Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Errâncias forçadas.




Quando se inicia com alguma sofreguidão os estudos da história de Portugal, vai-se já com uma ideia formada. Que o passado deste país foi sempre glorioso e dignificante. Contudo, cedo se apercebe que a glória existiu de facto. Mas durou foi muito pouco tempo. E presença constante foi a existência em bardos, de golpes e esquemas que fizeram com que este rectângulo à beira-mar plantado conseguisse subsistir. E se fomos invadidos por algumas vezes, por espanhóis, franceses e até pelos britânicos que juravam que vinham sempre em nosso auxilio, por longuíssimas temporadas, nós permanecemos aqui, sós e ridiculamente orgulhosos desse nosso estado de solidão. Era mesmo assim que falava aquele senhor da Beira Interior, de voz sibilante e de presença discreta.
E a população, necessariamente pouco letrada, procurava fora de portas aquilo que o país se recusava a dar. São tradicionais as gestas de população lusitana que foi habitar em terras tão longínquas com as de Vera Cruz, as localizadas em África, na Ásia e até mesmo na Oceânia.
Contudo os tempos foram mudando. A escolarização foi aumentando de forma gradual e abrangente. E nunca tivemos em tempo algum da nossa existência enquanto nação, uma população jovem e tão bem preparada como a actual. Capacitada para conseguir levar este velhinho país de quase dez séculos, a bom porto. Mas eis se não quando surge esta crise. Que é a mãe de todas as crises. A que fez disparar esta mesma geração para além fronteiras. “Pontapeados” literalmente para fora deste rectângulo. E que desgraçado país é este que trata desta forma os seus filhos! Que mais uma vez os separa de pais, avós, filhos e amigos. E de um clima e gastronomia fantásticos.
Será isto sina? Terão os governadores lusitanos sido formatados num laboratório de horrores? Tipo na maternidade do Frankenstein. Que criaram anticorpos que lhes permitiu expulsar assim de cá as pessoas mais válidas? As que por inerência, seriam as mais capacitadas para fazer com que este país tomasse finalmente rumo? Um porto seguro? Pois, só se pode concluir que a miopia é severa. E as pessoas não tiveram outra alternativa que sair, sair em grande, deste pequenito e muito provinciano país.
Admito que muita gente já estava farta disto. E foi com alívio que saiu daqui. Gostara de aventuras e de conhecer outras realidades novas. Contudo muitos outros existem que não sentiram nunca tal ímpeto. Queriam mesmo era ter ficado por cá. Na sua terra, com o que lhes é mais querido. Uns e outros merecem todo o meu respeito. Mas os últimos merecem toda a minha solidariedade. Que não lhes vale de muito é um facto, mas eu lamento profundamente o seu sofrimento. As suas saudades. E que um dia voltem. Que consigam fazer toda a diferença. Ninguém me garante que um dia, quem sabe se não serei também eu, a levar o dito pontapé, exactamente no sítio onde as costas mudam de nome.
Logo eu que tanto gosto de viajar. Mas que também gosto muito de regressar. E este país é muito mais nosso, do que desses execráveis governantes, que nos estão para aqui a tentar matar… lentamente. Tal qual as rãs em panelas onde se iniciam a fervura de água.
Mas eu continuo a alimentar a esperança de que um dia talvez isto mude. Para melhor, evidentemente. E que juntos nós encontremos finalmente um rumo. Um bom rumo. E que estes governantes todos partam. Em bando e sem bilhete de regresso. E levem com eles as suas honradíssimas mãezinhas.
Pelo exposto, hoje não está a ser nada fácil diverti-me. Fica aqui um triste porém muito inspirado poema de outras eras.

Senhora, partem tão tristes
Meus olhos, por vós meu bem,
Que nunca tão tristes viestes
Outros nenhuns por ninguém.

Tão tristes, tão saudosos,
Tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.

Partem tão tristes os tristes,
Tão fora de esperar bem,
Que nunca tão tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém.

Cantiga, “Partindo-se” de João Roiz de Castelo Branco (séc. XV)

Sugestão de leitura para esta semana: “Os Privilegiados: Como os Políticos e ex-Políticos geram interesses, movem influências e beneficiam de direitos adquiridos” de Gustavo Sampaio.
DIVIRTAMSEMAZÉ! Mas jamais nos neguemos a assimilar (e a rebelarmos-nos) com verticalidade, sobre tudo aquilo que é susceptível de nos causar dano.


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