Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

segunda-feira, 13 de julho de 2015

A publicar para breve!



O que me tem consumido, nestes últimos dias, um Administrador que eu cá sei. Eu não quero reconhecer, mas trata-se declaradamente... de um caso de amor.

A não perder, para todos aqueles que gostam de histórias LAMENTÁVEIS!

terça-feira, 10 de março de 2015

Considerando que...



Existe um dia que me “encaganita” verdadeiramente. É o Dia da Mulher! Mas porquê, senhores? Existir um dia em que se falam nas causas pertencente exclusivamente à condição feminina. Mas seremos nós assim tão exclusivistas? No dia em que os homens sorriem e oferecem flores. E falam nas virtudes de toda uma classe, que têm como denominador comum o facto de terem nascido com uma “pipi” localizada lá para o centro do corpo. Mas e os outros dias? Não serão eles igualmente dias das mulheres. Das mulheres e dos homens. Já para não falar dos cães, dos gatos, lagartixas, galinhas e outros seres vivos, que connosco dividem este nosso espaço terreno?
Por outro lado, ninguém me fale em conversas de cotas. Não das velhas, que a esse estádio eu vou pertencendo cada vez mais. Mas das percentagens de mulheres a “localizar” num determinado espaço. Com uma determinada função. Em locais de decisão. De projecção... Mas as coisas têm mesmo que funcionar assim? Acho que existem mulheres competentes e incompetentes, a coisa deve corresponder mais ou menos à escala do que sucede no masculino, onde o trabalhador não pode ser considerado muito válido, só pelo simples facto de vir munido à nascença, de um orgulhoso penduricalho.
As mulheres já mostraram, e continuam a mostrar, que são tão capazes como os homens. São as mais estudiosas (quando a isso se dedicam). São as mais competentes (quando para aí estão viradas). E são as mais determinadas, quanto se exige.
Não são as cotas que nos podem vir a dar confiança necessária ao nosso género. Onde é que alguém, minimamente inteligente poderá querer estar somente… por obrigação? A mulher destaca-se e é capaz. Só quer mesmo é ter as mesmas possibilidades que são facultadas à partida, ao seu parceiro masculino. E vamos de uma vez por todas alinhar em algo que considero indesmentível: as mulheres não são todas iguais. Nunca houve (e é bom que nunca exista), nenhuma forma mágica/aterrorizadora, que nos possa formatar todas ao mesmo molde.
Por isso, também não vi com grande apreciação, a invasão de mulheres à agora muito célebre barbearia lusitana. Pois, amigas invasoras, vocês fizeram precisamente aquilo que eles sempre quiseram ter. Publicidade. Passaram de uma barbearia igual a tantas outras, a uma barbearia onde deixam entrar homens e cães. E nós não entramos. Mas, e depois? Quem é que no nosso juízo perfeito lá quereria entrar? Permanecer? E para quê? Para aparar o buço? Definir a barba? Mudar o corte da nossa púbis? Se os homens querem efectivamente lá estar na companhia exclusiva dos seus pares e dos cães? Pois que fiquem. Eles lá saberão a gratificação que ali vão alcançar. Ou então ainda lá a irão descobrir. E depois, podem não só dedicar-se às suas conversas de eleição, sejam elas quais forem, não podemos aqui (nem nunca) ser preconceituosas, como também ao cuidado muito elaborado e prestimoso a ter com os seus canitos. Podem pentear os cães, dar-lhes banho (lembram-se daquele celebre frase, nada elogiosa do passado?). Podem ainda catar-lhes as pulgas, e fazer troca das carraça pois devem de existir várias tipologias. Devem... Wo cares?
Da mesma maneira que não achei qualquer sentido, àquela célebre campanha dos homens que se deixaram fotografar… de salto alto. Dizia-se à priori, que o objectivo da mesma, era fazer com que os mesmos se pusessem (por instantes) na condição das mulheres. Mas porquê de salto alto, senhores? Andaremos todas de salto? E convenhamos, quem é que obriga alguém a andar de saltos altos? Estará isto incluso da super-propagandeada condição feminina. Género: Se não usas saltos, és uma bardajona? Pois, coisas parecidas a essa, eu já tive oportunidade de ler neste mundo virtualmente blogosférico. Ou por outra: será alguma medida de austeridade ainda pertença ao desconhecimento geral? Para podermos andar a tropeçar umas nas outras (e nos homens que também tanto apreciam andar de saltos) e salvaguardar assim contusões variadas que nos poderão levar à morte?
E depois convenhamos: eles assim trajados representam quem? As que de nós têm que correr todo o dia. Da escola dos miúdos para o trabalho, do trabalho para a escola dos miúdos?...  Já para não falar da sua “natural” obrigação ao fim do dia, de confeccionar as refeições para a ganapada?
Ou aquelas, que tendo esse trabalho, ou não, passam o dia de pé, numa linha de montagem  de uma fábrica qualquer? Estarão eles a lembrar-se também daquelas que trabalham no campo, quase de sol a sol. Que tiram da terra o sustento para elas e para a família. As que trabalham nas unidades de produção intensiva? Andarão todas essas mulheres de salto alto agulha, ou o que raio é aquilo? Será depois que mesmo que elas quisessem, fizessem disso, assim muita questão?
Pois assim à partida tal não me parece. Quando muito os homens de salto, representarão um clube privativo de dondocas, muito bronzeadas e "celicóticas". Fingidoras assumidas do consumo do “cocrete” e do espumante cada vez mais nacional. As tais que morrem de medo de assumir proporções mais avantajadas lá para a zona “rabal”.
Agora se o caso é devido ao facto de terem aceite o o convite, usando para isso de toda a sua proverbial e inquestionável vontade de ser solidários com “causas”, e juntaram a isso também, o seu gosto “não confessado” de se fazerem apresentar em tais preparos… pois na minha modestíssima opinião, até podiam ir um pouquinho mais longe: e a começarem a andar sempre de salto alto. De trinta, quarenta ou mesmo cinquenta centímetros. E para completar o figurino, até poderiam adquirir umas malinhas, de mão ou mesmo de tiracolo, daquelas de marca (as vossas amigas dondocas explicam-vos melhor como adquiri-las) para fizerem pendant. Num primeiro momento seriam notados, pois claro. Mas depois, e como em tudo na vida, ocorreria o chamado fenómeno da habituação!
E se mesmo depois disso tudo, ainda se quisessem pôr mais no papel das mulheres, sentissem que ainda lhes faltava alguma coisa, podiam fazer à semelhança de um episódio que eu ouvi “à atrasado”:

Leonel e Genoveva estavam prestes a conhecer o seu Rebento Primeiro. Genoveva, larga e quase sem poder carregar consigo, estava já a ir para a Maternidade. Ela e Leonel levavam na mão já a malinha com as roupas e cremes que se exige em similares circunstâncias.
Já na sala dos partos, quando naturalmente o petiz já devia de ocupar a poll posicion para sair, é que o médico principal propôs ao parturiente:
-O senhor Leonel querendo, poderia participar na nossa grande inovação no que aos partos diz respeito. E nós ligávamos a si, que é o mais ansioso pai do momento, este pequenito cabo. Esta simples ligação, faria com que o senhor pudesse sentir (e em ex aequo com a sua patroa) também as dores do parto. E assim poderá haver uma unidade muito maior entre vocês todos. Com muito mais entendimento e solidariedade.
Leonel aceitou logo. Não podia ser de outra maneira. Afinal aquele empreendimento era dos dois… e quanto mais comungassem… Pelo que o médico prontamente, lá lhe ligou aquele mecanismo.
E disse o doutor:
“O senhor vai agora sentir, cinco por cento das dores que a “sua jóia mais sagrada e tão escolhida por si” está presentemente a sentir. Está preparado? Pronto… Como é que se sente, sr. Leonel?”

Resposta do homem:
-Olhe. Atendendo às circunstâncias eu acho que até estou relativamente bem. Sinto uma pequena dor nas cruzes, que aliás já trazia de casa. E uma dor de cabeça que me apanha os olhos e parte da testa, por assim dizer, mas… não sinto assim um grande, grande incómodo…

Disse o médico: Então agora vou-lhe aumentar-lhe o nível de dor para os dez por cento, se me permite. Para poder ficar com uma ideia mais clara sobre o que a sua “pimpinela mais brilhante” está a sentir neste momento preciso. (…) E agora senhor? Sente mais alguma coisa?

Respondeu o Leonel:
-Ah agora sinto, senhor doutor! É que para além da dor lombar e da dor de cabeça, sinto um pequeno formigueiro na ponta do dedo grande do pé direito. É algo muito incomodativo. De facto.

O Médico estava verdadeiramente impressionado. Aquele Leonel era muito valente. Outros homens naquelas circunstâncias, já se estariam a rebolar pelo chão com dores. E a chamarem aos gritos, pelo auxílio divino das suas mãezinhas. Mas aquele Leonel estava muito bem. A reagir como os heróis. E por momentos o médico pode acreditar um pouco mais, na (às vezes pouco evidente) valentia masculina. E ali, decidiu aumentar-lhe a dor para quinze por cento.

-E agora, - perguntou novamente o médico,- Já está mais desconfortável?

-Sim, - disse o Leonel.- Agora também sinto uma comichão ligeira na ponta do escroto. Se calhar tem a ver com uma micose herdada por mim desde os bancos do jardim-escola. Sim estou aqui muito “malzinho” mesmo, senhor doutor! Não existe qualquer dúvida. E só lhe posso dizer uma coisa: coitadinha da minha dama! E de todas as outras parturientes!

-Pronto, senhor Leonel. Estou esclarecido! E eu não lhe vou infligir mais sofrimento. E pode ficar com uma certeza: o senhor é o homem mais intrépido que algum dia me foi dado a conhecer. Vai figurar com toda a certeza, no topo do pódio de todos os participantes desta “enjorca” hospitalar. Parabéns, amigo! Mas agora temos que dar toda a atenção, à sua cônjuge, que coitadinha (e por causa deste exercício todo) está para ali já… que nem pode!

E o parto aconteceu, e o Leonelzinho Maria nasceu são e escorreito. E com muita força pulmonar.
Só que passados dois dias, quando a família feliz, chegou a casa é que foi informada do acontecimento de algo muito perturbador. É que o senhor Rui, jovem e a muito atlético carteiro, havia falecido havia dois dias atrás. Tolhidinho com muitas dores, de origem desconhecida. Enquanto tentava, sem sucesso, executar com muita dedicação, todo o exercício das suas funções.

Sugestão de leitura: Sempre Vivemos no Castelo de Shirley Jackson.

DIVIRTAMSEMAZÉ!


Nota: O grande Homem e Eminente escritor Mário de Carvalho dizia (e diz ainda felizmente): “que não se deve confundir Género Humano com Manel Germano” E é um facto. Ao que parece a receita de tais “papagaiadas” reverterá a favor da Associação Laço. Associação que merece toda a minha simpatia e solidariedade. Bem-haja a todas, e a todos, os que ali colaboram. Melhoras rápidas, efectivas e continuadas para as mulheres padecem de tão horrível e ardilosa maleita. E convenhamos, ninguém (mas ninguém mesmo) poderá estar a salvo de um dia ter que vir a recorrer à Laço.
Mas para concluir: Se as receitas do catálogo forem para a Associação (forem efectivamente para lá), pois não se perde tudo. Mais, quanto a mim essa é a única parte que se aproveita nesta verdadeira macacada revisteira.

DIVIRTAMSEMAZÉ!


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

O amor é louco, não façam pouco, dessa loucura...




A bibliotecária gostava de se passear pelo meio dos livros. Gostar de livros é incontestável. Seus amigos dilectos. Contudo ela também gostava muito de apreciar o “seu” meio envolvente, ou seja observar também todos aqueles que se interessam pelos livros, dos que se interessam pelos estudos, daqueles todos que têm mesmo que estudar. E os livros ali estavam. Irrepreensíveis.
Não que temessem mãos que os agarrassem, olhos que os devorassem, braços que os transportassem para outras paragens, olhos e mentes que os devorassem nos ambientes mais excitantes. As Bibliotecas Públicas têm a sacra capacidade de fornecer a passagem e o passaporte para viagens a outros mundos. E isto sem se ter que se pagar nada. Porque é que tanta gente ainda não sabe disso?
Naquele dia a Bibliotecária também por ali se passeava. Ficou feliz de ver que Vânia, a técnica mais tímida, mas também pouco receptiva ao outro, a fornecer o seu “bom serviço de referência”. É que Vânia andava muito ocupada entre estantes à procura de algo. Abria dicionário, lia três ou quatro frases, fechava-os quase logo de seguida, quando verificava que não tinham o que procurava. E depois ia em busca e procurava numa enciclopédia. A Bibliotecária gostava de ver que, a Internet nem sempre é a mais procurada. Procura-se informação nos livros, pois que diabo! E era isso mesmo aquilo que Vânia estava a fazer.
Atrás dela ia um sexagenário. Que falava com determinação, mas baixinho e gesticulava indefinidamente. O caso estava a ser tratado. E com competência. Não era pois necessária a intervenção da Bibliotecária. E a procura para lá continuou.
Passados alguns largos minutos, o leitor que necessitava de informação, o mesmo que até à pouco acompanhava a Vânia, aproximou-se da recepção. Não desistia, dos seus intentos. Ele era lá homem de desistir? Pois que não.
A Bibliotecária também por ali estava. E o homem tentou ali mais uma vez a sua sorte. E começou:
“Boa tarde, meninas! Pois eu estou aqui à procura de uma informação muito importante para mim.”
“Pois faça favor de dizer”, disse a Bibliotecária cheia de vontade de poder ajudar.
“A menina saberá dizer-me o que significa o nome Vanessa?”, disse sorridente o homem.
A Bibliotecária pensou um pouco. Nos nomes das pessoas que conhecia. Das personagens dos livros. Dos actores das telenovelas… e nada. Vanessa conhecia de facto uma ou duas. Que eram boas pessoas. Agora saber o que significavam, tendo em linha de conta somente a sua graça? E dizia o homem:
“Pois existem nomes, que eu sei que derivam dos nomes de deuses. Outros inspirados em santos. De vidas sagradas e de virtudes incontestadas. Agora Vanessa…?”
E continuou: “É que saiba a senhora que eu estou muito apaixonado. E o nome da minha diva é precisamente… Vanessa. Ela é caixa num dos hipermercados do senhor Belmiro. E eu gostava tanto, mas tanto, de lhe fazer um poema! Transmitir-lhe todo o meu amor. Quem sabe se ela…”
A bibliotecária sorriu. Queria ajudar, era sempre essa a sua intenção. Contudo ali ela ainda quereria ajudar mais. Mas agora só tinha um remédio. E confessou: “pois que não sabia efectivamente, o que queria dizer tal nome. Prometia era ir procurar. O leitor que fizesse a fineza de esperar um pouco mais... Ou melhor, que procurasse ele também um pouco mais, que depois, mal um ou outro encontrasse matéria fiável, logo comunicaria feliz à outra das partes”.
O apaixonado virou costas convencido. Foi procurar. E a Bibliotecária deu a mão à palmatória. E procurou na Internet aquilo que lhe fora solicitado. 2 000 000 páginas, foram só as que lhe apareceram sobre tal assunto. E escolheu uma daquelas que lhe pareceu “mais séria e fiável” Exposta que estava num dos primeiros registos aparecidos. Escolheu a matéria. Imprimiu o que quis. E resoluta lá foi à procura daquele que tanto amava a Vanessa.
O sexagenário ao ver o seu pedido satisfeito, sorriu-lhe por todos os poros. Agora só faltava mesmo, era por pés ao caminho e iniciar a sua poesia. Tão, mas tão sentida! Agora só dependia mesmo dele. E agradeceu satisfeito.
Passados uns tempos a Bibliotecária contava com uma bonita Estrelícia no seu gabinete. Ofertada por alguém que “se sentira tão, mas tão agradecido...” Mas e os versos? Bem, os versos só podem ter ido direitinhos para aquela que inspirara tanto, mas tanto, amor.
Sugestão de leitura para esta semana: “A Culpa é das Estrelas” de John Green.



DIVIRTAMSEMAZÉ!

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Vizinhos.



Aquelas amigas resolveram criar uma tradição. Se pensarmos bem, todas as tradições devem de ter tido um início. Um dia em que se criou uma necessidade para repetir. Sempre! Um momento situado in secolum seculorum, ou até nem tanto assim. Existem contudo tradições que até já nem deviam existir. Não fazem sentido, tomates! Maltratar animais, por exemplo, é uma das piores infâmias.
Mas esse não é definitivamente o sentido que hoje deverá levar esta historieta sem maiores implicações. Pelo menos é o que se espera. Acontece que aquelas três amigas resolveram que a partir daquele dia, iriam, mais ou menos uma vez por mês, cozinhar umas para as outras. E levavam depois o pitéu… para o seu/delas local de trabalho. Desta maneira, para além de comerem melhor e mais baratinho, tinham também a oportunidade de pôr a conversa em dia. E reforçar imensamente os seus laços de amizade.
E aquele dia preciso, caberia a Josefina cozinhar. E pretendia cozinhar um pitéu que muito havia gostado num passado bem recente, mas que ainda não lhe havia decorado devidamente as características.
No dia anterior Josefina quase que tinha uma certeza: tudo o que ela necessitava ela tinha em casa. OS ingredientes, devidamente resguardados e acondicionados, haviam sobrado lá da outra vez. Não sabia era exactamente quais as quantidades e ainda qual os timings necessários. Não sabia porque estava tudo documentado naquele excelente blogue da grande casa que é a Internet. E estava por isso descansada. Tinha a receita… à distância de um clique.
À noite que antecederia o “combíbio”, Josefina dirigiu-se à casa paterna. Era lá que ela iria cozinhar. Mas lá de dentro saiu-lhe um preocupadíssimo pai que lhe comunicou: “Que não havia Internet!”, dissera-lhe ele aflito. “Nem telefone”, continuara o mesmo quase em lágrimas. Ele que quisera tanto avisar a descendente de tão grave problemática. A mesma que o havia impedido de ler os jornais online. De consultar a cotação da bolsa. De calcorrear pela página da Bíblia Sagrada, no seu dia-a-dia. Nem sequer havia visualizado aquele vídeo mais maroto, que ele julgava que a filha não tomara conhecimento. Já que ela, de vez em quando, tanto se divertir a consultar-lhe secretamente o seu histórico.
“Pois”, reafirmava o idoso. “Ele estava para ali desligado do mundo”. Não havia tido qualquer divertimento. Só lhe restava a televisão que já tanto o entediava. “E se calhar”, devia de estar ele a pensar, “era a altura mais que certa de ter finalmente um telemóvel. De acabar com aquela birra pessoal”. É que já toda a gente o tinha. E para cima da décima quinta geração. Até mesmo a trineta da vizinha da cave!…
E a filha tranquilizou-o. “Que tivesse calma”, “que se iria já telefonar para a PT”. Mas como, se o telefone também não funcionava. E o telemóvel da filha? Pois estava com pouco saldo, vitimado por esta imensa e eterna crise lusitana. Com tanta austeridade! “No dia seguinte logo se veria”, tentava tranquiliza-lo a descendente.
Só que a Josefina verificou que tinha um problema, um imenso problema até. Onde raio é que ela ia consultar a receita gastronómica e requintada que levaria para as amigas no dia de amanhã? É que ela não poderia falhar. Já as amigas nunca haviam falhado. E utilizar o recurso de ir comprar um frango assado à churrasqueira da esquina, não era definitivamente… a mesma coisa.
Josefina pensou, e tornou a pensar. E achou que os seus vizinhos do terceiro andar, eram bem capazes de ter Internet. Pelo menos eram aqueles que ela mais havia saudado. Não lhes sabia era o nome. E o Wireless deles bem poderia funcionar no seu famélico telelé. E se assim bem o pensou, melhor o fez. Pediu um papel e uma caneta ao pai, subiu, um lanço, dois lanços, quatro lanços de escadas e bateu na bendita da porta. E esperou por ali, petrificando um tímido sorriso no rosto. Passado um momento que lhe pareceu uma eternidade ela ouviu do lado de lá:
“Mas quem é?”
“Sou eu, a vizinha do Rés-do-chão.”, respondeu Josefina, com toda a sua muito estudada simplicidade
“Um momento vizinha, é eu estou em cuecas!”
“Oh raios!”, pensou Josefina, “Como se não bastasse o facto de não ter a Internet, ainda vinha perturbar a vizinhança, quando a mesma estava… em trajes menores”. E a fazer o quê?
Josefina pensou ali seriamente em descer as escadas, e esquecer definitivamente aquele sucedido. Só que não podia, não é? Incomodado, ela já havia conseguido. E depois o vizinho ainda ficaria a pensar, aquilo que já era bem capaz de suspeitar. Que aquela vizinha dos andares baixios, era bem capaz de ter um nível reduzido de entendimento. Afinal viera bater à porta, viera incomodar, para depois (e sem dizer ao que vinha), ir toda gaiteira, escada abaixo. Era ou não era maluca?
Pelo exposto, e reservando para si alguma serenidade, Josefina resolveu esperar. E que acontecesse o que tivesse que acontecer.
Passado pouco tempo, abre-se aquela porta. O vizinho com ar ensonado, mas composto, pergunta-lhe o que é que ela pretendia? Resposta pronta da Josefina. “Preciso de aceder à Internet, e tenho a certeza que o senhor a tem. Não se importava de me ceder o seu username que eu mesmo aqui nas escadas acedo, e vejo uma receitinha que me faz tanta falta?”
“Mas afinal o que é que quer mesmo?” Pareceu-lhe gritar aquela sua vizinhança.
Josefina não sabia como evitar tanto transtorno. Afinal fora ela que começara. Se calhar o melhor mesmo, era pedir desculpas pelo sucedido, descer as escadas e…”
“Oh vizinha”, continuou o homem. “Eu tenho de facto Internet, mas ligo-me a ela através de um cabo. Nunca me pus para aí nas escadas a ligar-me. Nunca disso tive necessidade. Além do mais, trabalho de turnos e por isso estava a descansar, mas… a vizinha entre aí para a sala e veja lá tudo aquilo que quiser!”
Se Josefina estava mal, ficou ainda pior. O vizinho que “continuasse a por mais coisas na carta”. Não que o vizinho fosse má pessoa, antes pelo contrário, não havia nunca, era ter-se conectado à grande rede mundial de informação, sem os ricos fios. E depois? Se disso não precisava… E agora, o que fazer? É que ali, já ele estava. O vizinho. Devidamente acordado e já vestidinho. E além do mais a sala era logo ali ao lado. Pelo que, de papel em punho, e de caneta na boca, Josefina segreda um “com licença” e muito temerosamente ela entra por ali a dentro. É que a urgência era grande. E a muita permanência ali, atendendo às circunstâncias, era de todo pouco recomendada.
No percurso Josefina vislumbrou que numa pequena cozinha, trabalhava uma sogra muito expedita e naturalmente com o seu receituário todo bem memorizado. “Boa Noite, senhora. E desculpe esta invasão”, foi o que se ofereceu dizer aquela quarentona bastante desmemoriada e intrometida. A idosa simpaticamente correspondeu à saudação e voltou-se placidamente para o lado da sua sopa borbulhante. No chão saltava também um saudável e muito brincalhão canito que também muito se queria fazer notar.
Josefina entrou. O vizinho ligou-lhe o computador. Josefina acedeu ao que queria. Começou a escrever, e… milagre negativo, a caneta paterna acabava ali de falecer. Josefina ficou sem pinga de sangue, mas também sem qualquer coragem de ali fazer mais pedidos. Só esperava é que ninguém ali entrasse e lhe olhasse para o papel. É que ela estava a escrever, mas nada se via. Quem sabe se colocando a folha perto de uma chama de calor… Como fazia a espionagem, conseguisse recuperar algum tipo de informação? Josefina queria ainda acreditar, no seu poder de (fraquíssima) memorização. E também no poder da possibilidade de uma leitura futura aos frágeis e muito enganadores sulcos feitos no papel. Ela só queria, era mesmo que ninguém a estivesse a observar. É que de maluca… ela já não passava.
Acabada a mesma e achando, que estava já safa, Josefina dirige-se à porta. A sogra estava na cozinha. O genro também estaria em parte incerta, mas necessariamente próximo. Só que havia que identificar a sua saída, ou não era? Ditam as leis da boa educação, que a pessoa intrometida e chata, que acabou com a cálida paz de um lar que não é o seu, quando dele sai, pelo menos se despeça, ou não é assim?
Só que a pancada da Josefina é muitíssimo mais profunda. E também com laivos de superstição. Ela que jamais fechava uma porta que não era a sua. Dissera-lhe a avó que, se assim o fizesse, nunca mais ali voltava. Pelo que esboçando mais um sorriso ténue, ela lá pediu à velhota o obséquio de… e lá lhe explicou toda aquela sua teoria.
A velha veio, a velha abriu a porta. E surpreendentemente… a velha sorriu. A intrometida saiu. As boas-noites foram dadas. E correspondidas. O genro também assinalou sua existência. Lá bem ao fundo. E a Josefina quase que apostava que o pensamento da anciã foi mais ou menos: “Mas o que é que te leva a pensar, que a tua vinda a esta casa seja mais alguma vez desejada? Devias era mesmo abrir a porta, para ficarmos todos muito mais descansados”.
Descidos os lanços da escada, Josefina amargava um mau estar bem distinto. O que é que aquela gente haveria de pensar?
Entrou em casa, foi lavar as mãos, pôr o avental, reconhecer o canhenho e tentar exercitar a memória, quando se lembrou: “E se eu desligasse o routter, e depois o voltasse a ligar?”. Pois, fora exactamente esse pensamento que ela deveria ter tido, um segundo antes de ter começado a subir aquelas escadas.

Sugestão de leitura para esta semana: “Bifes Mal Passados” de João Mangueijo.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

À Grande Mãe Rússia.





O passeio prometia. A viagem dividir-se-ia entre a cidade de Sampertersburgo, durante mais tempo, e finalizar-se-ia em Moscovo. Isto tendo uma viagem de comboio de intermeio, que ligaria desta maneira aquelas duas cidades.
E de nada valeram os inúmeros apelos dirigidos por muitos a que ali não fossemos. É que a Ucrânia fica longe e, se tivermos assim tanto medo de viajar, por perspectivarmos todos os piores cenários, o mais certo seria, permanecermos sempre em casa, dentro da nossa zona de conforto, que por vezes é só uma máscara qualquer.
Mas a ligação não foi directa. Regra geral nunca é. Tivemos então que pousar nos aeroportos da Merkl. E foram também os seus aviões que nos levariam até à Rússia.
Mas já na pista do Aeroporto da primeira cidade russa por nós visitada, quando o avião já se encontrava totalmente imobilizado e as pessoas, (fartas de não se mexerem), se levantavam e começavam a abrir as “bagageiras”, tentando recuperar os seus pertences de mão, que a abertura das portas seria adiada até ao impossível. Mas o que é que se estava a passar? Perguntávamos-mos todos já levemente preocupados. Será que os ucranianos já aqui chegaram? Será que já adivinharam a nossa chegada?
No ar, ouvia-se por fim a voz do comandante, já algo transtornado com a situação, que dizia não estar a entender nada do que por ali se estava a passar. E se ele não percebia… Ele que dizia já ter requerido as escadas para que a saída dos passageiros fosse possível. Só que do lado dos russos... pois népias.
Depois de mais um tempo inglório, que nos pareceu eterno, de espera, as malas pequenas eram convictamente esmagadas por dedos nervosos. Sentar é que não, pois já haviam bastado as [poucas] horas da viagem. E finalmente lá veio a explicação. Pois o que acontecera é que entre nós, vinha também uma personalidade muito importante. Necessariamente na Executiva. Ninguém soube aliás quem era. Pois. E enquanto essa pessoa Vipesca não saísse do avião, mais ninguém poderia sair dali. Há ou não há, diferenciação no tratamento? Somos ou não somos importantes aos olhos de alguns? Aquele ser iluminado, que repito, ninguém soube quem era, não se poderia misturar naquela turba esmagadora de povaréu. Mas, e como é que ele concedeu em viajar connosco, pobres mortais?  Simples e lamentáveis traças humanas! Dividir o mesmo ar que nós, que mais nada somos que simples ralé. Sim, porque apesar de tudo, aquela cortina de separação pareceu-me sempre muito suspeita.
Depois e, finalmente lá saímos dali. O Ser Importante já estaria a milhas, pois é claro! Restava-nos então sair e ir tentar recuperar as nossas bagagens de porão. Que geralmente se fazem num tapete só, correspondente a um determinado voo. Pois ali, não foi nada assim. Pelo que se juntaram os passageiros de três aviões à roda no mesmo tapete. Confraternizando assim todos e à mistura. É bom de ver que as malas nunca mais chegavam, por mais que os nossos corpos já cansaditos as desejassem. E os contornos dos outros corpos, e o calor que dali decorreria, eram mais do que evidentes. Eu que jamais me havia perdido por aqueles lados, entrei assim com o pé direito, ou seja, conheci ali muita gente ao nível do odor corporal, assim com a real textura das suas vestimentas. Mas não seria daquele tapete que a minha mui modesta malinha apareceria, há pois não! Já que a mesma é notoriamente tão independente como a sua própria dona. Pelo que andava noutro tapete, solitária mas muito orgulhosamente só. Mas que voluntariosa que é a minha malinha!
Depois foi a vez de finalmente vislumbrarmos a cidade. A primeira cidade do "Programa de Festas". E que maravilha que é a cidade de São Petersburgo! Toda ela é elegância. Toda ela é magnificência. Toda ela é glamour. E que belos casarios por ali se construíram! A arquitectura tem a graciosidade típica do melhor, dos mais consagrados arquitectos italianos de outrora, que por ali tanto idealizaram. E a História está sempre ali ao virar de todas as esquinas. Os canais são belíssimos. E o que de lá dá para ver, também é fabuloso.  E que maravilha foi, assistir ao pôr-do-sol às onze e meia da noite!
Destaco a catedral de Santo Isaac e principalmente a Igreja do Sangue Derramado, também conhecida pela Igreja da Ressurreição do Salvador. É belíssima. E ao pé. É que as fotografias, por mais bem conseguidas que sejam, deixam sempre muito a desejar.
Depois veio o Hermitage. Que maravilha também! Com tantas e tão importantes obras de arte… Só que aqui eu destaco negativamente uma coisa. É certo que cada vez existem mais turistas. E ainda bem que assim é. Eu adoro viajar e também gosto que os outros viajem mas… para quê tirar tanto retrato? Deus do Céu! A palavra de ordem que mais se ouve em viagem é: “por favor saia, que estou a tentar tirar um retrato”. A pessoa anda ali toda contente e… lá se tem que desviar. Quando a situação se dá na rua a coisa ainda escapa. Vai-se para o outro lado da rua e pronto. É muito desagradável, mas… O pior é quando a coisa se passa mesmo dentro dos Museus. E no Hermitage… Com toda a gente a disparar. “Os flashs é que fazem mal à peça e tal", mas… fotografa-se sem flash e pronto… O pior mesmo é quando se quer ver descansadamente um quadro e… só se conseguem ver cabeças e máquinas retrateiras. Existem por exemplo lá duas telas exíguas, mas necessariamente de imenso valor, da autoria do Leonardo Da Vinci. O tal do código. Pois eu não as consegui sequer vislumbrar. Nem sequer as suas moldura. As mesmas estavam completamente cercadas por duzentos e noventa e um chineses que envergavam duzentas e noventa e sete máquinas. Ao lado estavam outros tantos japoneses. Mas para que é que é aquilo, senhores? Só para dizerem mesmo que estiveram lá. Mas para quê tantos e tão inflamados egos? A dada altura eu assisti a uma coisa que me arrepiou todos os cabelos do corpo. Sem excepção. Então não era que para se conseguirem os melhores lugares em tamanhas enchentes, havia até já um individuo que empurrava a sua parceira para cima dos outros todos? É que assim sempre desmobilizava um pouco toda aquela imensa multidão. E depois, no meio da confusão, a tal prevenida projéctil humana, lá disparava a maquineta. E sorria posteriormente, envergando um ar de vencedora. Isso passou-se mesmo, meus amigos. Eu assisti. Lamentavelmente.
O que eu questiono é o seguinte: Será que alguém tem tempo para visualizar os milhões de fotografias que consegue? Haverá paciência e Facebook suficiente para ocupar tanta gente? E depois, será que alguém viu efectivamente e com olhos de ver, os tais quadros? Teve a preocupação de se informar devidamente sobre a vida e a obra de tais artistas? Da sua importância no seu contexto vivêncial. E no panorama artístico global? Queira Deus que sim, mas eu desconfio… que não. É que existem catálogos fabulosos, com reproduções fotográficas de grande valor na Biblioteca Publica mais perto de si. E na Internet, senhores! Então para quê tanta azafama?
E depois eu penso nos directores de tão importantes Museus. O que é que eles pensarão a respeito? Será que não seria bom proibir de vez tais sessões fotográficas? Proibir é mau, eu sei e é atitude ditatorial e tal, mas vejamos… é que a liberdade deles, de se porem ali a fotografar, vai contra a minha própria. É que eu só pretendia visualizar os quadros que ali permanecem. Foi esse o meu objectivo. Foi também o que me levou ali. E depois, será pedir muito querer ver um Museu em paz? Acho que não. É que não tenho tempo, nem disponibilidade financeira, para me dirigir ali muitas mais vezes. Todas aquelas vezes que eu gostaria.
Sugestão de leitura para esta semana: “A Sangue Frio” de Truman Capote.





DIVIRTAMSEMAZÉ!

Nota: Oh Filipe, a fotografia é sua! Desculpe-me o abuso.