Que bela que é a arte de fotografar! Pensando bem, muitos de nós somos do tempo em que viajávamos munidos de velhinhas máquinas fotográficas e mais 300 rolos de 36 fotos. As saudades que temos de não termos que recarregar baterias! Só tínhamos era que abrir o pacote, colocar a pelicula devidamente na máquina e usar desta arte com parcimónia. Às vezes pessoas como eu, tinham depois da viagem um grande desgosto. É que verificávamos que tínhamos posto mal o raio do rolo. E pronto! Lá se tinham ido os registos fotográficos "para os anjinhos". Mas agora não é nada assim, é tudo muito diferente.
Agora nós vamos munidos de portentosas máquinas, com objectivas capazes de abranger o piolho bebé, que vive na cabeça do cavalheiro, que se encontra a quilómetro e meio de distância de nós. É impressionante. Eu também faço parte das pessoas que gostam de carregar no botão. Contudo por vezes fico de tal maneira estasiada com aquilo que estou a ver (com algumas paisagens e monumentos), que confesso, até me esqueço de "retratar". Mas depois há toda uma panóplia de registos de fotos, por parte de todos aqueles que me acompanham, que, nada está perdido. A dificuldade está, é a posteriori, quando se tenta identificar aquilo tudo.
Depois existe a escolha dos cenários, assim como os critérios utilizados e a utilizar. Juro que um dia ouvi uma senhora com os seus setenta anos a gritar para a filha: "Oh Vânia, vem aqui depressa filha! Vem aqui tirar uma fotografia. Aponta para ali, é que está lá o senhor Pires a fazer xixi!" A esse propósito, tenho uma grande amiga que certo dia me mostrou uma fotografia, que faz parte do seu arquivo mais sagrado. E o que é que lá consta? Bem, vê-se um senhor octogenário, de costas, ao pé de uma árvore. Está com a mão esquerda apoiada no tronco, enquanto que a direita segura o "regador". Aquele senhor também ele estava ali... pacatamente a urinar.
Mas existem muitos critérios, subjacentes à arte de "reportar" toda uma situação. Um dia eu viajei com uma senhora que teria 47,50 anos de idade. Ao que parecia, ela estava muito apaixonada. Sabemos que devemos de desculpar muita coisa a todo aquele que se encontra apaixonado não é? A mesma andava radiante. A dada altura ela tirou um retrato que a fez ficar ainda mais contente. Após isso, ela falou para quem estava ao pé dela (eu estava lá!), e disse assim: "Olhem, tirei mais uma fotografia ao A. Ainda não tinha uma fotografia dele, nesta posição". Curiosa eu fiquei e olhei para o A. e o que é que eu vejo? O seu "objecto de desejo" estava com a cara mais melancólica do mundo e com uns headphones dependurados nas orelhas. Algum tempo já passou sobre esta situação, pelo que naturalmente eu me questiono: Será que a apaixonada senhora conseguiu obter, mais tarde uma fotografia do seu apaixonado... a defecar? E uma fotografia tirada quando o mesmo estivesse distraidamente, a coçar a sua região púbica? E depois disso, sei lá, obter aquele grande plano do pentelho mais rebelde, ou do mais encaracoladinho...
Há aqui uma nota que desde já, tem que ficar aqui expressa: "Pentelho" não é nenhuma asneira, nem nenhum palavrão. Quem nos esclareceu quanto a isso, foi um ex-ministro da nossa praça. É que pensando bem, não existe qualquer razão para não confiarmos nos "nossos queridos políticos", esses seres tão bondosos e sempre tão preocupados com o bem comum.
Mas continuando. Depois há as preferências de cada um de nós e nisso também não poderá haver nada a criticar, claro está. Uma amiga minha contou-me que uma vez foi à Noruega, que é como se sabe um belíssimo país cheio de Fiordes e de Glaciares. Fora justamente a visualização de um determinado glaciar, o que lhe havia chamado mais à atenção. Ela ficou como que prostrada perante aquela imensidão e beleza, ao pé daquele magnifico gelo de cor azulada, que ali permanecia por seculo seculorum. Ora quando a minha amiga se preparava para registar todo aquele cenário, e já muito emocionada, é interrompida por uma idosa e simpática senhora. Esta anciã, estava com uma máquina fotográfica e também queria registar aquele acontecimento para a posteridade. Pelo que pediu à D. para lhe tirar um retrato. Pegando-lhe na máquina, a minha amiga sugere então: "A senhora coloque-se então aí à frente, que eu farei todo o enquadramento". Mas ao ouvir aquilo, a senhora ficou com o ar mais revoltado do mundo e respondeu: "Desculpe mas eu não quero tirar nenhuma fotografia à frente deste gelo. O que eu quero mesmo é ficar aqui... sentada dentro... deste bote de borracha!" A minha amiga ainda ia para dizer que, assim não apanhava o Glaciar, mas... nada disse, pois a senhora tinha todo o direito a ter as suas próprias preferências, não é?
Quanto àquilo que se pretende fotografar, também é algo muito pessoal, mas muito interessante e digno de nota. Eu própria certo dia, e num outro continente, assisti deliciada à contemplação de toda uma família. No chão passava... um pacato caracol. O elemento mais velho daquele núcleo familiar dizia: "Que curioso. É muito parecido com os caracóis lá da terra. Até tem corninhos!!!" Eu mentalmente concluí: É verdade! As caracolas são iguais em todo o lado! Umas flausinas adúlteras, resumindo umas grandes meretrizes, é o que é!
Quanto àquilo que se pretende fotografar, também é algo muito pessoal, mas muito interessante e digno de nota. Eu própria certo dia, e num outro continente, assisti deliciada à contemplação de toda uma família. No chão passava... um pacato caracol. O elemento mais velho daquele núcleo familiar dizia: "Que curioso. É muito parecido com os caracóis lá da terra. Até tem corninhos!!!" Eu mentalmente concluí: É verdade! As caracolas são iguais em todo o lado! Umas flausinas adúlteras, resumindo umas grandes meretrizes, é o que é!
Mas à parte disto tudo, há que concluir que esta democratização total dos registos fotográficos, tem muito mais vantagens que desvantagens. Um ano destes havia regressado de uma grande viagem. E, ultrapassando a fase depressiva subsequente ao facto da viagem já ter acabado, eu encontro um grande amigo numa rua da minha cidade. Este naturalmente, ficou todo contente de me ver. Depois e muito calorosamente ele saudou-me mais ou menos assim: "Bons olhos te vejam! Com que então vinda de mais uma viagem, não é? Como é que está o tempo nas Caraíbas? Maravilhoso, não? É que estás cá com uma corzinha!!!"
Caraíbas? Pensei. Mas quais Caraíbas? Eu havia estado era na Suécia e o Sol havia estado sempre encoberto. Quanto à minha corzinha adquirida, só posso pensar que: esta só poderia ter origem nos holofotes de luz, provenientes dos inúmeros flashes das máquinas "retrateiras". Máquinas de todos aqueles danados e danadas furiosos, dos recolectores profissionais de memórias futuras.
Sugestão de leitura: "Chovem Cabelos na Fotografia" de Antonieta Preto.
Divirtamsemazé e... até p'ra semana.



