Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

É pressuposto...



A Biblioteca situava-se nos pequenos arrabaldes da grande capital. A frequência era a melhor. Gente de todos os gostos e proveniências acedia à mesma em busca do melhor livro. Ou então do melhor Cd ou DVD. E poucas eram as que dali saiam revoltadas, pois se o livro que queriam não existia ali, na certa que existiria outro susceptível de causar similar interesse. E além disso técnicos prezavam muito por aqueles seus postos de trabalho. E por mais que ouvissem nas notícias, que iriam sofrer o quinquagésimo terceiro corte nos seus magros salários, nem por isso deixavam de sorrir à clientela. Nem mesmo à D. Deodata, que ia para lá estrebuchar, dizendo que se lembrava muito bem do dia em que a Biblioteca estava aberta ao Domingo. Agora é que o pessoal não queria fazer nenhum! Ela que dizia ter tudo escrito. Dados que lhe serviriam para memória futura. É que a “ela ninguém a enganava”. Eram essas as palavras expressadas pela própria. Nem mesmo “aqueles pindéricos”, que só para a enervarem, é que só podia ser mesmo isso, reforçavam a ideia de que ao Domingo, e até àquela data, eles poderiam ter ido à missa. Ao Centro Comercial ou até à praia. Agora para a Biblioteca, não. Eles juravam que jamais haviam trabalhado ali no Dia Sagrado e semanal do Senhor.
Mas a vida lá continuava. Para lá ia também lá o Sr. António em busca de música de fusão. Que era tão do seu agrado e da sua santinha. Ia lá a D. Hermengarda em busca do último sucesso do Nicholas Sparks. E à falta do mesmo, por estar emprestado, ela contentava-se com a Sveva dos Barões. Pois ao que parece, as Armas ficaram de fora.
Ia lá também o magano do Sr. Asdrúbal. Sempre com desejos de ler o Correio da Manhã, especialmente as suas páginas centrais, que como todos nós sabemos são aquelas que tem as informações mais detalhadas e susceptíveis de causar interesses variados. E de vezes a tempos, lá a D. Alice, que sem ser a mais assídua, só ia lá quando se dispunha a isso. E aquela D. Alice não passava mesmo despercebida. Sempre de sorriso no rosto e de palavra fácil. Da sua prole, já se lhe conheciam todos os elementos. E aquele pessoal que ali trabalhava, jamais os havia visto. Mas de tanto se falar deles… Aqueles Técnicos de Biblioteca só conheciam mesmo era aquela sua líder. A D. Alice. E para sempre, ficara na memória daquele pessoal, o dia em que lhe nasceu o primeiro neto. E o dia em que ela soube que o seu marido havia arranjado uma “galdéria” 33 anos mais nova. Ah pois foi! A maçada que aquilo não foi! E os “lençóis” de conversa, que aquilo não fez render? Alice trabalhava ainda numa grande empresa. A secretariar. Fora aliás essa sempre a sua profissão.
Mas Alice não esmoreceu. E depois da pancada… ela arribou novamente para a vida. Afinal o que é que valia estar sempre a pensar num homem adúltero. Aquele que a havia levado ao altar. Que falso que ele se revelara. Que depois… tão pouco quisera saber dela. Nem da prole. E ligar-se depois (sem pesos na consciência) a uma “matulona”, cruzes! Quem é que o havia de dizer! Ele que andava sempre atrelado a ela. E de bigode ensebado.
E a vida de Alice lá prosseguia, com ida à Biblioteca Pública e tudo, isto é, quando lhe aprouvesse mais.
Só que durante largos meses a Alice nunca mais lá aparecera. E a sua falta mais a sua conversa, fizeram-se notar. O que é que havia acontecido? Mas o tempo lá se seguia na forma espectável.
Só que em certo dia, e finalmente, sem que se fizesse anunciar preventivamente a D. Alice lá apareceu. E à sua espera, na recepção estava também a Bibliotecária daquele espaço. Não que lhe fosse conferida a realização de uma cerimónia especial. Não, senhores! Simplesmente aquela Bibliotecária adorava passarinhar por aquele espaço a fim de se aperceber do que por ali se passava. E a D. Alice, depois da conversa da praxe, lá referiu:
“Olhe. Eu tenho o meu cartão de leitora fora de prazo, veja lá. O que é que é necessário para o actualizar?”
Resposta pronta e imediata da técnica: “Pois é necessário o Cartão de Cidadão e um comprovativo de morada, que poderá ser uma conta de água, luz, telefone, tv cabo…”
“Oh que maçada”, respondeu a D. Alice. “Só tenho mesmo comigo, é o Cartão de Cidadão. E logo eu que costumo andar sempre com tanta correspondência. É, que só me mandam cartas para pagar!”
Pois… Era chato. Mas era assim mesmo o procedimento habitual. A D. Alice teria que voltar ali e levar com ela toda a documentação necessária. Que afinal não era assim tanta. Mas ela não se abateu. Ela era lá mulher para isso! Pelo que, e no meio da voragem dos seus pensamentos, ela verbalizou:
“É que sabe uma coisa? Eu venho aqui cada vez menos…”
E aquela Bibliotecária, avaliando-lhe a pele bem tratada, mas algo enrugada, assim como o seu belo e farto cabelo prateado, tentou adivinhar-lhe uma soberba e merecidíssima reforma. Naturalmente que Alice decidira por fim aos seus dias de trabalhos forçados e com horas certas. E isto ao fim de muitos anos de descontos. E após a teorização de muitos desejos há muito sonhados. Quem sabe se não lhe chegara a hora, de ter mais tempo para si? Para as suas leituras? Para a jardinagem? E quem sabe se não arranjara também ela, um mancebo enxuto? Estaria a D. Alice temporariamente refastelada numa bela casa de campo? Longe da poluição e do stresse?
E a Bibliotecária lá continuou. Pensando também na hipótese cada vez mais remota, de que, quem sabe um dia, aquele descanso prometido, não a contemplaria também a ela? É que sonhar é tão fácil...
Só que esses seus doces pensamentos foram interrompidos intempestivamente. É que a D. Alice, sempre de sorriso no rosto, e assegurando igualmente o seu estado de (cada vez menor) graça de reformada, a informou:
“É que eu agora costumo ir, é para a Biblioteca da Amadora”.
Ah pois era! Aquela senhora não estava placidamente a viver aquela doce mas enérgica época sénior. Em ambientes pacatos e recônditos de uma província cada vez mais desabitada. Não! O que aquela senhora fazia mesmo, era ir à concorrência.
Sugestão de leitura para esta semana: “Tempos de Esperança” de Pedro Beltrão.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


sexta-feira, 18 de outubro de 2013

À boda e ao baptizado, não vás sem ser convidado.



Já muitos anos se devem ter passado, sobre a ocorrência de um singular enlace matrimonial, em zona indefinida deste Belo País à Beira Mar Plantado. E depois do mesmo, é mais do que certo, que muitos outros casamentos aconteceram. Se bem que actualmente são cada vez menos, um pouco à semelhança da Crise de Vocações e do nascimento de novas alminhas. E que raio de associação de ideias me deu hoje para fazer!
Mas o casamento que eu hoje aqui relatarei, deve de ter tido um sabor muito especial.
Francisco seria um jovem tímido e bastante adoentado. Era ainda oriundo de uma família detentora de bastantes posses e benefícios, muito significativas atendendo ao que se passava com a restante comunidade inserida naquele meio rural. E Francisco ficara noivo de uma jovem muito bela, mas também muito pobre. Sim, parece que estão reunidas assim e à priori, as condições para a existência de uma belíssima história de amor. De fazer rejubilar todas as pedrinhas da calçada. E no entanto…
Maria a noiva, aproveitou aquele amor tresloucado, que fizera nascer no seu Francisco, para dar um saltito na hierarquia da sociedade, naquela comunidade tão circunscrita. E quem é que disse que não se pode unir o útil ao agradável? Ah pois claro que sim. E Maria, a nossa heroína de hoje, não havia sido a primeira. Só que aquele seu acto, foi visto com muito maus olhos pelas invejosas do lugar. Que como sabemos, sempre abundam em todas as comunidades. Muitas dessas perversas pessoas, quiseram muito estar no lugar dela. Outras ansiavam aquele enlace para as suas filhas e netas…
Mas quem mais odiou aquela ocorrência fora Eugénia, que era uma mulher de fibra, ainda nova, mas que se recusava determinantemente a dirigir palavra a todos os membros da família de Maria. E aquilo eram zangas que já vinham de outras eras. Cujas principais motivações já nem deviam de ser do conhecimento efectivo das duas partes.
E depois Eugénia tinha um passatempo que adorava, ela era muito boa a versejar. Hobbie que todos os seus amigos, família e vizinhos se pelavam por lhe assistir. E numa altura em que a sua raiva (e também a sua inveja), alcançaram níveis altaneiros, ela havia tido a esperada inspiração. E pôs-se a escrever umas quadras, numa folha de vinte e cinco linhas de cor azulada.
Na altura, a cópia mecanizada ainda fazia parte dos conteúdos presentes da Ficção Cientifica, pelo que depois a Eugénia, deve de se ter dado ao trabalho de copiar todo aquele seu veneno, para inúmeros outros papéis da mesma natureza. E com uma letra muito bem desenhada para que todos percebessem. É que Eugénia não tinha qualquer máquina de escrever, ou mesmo um simples e vulgar papel químico. Pelo exposto, é pois de prever que aquela tarefa lhe deva ter dado um enorme trabalhão. E quando tudo já estava escrito, ela deve de ter pegado nos papéis e deve de se ter esgueirado de fininho de sua casa. E depois é natural que ela tenha enfrentado uma noite muito escura. E aqui ela claramente deve de se ter inspirado nas acções de Lutero, é que no dia seguinte toda a aldeia, é capaz de ter acorrido para o pé da porta da velha capela, a fim de poder ler a poesia do momento. É que em cima de um banco corrido, estavam muitos papéis para todos os vizinhos pudessem ler. E na porta da capela, uns outros papéis estavam afixados. Assim as pessoas, puderam ler no local (e mesmo em voz alta), para que outros menos letrados pudessem tomar conhecimento. Ou então puderam levar o papelucho lá para casa, para ficar para memória futura. Dispondo assim e para a eternidade, de um registo de memórias localizadas. E ainda com um forte pendor estilístico. E a primeira quadra rezava assim:

“A Maria da Cristina
Anda agora nos jornais
Ela gosta de pregar
Os botões nos atafais.”

Legenda: a métrica está perfeita, e a coisa até rima. Contudo logo de início podemos constatar que está cheia de mentiras. É que não havia registo de qualquer presença da imprensa no local. Os paparazzi também ainda não deviam de ter sido inventados. Então porquê levantar falsos testemunhos? De que a “desgraçada” da noiva andava nos jornais? Havia necessidade disso? Pois não havia mesmo! Mas a inveja explica isso e muito mais. Quando muito, era a Eugénia que reunia nela, aquelas duas funções. Só que a Eugénia foi muito mais indiscreta do que isso, já que revelou àquela aldeia as preferências (se calhar) secretas da noiva. Ela gostava de pregar os seus botões. Mas haverá nesse part-time alguma coisa de condenável? Não há também quem faça Ponto Cruz? E tapetes de Arraiolos. E depois? Alguém no seu juízo perfeito poderá fazer alguma alusão negativa a isso? Juntar na desgraça, todas as mulheres que têm como ferramenta principal de trabalho... uma agulha? Pois é claro que não. Eu pelo menos nunca ouvi. Mas como era a Maria…!
E ‘atafais’, amigos? O que são atafais. Recorramos já à nossa Enciclopédia Amiga. De papel e também de muita confiança:
Atafal: s. m. Cinta larga, geralmente franjada, que prende dos lados da sela ou albarda, passa debaixo da cauda da cavalgadura e serve de retranca: “Apre besta do ruim… o atafal vai por fora e a cilha no embigo”., Gil Vicente, Farsa dos Almocreves, Compilação IV, p. 230 v.º; trataram de por a salvo os jericos e atafais”, Aquilino Ribeiro, Terras do Demo, I cap. P.3. (Do ár. Ath. Thafar, mesmo sentido).
Parece pois claro, onde Maria gostava de ir pregar os seus botões, nos atafais das bestas e das alimárias. Se calhar até era essa mesma, a sua especialização. E assim, com os atafais bem presos, não se corriam riscos desnecessários. E as pessoas não caiam facilmente de cima dos seus animais de trote. Mas o versejar lá prosseguiria. E a bom ritmo.

“Os botões dos atafais
Isso a mim me dá pena,
Ela gosta de os pregar
Ao Henrique da Milena.”

Mau, mau. Então o Henrique da Milena era algum burro? Não me parece que por essa altura, se dessem nomes de pessoas aos animais. Isso é uma moda actual. E se assim era, já não era bastante estar a denegrir a imagem da pobre Maria? Ainda tinha que por em causa a esperteza dos vizinhos? E depois? Será que o Henrique sabia? E para que raio é que o Henrique usaria os atafais? Teria localmente a palavra “atafal”, um outro qualquer significado, que não o exposto na enciclopédia? E outra coisa: seria o Henrique alguma coisa a Maria? Um seu primo, por exemplo? E vejamos ainda mais uma pormenor: para quê expor assim tal confusão? O que é que isso poderia interessar à comunidade local, o facto da Maria andar a pregar botões nos atafais do pressuposto burro Henrique? É que há com cada uma? Naturalmente que ‘pregar botões em atafais “seria a profissão de Maria. Pregar os botões em atafais…. Deveria de ser dessa mesma tarefa, que ela conseguia ganhar o seu pãozinho. E se calhar até foi assim que ela conseguiu comprar todo o seu enxoval. E depois? Que mal é que há em a pessoa ser considerada uma boa profissional?  E ainda, muito respeitada e respeitadora por toda a sua clientela? Maria até pode ser vista aqui como o grande exemplo daquilo que se deve de ser. Mas os versos?  Esses… devem de ter prosseguido, mas registados... só ficaram estes:

“A Rosa vem lá de dentro
Mas tem muito mau encontro
E ela grita da janela
-Oh Marquita, que o meu filho já está morto.”

Exige-se aqui uma explicação. Se calhar só a possível, atendendo às circunstâncias. O filho deveria de ser o Francisco. E quem gritava assim de agonia, era a sua própria mãe. Supostamente a própria sogra de Maria. E a mesma vira algo que muito a perturbara. E que quase a levara desta para melhor. Mas apesar de tudo... conseguira resistir, só que vinha era muito incomodada. Pelo menos era o que mais parecia. Mas também, outra coisa não seria de esperar, afinal ela gritava que lhe "morrera o filho"… Mas morrera-lhe de quê? Sofrera ele de algum acidente? Coitado, logo ele que (pressupostamente) se acabara de casar. Mas parece que a coisa ficou esclarecida (e finalmente) nesta última quadra a que temos acesso:

“Mas nisto vem a Rebeca:
-Que estás para aí a chorar,
Que o meu Manel foi o mesmo
Quando foi para m’os tirar.”

Pois foi. Parece que por fim fomos esclarecidos. E também… já não se aguentava mais com tanto suspense. Ao que parece, a mulher chorosa havia ido ter com o filho ao quarto. Mas que raio de ideia? E que inconveniência! Logo ao quarto que lhes servira às núpcias! E ao que parecera, ela fora dar com o seu querido filho sem sentidos. Sem dar qualquer acordo de si. Coitadinho. Mas estaria lá também a nora? E o seu filho? Estaria só desmaiado, ele que até era alguém muito débil e adoentado. Pressupõe-se desta forma que ele não aguentara a emoção. Mas estaria ele mesmo morto? É que segundo a quadra aqui postada, aquela ocorrência já havia conhecido repetição naquela mesma localidade. Se calhar ali, tal ocorrência fazia mesmo parte do folclore local. Fora mesmo a Rebeca (que não sabemos qual a proveniência ou ligação às outras personagens), quem nos esclareceu quando responde: “que com ela também já se havia passado o mesmo”. Ao que parece o seu “home”, também havia tido um faniquito na altura da sua desfloração.
Por isso e consequentemente, nada haverá que nos preocupe. E é bom pensar que o nosso herói de hoje, o Francisco também deva ter melhorado da sua condição física. Ter conhecido o recobro, quem sabe se recorrendo a alguma canjinha de galinha caseira, ou mesmo a sopas de vinho. Pressupõe-se só, pois de concreto nada mais se sabe. Não se conhecem outros desenvolvimentos àquela poesia livre, inspirada vai já para tantos anos. E é bom acreditar que com a continuação da actividade, aqueles pobres e maldispostos senhores, tenham melhorado efectivamente a sua condição.
Tratam-se assim de versos inspirados numa realidade de outrora. E absolutamente perversos. E são os versos expostos os que constam numa folha a desfazer-se, corroída literalmente devido aos efeitos nefastos, de uma passagem irreversível do tempo.
Mas e para concluir, uma coisa ressalta à vista. Fala-se nos tempos de hoje, na perversidade exposta e nas faltas de vergonha que são mais do que evidentes, dizem muitos. Contudo no passado, a coisa também não parecia ser melhor. Afinal, pessoas maldosas e indiscretas, sempre existiram. E em toda a parte. E é mesmo previsível que a história dos versos tenha acompanhado (e para sempre), toda a existência daquele casal. E depois, é ainda plausível, que aquela “jornalista”, sem carreira profissional efectiva, tenha continuado a sua função, sempre ligada à “imprensa escrita”. Que depois de editada, se colava às portas das capelas. Um pouco à semelhança do que séculos atrás, fizera Lutero com a publicação das suas noventa e cinco teses. Pois meus amigos: e se calhar… já não deve de haver mesmo, muita coisa para inventar.
Sugestão de leitura para esta semana: “O Feitiço da Lua” de Sarah Addison Allen.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


sábado, 12 de outubro de 2013

Para que conste.




Esse seu olhar tão altaneiro,
Esse seu falar tão moderado.
Esse seu perfil velho e cansado,
Essa preocupação de não ter dinheiro.

Vai tentando entre nós algum alento,
E busca no governo o seu conforto.
Procura-se, mas não se lhe encontra um sentimento,
E está no Face julgando estar no Porto.

Sua voz é apagada e inexistente,
O seu passado presente, é evidente,
Ainda que isso tenha sido mau para a malta.

É assim o Presidente de todos nós,
A quem buscamos e não encontramos voz,
Em bolsos furados, a côdea que nos falta.

Sugestão de leitura para esta semana: “A Desumanização” de Valter Hugo Mãe.
Parece um contra-censo. Uma ideia algo bipolarizada, mas fica lançado o desafio: Apesar da tristeza evidente, DIVIRTAMSEMAZÉ!


sábado, 5 de outubro de 2013

Esta palavra saudade...


Jacinta já tinha sessenta e tal anos, quando ficou viúva de José. E o casamento deles, perante toda a comunidade, fora um casamento convencional. Porém, fora um casamento que não deixara descendência. Como tantos outros, também.
Quando José se casara, já tinha trinta e tal anos. A noiva era mais velha que ele, quatro anos. Nada de transcendental, nem digno de particular nota. Contudo José não havia casado com o grande amor da sua vida. Jacinta fora só, a mulher que a sogra mais sonhara para ser sua nora. E como aquela sogra era apaixonada, pela que viria assim a entrar-lhe para a família?!
O casamento seguiu. O casal conviveu. E passados alguns anos, o José começou a beber de forma descontrolada. Seria para esquecer as agruras de sua vida? É possível que assim fosse. É que aquela por quem ele tanto suspirara e quisera, encontrara finalmente abrigo nos braços de um outro senhor.
Com tanta bebida e com o passar dos anos, o José ganhou uma terrível doença hepática. Doença que o levaria "desta para melhor", quando José ainda mal tinha chegado às sessenta Primaveras.
Com a morte do marido, a Jacinta ficara absolutamente inconsolável. De nada valeram as trinta mil promessas que ela dirigira ao Divino de forma a que Aquele lhe salvasse o cônjuge. Das quais fizeram parte vinte e duas mil idas a Fátima e duas ou três romarias à Santinha da Ladeira. Que depois e passado algum tempo, acabaria por perder alguma credibilidade. Só faltou mesmo, foi uma ida à Casa do Dr. Sousa Martins. Não houve tempo para tal, porque entretanto o José falecera. 
Agora viúva, Jacinta ficaria para todo o sempre absolutamente inconsolável. Na hora do inicio da sua viúves, Jacinta escolhera a "farda" que a acompanharia para todo o sempre. Farda que tinha a cor preta. E para si, ela jamais permitiria um qualquer deslize. E se uma peça de roupa de cor preta, tivesse uma única lantejoula ou um outro objecto de brilhasse? Pois tal roupa era imediatamente recusada, por se tratar de roupa indecente, atendendo às circunstâncias. É que se alguma coisa brilhasse, o luto não seria efectivo.
Para além disso, envergaria também (e para todo o sempre), um lenço preto na cabeça, traçado de forma particular. Tipo coifa. Que a tornaria parecida à figura imponente do Infante D. Henrique. Quando este pomposamente, "perdia" suas vistas na observação das bravas marés que banhavam Sagres. E quando não havia assim... muito vento, pois se assim acontecesse, o mais natural seria o "lenço" voar.
E Jacinta andaria assim trajada para o resto da sua vida. Quer chovesse, quer fizesse Sol. E também não era nenhuma qualquer ventania que a atemorizava. Jacinta era uma mulher valente. Inconsolável é certo, mas valente. E de fortes e inabaláveis convicções.
E depois durante uns tempos a seguir à sua  perca, ela não falaria com ninguém que não pertencesse exclusivamente à família. E se alguém na estrada a visse e saudasse, Jacinta não lhe respondia. Virava-lhe as costas, e parada deixava passar aquele "intruso". E não valia a pena insistir. Dali não sairia qualquer palavra ou simples saudação gestual.
As pessoas da família, visitavam-na com alguma frequência. E nas chamadas conversas de circuntância, onde o mote fosse por exemplo o estado do tempo, ou clima vivênciado na aldeias, a Jacinta só respondia:
"Ai o meu querido José! A falta que me faz o meu José!" E pela cara, rolavam-lhe grossos fios de lágrimas. Não adiantava insistir.
Passado mais algum tempo, e quando se julgava que a crise de sentimento já pudesse ter serenado, lá se tentava falar de política interna, numa inconclusiva temática, que versasse por exemplo as dúbias funções do Senhor Presidente da Junta. E do facto do mesmo ter sido reeleito por fraca margem de votos. E quem é que seriam os três comunistas da aldeia? A Jacinta arfava, cofiava o seu lenço/touca e lá bramia de novo:
"Ai o meu querido José, que não votou! Ele que gostava tanto de ir votar e depois ir botar discurso para a taberna da Amélia! A falta que o meu amado José me faz!"
Invariavelmente... a coisa terminava sempre assim. Dessem-se as voltas que se dessem. Buscasse-se o assunto que fosse. A lamuria era constante e inamovível. E a Jacinta... sofria.
Como as queixas eram constantes, os familiares acabaram por se convencer que o José tinha sido efectivamente alguém muito importante na vida de Jacinta. E pessoa absolutamente insubstituível na vida dela. Aquela viúva estava assim num grande sofrimento. Com saudades de uma excelente e idílica vida que tivera na companhia daquele seu magnifico (mas infelizmente já falecido) marido.
E lá continuava tudo a seguir o rumo espectável. A família e os amigos a tentarem alegrá-la. Enquanto Jacinta falava somente do "seu falecido". Lembrava-o consecutivamente. E sem falhas de atenção. Pelo que a comunidade concluía em massa: "José, tu foste um herói nacional. Como é que foi possível deixares assim tantas saudades?" E a ideia de dar o nome de José a uma qualquer rua, começou a tomar forma.
Mas o tempo lá ia passando, na sua natural voracidade. E um dia Jacinta teve que ir saber qual era o estado da "sua periquita". É que é sempre necessário fazer exames. Poder-se assim prevenir muita coisa... Pelo que lá foi ela ao ginecologista.
No consultório, ela deu de caras com um resoluto clínico, que depois da conversa da praxe, lhe solicitou que tirasse as cuecas. "Ora essa? Não seria possível fazer exames só com a ajuda das máquinas. E vestida. Sem que o médico tivesse que ver, tocar e meter o nariz?", pensava muito desoladamente a Jacinta. 
Depois de desnudada, o medico pediu-lhe que se deitasse na marquesa e que abrisse as pernocas. "Mau mau", pensava, "a coisa está a complicar-se". E o médico preparava-se assim para observar a "recatadíssima prima"  dela, que morava lá mais para baixo. Assim a frio e sem quaisquer preliminares. Mas tinha que ser, não é? E como o que tem que ser... Pelo que mostrando em simultâneo algum pudor, a Jacinta lá abriu a perninha. O doutor repetiu ali uma série de gestos iguais a outros tantos executados e repetidos no meio das pernas das outras suas clientes. Ele põe luvas, pega em espátulas e outros instrumentos de tortura e depois desata para ali a escarafunchar. Mete pau, usa gaze, tira uma amostra de uma qualquer coisa para análise... E no pouco da cara, que Jacinta conseguia ver do seu médico, ela vislumbrava... muita perplexidade. Que raios!
Jacinta continuava ali e naquela posição. Revelando muita paciência e também muita abnegação. E o médico lá continua a mexer a a investigar. E a sua cara ia-se transformando num enorme ponto de interrogação. Mas ele não desistia. E lá continuava ele, naquela sua muito intrigante pesquisa.
Com o passar dos minutos, Jacinta acabaria por estranhar sobre o enormíssimo interesse que estava a ter para aquele médico, a sua já envelhecida "periquita". Então ele não estava ali sempre a ver do mesmo? Qual é que era ali a admiração? Estaria ele a ver algo de preocupante. Assim... logo e à queima roupa?
No fim e já não aguentando mais, o médico acabaria por lhe perguntar: "Mas a Senhora não é viúva?" "Sim" respondeu Jacinta. "Sou viúva do meu querido José. Logo do meu José que me faz tanta falta"  E a lamuria lá continuou pelos trilhos espectáveis da ocasião. E o médico respondeu-lhe: "Mas a senhora... é virgem! O seu hímen está intacto, como desde o dia em que nasceu!?"
Foi então que Jacinta já não quis ouvir mais. E também não contou mais nada. E de cuecas na mão, ela sairia esbaforida daquele consultório do demo.
Há quem afirme, há quem acredite, que a coisa com a falta de uso volta a ser o que era. Que volta tudo ao mesmo sitio. Mas será mesmo assim? E depois há uma ou outra pergunta que se formaliza assim e imediatamente nas nossas mentes: Porque é que a Jacinta sentia assim tantas saudades do seu falecido José? E o José? Ele fazia-lhe assim tanta falta... para quê?
Sugestão de leitura para esta semana: "A Virgem e o Cigano" de D. H. Lawrence.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


Nota: A querida senhora que figura na foto... não é a Jacinta. Como é evidente.