Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

E a necessidade que aguça o engenho?



Certo dia, ia eu contente e saltitante, a pisar todas as folhas de árvore que encontrava, em direcção ao meu local de trabalho, quando mesmo à entrada do mesmo vi uma senhora sentada no chão, com uma criança muito pequena ao colo. Estava muito frio e eu tive pena delas. Não lhes dei emprego, pois não tenho essa possibilidade, nem um suplemento vitalício, pois não possuo riqueza pessoal. E na tentativa de lhe minorar um pouco o seu desconforto expresso, ofertei-lhe uma moeda de dois euros. E quando a senhora viu a moeda a brilhar, levantou-se muito rapidamente e num ápice desatou a gritar. Gritava numa língua que eu não compreendia, mas que atribuí (sabe-se lá porquê), a um qualquer país do Leste da Europa.
Em dois tempos eu tinha a ladear-me, para aí outras cinquenta senhoras, cada uma carregando ao colo uma criança pequena. E pediram-me todas, pela alma dos que eu lá tenho (eventualmente), mais moedas de idêntica quantia. Eu, claro está disse que não podia, e fugi dali a sete pés, deixando cem pessoas, sem a sua esmola pedinchada.
Fiquei como é óbvio, admirada com todo aquele poder organizativo, que só pode fazer inveja, a um qualquer movimento de luta organizada. Ali não havia lugar à falta de motivação. Nem ao desencanto natural com a profissão que se trilha vai para tantos anos, e preferencialmente.
Mais tarde seria informada com detalhe sobre aquela verdadeira e muito eficiente capacidade organizativa. No que se pode designar facilmente como um Sistema Intrincado de Pedintes S.A.
E até se alugam crianças para o efeito. Discutem-se os locais “propícios ao ataque”. E deve de também haver uma legislação qualquer sobre a indumentária mais apropriada para o efeito pretendido. Eu ali fiquei advertida. E acabei por concordar com uma frase tantas vezes repetida por uma colaboradora minha, infelizmente já falecida quando me dizia: “que era o seu bom coração, o que fazia o seu marido cabrão”. Saberia ela de experiência própria?
É que vendo bem as coisas, há motivos para desconfiar daquele que se dedica a tempo inteiro à mendicidade. Eu que ouvi um dia destes um comerciante contar-me o seguinte:
Durante meses, apareceu lá no seu estabelecimento comercial, um pedinte muito convincente. De fatos rotos e encardidos e de voz débil e suplicante. E ele lá ia pedindo, não dinheiro, mas qualquer coisinha que lhe aliviasse a fome que tanto o fazia padecer. O comerciante apiedava-se dele, como é óbvio. E que diferença poderia fazer, distribuir um pouco do que felizmente tinha, com aqueles que eram menos abonados pela sorte? Ele até se sentia muito confortado em praticar o bem com os mais necessitados. Pelo que num dia, o logista podia oferecer-lhe um quilito de batatas. Num outro dia, ofertava-lhe uma quarta de azeite. E ainda noutro duas ou três peças de fruta. As ofertas não provocariam nenhuma congestão no homem, como é evidente. Mas se todos dessem um pouco... E a tudo o pedinte agradecia. E tudo levava, agradecendo ainda mais, e até à exaustão. Ou até o comerciante lhe dizer que não tinha nada que lhe agradecer, e que viesse sempre, pois alguma coisa se haveria sempre de arranjar. E o mendigo lá continuava a ir, efectuando sempre as mesmas acções.
Mas tudo mudou no dia em que o comerciante encontrou o supracitado pedinte, a entrar num ultra moderno Mercedes. E para o lugar de condutor. Ah pois foi!
Mas há pouco tempo, fui eu mesma que me surpreendi. Quando a minha confiança na humanidade já se havia começado a virar diametralmente. É que estava eu a andar alegremente pela rua (apesar da crise e do facto de estarmos no tempo da chuva. Fica aqui justificado o nome deste singelo blogue), quando me deparo com uma excelsa senhora. Toda ela ia de preto vestida, mas com muito elegância e requinte. Na mão levava também uma elegante malinha. E na camisa ela reunia um muito considerável conjunto de lantejoulas negras. Para além de todos esses artefactos, ela exibia ainda e orgulhosamente, um conjunto considerável de jóias, que até me pareceram ser verdadeiras. E pela rua, ela lá ia indo, sempre com um certo ar comprometido. Diria mesmo que ia algo afectada. Eu na minha ingenuidade natural achei que a mesma poderia estar perdida. Como aquelas pessoas que infelizmente padecem de Alzeimer. E foi com solicitude eu eu me abeirei da mesma, no simples intuito de a poder ajudar. Andei pois para ela. Ela andou também na minha direcção. Pensei que ela me iria perguntar alguma coisa. Só que, da boca da senhora, saiu somente uma frase lamentosa:
“Por obséquio, a senhora poderia dar-me uma moedinha?”
Fiquei pedrada. Então aquela seria a imagem de uma pedinte ultra-moderna, mas ainda muito pouco convincente. É que não me parece que a mesma convença assim muita gente, sobre as suas manifestas necessidades. Andar assim vestida... Pois que alguém lho diga, se ela ainda não o compreendeu.
E mais, fiquei convencida que naquela altura, a verdadeira pedinte… era mesmo eu.
Sugestão de leitura para esta semana: “A Bíblia dos Pobres” de Agustina Bessa-Luís. 
DIVIRTAMSEMAZÉ!


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