Diz a tradição que as mulheres são seres muito mais complexos do que os homens. Que nunca sabem muito bem o que querem. E que quando falam sobre alguma coisa, falam sobre a mesma, mas assumem também o seu contrário. Eu, espécie do género feminino, vai já para quatro décadas, acho que há muito exagero naquilo que se considera real. E se há mulheres complicadas, também as há simples e puras como a àgua cristalina, que desce tranquila do alto da serra. Seres que são fiéis, leais, inteligentes, amigas, amantes e sobretudo… simples. E os homens. Serão eles assim tão simples e directos? Saberão eles sempre o que querem sem muitas hesitações? Tomemos então como exemplo, o belíssimo anuncio que se segue:
“(Preciso) Vou divorciar-me de uma mulher má e prigoza” O anúncio começa muito bem. E da forma mais resoluta. O senhor que necessita é afirmativo quanto baste. Como nas receitas de culinária. É que ele “preciza” e está falado. E escreve também sempre em maiúsculas. Assumindo na certa, um tom de voz que é audível do lado de cá do Tejo. Mas também… do lado de lá. E repare-se: aparentemente este homem não tem dúvidas. E assume o que quer de forma inequívoca. É pelo menos aquilo que parece. Contudo….Estará ele já divorciado? É que pela conversa parece-me bem que não. Não seria então mais prudente, ele esperar pela cerimónia do desquite propriamente dita?
E depois, se a mulher (a
renegada) for efectivamente perigosa? Não seria preferível ele, não assumir assim
(e diante de toda a gente), as suas verdadeiras pretensões quanto ao futuro? E
mais ainda: não estará ele, claramente a catalogar, alguém que não tem qualquer
hipótese de se defender? E de nos fazer crer, sem sombra de dúvidas, sobre aquilo
que efectivamente vale? Mas o homem… esse arrogantemente… lá continuou a
preceito:
“Quero viver o resto da minha vida em paz.” Pois, e quem é que não
quer, amiguinho? Tal situação deveria ser tida inclusivamente como condição sine qua no para toda a população
mundial. Menos talvez para os que são guerrilheiros de ofício. Ou então para
todos aqueles e aquelas que são zaragateiros/as convictos/as. Mas ele? Lá prosseguiu:
“Porisso procuro uma mulher que seija. Amerosa. Carinhosa. Bondosa.
Meiga. Compreenciva.” Está bem, está! Não é nada meigo a pedir. E além disso,
vamos lá ver uma coisa: Não serão estas, condições excessivas? É que tudo o que
é demais… é moléstia? E não será também melhor considerar a parte da:
trabalhadora, inteligente, limpinha, sem dívidas excessivas e bicos de
papagaio? E que tal que goste de cozinhar? Que goste da farra? Que goste de se
rir? Que não tenha mau hálito? E já agora, que não dê assim muitos erros
ortográficos? Agora ser só: bondosa, “amerosa”, meiga, carinhosa e “compreensiva”?
E não serão todas estas características um bocado parecidas umas com as outras?
E ao fim de algum tempo de “combíbio” a coisa corra o risco de se tornar claramente
aborrecida? Trivial? Destituída de toda e qualquer empolgação? Mas o “menino” esse…
aparentemente não quer saber disso para nada. Pelo que continuou:
“E que queira ser muito feliz.” É justo. E vai mesmo ao encontro do
que este homem decidido também deseja para si. Não se preveem desta maneira
rebeldias vãs. Nem objectivos díspares. E quem é que não quer ser “muito feliz”?
Talvez só as que são de natureza masoquista. E essas por favor, não lhe telefonem.
Não o façam perder tempo desnecessariamente. Logo a este senhor, aparentemente
tão resoluto. E ele prossegue:
“sou homem que estou vem na vida”. Pois bem, caras e eventuais
candidatas, acho que é muito bom, terem o conhecimento prévio dessa situação. Ou
não é? O cavalheiro está “vem” de vida. Mas, e o que é que isto quererá
exactamente dizer. Terá ele dinheiro a magotes? Vontade de viver? Boa saúde? Erecções
frequentes? Vontade constante de se rir? Ou tudo isso em conjunto? Pois, na
dúvida, aceitem o meu conselho: se eu fosse a vocês, desconfiava. É só cá uma
cisma minha. É que se costuma dizer, que quando a esmola é muita, o santo fica para
o desconfiado. Este senhor podia e devia ser muitíssimo mais objectivo.
E depois existe sempre a outra? A
que ele vai deixar? Ela será má porquê? E perigosa em que sentido? É que tal não
se entende. Ter tido ela a possibilidade de privar com um homem tão maravilhoso…
e ser má? Perigosa? Será ela alguma mulher bombista? Ou alguém com problemas crónicos
de flatulência? Andará ela armada com algum maçarico? Pois… Mas o homem não
desiste e continua:
“Se está em entreçada tem de ter 40 a 50 anos e ser bem apresentável.” Ai
o magano! É que ele não é mesmo nada pedinchão. É que para além de querer uma
“laide” mansa e contente, quase quase a roçar a paralisia, ainda a quer,
relativamente nova e também bem “apresentável”. E o desavergonhado? Quantos
anos é que ele terá? E será ele também algum Brad Pitt?
E depois, se uma senhora for muito
meiguinha, compreenda todas as línguas e dialectos e tiver 51 anos? Ou 39? Será
a mesma recusada por não se enquadrar inteiramente dentro dos pré-requisitos? Terá
isto o mesmo procedimento que uma candidatura para um emprego qualquer? Medo, amiguinhas!
Tenham pois muito medo! É que este senhor “vem” de vida (como ele próprio se
define) poderá ser um daqueles que quer tudo, mas que depois… perde tudo
também. Seja somente um verbo-de-encher. Mas continua:
“Não atendo privados”. E faz muito bem porque eu também não atendo.
É que os privados são quase sempre de pessoas que nos querem vender coisas. Ou de
quem simplesmente chagar-nos a cabeça. Com muitos inquéritos e perguntas parvas.
Ou então poderá ser ainda de uma mulher “má e prigoza”. E brava e “prigoza”… já
bem lhe bastou a outra. A “maçariqueira”. E ele finaliza:
“Ligue só se estiver entreçada para nos encontrarmos e conversarmos.” Isto
parece-me razoável, não fosse dar-se o caso da pessoa poder ser acometida por muitas
dúvidas. E não será normal? Ainda mais nesta situação. Afinal poderá tratar-se
de uma futura… compagne de route. E
antes que a mesma possa aceitá-lo, de ser feliz para sempre. E ficar “vem” de
vida, tenha que tirar uma ou outra dúvida com uma chamada telefónica. E isto tendo
sempre o número identificado. Como é aliás requerido. É que não será nada fácil,
recusar um senhor como este: “vem” de vida. Contudo, este poderá ser alguém que
não aprecie muito por aí além, certa característica presente numa mulher. Imagine-se
por exemplo que a mesma só seja meiguinha nos dias ímpares. E que não compreenda
lá muito bem todas as coisas, nos dias que antecedem… a vinda da menstruação. É
que os dois até podem conversar à vontade. Presencialmente. Contudo à vontade
não significa a mesma coisa que… à vontadinha. E se ficarem à partida, esclarecidos
alguns pormenores, (mesmo ao telefone) a coisa poderá ficar (ou não) muito mais
sedimentada.
E vá lá… não se pode crucificar ninguém,
só porque tem uma ou outra dúvida. Mesmo que seja, antes de se escolher este excelso
senhor que tão galhofeiramente diz, estar “vem” de vida.
E agora aqui muito entre nós: este
requerente parece-me algo complexo. Até um pouco caprichoso e vulnerável. E é
um homem. Que por definição deverá ser simples e descomplexado. Agora tomemos
em consideração, este singelo anúncio de uma senhora:
Então amigos? Cai ou não cai por terra, tudo aquilo em que se acreditava, faz tanto tempo? Poderá ou não ser a mulher, um ser prático e muito decidido? É que para esta senhora, o “seu” homem até poderá ser um verdadeiro estafermo. Ser bravo e rude e cheirar a cavalo. E ter para cima de cento e trinta anos. Terá é que ter… um tractor atraente. Ora bem, nada mais fácil.
Sugestão de leitura para esta
semana: “Uma Aventura Inquietante” de José Rodrigues Miguéis.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


Sem comentários:
Enviar um comentário