A Biblioteca situava-se nos
pequenos arrabaldes da grande capital. A frequência era a melhor. Gente de
todos os gostos e proveniências acedia à mesma em busca do melhor livro. Ou
então do melhor Cd ou DVD. E poucas eram as que dali saiam revoltadas, pois se
o livro que queriam não existia ali, na certa que existiria outro susceptível
de causar similar interesse. E além disso técnicos prezavam muito por aqueles
seus postos de trabalho. E por mais que ouvissem nas notícias, que iriam sofrer
o quinquagésimo terceiro corte nos seus magros salários, nem por isso deixavam
de sorrir à clientela. Nem mesmo à D. Deodata, que ia para lá estrebuchar,
dizendo que se lembrava muito bem do dia em que a Biblioteca estava aberta ao
Domingo. Agora é que o pessoal não queria fazer nenhum! Ela que dizia ter tudo
escrito. Dados que lhe serviriam para memória futura. É que a “ela ninguém a
enganava”. Eram essas as palavras expressadas pela própria. Nem mesmo “aqueles
pindéricos”, que só para a enervarem, é que só podia ser mesmo isso, reforçavam
a ideia de que ao Domingo, e até àquela data, eles poderiam ter ido à missa. Ao
Centro Comercial ou até à praia. Agora para a Biblioteca, não. Eles juravam que
jamais haviam trabalhado ali no Dia Sagrado e semanal do Senhor.
Mas a vida lá continuava. Para lá
ia também lá o Sr. António em busca de música de fusão. Que era tão do seu
agrado e da sua santinha. Ia lá a D. Hermengarda em busca do último sucesso do
Nicholas Sparks. E à falta do mesmo, por estar emprestado, ela contentava-se
com a Sveva dos Barões. Pois ao que parece, as Armas ficaram de fora.
Ia lá também o magano do Sr.
Asdrúbal. Sempre com desejos de ler o Correio da Manhã, especialmente as suas
páginas centrais, que como todos nós sabemos são aquelas que tem as informações
mais detalhadas e susceptíveis de causar interesses variados. E de vezes a
tempos, lá a D. Alice, que sem ser a mais assídua, só ia lá quando se dispunha
a isso. E aquela D. Alice não passava mesmo despercebida. Sempre de sorriso no
rosto e de palavra fácil. Da sua prole, já se lhe conheciam todos os elementos.
E aquele pessoal que ali trabalhava, jamais os havia visto. Mas de tanto se
falar deles… Aqueles Técnicos de Biblioteca só conheciam mesmo era aquela sua
líder. A D. Alice. E para sempre, ficara na memória daquele pessoal, o dia em
que lhe nasceu o primeiro neto. E o dia em que ela soube que o seu marido havia
arranjado uma “galdéria” 33 anos mais nova. Ah pois foi! A maçada que aquilo
não foi! E os “lençóis” de conversa, que aquilo não fez render? Alice trabalhava
ainda numa grande empresa. A secretariar. Fora aliás essa sempre a sua
profissão.
Mas Alice não esmoreceu. E depois
da pancada… ela arribou novamente para a vida. Afinal o que é que valia estar
sempre a pensar num homem adúltero. Aquele que a havia levado ao altar. Que
falso que ele se revelara. Que depois… tão pouco quisera saber dela. Nem da
prole. E ligar-se depois (sem pesos na consciência) a uma “matulona”, cruzes!
Quem é que o havia de dizer! Ele que andava sempre atrelado a ela. E de bigode ensebado.
E a vida de Alice lá prosseguia,
com ida à Biblioteca Pública e tudo, isto é, quando lhe aprouvesse mais.
Só que durante largos meses a
Alice nunca mais lá aparecera. E a sua falta mais a sua conversa, fizeram-se
notar. O que é que havia acontecido? Mas o tempo lá se seguia na forma
espectável.
Só que em certo dia, e
finalmente, sem que se fizesse anunciar preventivamente a D. Alice lá apareceu.
E à sua espera, na recepção estava também a Bibliotecária daquele espaço. Não que
lhe fosse conferida a realização de uma cerimónia especial. Não, senhores!
Simplesmente aquela Bibliotecária adorava passarinhar por aquele espaço a fim
de se aperceber do que por ali se passava. E a D. Alice, depois da conversa da
praxe, lá referiu:
“Olhe. Eu tenho o meu cartão de
leitora fora de prazo, veja lá. O que é que é necessário para o actualizar?”
Resposta pronta e imediata da
técnica: “Pois é necessário o Cartão de Cidadão e um comprovativo de morada,
que poderá ser uma conta de água, luz, telefone, tv cabo…”
“Oh que maçada”, respondeu a D.
Alice. “Só tenho mesmo comigo, é o Cartão de Cidadão. E logo eu que costumo
andar sempre com tanta correspondência. É, que só me mandam cartas para pagar!”
Pois… Era chato. Mas era assim mesmo
o procedimento habitual. A D. Alice teria que voltar ali e levar com ela toda a
documentação necessária. Que afinal não era assim tanta. Mas ela não se abateu.
Ela era lá mulher para isso! Pelo que, e no meio da voragem dos seus
pensamentos, ela verbalizou:
“É que sabe uma coisa? Eu venho
aqui cada vez menos…”
E aquela Bibliotecária,
avaliando-lhe a pele bem tratada, mas algo enrugada, assim como o seu belo e
farto cabelo prateado, tentou adivinhar-lhe uma soberba e merecidíssima
reforma. Naturalmente que Alice decidira por fim aos seus dias de trabalhos
forçados e com horas certas. E isto ao fim de muitos anos de descontos. E após
a teorização de muitos desejos há muito sonhados. Quem sabe se não lhe chegara
a hora, de ter mais tempo para si? Para as suas leituras? Para a jardinagem? E
quem sabe se não arranjara também ela, um mancebo enxuto? Estaria a D. Alice
temporariamente refastelada numa bela casa de campo? Longe da poluição e do
stresse?
E a Bibliotecária lá continuou.
Pensando também na hipótese cada vez mais remota, de que, quem sabe um dia,
aquele descanso prometido, não a contemplaria também a ela? É que sonhar é tão
fácil...
Só que esses seus doces
pensamentos foram interrompidos intempestivamente. É que a D. Alice, sempre de
sorriso no rosto, e assegurando igualmente o seu estado de (cada vez menor)
graça de reformada, a informou:
“É que eu agora costumo ir, é
para a Biblioteca da Amadora”.
Ah pois era! Aquela senhora não
estava placidamente a viver aquela doce mas enérgica época sénior. Em ambientes
pacatos e recônditos de uma província cada vez mais desabitada. Não! O que
aquela senhora fazia mesmo, era ir à concorrência.
Sugestão de leitura para esta
semana: “Tempos de Esperança” de Pedro Beltrão.
DIVIRTAMSEMAZÉ!

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