Maria Carlota gostava de rir. Maria Carlota gostava muito de ler. Maria Carlota gostava muitíssimo… de viajar. Maria Carlota gostava ainda mais de se divertir. Até aqui tudo bem. Mas Maria Carlota tinha necessariamente que arranjar um emprego, pois não tinha riqueza pessoal ou familiar que lhe permitisse sobreviver com dignidade… sem bulir.
Maria Carlota tirou uma licenciatura em quatro anos. Não fez como uns e outros, que adquiriram uma licenciatura só porque têm muita experiência de vida. Em apenas um mês, eles conseguem com muitos créditos, obter uma licenciatura, só porque são muito interventivos e dinâmicos. E que grande experiência de vida eles devem de ter! É mais ou menos como a pescada, ou seja: “Antes de ser, já a tinham e sabiam toda!”
Mas não se pode dizer que Maria Carlota tenha perdido muitas noites de sono, a estudar para tirar “o canudo”. Pois nunca fora daquelas que mal chegavam a casa e se punham logo a estudar, revisando toda a matéria que fora dada no dia. Não. O que Maria Carlota fazia era estudar somente nos dias que antecediam as Frequências. E depois rezar ao Senhor para que esse seu genuíno e muito apurado esforço… bastasse. E bastou, com notas muito medianas, mas todas acima dos 14 valores.
Saída da Faculdade, havia que procurar emprego. Os pais não a obrigaram a aceitar o primeiro emprego que aparecesse e que pudesse por definição ser o menos adequado para a “senhora dona marquesa”. Mas a licenciatura estava conseguida. Aquilo que aparecesse apareceria, sem grandes traumas ou stresses violentos. E foi efectivamente… o que aconteceu. Maria Carlota foi feliz como recepcionista em lojas e museus. Mas também foi muito feliz a secretariar alguns dos Professores Doutores mais influentes da nossa praça. E para não variar muito, foi feliz a fazer estágios nas mais variadas instituições. Mas por fim, lá lhe apareceu a possibilidade de fazer um estágio, que seria realizado numa Biblioteca Pública.
E Maria Carlota nem queria acreditar na sorte que estava a ter. Não que andasse noite e dia, e com uma lanterna na mão à procura de um emprego capaz. Simplesmente aproveitava todas as oportunidades que chegavam até si. Não tinha por isso, qualquer problema em trabalhar onde quer que fosse. No entanto aquele estágio a executar numa biblioteca superava todas as suas espectativas. É que Maria Carlota adorava ler. Sempre gostara. Tal gosto estava embutido nos seus genes. E era no meio dos livros e nas Bibliotecas, onde ela mais queria trabalhar.
Antes de entrar na Instituição, foi avisada pelos seus agora superiores hierárquicos, de que não alimentasse qualquer esperança de ficar por lá. O lugar a jogo não era para ninguém com formação superior, mas sim para alguém que tivesse conhecimentos médios e firmados dentro da área da biblioteconomia. Além do mais a Carlota só para ali tinha entrado, porque fora a única da povoação, que mostrara interesse em trabalhar naquela área específica. Contudo a referida biblioteca estava em grande crescimento, pelo que, toda a força laboral e especializada… era insuficiente.
Maria Carlota aceitou com um sorriso no rosto, todas aquelas recomendações. Afinal tinha que agradecer a franqueza que estavam ali a ter para com ela. É que de nada vale andar a iludir impunemente as pessoas. No caso concreto, a Maria Carlota só tinha era que agradecer a possibilidade de aprender um pouco mais sobre uma área onde ela nunca havia trabalhado, aproveitar ao máximo o tempo que ali estivesse a estagiar e chegando ao fim do estágio, agradecer mais uma vez a possibilidade que lhe fora concedida, dizer adeus aos colegas e chefias e... procurar novamente uma outra ocupação.
Quando entrou na Biblioteca, fora-lhe logo comunicado pelos agora colegas, que as chefias estavam algo apreensivas com a sua permanência ali. E era legítimo da parte deles, não era? É que, e uma vez que o lugar não era para ninguém licenciado, pensaram que a Carlota se ia de alguma maneira impor e não realizar parte daquilo que lhe seria solicitado. Ou seja: temeram que a Carlota, não perdesse uma oportunidade para se “armar ao pingarelho”.
Depois também lhe foi dito pelos colegas, que por mais que Carlota ambicionasse, ela não poderia ficar ali. É que a Carlota fartava-se de rir e as chefias não apreciavam lá muito, as pessoas que se riam até ficarem sem ar e com uma cor arroxeada. Tal, também era legítimo. É que muita gente não consegue ler ou estudar convenientemente numa Biblioteca, onde se está para ali a gargalhar. Só que a Carlota ria, “rai’s parta”. E por mais que se esforçasse e risse o mais silenciosamente de que era capaz, no fim sempre se conseguia ouvir qualquer coisa. Aquilo agora é que não estava mesmo nada no programa. Aí é que a coisa parecia piorar um pouco. Carlota a nossa heroína de hoje gostava de rir, oh se gostava! Mas também gostava de trabalhar. E depois ela achava que uma coisa… não impedia necessariamente… a outra. Só que o chefe não gostava de risos, pronto! E estava no seu direito. Mas, e o que é que se havia de fazer em tais circunstâncias? Bem, tudo indicava que a Maria Carlota também não ficaria ali, porque o lugar não era para técnicos superiores. Tal realidade fora-lhe comunicada sempre. Além do mais, se ela deixasse de se rir, ela deixaria de viver. Morreria triste, seca e peca. Não, de todo! E a Carlota decidiu continuar a ser exactamente, como fora até ali.
A estadia naquele local foi muito ao gosto de Maria Carlota. Os colegas eram muito simpáticos. Os chefes também, se bem que o chefe que mandava mais, não lhe ligava assim muita importância. Dava-lhe uma saudação seca e formal (às vezes nem isso), e lá prosseguia com a sua vidinha. Mas a Maria Carlota também não se preocupava lá muito com isso. Tal também não lhe tirava o sono. E depois ela queria mesmo, era saber como é que tudo aquilo funcionava. E ali aprendeu mesmo muito: Aprendeu a registar… livros, a catalogar… livros, a classificar… livros, a cotar… livros, a forrar… livros, a arrumar… livros e a sugerir…. os melhores livros.
Aprendeu também a fazer um Serviço de Referência condigno. Se bem que para isso tenham contribuído muito, todas as leituras que ela havia realizado até ali. Só que também não se importava nada, em carregar com uns valentes… baldes de massa de cimento, passar uma casa, toda a pano e limpar umas grandes vidraças ou prateleiras se tal fosse necessário. Não fazia isso, para engraxar ninguém, pois tal nunca fora do seu génio, era antes para interagir com os outros e ter o prazer de ver as coisas a funcionarem devidamente. Mas ela sabia que, chegado o fim do estágio (tal fora-lhe sempre dito), a “porta da rua era serventia da casa”.
Contudo, quando faltava pouco mais de um mês para o estágio acabar, e numa altura em que ela carregava duas dúzias e meia de livros para forrar, enquanto se equilibrava e descia umas escadas muito ingremes, passa por ela o chefe (o tal que não gostava de muitas risotas), e disse-lhe:
“Vá lá abaixo pousar os livros. E depois, venha ao meu gabinete pois eu preciso de lhe dar uma palavrinha!”.
Naquele momento, mais pareceu a Maria Carlota que lhe fugiam todos os degraus, por debaixo dos pés. Mas afinal o que é que o chefe queria dela? Seria devido a alguma risota que ela tivesse dado nalguma altura, que o tivesse escandalizado particularmente? Se calhar fora mesmo isso. É que quando Maria Carlota se ria, ouvia-se mesmo a uma grande distância. E numa Biblioteca tal situação não é nada aconselhável. Mas, ela e a medo, lá foi colocar os livros ao andar debaixo, e depois subiu as escadas duas a duas, e lá entrou receosa no gabinete do Doutor.
O mesmo, e contrariamente a tudo o que Carlota mais temera, disse-lhe que até estava a gostar muito do trabalho dela. Pelos vistos, até mesmo das gargalhadas. Ou apesar das mesmas. Mas isso, ele não lhe disse. E ela também não perguntou. Depois o seu superior hierárquico disse-lhe que já contava com os seus predicados. Para ele, ela já era tida como um membro efectivo de uma equipa a todos os níveis, triunfante. E mais disse, aquele muito competente chefe (porém pouco risonho). Ele afirmou que em equipas vencedoras, não se mexe. Ela não estava mesmo nada à espera de ouvir aquilo. E naquele dia ela foi efectivamente… muito feliz.
Maria Carlota ficou assim muito contente, quase que pulava de alegria, por cima de todos os papéis e agrafadores. E até por pouco, ela não foi dar um beijinho na testa do chefe. Mas tinha que haver algum decoro, não é verdade? Quer dizer, aquele senhor, estava ali a dizer bem dela, mas uma actitude irrefletida, poderia por tudo a perder, não é verdade? E tinham-lhe falado tanto daquele chefe… Mas afinal o que o incomodava a ele, não deveria de ser… a risota. Era talvez mais, a falta de profissionalismo. Mas para que Maria Carlota pudesse continuar ali, ela teria que prosseguir com os seus estudos. E foi exactamente o que aconteceu. A partir dali, Maria Carlota e o seu "magnifico chefe", foram muito mais amiguinhos.
Durante anos, a Carlota permaneceu ali com muita alegria e empenhamento. Trabalhava e estudava em simultâneo, pela primeira vez na sua vida. Agora havia que aproveitar a verdadeira benesse, que a vida e a vontade daquele chefe lhe estavam a dar. Ela procurou ser sempre muito competente. Tentando melhorar sempre o nível do seu procedimento profissional. Só que continuava… era a rir-se. E ria mesmo muito, aquela magana. E muito alto! Mas fazia as coisas que lhe eram solicitadas com bastante esmero, é preciso que tal seja dito.
Passados alguns anos, vêm as provas de acesso a um lugar efectivo na instituição. Tal era imperioso. E Maria Carlota concorreu também, como é logico. Às provas, vieram centenas de pessoas das mais variadas proveniências. É mais do que certo que deveriam de ter currículos excelentes, com provas dadas nas mais variadas instituições. Seriam por isso, muito conhecedores das mais variadas realidades. Só que a Maria Carlota sabia era um pouco mais, daquela realidade ali presente, que os restantes. Mas ali (e para todos os efeitos), estavam todos para o mesmo, e em igualdade de circunstâncias.
Para aquelas provas, Maria Carlota estudou muito. Muito mais do que alguma vez ela estudara na Faculdade. Fez-se a Prova Escrita… E depois para a realização da entrevista, ela aguardava a sua vez, sentada numa cadeira situada num corredor, na companhia de todos os outros candidatos ao cargo. E eles eram mesmo muitos… Mas por Carlota… passaram também naquele dia, todos os seus colegas de trabalho. E para a atormentarem um pouco mais, lá lhe diziam e invariavelmente:
“Oh p’ra ela! Que está aqui… tão sossegadinha! E sem se estar a rir nem nada. Mas porque é que será? Oh mulher, tu ri-te!” E a Maria Carlota que estava ali em grande sofrimento, fingia apenas que não os conhecia de lado nenhum. Ela que estava a tremer toda por dentro. E só ansiava por poder sair dali o mais rapidamente possível. Mas todo aquele mal-estar durou até ao momento em que uma jovem candidata muito simpática se chega ao pé dela e lhe segreda: “Sabes, há aqui entre nós, uma candidata, que já trabalha aqui… faz muito tempo!”
É evidente que aquela solícita senhora desconhecia completamente que estava a falar com a visada. Mas a tal dama que se dignasse a olhar para as mãos de Carlota! Veria não só, os seus numerosos calos provocados pelo constante carregar de baldes de massa, como também umas unhas ruidas até ao sabugo, devido ao stresse e ao enervamento efectivo pelo qual, ela estava a passar… estando ali tão “sogadita”.
Sugestão de leitura para esta semana: “Uma Comédia Ligeira” de Eduardo Mendoza.
DIVIRTAMSEMAZÉ!
A propósito: verifique-se o talento destes dois jovens
gregos! Não sabemos o teor da conversa que antecedeu a sua tão brilhante actuação.
Mas assistimos ao referido número, com muito deslumbramento. Ficamos mesmo com lágrimas verdadeiras no canto do olho.
E perante isto é muito legítimo fazer-se a seguinte
pergunta: “Como é que um país com gente tão talentosa está assim a modos… como
dizer? Numa crise caótica, já vai para três anos? E nós, que também somos seres
tão geniais e competentíssimos, estamos no mesmo barco da desgraça, vai para
dois? A única resposta, simples e inquestionável é: A CULPA É DOS POLÍTICOS QUE NÃO RECONHECEM AS CAPACIDADES IMANENTES E
CRESCENTES, DO POVO QUE (DES)GOVERNAM. Só sabem falar na necessidade de
AUSTERIDADE, SEMPRE MAIS AUSTERIDADE… E depois vêm discursar à televisão, COM UMAS OLHEIRAS
POSTIÇAS, vertendo… para dar mais efeito, muitas lágrimas de crocodilo.
Mas resistam ao máximo ao pacto de agressões que foi tão malignamente, concertado... e apesar de tudo, DIVIRTAMSEMAZÉ!!!

1 comentário:
Força Maria Carlota!!!!! LOL
Em relação aos gregos: que jovens tão talentosos ehehehe
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