Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

No princípio era o verbo, mas hoje faz-se um balanço.



Desde que me conheço, que sempre fui uma fascinada por esta aventura que consiste em ouvir e contar estórias. Bem pequena e inserida em épocas estivais e demais férias escolares, num meio rural, era à lareira e nas noites de invernia, que eu ouvia as melhores epopeias. E os melhores contadores eram por unanimidade e em exequo, o Ti Manel e a sua dedicadíssima nora, que era também a minha querida tia A. (tia dedicada e sem descendência).
E enquanto ela vagueava por histórias de bruxas e de lobisomens, que identificava como sendo os seus próprios vizinhos, (e como eu procurava nos mesmos, as marcas que a minha tia insistia em dizer que eles detinham), tinha era que ser muito discreta (assim avisava a titia), porque se os visados desconfiassem quem ficava amaldiçoada era eu, o ti Manel perdia-se em enigmáticas descrições, em que a protagonista era (sempre, mas sempre mesmo) a dona de uma loja de venda directa a retalho. Pequeno estabelecimento situado lá nas imediações. E nessas histórias, nós tomávamos conhecimento que a lojista aviava com muito esmero, pacotes de arroz e de farinha. Mas era também muito competente em se aviar ela própria, de cinco ou seis dos seus fregueses. Daqueles que eram os mais jeitosos e assíduos.
E o desenvolvimento da coisa? Pois o ti Manel era parco em comentários. Afinal nós eram apenas, simples e inocentes crianças. Mas quando a temática devia de aquecer, o Ti Manel ria-se muito para ali sozinho. Até às lágrimas, mostrando-nos descaradamente a totalidade dos seus dois ou três dentes. Nós, muito intrigados ficávamos. E pedíamos-lhe impacientes para que ele nos desenvolvesse toda a trama, ou seja, que nos falasse sobre aquilo que efectivamente lhe provocava tanto riso. E que não nos escondesse nada. Mas ele? Ele olhava para nós e ria-se ainda mais. Aquele magano!
Já adolescente, era já eu quem criava as minhas próprias estórias. E quem eram as minhas personagens principais? E quem é que me dava a verdadeira inspiração? Pois eram os meus colegas, professores e pessoal auxiliar. Às vezes chegavam mesmo a entrar nas minhas tramas, até os familiares desses meus amigos.
E como eu gostava daquilo, senhores! E o impacto que tudo aquilo fazia! Tenho a dizer, que não detenho comigo nenhuma dessas historietas, se bem que algumas dessas minhas amigas de longa data, me asseguram que ainda conservam com elas, esses “meus romances”. Guardam-nos quase como se se tratasse de “um verdadeiro tesouro”. E dizem-me que ainda hoje, elas se fartam de rir com todos aqueles meus verdadeiros disparates. Resta-me dizer que as minhas amigas, são também pessoas muito generosas.
Ora as personagens eram mesmo elas. E com a leitura dos mesmos, até certa altura tudo indicava que elas iriam ser muito felizes ao lado dos moços de quem elas mais gostavam. Era pois muito previsível, que elas lessem tudo aquilo, não só com muita voracidade, como também com muita emoção. E elas ficavam para ali convencidas, que as “suas” estórias iriam conhecer um final feliz! Tudo indicava, disse bem, porque mesmo no finalzinho elas (as minhas personagens), chegavam à conclusão que afinal elas não amavam aqueles rapazes belos, viris e simpáticos rapazes, mas sim o professor de matemática, que tinha para cima de noventa e seis anos. Esse sim é que era o verdadeiro galã da história. Quem também fazia muito sucesso e casava sempre no fim, era o jardineiro. Que sendo já velhote e simpático, não devia de gostar lá muito de tomar banho. Seria mais adepto em guardar o máximo da água, para as suas flores, que consequentemente até estavam sempre muito viçosas.
Recordo que certa vez, o tal do professor de matemática, casou com três das minhas amigas. E na mesma cerimónia, com todas elas muito contentes com o que lhes estava a acontecer. E também muitíssimo emocionadas. O seu final (indesejado à partida) era fruto de uma ironia do destino. Que é como quem diz, era devido a toda a minha funesta e perversa vontade.
E com o desenvolvimento da leitura e a sua conclusão? É certo que elas continuavam a ser minhas amigas. Mas por momentos elas ficavam possessas. Quase sem poderem enfrentar o tal professor de matemática. Que por inerência não tinha culpa nenhuma. E maldiziam até o próprio Teorema de Pitágoras. E depois? Ainda iam pisar a relva do outro, que era também o "nosso" fiel jardineiro. Depois, mas algum tempo passava. Regressava-me a inspiração. E nos momentos imediatamente antes da leitura do próximo romance, elas continuavam a acreditavam piamente, que os “seus finais”, poderiam desta vez, conhecer desenvolvimentos diferentes. Muito mais satisfatórios para elas. Elas caiam sempre, aquelas lorpas!
Só que depois eu cresci. Mas, e o gosto pelas estórias? Esse felizmente permaneceu. Recordo com alguma nostalgia, uma troca de correspondência tida entre mim e um certo cavalheiro de quem eu gostava muito. E, como eu gostava dele, senhores! E a meio das desditosas e muito inspiradas missivas, (que eu entabulava só para ele), o mesmo lá me transmitiu que os meus comentários, (fora exactamente assim que ele se referiu às minhas estórias delirantes), “eram deliciosos”. Tenho a dizer que aquele dia, foi um dia muito feliz para mim. E devido a tanta felicidade, eu até acabei por fazer na perfeição, uma espargata e mais três saltos mortais.
Mas, com o decorrer da comunicação, eu fui-me apercebendo que o meu grande amor, afinal era só meu. Oh ignomínia, oh martírio, oh desventura! E o tal sujeito aparentemente, entrou para uma ordem monástica, das que privilegiam o silêncio mais absoluto. Que Deus Nosso Senhor o tenha pois, inscrito no livro dos cavalheiros que lhe são mais dedicados. E eu fui somente um fait divers, sem maiores consequências (passo a redundância), para um período de tempo potencialmente aborrecido. Mas o tempo? Essa continuou a ir passando. Irreversivelmente. E actualmente até já sinto mesmo muita dificuldade, em lhe recordar as feições.
Depois amadureci. Só que aparentemente, o desenvolvimento físico não foi proporcional ao desenvolvimento mental. E para sempre fiquei convencida, que bem poderia conservar um pouquinho só, da “frescura” dos meus verdes anos. Não a nível corporal. Pois eu já sei bem, o que é ter umas rugas (poucas) e uns cabelos brancos (menos ainda)! Contudo achei que seria possível, continuar-me a rir de coisas parvas. Apesar de um certo professor de português, nos ter reproduzido certo dia, a sua opinião, ao dizer-nos: “que quem se ria de coisas parvas era parvo”, ah pois era! Só que eu? Nunca quis saber disso para nada. Ele coitado até já lá está. Na Terra da Verdade. E eu acredito que teria sido muito melhor para ele, se ele se tivesse divertido mais, do que aquilo que se divertiu.
E passados foram mais alguns anos. E apareceu o blogue. Este blogue. Sei de blogues que visito com muita regularidade e que têm só num dia as visitas que eu só consigo ter num ano. Mas isso não me incomoda absolutamente nada. Longe disso. Quando criei este blogue achei que seria somente eu a lê-lo. E a rir-me desassombradamente com alguns dos imensos disparates que aqui são postados. Contudo é com agrado que verifico semanalmente, a visita de leitores que estão em regiões tão fantásticas como a Rússia, os Estados Unidos, o Brasil, a Alemanha, a Ucrânia… Uns vieram cá só uma vez ou duas e isso bastou-lhes. Outros continuam a aparecer. Uns são ainda provenientes daquelas visitas do vampirest e quejandos, que não contam para a estatística, já que o objectivo das suas visitas (feita aleatoriamente e por máquinas) é que depois a nossa curiosidade nos faça ir visitar também os seus sites. Sabem bem daquilo que falo, não é verdade?
Mas eu fico mesmo muito reconhecida e tocada, é com a visita daquele que me lê. Efectivamente. É que no fundo, até já existe uma certa ligação entre nós. Silenciosa é certo, mas viva. Eu que também sou leitora de alguns blogues. Se calhar leio também algum dos vossos sítios de eleição. E também quase nunca comento. Prefiro ficar tranquilamente, a surfar pelas ondas da minha vontade. E também pela livre e descomprometida comunhão com outras estórias fantásticas, vivênciadas por outros que não eu. Um pouco como se juntos, nos fossemos periodicamente encontrando, na lareira bem gostosa, destas linhas virtuais.
Sugestão de leitura para esta semana: “O Jardim do Éden” de Ernest Hemingway.
Um FANTÁSTICO ANO de 2014 para todos!



DIVIRTAMSEMAZÉ!

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Ah já é Natal? Vamos mazé partilhar.

 
“Nós somos energia. E estamos neste mundo a prazo. Quando nós desencarnarmos, iremos ter com toda a certeza, uma existência diferente. Preferencialmente ligada aos planos da Divindade”.
Dizia assim Grande Estrela, com muita convicção.
Grande Estrela auto-denominava-se assim. Mas de estrela propriamente dito, ele tinha pouco. Pelo menos aos olhos de Rita, que por mais que esfregasse as vistas, e limpasse as lentes dos seus óculos de míope, só conseguia ver um homem ainda jovem (33 ou 34 anos) meão de altura e parco de especiais atracções externas. Estrela havia sido baptizado com outro nome. Antes das descobertas místicas que o próprio experienciara. Lá pelos seus tempos da juventude. E agora a par de várias actividades ligadas ao reiki, ainda sentia que por vezes lhe fugia o pé para uma ou outra consulta de cariz psiquiátrico. Mas com o mesmo na posição de Comandante.
Da equipa fazia ainda parte Lica. Constituíam-se assim numa dupla. E Lica era uma mulher que devia andar pela mesma idade de Grande Estrela. E era com ele que ela ia partilhando (para uma assistência pouco solene), uns comunicados. Onze ou doze vezes por ano. Com datas pré-reservadas, não fossem os ouvintes esquecer-se daquela “obrigação”.
Só que aquilo, de obrigação não tinha nada. E por mais do que uma vez fora afirmado por aquele par místico, que se uma pessoa ia assistir àquilo ali era porque queria. Rita esfregara desta vez as mãos. Uma na outra até ficarem cor de carmim. É que esta última verdade por ela ouvida, concorria pela mesma categoria das outras duas verdades acima referenciadas. Isto é, até aquele momento Rita verificara que as pessoas geralmente morrem. É uma tendência, as maganas. E verificava também que nenhuma das pessoas que ela conhecia, havia nascido no século XVIII. Além do mais se ela era energia ou não, tal também desmerecera do pouco da sua atenção. Ela dava conta que era: osso, carne, cabelos e pele, não havia dúvidas. Tinha ainda uma cabeça e liberdade de pensamento. Agora que quando chegasse à sua vez de subir lá pró andar de cima, ela fosse disfarçada em gás propano ou em chama de esquentador? Pois ela não sabia. Mas também não ganhava muito em saber. Tal não significaria assim um grande avanço. Pois logo se veria. Agora Estrela estar para ali a dizer que se ela (a Rita) estava ali é porque queria… Pois para ela tal, também não constituía assim uma grande novidade. Há que convir. Aquelas sessões eram elaboradas num horário em que ela não tinha muito que fazer. Além do mais, ali ela sempre podia aperceber-se um pouco de outras visões do mundo, alternativas à sua própria. Àquela que ela se habituara a teorizar desde que nascera. E que os seus pais lhe haviam transmitido.
Mas a par disso tudo Rita via, que a assistência ia diminuindo consoante as partilhas se iam sucedendo. A Partilha Primeira havia sido um sucesso. Com grande parte da comunidade local, sentada pomposa e expectante em cadeiras de café. Na Segunda Partilha, Rita assistiu muito divertida à fuga de Ernesto. Ernesto que era o dono da mercearia ali do sítio. E Ernesto havia também partilhado na vez primeira. E se à primeira viera ao engano, e ficara pelo Reiki, à segunda ele viera, porque pensara que naquele café, e naquela noite fossem servidas outras iguarias que não as tais das palestras. E disso, já bem lhe bastara a da outra vez. Pelo que, e tentando não dar muito nas vistas, e após ter olhado para a Estrela e mais a sua partener, ele deu “corda aos sapatos” e saiu ligeirinho dali para fora. Naturalmente procurando de seguida a taberna mais próxima. E corneando claramente aquele café literário e seu poiso costumeiro.
E as partilhas? Essa lá se foram sucedendo. Lica a jovem mulher havia sido a criadora daqueles encontros. Depois procurara auxílio na pessoa do seu grande Mestre. Que era Estrela, claro está. Lica que até tinha poucos estudos e má fluência. Mas queria porque queria, ser também ela um dia uma iluminada. Quem sabe uma futura Grande Cometa? Tal situação a acontecer, só poderia estar nas mãos dela. Mas contando sempre com o auxílio do seu queridíssimo mestre Estrela.
E com as ditas partilhas, lá se ia publicitando níveis numerados de outras iniciações à prática. Que praticadas (era assim que era prometido), iriam com certeza melhorar a existência de todos. Só que os tais dos “cursos” eram pagos. E bem pagos. Diziam os entendidos, (que a Rita não conhecia de lado nenhum), que nos tais ensinamento teria que haver troca. “Recebes ensinamentos bons para ti e para todos os teus vizinhos e depois pagas”. Ah pois era! “E quem sabe se uma dia, depois de seres reconhecida como uma Grande Galáctica Brilhante e Confirmativa, não serás também tu, a ensinar aos pouco-esclarecidos e sacares-lhe também tu umas maçarocas? Porque isto em tempos de crise…”
Pois… Mas vejamos também uma coisa: e se alguém reprovasse nos tais cursos iniciáticos? Será que depois também não seria entendido, como um Grande Buraco Negro?
Mas Rita só sabia que não se queria iniciar em coisa alguma. Ainda mais em iniciações cobráveis. E bem cobráveis! Ela só ali ia para ouvir. Para se aperceber de uma ou outra ideia diferente da sua.
E as Partilhas? Essas lá continuavam a suceder-se. A dedicadíssima assistente Lica lá ia aparecendo. Sempre a sorrir. Suas bochechas encarniçavam só de olhar para o Grande Estrela. Buscava-lhe pontualmente a aprovação, mas também o reconhecimento. E quem sabe se não também a sua incontornável admiração? É que era transparente o facto de Lica estar para ali muito apaixonada e a suspirar pelo Estrela Maior. Só que lamentavelmente, era mais do que certo, que o Grande Estrela não lhe correspondia aos impulsos. É que auto-proclamado mago, auto-posicionava-se na Estratosfera. E a Lica ocupava somente a cadeira mais modesta da estação de Metropolitano do Areeiro.
E as conversas prosseguiriam. E as pessoas revezavam-se. Umas foram só às primeiras partilhas e isso bastara-lhes. Outras foram a todas e iniciaram-se mesmo na prática. Umas afirmavam ter muito medo dos fantasmas que as perseguiam até casa. Outras juravam por tudo, que o Egas Moniz mais toda a sua família, residia pacatamente lá em casa. E sempre de corda ao pescoço. O que os isentava de pagarem qualquer renda, senhores!
E quanto à Rita? Pois a Rita ouvia e tirava também as suas conclusões. Se calhar fortemente influenciada pela sua visão clássica de mulher ligada às letras e às vivências do passado. Vidas circunscritas a tempos passados e não aos tempos da actualidade. É que lhe custava imenso a crer, que o Bocage ainda andasse por cá, a cobrir umas e outras. E a relatar os acontecimentos vividos nos bordéis e demais prostíbulos. Nem concebia que o António José da Silva, continuasse a insistir em guerras infindas, onde nunca faltava nem o alecrim nem a manjerona. Esses (achava ela) já haviam partido há muito tempo atrás. Levando consigo experiências vivenciadas e únicas. E muitos pensamentos flamejantes.
Mas ali, era outra coisa, o que o Grande Estrela dizia. E a “sua” dedicadíssima Lica confirmava. E até a D. Engrácia jurava, que conseguia ouvir todas as noites o Infante D. Henrique a ir à casa de banho. Lá pelas quatro da madrugada… Só não puxava nunca, era o autoclismo…
Mas, e uma vez que os ensinamentos e as partilhas, se começaram a repetir, Rita ficou sem grande vontade de prosseguir com aquela romaria cíclica. Aprendera umas coisas, outras refutara por não compactuar com inverdades de acontecimentos que a própria aprendera nos bancos da Faculdade. Ou então nas suas leituras. Dizer por exemplo, que a Bíblia só fora traduzida do latim ao tempo do acontecimento Vaticano II era algo que ela não poderia silenciar. E as igrejas reformistas? E Calvino? E Lutero? Não existiram? E qual é que fora uma das principais preocupações deles? Não foi a de traduzir para línguas que todos entendessem, as palavras do Senhor?
Pois. Mas o Estrela até era pessoa para aceitar certas criticas. Estrela, o Grande Estrela, até tinha um certo poder de encaixe. E Lica tinha a virtude e a abnegação de amar o seu Grande Mestre. O magano é que não ia na conversa. Aquele malvado!
Mas após uma prolongada ausência, Rita decidiu voltar às partilhas. Havia sido mais uma vez convidada pela dona da tasca. Que ao vê-la na rua, a alertara para tão importante acontecimento. E até podia ser que a coisa, já tivesse evoluído para patamares superiores. Onde Rita fosse ouvir e aprender outras ideias. Outros pensamentos.
E no dia aprazado lá estava ela. E mais outras duas ou três ouvintes. No palco já estava Lica. A apaixonada e muito devotada a seu Mestre. E a Lica ainda estava mais incandescente. E a Rita verificou in loco que aquela paixão continuava. Os rubores faciais duplicaram e passaram-lhe até para os dentes. E o Estrela? Esse continuava na rectaguarda, claro está. Mas, e em relação aos temas debatidos propriamente ditos? Pois foram quase os mesmos dos das outras vezes.
No fim da noite, Rita ouviu ainda falar no Banco Alimentar Contra a Fome. Explicaram-lhe que aquilo era uma vergonha! Só dava lucro era ao Belmiro de Azevedo. À Jonet. E ao Estado Português. Cruzes credo! Senhores! “Malvados sejais, seus bandidos! Mais todos os vossos milhões”! Pareciam querer dizer. E a Rita perguntava-se para si própria: “Mas onde raio é que será, que esta gente vai às compras? Será que vão ao chamado comércio tradicional? Se calhar sim. Mas mesmo nesses estabelecimentos, não se pagam também valentes impostos? E não será melhor contribuir de alguma maneira, do que ficar para aqui a criticar, sem fazer nada em prole dos pobrezinhos? Coitadinhos! É que agora são eles, mas um dia destes…
E aquela sessão foi abrilhantada com um final surpreendente. Com uma super-tirada da Lica. Da apaixonadíssima Lica. Quando confessou que também ela um dia havia pago uma refeição a um pobrezinho. Ela que nem gostava de se enfileirar por essas práticas. Que por si só, não resolviam grande coisa. Só favoreciam mesmo era os mais ricos. E a continuidade ad eternum da condição de pobreza. Já a sua família havia sido tão desfavorecida…
Pois Lica comunicou para a tribuna, que num dia de invernia, também um pobrezinho se chegara ao pé dela. Mesmo na altura em que ela se amanhava com um entusiasmante pequeno-almoço. E o pobrezinho, coitadinho, pedinchou-lhe?
“A senhora não fazia o obséquio de me pagar qualquer coisinha? É que eu estou cá com uma fome de cão...”
Lica olhou algo receosa pra cima. Depois rodeou de atenções o seu croissant recheado. Com o fiambre e o queijo em devaneios. Provocantemente a espreitarem. Depois, ela vislumbrou temerosa de ataques, o seu leitinho com café de máquina. Quente e moreno como ela tanto gostava. E no fim, depois de muito pensar, ela lá acabou por condescender:
“Está bem, vá. Diga lá então o que é que quer.”
E esperou. Ficou para ali mesmo muito medrosa com o que dali adviria.
Mas, e o pobrezinho, coitadinho? Pois bem. Ele pediu uma sandes (só com margarina) e um copinho de leite simples, simples. Bem branquinho e nutritivo. Coitadinho do pobrezinho! “É que assim, via-se mesmo que ele estava com fome! Com muita fominha mesmo!” Concluía finalmente Lica, a benemérita-mor.
Perante o exposto foi então muito fácil de adivinhar. Se o pobre homem tivesse tido a ousadia de pedir um bolo e um galão directo, sairia dali com um valente pontapé. Ou então com um portentoso sermão, que incidiria totalmente sobre o “Grande Guia dos Comportamentos Espectáveis Para um Pobrezinho em Condições”.
Sugestão de leitura para esta semana: “O Diário Oculto de Nora Rute” de Mário Zambujal.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


BOM NATAL!!!, com muita saúde e alegria, junto de todos os familiares e amigos. E se tiver que ser com algum pobrezinho também (e pobrezinhos estamos, quase todos nós cada vez mais!), que se use de solidariedade efectiva. Sem lamechismos, mas sobretudo, sem preconceitos.
E DIVIRTAMSEMAZÉ! É um imperativo, amigos.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Errâncias forçadas.




Quando se inicia com alguma sofreguidão os estudos da história de Portugal, vai-se já com uma ideia formada. Que o passado deste país foi sempre glorioso e dignificante. Contudo, cedo se apercebe que a glória existiu de facto. Mas durou foi muito pouco tempo. E presença constante foi a existência em bardos, de golpes e esquemas que fizeram com que este rectângulo à beira-mar plantado conseguisse subsistir. E se fomos invadidos por algumas vezes, por espanhóis, franceses e até pelos britânicos que juravam que vinham sempre em nosso auxilio, por longuíssimas temporadas, nós permanecemos aqui, sós e ridiculamente orgulhosos desse nosso estado de solidão. Era mesmo assim que falava aquele senhor da Beira Interior, de voz sibilante e de presença discreta.
E a população, necessariamente pouco letrada, procurava fora de portas aquilo que o país se recusava a dar. São tradicionais as gestas de população lusitana que foi habitar em terras tão longínquas com as de Vera Cruz, as localizadas em África, na Ásia e até mesmo na Oceânia.
Contudo os tempos foram mudando. A escolarização foi aumentando de forma gradual e abrangente. E nunca tivemos em tempo algum da nossa existência enquanto nação, uma população jovem e tão bem preparada como a actual. Capacitada para conseguir levar este velhinho país de quase dez séculos, a bom porto. Mas eis se não quando surge esta crise. Que é a mãe de todas as crises. A que fez disparar esta mesma geração para além fronteiras. “Pontapeados” literalmente para fora deste rectângulo. E que desgraçado país é este que trata desta forma os seus filhos! Que mais uma vez os separa de pais, avós, filhos e amigos. E de um clima e gastronomia fantásticos.
Será isto sina? Terão os governadores lusitanos sido formatados num laboratório de horrores? Tipo na maternidade do Frankenstein. Que criaram anticorpos que lhes permitiu expulsar assim de cá as pessoas mais válidas? As que por inerência, seriam as mais capacitadas para fazer com que este país tomasse finalmente rumo? Um porto seguro? Pois, só se pode concluir que a miopia é severa. E as pessoas não tiveram outra alternativa que sair, sair em grande, deste pequenito e muito provinciano país.
Admito que muita gente já estava farta disto. E foi com alívio que saiu daqui. Gostara de aventuras e de conhecer outras realidades novas. Contudo muitos outros existem que não sentiram nunca tal ímpeto. Queriam mesmo era ter ficado por cá. Na sua terra, com o que lhes é mais querido. Uns e outros merecem todo o meu respeito. Mas os últimos merecem toda a minha solidariedade. Que não lhes vale de muito é um facto, mas eu lamento profundamente o seu sofrimento. As suas saudades. E que um dia voltem. Que consigam fazer toda a diferença. Ninguém me garante que um dia, quem sabe se não serei também eu, a levar o dito pontapé, exactamente no sítio onde as costas mudam de nome.
Logo eu que tanto gosto de viajar. Mas que também gosto muito de regressar. E este país é muito mais nosso, do que desses execráveis governantes, que nos estão para aqui a tentar matar… lentamente. Tal qual as rãs em panelas onde se iniciam a fervura de água.
Mas eu continuo a alimentar a esperança de que um dia talvez isto mude. Para melhor, evidentemente. E que juntos nós encontremos finalmente um rumo. Um bom rumo. E que estes governantes todos partam. Em bando e sem bilhete de regresso. E levem com eles as suas honradíssimas mãezinhas.
Pelo exposto, hoje não está a ser nada fácil diverti-me. Fica aqui um triste porém muito inspirado poema de outras eras.

Senhora, partem tão tristes
Meus olhos, por vós meu bem,
Que nunca tão tristes viestes
Outros nenhuns por ninguém.

Tão tristes, tão saudosos,
Tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.

Partem tão tristes os tristes,
Tão fora de esperar bem,
Que nunca tão tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém.

Cantiga, “Partindo-se” de João Roiz de Castelo Branco (séc. XV)

Sugestão de leitura para esta semana: “Os Privilegiados: Como os Políticos e ex-Políticos geram interesses, movem influências e beneficiam de direitos adquiridos” de Gustavo Sampaio.
DIVIRTAMSEMAZÉ! Mas jamais nos neguemos a assimilar (e a rebelarmos-nos) com verticalidade, sobre tudo aquilo que é susceptível de nos causar dano.


sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Vicios e outros enigmas.



Porque é que nós temos vícios, senhores? Uns roem as unhas até ao sabugo. Outros fumam com a mesma intensidade de a chaminé da CUF? Outros adoram roubar o parceiro? E outros ainda têm que ter sexo todos os dias, se não entram em falência técnica e ficam p'rá ali prostrados cheinhos de dores de cabeça?
O vício terá que nos compensar das agruras da vida. Será essa a sua intenção. E no entanto… A amargura é o que mais existe. Mas uma coisa é indiscutível, todos nós temos vícios. Ah pois temos!
Recebi um dia destes um email de alguém de alguém de quem gosto muito. E o email rezava mais ou menos o seguinte: “antigamente era bonito fumar e era muito feio (mesmo) levar no c-. Hoje em dia dá-se precisamente o contrário”. Sei que esta conversa de hoje roça a boçalidade. Mais, está enterrada no lameiro até às pontas “espigadas” do cabelo. Não deveria sequer ter tido entrada neste modesto, porém muito bem-intencionado blogue. E apesar disso... E a coerência, amigos? Muitas das vezes ela é apenas só uma miragem.
Vem esta conversa a propósito da mudança de paradigmas que têm acontecido com o decorrer da história da humanidade. E este meu amigo, sendo um senhor do passado é ao passado que vai buscar todas as suas orientações. Mas não teremos todos nós esse tipo de procedimento? O que é afinal o passado, senão o segundo que acabou mesmo agora… de acontecer? E convenhamos, cada um gosta daquilo que gosta. Só que o meu amigo… esse, prefere continuar a fumar.
O objecto colocado acima deste post, foi visualizado por mim e com muito interesse, numa viagem que eu certo dia fiz a Amesterdão. Está patente num lindo Museu de temática marota. E esta peça senhores, parece reunir as duas ideias expressas no email do meu dilecto amigo. É que aquilo ali, pareceu-me mesmo um cinzeiro. Gigante é certo, mas arraçado a cinzeiro.
O objecto como verificam, aparece rodeado pela representação de objectos perfuradores e susceptíveis de catalisarem em si, muitos desejos secretos. No meio dos mesmos, até se pode por a repousar uma pacata beata. Das de fumar, não das outras. Mas que tristíssima associação de ideias eu tive aqui agora. E que Deus Nosso Senhor me perdoe.
E se assim fosse, quando a pessoa fumava, podia regozijar-se a olhar para a peça, sem recear nunca poluir com cinzas o espaço à volta com o seu tabaco. Essa foi a minha interpretação, quando vi o objecto. Baseei-me na minha observação visual, mas também no senso comum. E estava eu triunfante, intimamente a congratular-me não só pelo facto de poder viajar, como de poder chegar a tão elucidativas conclusões, quando logo ali alguém teve a desdita de me desmentir. E como proliferam aqueles que gostam de nos estar sempre a desmentir. Credo! Mais parece uma praga. E dissera-me que aquilo nunca poderia ser um cinzeiro. Comunicando-me depois, sobre a total falta de necessidade de se ter um cinzeiro de dimensões tão avassaladoras. Mas que falácia! Existirem assim pessoas que tendencialmente tendem a visualizar a realidade em dimensões tão reduzidas. E a manter um olhar… tão liliputiano. Afinal ninguém me garante que aquilo não possa ter sido, a representação do cinzeiro do gigante, que vivia lá em cima, no Castelo das Nuvens. E que num certo dia, foi incomodado pelo rapaz João. O semeador de feijões e muito aventuroso ser.
E a pessoa que me desmentiu (ser demonstrar qualquer dó nem piedade), assegurou-me que aquilo era… uma pia Baptismal. Crédula e simples pessoa que sou tendencialmente, quando penso num baptismo, alicerço a ideia, à iniciação numa religião. Num procedimento mais ou menos sacro. Ou então na iniciação numa qualquer ordem secreta. Entrar para uma crença irrefutável. Na promessa de que aquele acto será o início de uma vida ligada a uma representação onde o divino conviva. Ou o superior àquilo que é comum. Que religue de alguma maneira os indivíduos, que demonstrem ter similares objectivos. Existe também o baptismo das praxes académicas. Mas aí usa-se mais um penico, ou não é? Agora aquilo que vi? Para que raio de cerimónias baptismais, aquele “piçório” é adequado. E logo assim com tantos pénis…
Seria então próprio para jovens e menos jovens, que se iniciassem finalmente em práticas libidinosas? De desfrute e de gozo tão em desacordo com normas vivenciais das pessoas mais ligadas à religião e que por definição são também as que são mais baptizadas?
Seria também própria para enlaces matrimoniais, que agora ocorrem cada vez menos? Onde os felizes noivos, inclinassem suas cabecinhas para a peça artística aqui postada? E fossem depois profusamente regados com água de rosas com travo a pimenta caiene? E prometessem depois muita actividade e desfrute, contando com a complacência e cumplicidade do sacro sacerdote? Mas não será perigoso comprometerem-se desta maneira? Quem é que pode falar no desempenho a ter em tempos futuros? É que infelizmente existem tantas vicissitudes.
Será ainda própria para se lavarem cabeças tresloucadas e ansiosas (senhoras e senhores) para verem de perto o objecto representado, mas em carne? Porque osso parece não ter?
De concreto, eu nada soube. É que tenho muita dificuldade em embarcar logo em explicações vagas que visam somente atropelar as minhas verificações. E lamentavelmente eu fiquei sem nenhuma resposta válida. Contudo há que convir. Trata-se de uma peça muito bela e de finíssimo recorte. Pensada por alguém genial e muito bem inspirado. Pena foi não ter deixado, um livrinho de instruções.
Sugestão de leitura para esta semana: “O Pénis e a Desmoralização do Ocidente” de Paul Aron e Roger Kompf.
DIVIRTAMSEMAZÉ!