Quando se inicia com alguma sofreguidão
os estudos da história de Portugal, vai-se já com uma ideia formada. Que o passado
deste país foi sempre glorioso e dignificante. Contudo, cedo se apercebe que a glória
existiu de facto. Mas durou foi muito pouco tempo. E presença constante foi a
existência em bardos, de golpes e esquemas que fizeram com que este rectângulo à
beira-mar plantado conseguisse subsistir. E se fomos invadidos por algumas
vezes, por espanhóis, franceses e até pelos britânicos que juravam que vinham
sempre em nosso auxilio, por longuíssimas temporadas, nós permanecemos aqui, sós e
ridiculamente orgulhosos desse nosso estado de solidão. Era mesmo assim que falava aquele
senhor da Beira Interior, de voz sibilante e de presença discreta.
E a população, necessariamente
pouco letrada, procurava fora de portas aquilo que o país se recusava a dar. São
tradicionais as gestas de população lusitana que foi habitar em terras tão longínquas com
as de Vera Cruz, as localizadas em África, na Ásia e até mesmo na Oceânia.
Contudo os tempos foram mudando.
A escolarização foi aumentando de forma gradual e abrangente. E nunca tivemos em
tempo algum da nossa existência enquanto nação, uma população jovem e tão
bem preparada como a actual. Capacitada para conseguir levar este velhinho país
de quase dez séculos, a bom porto. Mas eis se não quando surge esta crise. Que é a
mãe de todas as crises. A que fez disparar esta mesma geração para além fronteiras. “Pontapeados” literalmente para fora deste rectângulo. E que desgraçado
país é este que trata desta forma os seus filhos! Que mais uma vez os separa de
pais, avós, filhos e amigos. E de um clima e gastronomia fantásticos.
Será isto sina? Terão os
governadores lusitanos sido formatados num laboratório de horrores? Tipo na maternidade do
Frankenstein. Que criaram anticorpos que lhes permitiu expulsar assim de cá as pessoas
mais válidas? As que por inerência, seriam as mais capacitadas para fazer com que este
país tomasse finalmente rumo? Um porto seguro? Pois, só se pode concluir que a miopia é severa. E as pessoas não tiveram outra alternativa
que sair, sair em grande, deste pequenito e muito provinciano país.
Admito que muita gente já estava
farta disto. E foi com alívio que saiu daqui. Gostara de aventuras e de conhecer outras realidades
novas. Contudo muitos outros existem que não sentiram nunca tal ímpeto. Queriam mesmo
era ter ficado por cá. Na sua terra, com o que lhes é mais querido. Uns e
outros merecem todo o meu respeito. Mas os últimos merecem toda a minha
solidariedade. Que não lhes vale de muito é um facto, mas eu lamento
profundamente o seu sofrimento. As suas saudades. E que um dia voltem. Que consigam fazer toda a diferença. Ninguém me garante que um dia, quem sabe se não serei também
eu, a levar o dito pontapé, exactamente no sítio onde as costas mudam de nome.
Logo eu que tanto gosto de viajar. Mas
que também gosto muito de regressar. E este país é muito mais nosso, do que
desses execráveis governantes, que nos estão para aqui a tentar matar…
lentamente. Tal qual as rãs em panelas onde se iniciam a fervura de água.
Mas eu continuo a alimentar a
esperança de que um dia talvez isto mude. Para melhor, evidentemente. E que juntos nós
encontremos finalmente um rumo. Um bom rumo. E que estes governantes todos
partam. Em bando e sem bilhete de regresso. E levem com eles as suas
honradíssimas mãezinhas.
Pelo exposto, hoje não está a ser
nada fácil diverti-me. Fica aqui um triste porém muito inspirado poema de outras eras.
Senhora, partem tão
tristes
Meus olhos, por vós
meu bem,
Que nunca tão tristes
viestes
Outros nenhuns por
ninguém.
Tão tristes, tão
saudosos,
Tão doentes da
partida,
tão cansados, tão
chorosos,
da morte mais
desejosos
cem mil vezes que da
vida.
Partem tão tristes os
tristes,
Tão fora de esperar
bem,
Que nunca tão tristes
vistes
Outros nenhuns por
ninguém.
Cantiga,
“Partindo-se” de João Roiz de Castelo Branco (séc. XV)
Sugestão de leitura para esta
semana: “Os Privilegiados: Como os Políticos e ex-Políticos geram interesses, movem influências e beneficiam de
direitos adquiridos” de Gustavo
Sampaio.
DIVIRTAMSEMAZÉ! Mas jamais nos neguemos a assimilar (e a rebelarmos-nos) com verticalidade,
sobre tudo aquilo que é susceptível de nos causar dano.

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