A mulher era logista. E estava
irrepreensivelmente vestida. Estava também muito maquilhada, numa tela de cores
que faria corar de inveja, o mais exuberante… dos pavões. E estava a entrar
alegremente para um veículo, onde ao volante estava uma sua amiga, (é só
pressuposto que fosse essa a ligação), igualmente vistosa, mas menos visível.
Muito menos mesmo. E as duas teriam sensivelmente a mesma idade. Eu aposto na
casa dos… cinquenta e cinco anos.
Um senhor, pouco vistoso,
abeirando já a casa dos sessenta, aproximou-se timidamente da janela aberta do
veículo e questionou-a:
“A loja está fechada?”
Respondeu a inquirida “pavoa”,
com muita autoridade, mas pouca simpatia:
“É claro que está. E quem é que
me substitui?”
O ambiente azedou, mas a resposta
pronta e segura do senhor não se fez tardar:
“Não é a mim que me compete dizer
sobre quem a substitui. Eu só lhe fiz uma simples pergunta. Fiz-lhe somente uma
simples pergunta, compreende…?”
Mas a inquirida dá em continuar:
“Ai que o senhor é muito
complicado! E se o senhor é assim lá em casa, só posso concluir que a sua
mulher deve ser uma mártir.” Será uma grande e verdadeira sofredora nas suas
mãos.”
O ambiente continuou a aquecer, e
sem demora vem a resposta indignada do homem:
“Olha-me esta! O que a senhora é,
é uma grande parva. É parva e pronto! E até lhe digo mais: a senhora é parva…
todos os dias!”
A seguir a todo entornar de
caldo, a conversa confundiu-se. Já que os dois começaram a falar ao mesmo
tempo, se conseguirem porque não queriam, ouvir o que a outra parte tinha a
dizer. E movimentavam e em simultâneo, quatro braços aguerridos pelo ar.
Chamando-se tudo, um ao outro, menos a afirmação de que os dois eram
efectivamente “duas boas e honradas pessoas.”
Seguem-se algumas notas, muito
singelas e despretensiosas: É mais do que certo de que as pessoas estão a
viver um mau momento. Eu diria mesmo: estão a viver um péssimo momento. O
senhor que iniciou a conversa, fê-lo sem más intenções, como é evidente. Mas
não teria ele visto que a loja estava de facto… fechada? É que a loja tem uma
porta, eu juro. E estava fechada. É que eu própria olhei para lá, não fosse
dar-se o caso… Contudo eu também acho que a senhora foi muito precipitada, ou
não foi? Ou então ela julgou estar a falar com alguém pertencente a um
sindicato qualquer. É que vendo bem as coisas, não seria propriamente o simples
cliente, a quem cabia providenciar pela substituição da profissional, nas
falhas ou folgas daquela? É ou não é? É que tal, nunca foi previsto no Código
de Conduta do Cliente. Que como cliente tem como única espectativa a de ser
efectivamente… bem servido.
Mas a senhora contra-atacou. E veio
mais uma vez com uma célebre e muito usada precipitação: “o senhor é
demasiadamente complicado ”, palavras da mesma. E não me parece que à pergunta:
“A loja está fechada”, e estando a mesma efectivamente de portas fechadas, se
consiga saber com rigor, qual o grau de complexidade de um indivíduo. Assim
como provas seguras sobre o seu estado anímico global. E não contente o
bastante, a mesma continuou com a sua tradicional e costumada precipitação, já
que afirmou: “Se trata assim a sua mulher, ela é uma mártir”. Mas saberá a
logista sobre se o homem é casado? É que o cliente até pode ser solteiro,
separado de facto, ou em vias disso? Ou até pode ser alguém viúvo. E quem sabe
se não era mesmo casado… com outro homem. Que é já algo cada vez mais comum cá
neste burgo? Foi no governo de Sócrates, que se permitiu que as pessoas do
mesmo sexo pudessem casar umas com as outras. Fosse esse o desejo do pretendente
ao trono da sacramental instituição que é o matrimónio.
Mas e ultrapassando esta dúvida,
pois não nos resta outra alternativa senão ficar com a mesma, não me parece
que, e partindo do pressuposto de que o homem fosse casado com quem quer que
seja, (até mesmo com o seu próprio periquito), andasse lá por casa a
dizer:
“Amor, paixão da minha vida! Tu
diz-me lá uma coisa: a loja está fechada?”
“Mas qual loja”, responderia o
cônjuge. E num instante perspectivaria a possibilidade de internar o seu
respectivo num… manicómio. E a que é que se pode dar o nome de loja num casamento?
Eu já ouvi falar em muitos nomes, agora loja? E vendia o quê? A retalho? São
dúvidas pertinentes que podem surgir em cabeças de pessoas. Preferencialmente naquelas cabeças que não têm muito
mais em que pensar.
Depois veio a última frase do
diálogo, que não abonou muito a favor da inteligência. Já que o senhor
precipitado também, concluiria:
“A senhora é parva! E é parva
todos os dias.”
Não me parece que existisse previamente, assim
tanta intimidade entre eles. A conversa não leva a essa conclusão. Então o que
é que o levaria a afirmar de forma tão peremptória que “aquela senhora era
parva”? E não obstante isso, ele ainda iria mais longe ao afirmar que aquela mulher era “parva todos os dias!”
É que aquela senhora se calhar, até
teve uma atitude parva, sim isso é mais do que evidente. Mas foi uma atitude
possivelmente circunscrita a um tempo e a um espaço específico. Noutras alturas
a senhora poderia não ser assim... tão parva, não é verdade? Poder fazer grave da sua
parvoíce natural? Era ou não era esse, um direito que a assistia? Mas o homem
qual quê? E decidiu ali prontamente generalizar.
Resumindo e concluindo:
Aparentemente a situação foi inócua. Livre de maiores consequências. Afinal já
se passou faz algum tempo. Contudo, poderia ser dali que se poderia ter iniciado a
Terceira Guerra Mundial. E isto se levarmos em linha de conta a celebre teoria, do doce
sacolejar do voo elegante das pacíficas borboletas, que num lado do mundo...
E depois senhores? O que é que
nós ganhamos em andarmos assim a magoar-nos uns aos outros? Vitimas inocentes que
somos, numa existência actual terrível, protagonizada por outros, que não nós,
simples e singelos mortais? É que sozinhos, nós só conseguimos piar. E com
muita debilidade.
E depois disso amigos, há sempre
alguém que agradece a ocorrência destas nossas patéticas quezílias como a que
hoje aqui foi exposta. É que as mesmas só conseguem distrair-nos… para aquilo que é fundamental.
Sugestão de leitura para esta
semana: “A Guerra dos Mascates” de Miguel Real.
DIVIRTAMSEMAZÉ!
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