Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sábado, 26 de novembro de 2011

Fotografando...


Que bela que é a arte de fotografar! Pensando bem, muitos de nós somos do tempo em que viajávamos munidos de velhinhas máquinas fotográficas e mais 300 rolos de 36 fotos. As saudades que temos de não termos que recarregar baterias! Só tínhamos era que abrir o pacote, colocar a pelicula devidamente na máquina e usar desta arte com parcimónia. Às vezes pessoas como eu, tinham depois da viagem um grande desgosto. É que verificávamos que tínhamos posto mal o raio do rolo. E pronto! Lá se tinham ido os registos fotográficos "para os anjinhos". Mas agora não é nada assim, é tudo muito diferente.
Agora nós vamos munidos de portentosas máquinas, com objectivas capazes de abranger o piolho bebé, que vive na cabeça do cavalheiro, que se encontra a quilómetro e meio de distância de nós. É impressionante. Eu também faço parte das pessoas que gostam de carregar no botão. Contudo por vezes fico de tal maneira estasiada com aquilo que estou a ver (com algumas paisagens e monumentos), que confesso, até me esqueço de "retratar". Mas depois há toda uma panóplia de registos de fotos, por parte de todos aqueles que me acompanham, que, nada está perdido. A dificuldade está,  é a posteriori, quando se tenta identificar aquilo tudo.
Depois existe a escolha dos cenários, assim como os critérios utilizados e a utilizar. Juro que um dia ouvi uma senhora com os seus setenta anos a gritar para a filha: "Oh Vânia, vem aqui depressa filha! Vem aqui tirar uma fotografia. Aponta para ali, é que está lá o senhor Pires a fazer xixi!" A esse propósito, tenho uma grande amiga que certo dia me mostrou uma fotografia, que faz parte do seu arquivo mais sagrado. E o que é que lá consta? Bem, vê-se  um senhor octogenário, de costas, ao pé de uma árvore. Está com a mão esquerda apoiada no tronco, enquanto que a direita segura o "regador". Aquele senhor também ele estava ali... pacatamente a urinar.
Mas existem muitos critérios, subjacentes à arte de "reportar" toda uma situação. Um dia eu viajei com uma senhora que teria 47,50 anos de idade. Ao que parecia, ela estava muito apaixonada. Sabemos que devemos de desculpar muita coisa a todo aquele que se encontra apaixonado não é? A mesma andava radiante. A dada altura ela tirou um retrato que a fez ficar ainda mais contente. Após isso, ela falou para quem estava ao pé dela (eu estava lá!), e disse assim: "Olhem, tirei mais uma fotografia ao A. Ainda não tinha uma fotografia dele, nesta posição". Curiosa eu fiquei e olhei para o A. e o que é que eu vejo? O seu "objecto de desejo" estava com a cara mais melancólica do mundo e com uns headphones dependurados nas orelhas. Algum tempo já passou sobre esta situação, pelo que naturalmente eu me questiono: Será que a apaixonada senhora conseguiu obter, mais tarde uma fotografia do seu apaixonado... a defecar? E uma fotografia tirada quando o mesmo estivesse distraidamente, a coçar a sua região púbica? E depois disso, sei lá, obter aquele grande plano do pentelho mais rebelde, ou do mais encaracoladinho...
Há aqui uma nota que desde já, tem que ficar aqui expressa: "Pentelho" não é nenhuma asneira, nem nenhum  palavrão. Quem nos esclareceu quanto a isso, foi um ex-ministro da nossa praça. É que pensando bem, não existe qualquer razão para não confiarmos nos "nossos queridos políticos", esses seres tão bondosos e sempre tão preocupados com o bem comum.
Mas continuando. Depois há as preferências de cada um de nós e nisso também não poderá haver nada a criticar, claro está. Uma amiga minha contou-me que uma vez foi à Noruega, que é como se sabe um belíssimo país cheio de Fiordes e de Glaciares. Fora justamente a visualização de um determinado glaciar, o que lhe havia chamado mais à atenção. Ela ficou como que prostrada perante aquela imensidão e beleza, ao pé daquele magnifico gelo de cor azulada, que ali permanecia por seculo seculorum. Ora quando a minha amiga se preparava para registar todo aquele cenário, e já muito emocionada, é interrompida por uma idosa e simpática senhora. Esta anciã, estava com uma máquina fotográfica e também queria registar aquele acontecimento para a posteridade. Pelo que pediu à D. para lhe tirar um retrato. Pegando-lhe na máquina, a minha amiga sugere então: "A senhora coloque-se então aí à frente, que eu farei todo o enquadramento". Mas ao ouvir aquilo, a senhora ficou com o ar mais revoltado do mundo e respondeu: "Desculpe mas eu não quero tirar nenhuma fotografia à frente deste gelo. O que eu quero mesmo é ficar aqui... sentada dentro... deste bote de borracha!" A minha amiga ainda ia para dizer que, assim não apanhava o Glaciar, mas... nada disse, pois a senhora tinha todo o direito a ter as suas próprias preferências, não é?
Quanto àquilo  que se pretende fotografar, também é algo muito pessoal, mas muito interessante e digno de nota. Eu própria certo dia, e num outro continente, assisti deliciada  à contemplação de toda uma família. No chão passava... um pacato caracol. O elemento mais velho daquele núcleo familiar dizia: "Que curioso. É muito parecido com os caracóis lá da terra. Até tem corninhos!!!" Eu mentalmente concluí: É verdade! As caracolas são iguais em todo o lado! Umas flausinas adúlteras, resumindo umas grandes meretrizes,  é o que é!
Mas à parte disto tudo, há que concluir que esta democratização total dos registos fotográficos, tem muito mais vantagens que desvantagens. Um ano destes havia regressado de uma grande viagem. E, ultrapassando a fase depressiva subsequente ao facto da viagem já ter acabado, eu encontro um grande amigo numa rua da minha cidade. Este naturalmente, ficou todo contente de me ver. Depois e muito calorosamente ele saudou-me mais ou menos assim: "Bons olhos te vejam! Com que então vinda de mais uma viagem, não é? Como é que está o tempo nas Caraíbas? Maravilhoso, não? É que estás cá com uma corzinha!!!"
Caraíbas? Pensei. Mas quais Caraíbas? Eu havia estado era na Suécia e o Sol havia estado sempre encoberto. Quanto à minha corzinha adquirida, só posso pensar que: esta só poderia ter origem nos holofotes de luz, provenientes dos inúmeros flashes das máquinas "retrateiras". Máquinas de todos aqueles danados e danadas furiosos, dos recolectores profissionais de memórias futuras.
Sugestão de leitura: "Chovem Cabelos na Fotografia" de Antonieta Preto.
Divirtamsemazé e... até p'ra semana.


sábado, 19 de novembro de 2011

Gatos.


Muita gente pode não concordar comigo, mas eu acho que os gatos são uns animais fantásticos. Eu que sou amante de felinos desde que me conheço por gente, estou convencida que os gatos têm a capacidade de ao olharem para nós, nos lerem os pensamentos e tentarem comunicar-se telepaticamente connosco. Se esta minha teoria estiver certa, poder-se-á afirmar com segurança que os bichanos estão muito mais avançados que nós.
Conheço dois na sua intimidade: o Júlio César (que é o mais velho) e o Marco António, que por definição (e por minha vontade) é sobrinho do mais idoso. Um dia destes o mais novo ficou doente, com cálculos na uretra que o fazia urinar sangue. Em consequência, foi levado ao seu doutor que após a consulta, decidiu que o mesmo teria que ser hospitalizado. O gato ficou assim fora de casa durante três dias. Quando regressou o Marco António, vinha visivelmente mais magro. Vinha com "um grande funil de plástico" enfiado na cabeça. Trazia ainda duas tiras de pelo raspado em cada braço, pois fora necessário tirar sangue para análises e receber soro. Em suma, o seu estado geral vinha necessariamente mais fragilizado.
Mas o mais velho e imperador gato, não recebeu o seu "sobrinho" nada bem. Soprava muito, ameaçava ainda mais... em resumo, já não podia ver o convalescente. Este contudo tentava comunicar através de miadelas agudas e muito arrastadas. Para mim, que infelizmente sou analfabeta funcional daquela linguagem (mas estou a tentar superar essa situação), o que o mais novo queria dizer era: que compreendêssemos a sua difícil situação, já de si tão periclitante. E que em particular o tio Júlio César, compreendesse o seu sofrimento e a necessidade da sua recuperação... A dada altura eu até parecia que ouvia: "Mas tu não vês que eu estou doente? Olha-me só para estes braços? Tu não vês que eu até estive ligado ao soro? Repara bem ó sócio? Não vês que a nossa empregada (referindo-se naturalmente a mim!) até me tem dado os antibióticos a horas certas?" 
Bem, aquela incompreensão felina durou no máximo dois dias. Hoje são os melhores amigos do mundo. Se os quero ver é juntos (e no mesmo bercinho), abraçadinhos um ao outro. Mas os meus gatos são muito machos, está bem? (lol).
Um ano destes conheci um gato (mesmo felino ok?), na Ilha de S. Miguel, Açores. Foi nas Furnas. Enquanto que os homens andavam a retirar do solo, gigantescas panelas envolvidas em panos brancos, onde se haviam cozido doses industriais de carnes e legumes, um gatito ali circulava, pisando com as suas patitas, aquele chão castanho e aquecido pelo vulcão. Ele sabia que por ali havia muito petisco, pelo que necessariamente... tentava a sua sorte.
Conheci também uma senhora gata que tinha uma rica vida! Vivia num magnifico hotel junto às Cascatas de Iguaçu, Brasil. A gatinha era siamesa. Fui informada pelos funcionários daquele hotel, que a hospedagem da sortuda se estava a acabar, pois os seus "familiares" humanos (detesto a palavra dono!) iam levá-la para a grande metrópole de São Paulo, onde aliás estavam todos a viver. Mas a gata por ali andava naquele ambiente paradisíaco, que para mim é só o mais belo local que eu já vi até ao momento.
Consegui pegar a gata ao colo. Depois pedi a uns familiares que comigo viajaram, para me tirarem uma fotografia, a mim e à bichana a fim de eternizarmos aquele feliz encontro. Conseguimos duas fotos, porque depois... ela fugiu. E por mais que quiséssemos, já não conseguimos repetir o feito. A gata já não estava para aí virada, e quando isso acontece, já não há nada a fazer porque... é o felino quem manda.
A gata seguiu o seu caminho, sem sequer olhar para trás, para mirar e se ir despedindo, daquele maravilhoso cenário, idílico e paradisíaco. Ali ao pé daquelas maravilhosas quedas de água, onde as belíssimas borboletas abundam,  e os quatis encaram toda a gente, mesmo todo aquele, que, (sabe-se lá porquê), não os quer encarar. O quati que é outro animal fantástico.
Por fim falo dos gatos egípcios. Bem esses também são muito especiais. Então não é que por mais que eu tentasse, nunca consegui que a minha objectiva os apanhasse de frente? Só os consegui apanhar de ... perfil. Estariam eles convencidos que estavam a pousar para uma desenhadora de hieróglifos? Ai ai ai: os gatos e a sua mania da superioridade!
Sugestão de leitura: "Os Gatos" de Ramalho Ortigão.
Credo Senhor! Então não é que com a loucura dos gatos me enganei no autor do livro? Auto-penitencio-me até à eternidade... O autor do livro "Gatos" é Fialho d´Almeida. Sem traumas, amigos, pois errar é humano, e... DIVIRTAMSEMAZÉ!!!  
Boas Leituras!



quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Uma paixão unilateral.


No tempo das nossas avós a vida era muito mais previsível e ordeira. Tudo era combinado. A população era na sua grande maioria analfabeta, detentora de pouquíssimos bens (quem nunca ouviu falar na situação em que uma sardinha dava para dez sócios)? As pessoas não tinham muito tempo para divagações, pelo que eram pouco ligadas a questões que envolvessem sentimentos. Os filhos serviam não só para perpetuar a espécie como para garantir o rendimento familiar. Serviam ainda para ajudar os pais a terem uma velhice capaz. As pessoas começavam a trabalhar quando eram muito novas, sem estudos, nem grandes ambições... Bem depois com o passar das décadas tudo ficou diferente, não é?
Conheço alguém que conheceu da pior maneira a modernidade das relações humanas. Chama-se Clara. Clara é uma mulher feita, bem disposta, descomprometida com a vida e com maiores preocupações. Ela sabe que o mundo nem sempre é o melhor dos mundos, mas tem a convicção de que também não tem contribuído muito para que o mesmo tenha ficado pior. Clara é detentora de um sorriso franco, riso alto e contagiante. Vive feliz e convicta de que tudo no mundo é transitório pelo que não valerá mesmo nada a pena envolver-se em muitas tricas e confusões. Sabe ainda que quando menos se espera toda a nossa vida pode mudar ou mesmo acabar.
Clara detesta ficar em casa, adora os seus amigos que considera muito fiéis e confiáveis. Refere muitas vezes que até nem tem grandes razões de queixa da vida que consegue levar. Conta com uma boa saúde, pelo menos acha ela, pois sabe que quem muito procura, corre o risco de encontrar algum mal de que nem desconfiava.
Contudo houve um dia em que a vida dela levou um pequeno abanão. E foi assim: Ia Clara distraída pela vida, quando surge algo que inicialmente não lhe chamou sequer à atenção. Depois e devido a continuidade de solicitações, esse algo começou a marcar presença e a fazer com que as suas batidas cardíacas soassem de forma mais retumbante. A minha amiga ficou ainda com um sorriso mais aberto (assim como que a atirar para o aparvalhado) e uma gargalhada muito mais estridente. Sim, avaliaram bem os sintomas, a Clara estava apaixonada. Ora onde é que tu foste cair mulher!!! A vida já tinha mostrado a Clara que por vezes o amor tem trilhos muito tortuosos. Bem mas agora o mal já estava feito... diga-se que Clara estava longe de ser uma turista de primeira viagem. No passado já havia sentido tais sensações, já tinha rido e chorado (quase em simultâneo), pois como todos nós bem sabemos, a alegria e a tristeza tendem a andar de braço dado em todo este processo. Pelo menos numa fase inicial.
Clara sabia da realidade. Nestas coisas  há o perigo de se ganhar um jogo fajuto, assim como também se corre o risco de perder um verdadeiro Jackpot. A pessoa incauta e com medo (porque é de medo que se fala quando a pessoa desconhece a natureza dos sentimentos do outro), ao avançar pode magoar-se seriamente. E isto sem que a outra pessoa tenha necessariamente responsabilidade em todo aquele processo. Mas e como o rapaz se "fazia" à Clara, ela arriscou, declarou e aparentemente perdeu. Mas será que perdeu mesmo? Não haverá jogo em que o melhor que acontece é mesmo perder, pois caso contrário pode-se ganhar um "acidente fatal"?
Clara disso nada soube, pois não obteve qualquer resposta, nem "sim", nem "não" e nem mesmo o velho "nim". A Clara sabe que a "não resposta" é já de si uma resposta. Estarrecida ela ficou, mas depois pensou melhor. Ela já sabe que o caminho é mesmo em frente. Esta situação é infelizmente muito habitual e naturalmente associada à imagem de um "coito interrompido". Em casos tais a solução é mesmo levantar-se, apanhar os despojos de um coração partido, remendar o que se conseguir e depois o tempo encarregar-se-á do resto. Inicialmente a pessoa atingida por tal fatalidade vai periclitante e é natural que caia ainda algumas vezes, mas Clara, mulher feita que é, sabe que a vida é mesmo assim. Passado algum tempo, recuperará a vontade de rir, de gargalhar mesmo e de amar novamente. Desta vez desejo que a Clara encontre alguém que valha a pena ou pelo menos alguém que consiga dizer alguma coisa.
Toda esta história faz-me lembrar a Pesca Desportiva. Eu nunca entendi muito bem todo aquele desporto. O peixe lá em baixo, vai muito despreocupado a nadar. De repente encontra um isco e pensa: "Olha que belo petisco para o meu Pequeno-Almoço". Já muito confiante, ele aproxima-se e abocanha o quinhão e... é puxado dramaticamente para o lado de fora da água. O peixe fica confundido, não compreende muito bem a situação que está claramente a protagonizar. Depois fica literalmente nas mãos do pescador (o peixe  debate-se com a desgraça que há-se ser, ter um anzol enfiado pela goela abaixo). O pescador que era o ser letárgico que já ali estava havia tantas horas a olhar para a água, pega no peixe com carinho e liberta-o do "ferrão". Depois e ainda com mais carinho, pesa o bicho. Naquele momento dá-se um insinuante contacto visual entre o homem e o peixe e entre o peixe e o homem. Gera-se ali um clique. Depois o peso do peixe é contabilizado e sem que nada o faça prever, o animal  é atirado borda fora, sem apelo nem agravo.
Tenho para mim que nos lagos, lagoas, rios e mares deste mundinho, existem enormes associações de peixes deprimidos e carentes que em certo dia foram pescados e não entenderam muito bem porquê. Conheceram um homem que os libertou de um sofrimento (eles naturalmente desconhecem que fora o mesmo homem quem começara tudo). O pescador olhou para eles,  piscou-lhes o olho e ficou todo contente. Preocupou-se ainda com o estado físico do bicho, pois quis saber quanto o mesmo pesava e... depois chutou para canto, logo aquele ser que havia sido tão desejado.
Acredito que debaixo de água existam mesmo enormes cardumes de peixes, agrupados em associações de auto-ajuda. Até parece que já os estou a ver. Todos numa grande roda, de barbatanas dadas uns aos outros, emitindo em unissona voz uma reza tipo: "Cuidado, tenham todos muito cuidado na procura do desjejum. Procurem ser sempre muito selectivos." No meio da roda estarão outros peixes, mas inválidos, alguns de canadianas, também a rezar. Outros não emitirão um único som, pois têm ainda a boca... rebentada pelo anzol.
Sugestão de leitura para hoje: "O Amor é Fodido" de Miguel Esteves Cardoso.
Divirtamsemazé e tentem fazer poucos estragos.


sábado, 5 de novembro de 2011

Livros excursionistas.


Quem tem mais de trinta e cinco anos lembra naturalmente as velhinhas carrinhas da Calouste Gulbenkian. Estas traziam os livros às terras desapossadas de Biblioteca Pública. Eu lembro-me disso muito bem. Todo aquele processo era mágico, havia a espera, depois o fascínio de escolher novos livros entregando os que já haviam cumprido a sua função. Na requisição havia o preenchimento de um pequeno impresso que atestaria a morada temporária daqueles "objectos encantados". Sempre achei todo aquele processo fantástico, nós a escolhermos os livros... bem, há quem teorize que são os livros que nos escolhem a nós.
Por um determinado tempo aqueles livros acompanhavam a nossa existência, testemunhavam de alguma maneira as nossas vivências. Eu mesma pensava que por algum tempo, eu também seria a "dona" daqueles "seres comunicantes", os mesmos que já haviam "pertencido" a inúmeras pessoas, que os haviam lido, se deliciado e depois haviam cumprido a obrigação de os entregar à procedência. Este gosto acompanhou-me mas... nem sempre eu achei muita graça à leitura em si. Acredito que a leitura (e o gosto pela mesma) deriva de um  processo muito complexo.
Quando eu era muito nova (seis, sete, oito anos), eu era uma rapariga ladina que ia com toda a desenvoltura de mão dada com o meu pai buscar livros às carrinhas da Gulbenkian. O meu pai pertencia ao operariado, como habilitações literárias tem somente a instrução primária. Contudo havia algo que o distinguia e bem de grande parte da população pertencente ao seu extracto social/económico, o meu pai tinha (e felizmente ainda tem) um enorme amor pelos livros. Sempre foi assim desde criança, o seu pai também já havia sido um bom leitor. O meu pai é só o maior leitor compulsivo que eu conheço. Ele lê tudo e quando eu falo tudo é tudo mesmo, inclusivé este meu singelo blogue, pois tem ligação à Internet vai para dez anos.
Escusado será dizer, que como pai desta filha única e ladina, desde sempre ele tentou que eu tivesse uma paixão pelos livros idêntica à sua, mas o processo não foi fácil. Para mim eram bem mais atractivas as actividades como as brincadeiras na rua, na companhia de enormes bandos de crianças pequenas, gozando da maior liberdade que se possa congeminar. 
Mas o pai queria que eu lesse e eu fazia-lhe a vontade e como ficava contente de me ver de livro na mão! É claro que eu gostava de ir buscar livros à carrinha, só que os mesmos tinham que ter um simples requisito: tinham que ter o menor número possível de letras e consequentemente o menor número possível de palavras. Assim os cinco livros que era possível requisitar e por mim eram escolhidos, eram lidos nos dois dias seguintes ao acto da requisição. Depois eram ordenados na estante e no lugar próprio para eles e até ao regresso da carrinha a minha intenção era  não falar mais sobre aquele assunto. Contudo o meu pai enquanto lia os seus, perguntava-me a minha opinião sobre os livros que eu havia trazido e, fazia mais ainda aquele magano, depois de ler os seus livros de adulto, ia ler os livros que eu havia requisitado, apontando depois o seu titulo e autor num velhíssimo porém precioso caderninho de anotações de leituras.
Bem mas isso não me preocupava nada é certo, e a vida lá ia decorrendo na maior e mais alegre naturalidade. E os meses foram-se passando. Mas certo dia algo acabou com a placidez e facilidade das minhas leituras descomprometidas, pois surgiu um personagem que mudaria para sempre o curso daquelas minhas secretas intenções. E quem era o ladino? O técnico/condutor da Biblioteca Itinerante. Este já andava desconfiado da minha "preguicite aguda" no campo das leituras e num certo dia, num assombro repentino chegou ao pé de mim e disse: "Minha menina, a partir de agora acabaram-se estas leituras para si. Daqui para a frente, a minha amiga vai escolher destes livros daqui" (apontando para outra prateleira que continha livros dedicados à faixa etária que inclui a fase da adolescência). E mais disse aquele "mui prestável" senhor: "E a primeira sugestão de leitura quem lha faz sou eu!" Apresentando-me de imediato o livro: A Cabana do Pai Tomás de Harriet Beecher Stowe. Fiquei sem pinga de sangue, saltou-me tudo em cima e por mais que tentasse, não arranjava desculpa capaz para recusar tão "prodigiosa dádiva". A partir dali a coisa "piava muito mais fino". Agora já não levava comigo a historieta dos patinhos malandrinhos, do cãozinho carinhoso, dos palhaços trapalhões nem das varinhas de condão. Agora a minha narrativa era bem diferente. A história do Tomás é sobejamente conhecida. Trata-se do relato de algo tão obscuro e tenebroso como é a condenação perpéctua do ser humano à condição de escravo, só porque nasceu com uma coloração de pele mais para o carregado.
Eu peguei no livro, que depois li e senti-me atrapalhada, afinal a vida de muita gente era bem mais complicada que aquela que eu havia tido a sorte de ter, rodeada de cuidados e carinhos de uns óptimos e muito competentes pais. Afinal havia gente que nada tinha. Havia gente que pagava com a própria vida por pensar de maneira diferente. Eu antes daquela leitura, ainda não havia tido grande oportunidade de pensar nessas coisas, pois como a generalidade das crianças e adolescentes daquele tempo eu preferia mesmo era correr, saltar, fazer maroteiras e  continuar a ser criança (de preferência para todo o sempre). Aquele senhor contudo teve uma particularidade muito ímpar na minha vida, já que com aquela simples e oportuna sugestão, conseguiu acordar em mim uma consciência que permanecia inerte.
As minhas leituras continuaram e aqui vou ser franca, eu ainda continuei a  aproveitar o momento em que o técnico estava mais para o distraído, para juntar alguns  livros "menos trabalhosos" à minha lista de requisições, mas também fui fazendo outras escolhas. Depois há uma altura em que o  processo é irreversível, e em que se diz não ao facilitismo e se empreende por algo mais complexo.
Hoje leio muito, não tanto como o meu pai esse vence-me literalmente. É com muito prazer que recordo aqueles tempos e é ainda com muito mais prazer que converso sobre leituras com o meu progenitor. Oxalá o consiga fazer por muitos anos.
Sugestão de leitura: "A Insustentável Leveza do Ser" de Milan Kundera.
Boas e gratificantes vivências (apesar da crise) e... divirtamsemazé.