Não sei muito bem porquê, mas gosto de ilhas. Mas de ilhas distantes. Gosto da sensação de se estar p’rá ali, no meio do mar e sem outras terras como horizonte. Sentir todo aquele isolamento!... E como será viver uma grande tempestade, na Ilha do Corvo, por exemplo? Mas depois (e passados alguns dias), eu vivo algo contraditório com este meu gosto. É que reavaliada a situação eu gosto de saber que a minha presença nas ilhas é temporária. Que tenho o meu dia de regresso mapeado. É que passado algum tempo, não é para mim muito confortável, saber-me num espaço diminuto. Sentir-me um pouco como uma “prisioneira” de um pedaço de terra muralhado a toda a volta…pelo mar. Sentir-me assim tão cativa, começa a fazer-me… alguma confusão. E eu que nem sei nadar!… Resumindo, pode-se dizer que eu gosto de ilhas, só que gosto delas para as visitar. Não gostaria de residir numa.
Mas o meu pensamento de hoje vai para uma viagem, que eu fiz há alguns anos, à Ilha de S. Miguel, Açores. Foi exactamente numa altura, em que na cidade de Ponta Delgada, decorria um Seminário de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas. Como sabem eu faço parte da primeira espécie aqui referenciada. Mas e em minha defesa, (ou melhor, para denegrir ainda mais um pouco, a minha imagem), eu tenho a dizer que o dito Congresso não foi propriamente a minha primeira motivação para fazer a viagem. Nem sequer a 13ª hipótese. E olhem que quem diz a verdade…
Sei que se aprende sempre muita coisa nos ditos congressos. Mas existem também, algumas apresentações que eu considero bastante “secantes”. Como as de algumas pessoas que arrogantemente nos vêm dizer, que descobriram a pólvora da Biblioteconomia. Que acham mesmo, que antes de suas existências, as Bibliotecas eram residuais e pouco importantes. Alguns até devem achar, que antes deles, as bibliotecas nem sequer existiam enquanto tal. Desculpem-me lá a franqueza.
Ora eu estava ali. Naquela terra tão desconhecida para mim. Pelo que, do Seminário, eu assisti ao que potencialmente mais me poderia agradar (que foi muito pouco, lamento), e desbravei totalmente as brumas daquela Ilha. Apercebi-me que para isso, não seria necessário muito tempo de permanência. Pelo que considero que vi grande parte da mesma, nos sete dias que ali estive.
No avião que me levaria até tais paragens, deu-se a situação que eu considero como a mais rocambolesca, que eu vivi em idênticas circunstâncias. Lá em cima viajava-se na mais perfeita tranquilidade. Depois de algum tempo, houve um ou outro ponto em que ocorreu alguma turbulência, mas positivamente nada digno de nota. Eu que ia na companhia de alguns amigos. Mais ou menos a meio da viagem, vinha muito descansadamente e pela vigia abaixo, um senhor já com alguma idade, que me pareceu estar vestido à Comandante. E vinha ali com um ar todo lampeiro. Mas depois e sem que nada o fizesse prever (pelo menos para a minha consideração de leiga), o homem vira-se e desata literalmente a correr pelo corredor fora em direcção ao cockpit.
Lindo! Essa foi efectivamente uma imagem muito tranquilizadora! Até mesmo para mim que não tenho medo nenhum de andar de avião. Que até quando vejo um no ar, fico embasbacada a olhar para ele. Às vezes chego mesmo a mandar-lhe… um beijinho.
Passado muito pouco tempo, depois de tão comovedora cena, começa-se a ouvir pelos transmissores, numa voz algo fanhosa: “Informamos toda a tripulação e mais os senhores passageiros, que o avião está com uma pequena avaria num dos motores. Temos a intenção de reparar a dita, mal consigamos aterrar no Aeroporto de Ponta Delgada”.
Muito emocionante, não é? Mas, olho para todos os lados e verifico que ninguém, mas mesmo ninguém, pareceu dar qualquer importância, àquilo que fora dito. “Estaria eu a delirar?” Pensei para os meus botões e mais fechos éclairs. Às vezes isso pode acontecer, não é? Ainda mais quando estamos a tão grande altitude! Mas depois olho mais para trás e vejo que a minha amiga J. estava imensamente pálida. Ela, tal como eu parecia estar muito assustada, com tão oportuna narração. Mas de resto estava toda a gente, e muito sinistramente, calma com o que ali fora dito. Mais parecia que nem sequer tinham ouvido. Eu, enfim… entreguei a causa a Deus. Que fosse o que Deus quisesse. É nestas alturas (e como que por milagre), que altos níveis de religiosidade vêm ao de cima. E lembramo-nos muito, do teor das nossas aulas da catequese.
Mas decididamente, eu não conseguia deixar de pensar naquilo. Para mim isso era inevitável. É que avaliando bem as coisas, que necessidade tínhamos nós, de saber da ocorrência de tal avaria? É que aparentemente, nenhum dos passageiros estava capacitado para proceder àquela reparação. Ainda mais, e mesmo que um de nós fosse um exímio mecânico de aeronaves, não me parece que fosse humanamente possível proceder à dita reparação… em pleno voo. Encostado a uma nuvem, por exemplo. Se calhar, seria conveniente encostar à berma, sei lá? Pensando bem, será melhor fazer essa pergunta, à minha amiga Guiduxa. Ou então… aconselhar-me com o Mitt Romney.
E depois lá continuei a pensar. Eu, aqui confesso… sou algo propensa a essa tão complexa actividade. E pensei em todos aqueles voos, que infelizmente resultam em desastres, que vitimam todos os seus ocupantes. Imaginei que os mesmos, antes de terem subido “lá para o andar de cima”, podem ter sido, devidamente informados sobre a real dimensão da avaria. E sobre aquilo que os tripulantes esperariam ainda conseguir fazer. Mas depois… viria o silêncio. Sei que é um assunto muito sério e delicado. Nada divertido mesmo. Mas eu questiono-me: o que é que se ganha em ter tanta informação à hora de se “desencarnar"? Penso que só mesmo… uma crise suplementar de nervos. Será que o sonho daquele comandante do voo para os Açores, era o de anunciar a alguém que o “fim da linha” estava próximo? Sugerir assim, que nos arrependêssemos de todos os nossos actos tresloucados. E pedíssemos à Divina Providência, misericórdia e compreensão. Assim como… um lugar cativo e de preferência com boas vistas? E com boa vizinhança…? E seria o tal piloto… Testemunha de Jeová? Ou Adventista do Sétimo Dia? Ou então um dos Últimos Santos?
Eu que felizmente não tinha medo de andar de avião, também não fiquei com receio especial a partir daquele dia. Contudo eu tenho aqui que confessar uma coisa, vocês merecem: Quando finalmente, eu pisei o solo açoriano, apeteceu-me fazer o mesmo que o papa, quando chega a um país pela primeira vez. Tive vontade de me ajoelhar e de beijar aquele chão sagrado e sem sacudidelas desnecessárias. Beijar embevecidamente aquele alcatrão da pista com pedras e tudo. Acho que também não devem de andar por ali muitos cães, a fazer as suas necessidades.
Passada esta tão bela abertura de cena, a permanência naquela Ilha, foi bastante boa. E que bem que se come por aquelas paragens! Recusei contudo provar tubarão. Já bem basta os tubarões desta sociedade. Aqueles que querem ficar com todo o nosso dinheirinho! Sacrifiquei-me assim, e renunciei a tal pitéu. Esperando que um parente qualquer, daquele tubarão sacrificado (e que alguma vez se cruze comigo), tenha a mesma atenção que eu tive, para com o seu familiar. Por mim era até escusado pescarem-se tais criaturas. Eles que até nadam tão felizes, pelo Oceano a fora… Com os seus dentes cortantes, mas exibindo caras sempre tão sorridentes! E como eu me lembro da simpatia do Bruce, que era aquele tubarão do filme: “À procura de Nemo”, dos Estúdios da Pixar!... Que Tubarão tão simpático e tão politicamente correcto! A falar com os outros peixinhos, a quem ele chamava carinhosamente de… Migalhitas: “Como é que estão as minhas Migalhitas?” Dizia ele sempre a sorrir. E depois gargalhava. Tão querido, que era aquele bichinho! Sempre tão esforçado para se tornar… vegetariano. E como eu o compreendi e tanto o quis imitar. Deixar definitivamente de me alimentar de carne… Só que depois, tive que me render à evidência da minha fraqueza. Quando por exemplo estou defronte: de belos enchidos, de Arroz de Pato e de Cozido à Portuguesa… E por isso, quem é que no seu perfeito juízo, poderá jurar que não vai cometer o pecado da gula?
Já na cidade capital, e num bar, houve um simpático senhor, que eu nunca conhecera mais gordito, que me ofereceu um copo de Vinho de Cheiro. Eu que até sou apreciadora da bebida de Baco. Mas como convém, bebo moderadamente. Porém ainda bem que aquele senhor teve aquela gentileza para comigo. Assim eu não tive que gastar um cêntimo numa bebida que verdadeiramente, eu não apreciei.
Já instalados num simpático, porém modesto hotel, nós decidimos comprar duas viagens, onde se incluíam visitas guiadas aos locais mais emblemáticos da Ilha. Quem nos guiaria, seria uma simpática senhora, que nos chamava a todo o momento de colegas, pois tal como nós, era também licenciada em História. No curioso grupo que se conseguiu formar, faziam parte duas mulheres (que eram mãe e filha). Elas tinham as suas origens nos Açores. Eram luso-descendentes e viviam nos Estados Unidos da América. Só que lamentavelmente nem uma nem outra falavam uma única palavra de português. A mais velha dizia que tinha ido para a América quando era ainda muito pequena. A sua filha, naturalmente já lá havia nascido.
E tudo poderia ter corrido muito bem, não fora o facto das mesmas serem altamente desconfiadas e acharem que se a guia não falasse somente em inglês, era porque estávamos… a gozar com elas. Tudo bem! O inglês é uma das línguas mais faladas do mundo. A primeira mais falada é o mandarim… Contudo a língua oficial de Portugal… é o português. Ou melhor, era. Porque agora eu acho que mudámos para … o Acordês. Só que as senhoras insistiam. Queriam que se falasse somente em inglês. Elas que deviam de achar, que todos aqueles nossos constantes risos eram muito… suspeitos e despropositados. No início, elas ainda contaram com todo o nosso respeito e consideração. Mas depois, não. É que sendo aquelas senhoras tão chatas e antipáticas, acabaram mesmo por ser, o motivo de toda a chacota. Foram elas que com a sua tão “original” forma de estar, acabaram por “cavar” a sua própria desdita. E a gargalhada ali, foi uma constante. E mais: posso dizer que não sentimos com isso, qualquer tipo de arrependimento. Mas esta história terá que continuar para a semana.
Sugestão de leitura: “Mau tempo no Canal” de Vitorino Nemésio.
DIVIRTAMSEMAZÉ!

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