Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sábado, 5 de outubro de 2013

Esta palavra saudade...


Jacinta já tinha sessenta e tal anos, quando ficou viúva de José. E o casamento deles, perante toda a comunidade, fora um casamento convencional. Porém, fora um casamento que não deixara descendência. Como tantos outros, também.
Quando José se casara, já tinha trinta e tal anos. A noiva era mais velha que ele, quatro anos. Nada de transcendental, nem digno de particular nota. Contudo José não havia casado com o grande amor da sua vida. Jacinta fora só, a mulher que a sogra mais sonhara para ser sua nora. E como aquela sogra era apaixonada, pela que viria assim a entrar-lhe para a família?!
O casamento seguiu. O casal conviveu. E passados alguns anos, o José começou a beber de forma descontrolada. Seria para esquecer as agruras de sua vida? É possível que assim fosse. É que aquela por quem ele tanto suspirara e quisera, encontrara finalmente abrigo nos braços de um outro senhor.
Com tanta bebida e com o passar dos anos, o José ganhou uma terrível doença hepática. Doença que o levaria "desta para melhor", quando José ainda mal tinha chegado às sessenta Primaveras.
Com a morte do marido, a Jacinta ficara absolutamente inconsolável. De nada valeram as trinta mil promessas que ela dirigira ao Divino de forma a que Aquele lhe salvasse o cônjuge. Das quais fizeram parte vinte e duas mil idas a Fátima e duas ou três romarias à Santinha da Ladeira. Que depois e passado algum tempo, acabaria por perder alguma credibilidade. Só faltou mesmo, foi uma ida à Casa do Dr. Sousa Martins. Não houve tempo para tal, porque entretanto o José falecera. 
Agora viúva, Jacinta ficaria para todo o sempre absolutamente inconsolável. Na hora do inicio da sua viúves, Jacinta escolhera a "farda" que a acompanharia para todo o sempre. Farda que tinha a cor preta. E para si, ela jamais permitiria um qualquer deslize. E se uma peça de roupa de cor preta, tivesse uma única lantejoula ou um outro objecto de brilhasse? Pois tal roupa era imediatamente recusada, por se tratar de roupa indecente, atendendo às circunstâncias. É que se alguma coisa brilhasse, o luto não seria efectivo.
Para além disso, envergaria também (e para todo o sempre), um lenço preto na cabeça, traçado de forma particular. Tipo coifa. Que a tornaria parecida à figura imponente do Infante D. Henrique. Quando este pomposamente, "perdia" suas vistas na observação das bravas marés que banhavam Sagres. E quando não havia assim... muito vento, pois se assim acontecesse, o mais natural seria o "lenço" voar.
E Jacinta andaria assim trajada para o resto da sua vida. Quer chovesse, quer fizesse Sol. E também não era nenhuma qualquer ventania que a atemorizava. Jacinta era uma mulher valente. Inconsolável é certo, mas valente. E de fortes e inabaláveis convicções.
E depois durante uns tempos a seguir à sua  perca, ela não falaria com ninguém que não pertencesse exclusivamente à família. E se alguém na estrada a visse e saudasse, Jacinta não lhe respondia. Virava-lhe as costas, e parada deixava passar aquele "intruso". E não valia a pena insistir. Dali não sairia qualquer palavra ou simples saudação gestual.
As pessoas da família, visitavam-na com alguma frequência. E nas chamadas conversas de circuntância, onde o mote fosse por exemplo o estado do tempo, ou clima vivênciado na aldeias, a Jacinta só respondia:
"Ai o meu querido José! A falta que me faz o meu José!" E pela cara, rolavam-lhe grossos fios de lágrimas. Não adiantava insistir.
Passado mais algum tempo, e quando se julgava que a crise de sentimento já pudesse ter serenado, lá se tentava falar de política interna, numa inconclusiva temática, que versasse por exemplo as dúbias funções do Senhor Presidente da Junta. E do facto do mesmo ter sido reeleito por fraca margem de votos. E quem é que seriam os três comunistas da aldeia? A Jacinta arfava, cofiava o seu lenço/touca e lá bramia de novo:
"Ai o meu querido José, que não votou! Ele que gostava tanto de ir votar e depois ir botar discurso para a taberna da Amélia! A falta que o meu amado José me faz!"
Invariavelmente... a coisa terminava sempre assim. Dessem-se as voltas que se dessem. Buscasse-se o assunto que fosse. A lamuria era constante e inamovível. E a Jacinta... sofria.
Como as queixas eram constantes, os familiares acabaram por se convencer que o José tinha sido efectivamente alguém muito importante na vida de Jacinta. E pessoa absolutamente insubstituível na vida dela. Aquela viúva estava assim num grande sofrimento. Com saudades de uma excelente e idílica vida que tivera na companhia daquele seu magnifico (mas infelizmente já falecido) marido.
E lá continuava tudo a seguir o rumo espectável. A família e os amigos a tentarem alegrá-la. Enquanto Jacinta falava somente do "seu falecido". Lembrava-o consecutivamente. E sem falhas de atenção. Pelo que a comunidade concluía em massa: "José, tu foste um herói nacional. Como é que foi possível deixares assim tantas saudades?" E a ideia de dar o nome de José a uma qualquer rua, começou a tomar forma.
Mas o tempo lá ia passando, na sua natural voracidade. E um dia Jacinta teve que ir saber qual era o estado da "sua periquita". É que é sempre necessário fazer exames. Poder-se assim prevenir muita coisa... Pelo que lá foi ela ao ginecologista.
No consultório, ela deu de caras com um resoluto clínico, que depois da conversa da praxe, lhe solicitou que tirasse as cuecas. "Ora essa? Não seria possível fazer exames só com a ajuda das máquinas. E vestida. Sem que o médico tivesse que ver, tocar e meter o nariz?", pensava muito desoladamente a Jacinta. 
Depois de desnudada, o medico pediu-lhe que se deitasse na marquesa e que abrisse as pernocas. "Mau mau", pensava, "a coisa está a complicar-se". E o médico preparava-se assim para observar a "recatadíssima prima"  dela, que morava lá mais para baixo. Assim a frio e sem quaisquer preliminares. Mas tinha que ser, não é? E como o que tem que ser... Pelo que mostrando em simultâneo algum pudor, a Jacinta lá abriu a perninha. O doutor repetiu ali uma série de gestos iguais a outros tantos executados e repetidos no meio das pernas das outras suas clientes. Ele põe luvas, pega em espátulas e outros instrumentos de tortura e depois desata para ali a escarafunchar. Mete pau, usa gaze, tira uma amostra de uma qualquer coisa para análise... E no pouco da cara, que Jacinta conseguia ver do seu médico, ela vislumbrava... muita perplexidade. Que raios!
Jacinta continuava ali e naquela posição. Revelando muita paciência e também muita abnegação. E o médico lá continua a mexer a a investigar. E a sua cara ia-se transformando num enorme ponto de interrogação. Mas ele não desistia. E lá continuava ele, naquela sua muito intrigante pesquisa.
Com o passar dos minutos, Jacinta acabaria por estranhar sobre o enormíssimo interesse que estava a ter para aquele médico, a sua já envelhecida "periquita". Então ele não estava ali sempre a ver do mesmo? Qual é que era ali a admiração? Estaria ele a ver algo de preocupante. Assim... logo e à queima roupa?
No fim e já não aguentando mais, o médico acabaria por lhe perguntar: "Mas a Senhora não é viúva?" "Sim" respondeu Jacinta. "Sou viúva do meu querido José. Logo do meu José que me faz tanta falta"  E a lamuria lá continuou pelos trilhos espectáveis da ocasião. E o médico respondeu-lhe: "Mas a senhora... é virgem! O seu hímen está intacto, como desde o dia em que nasceu!?"
Foi então que Jacinta já não quis ouvir mais. E também não contou mais nada. E de cuecas na mão, ela sairia esbaforida daquele consultório do demo.
Há quem afirme, há quem acredite, que a coisa com a falta de uso volta a ser o que era. Que volta tudo ao mesmo sitio. Mas será mesmo assim? E depois há uma ou outra pergunta que se formaliza assim e imediatamente nas nossas mentes: Porque é que a Jacinta sentia assim tantas saudades do seu falecido José? E o José? Ele fazia-lhe assim tanta falta... para quê?
Sugestão de leitura para esta semana: "A Virgem e o Cigano" de D. H. Lawrence.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


Nota: A querida senhora que figura na foto... não é a Jacinta. Como é evidente.

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