No tempo das nossas avós a vida era muito mais previsível e ordeira. Tudo era combinado. A população era na sua grande maioria analfabeta, detentora de pouquíssimos bens (quem nunca ouviu falar na situação em que uma sardinha dava para dez sócios)? As pessoas não tinham muito tempo para divagações, pelo que eram pouco ligadas a questões que envolvessem sentimentos. Os filhos serviam não só para perpetuar a espécie como para garantir o rendimento familiar. Serviam ainda para ajudar os pais a terem uma velhice capaz. As pessoas começavam a trabalhar quando eram muito novas, sem estudos, nem grandes ambições... Bem depois com o passar das décadas tudo ficou diferente, não é?
Conheço alguém que conheceu da pior maneira a modernidade das relações humanas. Chama-se Clara. Clara é uma mulher feita, bem disposta, descomprometida com a vida e com maiores preocupações. Ela sabe que o mundo nem sempre é o melhor dos mundos, mas tem a convicção de que também não tem contribuído muito para que o mesmo tenha ficado pior. Clara é detentora de um sorriso franco, riso alto e contagiante. Vive feliz e convicta de que tudo no mundo é transitório pelo que não valerá mesmo nada a pena envolver-se em muitas tricas e confusões. Sabe ainda que quando menos se espera toda a nossa vida pode mudar ou mesmo acabar.
Clara detesta ficar em casa, adora os seus amigos que considera muito fiéis e confiáveis. Refere muitas vezes que até nem tem grandes razões de queixa da vida que consegue levar. Conta com uma boa saúde, pelo menos acha ela, pois sabe que quem muito procura, corre o risco de encontrar algum mal de que nem desconfiava.
Contudo houve um dia em que a vida dela levou um pequeno abanão. E foi assim: Ia Clara distraída pela vida, quando surge algo que inicialmente não lhe chamou sequer à atenção. Depois e devido a continuidade de solicitações, esse algo começou a marcar presença e a fazer com que as suas batidas cardíacas soassem de forma mais retumbante. A minha amiga ficou ainda com um sorriso mais aberto (assim como que a atirar para o aparvalhado) e uma gargalhada muito mais estridente. Sim, avaliaram bem os sintomas, a Clara estava apaixonada. Ora onde é que tu foste cair mulher!!! A vida já tinha mostrado a Clara que por vezes o amor tem trilhos muito tortuosos. Bem mas agora o mal já estava feito... diga-se que Clara estava longe de ser uma turista de primeira viagem. No passado já havia sentido tais sensações, já tinha rido e chorado (quase em simultâneo), pois como todos nós bem sabemos, a alegria e a tristeza tendem a andar de braço dado em todo este processo. Pelo menos numa fase inicial.
Clara sabia da realidade. Nestas coisas há o perigo de se ganhar um jogo fajuto, assim como também se corre o risco de perder um verdadeiro Jackpot. A pessoa incauta e com medo (porque é de medo que se fala quando a pessoa desconhece a natureza dos sentimentos do outro), ao avançar pode magoar-se seriamente. E isto sem que a outra pessoa tenha necessariamente responsabilidade em todo aquele processo. Mas e como o rapaz se "fazia" à Clara, ela arriscou, declarou e aparentemente perdeu. Mas será que perdeu mesmo? Não haverá jogo em que o melhor que acontece é mesmo perder, pois caso contrário pode-se ganhar um "acidente fatal"?
Clara disso nada soube, pois não obteve qualquer resposta, nem "sim", nem "não" e nem mesmo o velho "nim". A Clara sabe que a "não resposta" é já de si uma resposta. Estarrecida ela ficou, mas depois pensou melhor. Ela já sabe que o caminho é mesmo em frente. Esta situação é infelizmente muito habitual e naturalmente associada à imagem de um "coito interrompido". Em casos tais a solução é mesmo levantar-se, apanhar os despojos de um coração partido, remendar o que se conseguir e depois o tempo encarregar-se-á do resto. Inicialmente a pessoa atingida por tal fatalidade vai periclitante e é natural que caia ainda algumas vezes, mas Clara, mulher feita que é, sabe que a vida é mesmo assim. Passado algum tempo, recuperará a vontade de rir, de gargalhar mesmo e de amar novamente. Desta vez desejo que a Clara encontre alguém que valha a pena ou pelo menos alguém que consiga dizer alguma coisa.
Toda esta história faz-me lembrar a Pesca Desportiva. Eu nunca entendi muito bem todo aquele desporto. O peixe lá em baixo, vai muito despreocupado a nadar. De repente encontra um isco e pensa: "Olha que belo petisco para o meu Pequeno-Almoço". Já muito confiante, ele aproxima-se e abocanha o quinhão e... é puxado dramaticamente para o lado de fora da água. O peixe fica confundido, não compreende muito bem a situação que está claramente a protagonizar. Depois fica literalmente nas mãos do pescador (o peixe debate-se com a desgraça que há-se ser, ter um anzol enfiado pela goela abaixo). O pescador que era o ser letárgico que já ali estava havia tantas horas a olhar para a água, pega no peixe com carinho e liberta-o do "ferrão". Depois e ainda com mais carinho, pesa o bicho. Naquele momento dá-se um insinuante contacto visual entre o homem e o peixe e entre o peixe e o homem. Gera-se ali um clique. Depois o peso do peixe é contabilizado e sem que nada o faça prever, o animal é atirado borda fora, sem apelo nem agravo.
Tenho para mim que nos lagos, lagoas, rios e mares deste mundinho, existem enormes associações de peixes deprimidos e carentes que em certo dia foram pescados e não entenderam muito bem porquê. Conheceram um homem que os libertou de um sofrimento (eles naturalmente desconhecem que fora o mesmo homem quem começara tudo). O pescador olhou para eles, piscou-lhes o olho e ficou todo contente. Preocupou-se ainda com o estado físico do bicho, pois quis saber quanto o mesmo pesava e... depois chutou para canto, logo aquele ser que havia sido tão desejado.
Acredito que debaixo de água existam mesmo enormes cardumes de peixes, agrupados em associações de auto-ajuda. Até parece que já os estou a ver. Todos numa grande roda, de barbatanas dadas uns aos outros, emitindo em unissona voz uma reza tipo: "Cuidado, tenham todos muito cuidado na procura do desjejum. Procurem ser sempre muito selectivos." No meio da roda estarão outros peixes, mas inválidos, alguns de canadianas, também a rezar. Outros não emitirão um único som, pois têm ainda a boca... rebentada pelo anzol.
Sugestão de leitura para hoje: "O Amor é Fodido" de Miguel Esteves Cardoso.
Divirtamsemazé e tentem fazer poucos estragos.

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