser. Correu a serra. Trilhou caminhos do passado que jamais esquecera. Repisou memórias até à exaustão. Sofreu os horrores de um coração partido e enganado. Chorou depois e ainda um pouco mais, mas por fim, lá reagiu. É que a vida para ele não podia acabar ali. Seria muito injusto. Ele que andara na guerra, sujeito a todos os perigos e vinha agora morrer por via de uma desapacientada e desnaturada mulher? Não. Isso não poderia ser assim. Pelo que arribou (é que o tempo cura até os corações mais empedernidos ou rachados), procurou novamente o amor e encontrou-o na pessoa da Deolinda.
Deolinda era também sua vizinha. Era cerca de seis ou sete anos, mais velha que António. E ela, que até já perdera a esperança de se casar! É que naqueles tempos, ficar solteira no meio rural era tramado! Deolinda tinha como escolaridade, somente a terceira classe da instrução primária. Tinha um irmão já casado e a viver em Lisboa. Agora ela já abeirava os trinta. E devido à sua timidez e a alguma falta de glamour, nunca fora uma rapariga lá muito namoradeira. É claro que ela sonhava encontrar um senhor, que a tirasse da casa dos pais e daquela aldeia. E lhe proporcionasse uma vida, semelhante àquelas que ela às vezes ouvia relatar na telefonia, quando calhava ir à Venda do Marchante e escutava o folhetim radiofónico. Porém já quase trintona, via esse seu intento, cada vez mais longínquo. Era habitual nas aldeias, que rapariga que ficasse solteira tinha como destino mais provável, tomar conta dos pais até à morte daqueles. E depois continuar a tomar conta dos seus parcos haveres, que regra geral eram compostos por uma casa modesta, e uma courela de terra. Mas agora o António vivia aquele grande desgosto. O amor da sua vida arranjara um substituto. E era a vez dele olhar para o lado e ver que havia ali uma moça que o poderia acompanhar na aventura que é a vida. E sem fazer muitas perguntas.
Não se pode dizer que António se tenha apaixonado por Deolinda. E a rapariga?… Bem ela gostava dele. Se não gostasse era-lhe mais difícil aceitar o que a vida lhe estava a propor. Agora amar, ou sentir paixão? Bem, a Deolinda não percebia lá muito dessas coisas.
Mas António, que já sentira o tal fascínio por África, decidiu lá regressar. E agora não ia para a frente de guerra, nem ia sozinho. Ia tentar a sua sorte por lá e na companhia da sua agora esposa Deolinda. E os dois deram-se bem por lá. Arranjaram condições para terem uma vida honesta e frutificante. Foram também muito ajudados por outros portugueses que também lá viviam e lá tinham organizado, toda a sua vida.
Passado algum tempo, António e Deolinda tiveram uma filha. E eram felizes. Só que passados alguns anos, dá-se o vinte e cinco de Abril e a descolonização. António ainda chegou a pensar que a permanência dele e da família que ele criara, ainda seria possível em Angola após a sua declarada independência. Poderia passar perfeitamente, de português a angolano sem grandes traumas. Mas depressa abandonou essa ideia, quando assistiu ao encarniçar da luta armada e à expulsão em massa de quem nascera em Portugal ou se consorciara com portugueses. Quer uns, quer outros eram ali personas non gratas. E sem trazerem quase nada consigo, regressaram os três e de avião à agora ex-metrópole.
O início da vida daquela família em Portugal não foi nada fácil. Ter que recomeçar toda uma existência não é algo que se faça com facilidade e de um dia para o outro. Mas, com uma ajuda daqui e outra dali, eles instalaram-se num apartamento nos arredores de Lisboa. E… continuaram a viver. A filha estudou, o António empregou-se numa grande empresa como carregador. E a Deolinda ocupou-se da casa e da educação da filha. Dedicou-se também à costura, reciclando os conhecimentos que ela havia adquirido quando ainda era jovem e vivia na sua aldeia.
E os anos passavam. Mas sem que nada o fizesse prever, a Deolinda adoece. Tudo indica que a maleita que padece é da maior gravidade. O diagnóstico que lhe fazem não deixa margem para qualquer esperança. E Deolinda morre, deixando uma filha já adulta e um marido quase a abeirar o estado de velhice. É óbvio que quer a filha, quer o pai, sofreram ali um profundo desgosto. É que aquela família fora feliz à sua maneira. Deolinda aprendera a amar e a respeitar até ao limite do impensável, aquele homem que a tirara de um destino solitário. Aquela filha era a luz dos seus olhos e a razão da sua existência. António, ao seu jeito, também se habituou ao que a vida lhe possibilitara. Mas agora, ficou desolado com a perca sofrida e mais uma vez chorou, mas desta vez, sem ter qualquer problema em ser visto.
Passaram alguns meses e António regressa já reformado à aldeia que o vira nascer. Era o tempo das colheitas e da festa do lugar. Sua mãe entretanto havia morrido. Na aldeia ficara somente uma irmã, casada com um homem de uma aldeia vizinha. As outras duas irmãs haviam também casado, mas haviam emigrado para países europeus. E António visitou os locais da sua infância, trilhou mais uma vez, carreiros que nunca esquecera. Cheirou aromas, que há muitos anos não sentira, comeu petiscos já há muito esquecidos, mas agora recordados. E… junto à Quermesse, no adro da igreja ele vê uma cara envelhecida, mas com uns traços que lhe recordam alguém. Trata-se de uma mulher de estatura baixa e toda vestida de preto. À cabeça trazia um lenço preto que lhe tapava um pouco a face, mas António reconheceu-a. Era Maria, a sua amada do passado. E ali ele pensou. Era tempo de reconstruir. E de usar os ensinamentos que a vida lhe dera. Na velhice (como em qualquer outra etapa da vida), não é aconselhável, a manutenção de ódios ou de demais querelas. Os anos vividos trazem-nos a capacidade, da compreensão efectiva. E este era o tempo para António saber o que se passara de facto. É que afinal, e vendo bem as coisas, ele não tinha motivos nenhuns para estar revoltado com o curso da vida que trilhara. Fora feliz com Deolinda, de quem tivera uma linda filha, que até já estava orientada… Se ele não tivesse constituído família com Deolinda, jamais conheceria aquela que ele agora mais amava na vida. Que era a sua descendente. E ali o António resolveu meter conversa com a Maria. E soube que a Maria também já estava viúva há uns anos. Tivera dois filhos.
Hoje, sei que estão juntos. Matrimoniaram-se. Agora e finalmente um com o outro. E são também muito felizes. É fantástico poder assistir a estas circularidades da vida!...
Sugestão de leitura para esta semana: “Eu Hei-de Amar uma Pedra” de António Lobo Antunes.
DIVIRTAMSEMAZÉ!!!
O Plácido é só o meu tenor favorito. Mas com a
visualização deste vídeo eu tenho que concluir o seguinte: O magano do Plácido
está muito mais giro em velho, do que alguma vez foi em novo, não concordam? Na
volta ele tem a síndrome do Vinho do Porto. A velhice fez-lhe bem.
DIVIRTAMSEMAZÉ!!!

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