A criança nasce. Hoje em dia já
se sabe qual é o seu sexo faz muito tempo. Compram-se com muita antecipação
as roupas mais apropriadas, e da cor mais adequada. Se bem que isto das cores
que são para menino e das outras que são para menina, “foi chão que já deu uvas”.
E depois também com muita antecedência… escolhe-se o nome. O nome que
acompanhará o individuo até ao final da sua existência. E o nome, senhores? E o
nome é que nos define. Mas porquê? Porque é que, chamando-me eu Maria, tenho os
atributos das Marias todas? Não serei eu ser específico e desigual de todas as
outras? Afinal não será aconselhável sermos todas... umas Marias Vão com as Outras! Em
carneirada…
E agora os super modernos pais,
bastante informados, vão escolher os nomes para os filhos. E escolhem os
nomes que detenham os atributos mais favorecidos. Nomes consultados em livros que
só se dedicam à temática. E meus amigos, eu que até sou bibliotecária, sei muito
bem que livros são esses. Mas é melhor assim. Ainda bem que já passou a fase do
nome das personagens das telenovelas brasileiras. Com o perdão de todas as
Cláudias Vanessas e dos Brunos Vanderlei.
Mas nem sempre assim foi. Os
nossos antepassados tiveram a virtude de ter a sapiência da espera e da abnegação.
E se a mulher emprenhava? Pois que bom que era! Não só era mais um elemento
para a espécie humana, como era ainda uma força suplementar de trabalho lá para
casa, mal o gaiato chegasse lá para os cinco ou seis anos. E quanto à escolha do
nome? Bem, isso não deveria ter lá muita importância. Especialmente se a
criança fosse proveniente das camadas da população mais desfavorecidas. E o
registo da mesma? Pois, muitas vezes era feito à posteriori, quando um elemento masculino da família, quase sempre
o pai, tivesse um tempinho para ir à Povoação dos Registos. Ou quando fosse à altura da semana
da feira. É que há mesmo muita gente, que tem uma data de nascimento efectiva e
uma outra que é a que corresponde à data do tal registo. E quanto ao nome? Bem
esse era levado na língua do familiar que tivesse esse encargo. E com algum
cuidado suplementar, não fosse ele esquecer-se. É que era uma tarefa exigente. Detentora
de uma grande complexidade. Não era pois... delegada a qualquer um.
Conheço uma senhora que se chama
Alicia. Sim é uma senhora devota, generosa, mas com um nome algo invulgar. E
chama-se Alicia, não por ser uma mulher virtuosa até à quinta casa. Não é por
ser patriota e membro activo e até votante nas eleições. Quase sempre. Também não é
por ser uma competente profissional do campo das limpezas, das casas das
senhoras mais ou menos privilegiadas. Não. Ela é Alicia porque a mãe achava que
era mesmo Alicia que se dizia. E o profissional dos registos achou que não era
com uma tal inovação, que viria grande mal ao mundo. E o que é que é mais um “i”
no nome de uma pessoa? Não a deve de prejudicar muito. Pelo que… Alicia ficou.
Mas numa outra terra da nossa
portugalidade, nasceu certo dia, uma criança do sexo masculino. Vai já para muitos anos. O
menino havia sido muito desejado, e concebido após alguns anos sobre a
ocorrência do sagrado enlace matrimonial. E era com muito desvelo que a sua mãe
acariciava a barriga em crescendo. Na aldeia diziam que deveria de ser um
rapaz. É que a barriga estava bicuda e “empicarotada”. Era assim mesmo feita a
referência, às barrigas que continham gravidezes dos bebés masculinos. Faziam à
mãe uma barriga bicuda e empicarotada. Vá-se lá saber porquê.
E o nome p’ró rebento? Sendo
machinho, ele teria o nome de Frederico. É que a gestante “empicarotada”, havia
ouvido tal nome, uma vez na vila, quando a senhora fidalga da Quinta Local, chamara
desta maneira pelo seu descendente. E Frederico soara-lhe tão bem! Pelo que se
o fidalgo se podia chamar Frederico, porque não também aquele primeiro rebento
do casal de camponeses. E por isso, a partir daquela data, a gestante repetia
continuadamente ao seu consorte:
“Oh home, quando o menino nascer, tu vais lá e dás-lhe o nome de Frederico.
E o marido? Pois acenava a
cabeça, confirmando-lhe a intenção. Pois que diabos, se era esse o nome que a
mulher queria chamar ao filho, pois que fosse. Ele achava-lhe alguma estranheza
no soletrar. Frederico. Já ouvira também o nome Fredico e frigorífico. Pelo
menos era o que ele achava, porque lá em casa só havia a arca da salgadura. Mas
o nome Frederico, era para ele algo incomum. Que tinha alguma dificuldade em
lhe entrar p’rá “cachimónia”.
E o menino nasceu. Confirmou-se-lhe
in loco a sua varonilidade. Só que o
pai não pode ir registar o seu filho. Os motivos serão irrelevantes porque são do
desconhecimento desta muito sofrível cronista. O que se sabe é que o pai não
pode ir mesmo. E quem é que foi registar o recém-nascido em sua substituição?
Pois foi o avô. Sobraram assim, trabalhos acrescidos para um velhote de língua
desempoeirada e muito apreciador da bebida de Baco. E para o efeito, o ancião com
os seus trajos domingueiros, saiu de casa com a recomendação expressa da nora:
“Oh santinho! Vossemecê não se
esqueça. O mê rapaz tem que ser… Frederico!”
Sim, estava bem. E se ao filho já
custava tanto dizer a palavra, àquele pai a tarefa era ainda mais complicada.
Mas havia que confiar, ou não era? Afinal o homem do registo também estaria lá
e sempre haveria de ajudar. Nomes, era o que aquele profissional mais devia
conhecer. Havia até de os saber todos. E era Frederico. O nome que se queria
era Frederico. Pelo que o velhote lá foi repetindo o nome durante toda a
caminhada que fez. E não fora nada fácil. Aquele senhor de provecta idade e de
andar dificultoso, também nunca soubera ler nem escrever…
Chegado ao registo, e à pergunta
de como é que se há-de chamar o pimpolho, o velhote…? Pois o velhote teve um
lapso de memória. Agora é que era! "Qual é que é mesmo o nome?” repetia o
profissional. O velho tirou a boina, coçou com atrapalhação a cabeça coberta
por ralos cabelos. Procurou lembrar-se… E no fim? Ele achou a resposta. E lá
registou o seu querido netinho.
E eu conheço muito bem aquele
menino de outrora. É hoje um homem muito honrado e de bem com a vida.
Chama-se é Grifo! Como aquelas aves necrófagas e de exponencial figura.
Chama-se é Grifo! Como aquelas aves necrófagas e de exponencial figura.
Nota: Eis um
homónimo do meu caríssimo conhecido.
Mas numa outra localidade nasceu também
uma menina. Bonita como só ela. Rosada e gorda de fazer inveja às outras mulheres,
de uma região também rural do nosso pequenito porém encantador país. E Ana era
o nome que se lhe haveria de chamar. Seria Ana, tal como a sua avó materna. E aquele
nome era por si só, um nome muito auspicioso. E mais, se a criança seguisse os
passos da sua avó Ana, seria uma mulher muito válida, honesta e muitíssimo
determinada. Teria também… muito pelinho na venta. É que a avó dera ao mundo doze
filhos escorreitos, para não se falar da meia dúzia de nados mortos. E Ana, a
criança, também seria registada. Só que pelo seu pai, que ficara mesmo muito contente
com o facto de ter sido pai! E à pergunta do registador sobre qual o nome
escolhido, o homem rejubilante respondera:
“Olhe senhor… prante-lhe Ana!”
E fora exactamente esse, o nome
escolhido para a rapariga. E que bem que dançava… a menina Prantelhana…!
Sugestão de leitura para esta
semana: “Todos os Nomes” de José Saramago.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


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