Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Rei se nomeia, quem não teme.




A criança nasce. Hoje em dia já se sabe qual é o seu sexo faz muito tempo. Compram-se com muita antecipação as roupas mais apropriadas, e da cor mais adequada. Se bem que isto das cores que são para menino e das outras que são para menina, “foi chão que já deu uvas”. E depois também com muita antecedência… escolhe-se o nome. O nome que acompanhará o individuo até ao final da sua existência. E o nome, senhores? E o nome é que nos define. Mas porquê? Porque é que, chamando-me eu Maria, tenho os atributos das Marias todas? Não serei eu ser específico e desigual de todas as outras? Afinal não será aconselhável sermos todas... umas Marias Vão com as Outras! Em carneirada…
E agora os super modernos pais, bastante informados, vão escolher os nomes para os filhos. E escolhem os nomes que detenham os atributos mais favorecidos. Nomes consultados em livros que só se dedicam à temática. E meus amigos, eu que até sou bibliotecária, sei muito bem que livros são esses. Mas é melhor assim. Ainda bem que já passou a fase do nome das personagens das telenovelas brasileiras. Com o perdão de todas as Cláudias Vanessas e dos Brunos Vanderlei.
Mas nem sempre assim foi. Os nossos antepassados tiveram a virtude de ter a sapiência da espera e da abnegação. E se a mulher emprenhava? Pois que bom que era! Não só era mais um elemento para a espécie humana, como era ainda uma força suplementar de trabalho lá para casa, mal o gaiato chegasse lá para os cinco ou seis anos. E quanto à escolha do nome? Bem, isso não deveria ter lá muita importância. Especialmente se a criança fosse proveniente das camadas da população mais desfavorecidas. E o registo da mesma? Pois, muitas vezes era feito à posteriori, quando um elemento masculino da família, quase sempre o pai, tivesse um tempinho para ir à Povoação dos Registos. Ou quando fosse à altura da semana da feira. É que há mesmo muita gente, que tem uma data de nascimento efectiva e uma outra que é a que corresponde à data do tal registo. E quanto ao nome? Bem esse era levado na língua do familiar que tivesse esse encargo. E com algum cuidado suplementar, não fosse ele esquecer-se. É que era uma tarefa exigente. Detentora de uma grande complexidade. Não era pois... delegada a qualquer um.
Conheço uma senhora que se chama Alicia. Sim é uma senhora devota, generosa, mas com um nome algo invulgar. E chama-se Alicia, não por ser uma mulher virtuosa até à quinta casa. Não é por ser patriota e membro activo e até votante nas eleições. Quase sempre. Também não é por ser uma competente profissional do campo das limpezas, das casas das senhoras mais ou menos privilegiadas. Não. Ela é Alicia porque a mãe achava que era mesmo Alicia que se dizia. E o profissional dos registos achou que não era com uma tal inovação, que viria grande mal ao mundo. E o que é que é mais um “i” no nome de uma pessoa? Não a deve de prejudicar muito. Pelo que… Alicia ficou.
Mas numa outra terra da nossa portugalidade, nasceu certo dia, uma criança do sexo masculino. Vai já para muitos anos. O menino havia sido muito desejado, e concebido após alguns anos sobre a ocorrência do sagrado enlace matrimonial. E era com muito desvelo que a sua mãe acariciava a barriga em crescendo. Na aldeia diziam que deveria de ser um rapaz. É que a barriga estava bicuda e “empicarotada”. Era assim mesmo feita a referência, às barrigas que continham gravidezes dos bebés masculinos. Faziam à mãe uma barriga bicuda e empicarotada. Vá-se lá saber porquê.
E o nome p’ró rebento? Sendo machinho, ele teria o nome de Frederico. É que a gestante “empicarotada”, havia ouvido tal nome, uma vez na vila, quando a senhora fidalga da Quinta Local, chamara desta maneira pelo seu descendente. E Frederico soara-lhe tão bem! Pelo que se o fidalgo se podia chamar Frederico, porque não também aquele primeiro rebento do casal de camponeses. E por isso, a partir daquela data, a gestante repetia continuadamente ao seu consorte:
“Oh home, quando o menino nascer, tu vais lá e dás-lhe o nome de Frederico.
E o marido? Pois acenava a cabeça, confirmando-lhe a intenção. Pois que diabos, se era esse o nome que a mulher queria chamar ao filho, pois que fosse. Ele achava-lhe alguma estranheza no soletrar. Frederico. Já ouvira também o nome Fredico e frigorífico. Pelo menos era o que ele achava, porque lá em casa só havia a arca da salgadura. Mas o nome Frederico, era para ele algo incomum. Que tinha alguma dificuldade em lhe entrar p’rá “cachimónia”.
E o menino nasceu. Confirmou-se-lhe in loco a sua varonilidade. Só que o pai não pode ir registar o seu filho. Os motivos serão irrelevantes porque são do desconhecimento desta muito sofrível cronista. O que se sabe é que o pai não pode ir mesmo. E quem é que foi registar o recém-nascido em sua substituição? Pois foi o avô. Sobraram assim, trabalhos acrescidos para um velhote de língua desempoeirada e muito apreciador da bebida de Baco. E para o efeito, o ancião com os seus trajos domingueiros, saiu de casa com a recomendação expressa da nora:
“Oh santinho! Vossemecê não se esqueça. O rapaz tem que ser… Frederico!”
Sim, estava bem. E se ao filho já custava tanto dizer a palavra, àquele pai a tarefa era ainda mais complicada. Mas havia que confiar, ou não era? Afinal o homem do registo também estaria lá e sempre haveria de ajudar. Nomes, era o que aquele profissional mais devia conhecer. Havia até de os saber todos. E era Frederico. O nome que se queria era Frederico. Pelo que o velhote lá foi repetindo o nome durante toda a caminhada que fez. E não fora nada fácil. Aquele senhor de provecta idade e de andar dificultoso, também nunca soubera ler nem escrever…
Chegado ao registo, e à pergunta de como é que se há-de chamar o pimpolho, o velhote…? Pois o velhote teve um lapso de memória. Agora é que era! "Qual é que é mesmo o nome?” repetia o profissional. O velho tirou a boina, coçou com atrapalhação a cabeça coberta por ralos cabelos. Procurou lembrar-se… E no fim? Ele achou a resposta. E lá registou o seu querido netinho.
E eu conheço muito bem aquele menino de outrora. É hoje um homem muito honrado e de bem com a vida.
Chama-se é Grifo! Como aquelas aves necrófagas e de exponencial figura.

 Nota: Eis um homónimo do meu caríssimo conhecido.

Mas numa outra localidade nasceu também uma menina. Bonita como só ela. Rosada e gorda de fazer inveja às outras mulheres, de uma região também rural do nosso pequenito porém encantador país. E Ana era o nome que se lhe haveria de chamar. Seria Ana, tal como a sua avó materna. E aquele nome era por si só, um nome muito auspicioso. E mais, se a criança seguisse os passos da sua avó Ana, seria uma mulher muito válida, honesta e muitíssimo determinada. Teria também… muito pelinho na venta. É que a avó dera ao mundo doze filhos escorreitos, para não se falar da meia dúzia de nados mortos. E Ana, a criança, também seria registada. Só que pelo seu pai, que ficara mesmo muito contente com o facto de ter sido pai! E à pergunta do registador sobre qual o nome escolhido, o homem rejubilante respondera:
“Olhe senhor… prante-lhe Ana!”
E fora exactamente esse, o nome escolhido para a rapariga. E que bem que dançava… a menina Prantelhana…!
Sugestão de leitura para esta semana: “Todos os Nomes” de José Saramago.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


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