Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

À boda e ao baptizado, não vás sem ser convidado.



Já muitos anos se devem ter passado, sobre a ocorrência de um singular enlace matrimonial, em zona indefinida deste Belo País à Beira Mar Plantado. E depois do mesmo, é mais do que certo, que muitos outros casamentos aconteceram. Se bem que actualmente são cada vez menos, um pouco à semelhança da Crise de Vocações e do nascimento de novas alminhas. E que raio de associação de ideias me deu hoje para fazer!
Mas o casamento que eu hoje aqui relatarei, deve de ter tido um sabor muito especial.
Francisco seria um jovem tímido e bastante adoentado. Era ainda oriundo de uma família detentora de bastantes posses e benefícios, muito significativas atendendo ao que se passava com a restante comunidade inserida naquele meio rural. E Francisco ficara noivo de uma jovem muito bela, mas também muito pobre. Sim, parece que estão reunidas assim e à priori, as condições para a existência de uma belíssima história de amor. De fazer rejubilar todas as pedrinhas da calçada. E no entanto…
Maria a noiva, aproveitou aquele amor tresloucado, que fizera nascer no seu Francisco, para dar um saltito na hierarquia da sociedade, naquela comunidade tão circunscrita. E quem é que disse que não se pode unir o útil ao agradável? Ah pois claro que sim. E Maria, a nossa heroína de hoje, não havia sido a primeira. Só que aquele seu acto, foi visto com muito maus olhos pelas invejosas do lugar. Que como sabemos, sempre abundam em todas as comunidades. Muitas dessas perversas pessoas, quiseram muito estar no lugar dela. Outras ansiavam aquele enlace para as suas filhas e netas…
Mas quem mais odiou aquela ocorrência fora Eugénia, que era uma mulher de fibra, ainda nova, mas que se recusava determinantemente a dirigir palavra a todos os membros da família de Maria. E aquilo eram zangas que já vinham de outras eras. Cujas principais motivações já nem deviam de ser do conhecimento efectivo das duas partes.
E depois Eugénia tinha um passatempo que adorava, ela era muito boa a versejar. Hobbie que todos os seus amigos, família e vizinhos se pelavam por lhe assistir. E numa altura em que a sua raiva (e também a sua inveja), alcançaram níveis altaneiros, ela havia tido a esperada inspiração. E pôs-se a escrever umas quadras, numa folha de vinte e cinco linhas de cor azulada.
Na altura, a cópia mecanizada ainda fazia parte dos conteúdos presentes da Ficção Cientifica, pelo que depois a Eugénia, deve de se ter dado ao trabalho de copiar todo aquele seu veneno, para inúmeros outros papéis da mesma natureza. E com uma letra muito bem desenhada para que todos percebessem. É que Eugénia não tinha qualquer máquina de escrever, ou mesmo um simples e vulgar papel químico. Pelo exposto, é pois de prever que aquela tarefa lhe deva ter dado um enorme trabalhão. E quando tudo já estava escrito, ela deve de ter pegado nos papéis e deve de se ter esgueirado de fininho de sua casa. E depois é natural que ela tenha enfrentado uma noite muito escura. E aqui ela claramente deve de se ter inspirado nas acções de Lutero, é que no dia seguinte toda a aldeia, é capaz de ter acorrido para o pé da porta da velha capela, a fim de poder ler a poesia do momento. É que em cima de um banco corrido, estavam muitos papéis para todos os vizinhos pudessem ler. E na porta da capela, uns outros papéis estavam afixados. Assim as pessoas, puderam ler no local (e mesmo em voz alta), para que outros menos letrados pudessem tomar conhecimento. Ou então puderam levar o papelucho lá para casa, para ficar para memória futura. Dispondo assim e para a eternidade, de um registo de memórias localizadas. E ainda com um forte pendor estilístico. E a primeira quadra rezava assim:

“A Maria da Cristina
Anda agora nos jornais
Ela gosta de pregar
Os botões nos atafais.”

Legenda: a métrica está perfeita, e a coisa até rima. Contudo logo de início podemos constatar que está cheia de mentiras. É que não havia registo de qualquer presença da imprensa no local. Os paparazzi também ainda não deviam de ter sido inventados. Então porquê levantar falsos testemunhos? De que a “desgraçada” da noiva andava nos jornais? Havia necessidade disso? Pois não havia mesmo! Mas a inveja explica isso e muito mais. Quando muito, era a Eugénia que reunia nela, aquelas duas funções. Só que a Eugénia foi muito mais indiscreta do que isso, já que revelou àquela aldeia as preferências (se calhar) secretas da noiva. Ela gostava de pregar os seus botões. Mas haverá nesse part-time alguma coisa de condenável? Não há também quem faça Ponto Cruz? E tapetes de Arraiolos. E depois? Alguém no seu juízo perfeito poderá fazer alguma alusão negativa a isso? Juntar na desgraça, todas as mulheres que têm como ferramenta principal de trabalho... uma agulha? Pois é claro que não. Eu pelo menos nunca ouvi. Mas como era a Maria…!
E ‘atafais’, amigos? O que são atafais. Recorramos já à nossa Enciclopédia Amiga. De papel e também de muita confiança:
Atafal: s. m. Cinta larga, geralmente franjada, que prende dos lados da sela ou albarda, passa debaixo da cauda da cavalgadura e serve de retranca: “Apre besta do ruim… o atafal vai por fora e a cilha no embigo”., Gil Vicente, Farsa dos Almocreves, Compilação IV, p. 230 v.º; trataram de por a salvo os jericos e atafais”, Aquilino Ribeiro, Terras do Demo, I cap. P.3. (Do ár. Ath. Thafar, mesmo sentido).
Parece pois claro, onde Maria gostava de ir pregar os seus botões, nos atafais das bestas e das alimárias. Se calhar até era essa mesma, a sua especialização. E assim, com os atafais bem presos, não se corriam riscos desnecessários. E as pessoas não caiam facilmente de cima dos seus animais de trote. Mas o versejar lá prosseguiria. E a bom ritmo.

“Os botões dos atafais
Isso a mim me dá pena,
Ela gosta de os pregar
Ao Henrique da Milena.”

Mau, mau. Então o Henrique da Milena era algum burro? Não me parece que por essa altura, se dessem nomes de pessoas aos animais. Isso é uma moda actual. E se assim era, já não era bastante estar a denegrir a imagem da pobre Maria? Ainda tinha que por em causa a esperteza dos vizinhos? E depois? Será que o Henrique sabia? E para que raio é que o Henrique usaria os atafais? Teria localmente a palavra “atafal”, um outro qualquer significado, que não o exposto na enciclopédia? E outra coisa: seria o Henrique alguma coisa a Maria? Um seu primo, por exemplo? E vejamos ainda mais uma pormenor: para quê expor assim tal confusão? O que é que isso poderia interessar à comunidade local, o facto da Maria andar a pregar botões nos atafais do pressuposto burro Henrique? É que há com cada uma? Naturalmente que ‘pregar botões em atafais “seria a profissão de Maria. Pregar os botões em atafais…. Deveria de ser dessa mesma tarefa, que ela conseguia ganhar o seu pãozinho. E se calhar até foi assim que ela conseguiu comprar todo o seu enxoval. E depois? Que mal é que há em a pessoa ser considerada uma boa profissional?  E ainda, muito respeitada e respeitadora por toda a sua clientela? Maria até pode ser vista aqui como o grande exemplo daquilo que se deve de ser. Mas os versos?  Esses… devem de ter prosseguido, mas registados... só ficaram estes:

“A Rosa vem lá de dentro
Mas tem muito mau encontro
E ela grita da janela
-Oh Marquita, que o meu filho já está morto.”

Exige-se aqui uma explicação. Se calhar só a possível, atendendo às circunstâncias. O filho deveria de ser o Francisco. E quem gritava assim de agonia, era a sua própria mãe. Supostamente a própria sogra de Maria. E a mesma vira algo que muito a perturbara. E que quase a levara desta para melhor. Mas apesar de tudo... conseguira resistir, só que vinha era muito incomodada. Pelo menos era o que mais parecia. Mas também, outra coisa não seria de esperar, afinal ela gritava que lhe "morrera o filho"… Mas morrera-lhe de quê? Sofrera ele de algum acidente? Coitado, logo ele que (pressupostamente) se acabara de casar. Mas parece que a coisa ficou esclarecida (e finalmente) nesta última quadra a que temos acesso:

“Mas nisto vem a Rebeca:
-Que estás para aí a chorar,
Que o meu Manel foi o mesmo
Quando foi para m’os tirar.”

Pois foi. Parece que por fim fomos esclarecidos. E também… já não se aguentava mais com tanto suspense. Ao que parece, a mulher chorosa havia ido ter com o filho ao quarto. Mas que raio de ideia? E que inconveniência! Logo ao quarto que lhes servira às núpcias! E ao que parecera, ela fora dar com o seu querido filho sem sentidos. Sem dar qualquer acordo de si. Coitadinho. Mas estaria lá também a nora? E o seu filho? Estaria só desmaiado, ele que até era alguém muito débil e adoentado. Pressupõe-se desta forma que ele não aguentara a emoção. Mas estaria ele mesmo morto? É que segundo a quadra aqui postada, aquela ocorrência já havia conhecido repetição naquela mesma localidade. Se calhar ali, tal ocorrência fazia mesmo parte do folclore local. Fora mesmo a Rebeca (que não sabemos qual a proveniência ou ligação às outras personagens), quem nos esclareceu quando responde: “que com ela também já se havia passado o mesmo”. Ao que parece o seu “home”, também havia tido um faniquito na altura da sua desfloração.
Por isso e consequentemente, nada haverá que nos preocupe. E é bom pensar que o nosso herói de hoje, o Francisco também deva ter melhorado da sua condição física. Ter conhecido o recobro, quem sabe se recorrendo a alguma canjinha de galinha caseira, ou mesmo a sopas de vinho. Pressupõe-se só, pois de concreto nada mais se sabe. Não se conhecem outros desenvolvimentos àquela poesia livre, inspirada vai já para tantos anos. E é bom acreditar que com a continuação da actividade, aqueles pobres e maldispostos senhores, tenham melhorado efectivamente a sua condição.
Tratam-se assim de versos inspirados numa realidade de outrora. E absolutamente perversos. E são os versos expostos os que constam numa folha a desfazer-se, corroída literalmente devido aos efeitos nefastos, de uma passagem irreversível do tempo.
Mas e para concluir, uma coisa ressalta à vista. Fala-se nos tempos de hoje, na perversidade exposta e nas faltas de vergonha que são mais do que evidentes, dizem muitos. Contudo no passado, a coisa também não parecia ser melhor. Afinal, pessoas maldosas e indiscretas, sempre existiram. E em toda a parte. E é mesmo previsível que a história dos versos tenha acompanhado (e para sempre), toda a existência daquele casal. E depois, é ainda plausível, que aquela “jornalista”, sem carreira profissional efectiva, tenha continuado a sua função, sempre ligada à “imprensa escrita”. Que depois de editada, se colava às portas das capelas. Um pouco à semelhança do que séculos atrás, fizera Lutero com a publicação das suas noventa e cinco teses. Pois meus amigos: e se calhar… já não deve de haver mesmo, muita coisa para inventar.
Sugestão de leitura para esta semana: “O Feitiço da Lua” de Sarah Addison Allen.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


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