“Nós somos energia. E estamos
neste mundo a prazo. Quando nós desencarnarmos, iremos ter com toda a
certeza, uma existência diferente. Preferencialmente ligada aos planos da
Divindade”.
Dizia assim Grande Estrela, com muita
convicção.
Grande Estrela auto-denominava-se
assim. Mas de estrela propriamente dito, ele tinha pouco. Pelo menos aos olhos
de Rita, que por mais que esfregasse as vistas, e limpasse as lentes dos seus
óculos de míope, só conseguia ver um homem ainda jovem (33 ou 34 anos) meão de
altura e parco de especiais atracções externas. Estrela havia sido baptizado com
outro nome. Antes das descobertas místicas que o próprio experienciara. Lá
pelos seus tempos da juventude. E agora a par de várias actividades ligadas ao
reiki, ainda sentia que por vezes lhe fugia o pé para uma ou outra consulta de
cariz psiquiátrico. Mas com o mesmo na posição de Comandante.
Da equipa fazia ainda parte Lica.
Constituíam-se assim numa dupla. E Lica era uma mulher que devia andar pela
mesma idade de Grande Estrela. E era com ele que ela ia partilhando (para uma
assistência pouco solene), uns comunicados. Onze ou doze vezes por ano. Com
datas pré-reservadas, não fossem os ouvintes esquecer-se daquela “obrigação”.
Só que aquilo, de obrigação não
tinha nada. E por mais do que uma vez fora afirmado por aquele par místico, que
se uma pessoa ia assistir àquilo ali era porque queria. Rita esfregara desta
vez as mãos. Uma na outra até ficarem cor de carmim. É que esta última verdade por
ela ouvida, concorria pela mesma categoria das outras duas verdades acima
referenciadas. Isto é, até aquele momento Rita verificara que as pessoas geralmente
morrem. É uma tendência, as maganas. E verificava também que nenhuma das
pessoas que ela conhecia, havia nascido no século XVIII. Além do mais se ela
era energia ou não, tal também desmerecera do pouco da sua atenção. Ela dava
conta que era: osso, carne, cabelos e pele, não havia dúvidas. Tinha ainda uma
cabeça e liberdade de pensamento. Agora que quando chegasse à sua vez de subir lá
pró andar de cima, ela fosse disfarçada em gás propano ou em chama de
esquentador? Pois ela não sabia. Mas também não ganhava muito em saber. Tal não
significaria assim um grande avanço. Pois logo se veria. Agora Estrela estar para ali
a dizer que se ela (a Rita) estava ali é porque queria… Pois para ela tal, também
não constituía assim uma grande novidade. Há que convir. Aquelas sessões eram
elaboradas num horário em que ela não tinha muito que fazer. Além do mais, ali
ela sempre podia aperceber-se um pouco de outras visões do mundo, alternativas
à sua própria. Àquela que ela se habituara a teorizar desde que nascera. E que
os seus pais lhe haviam transmitido.
Mas a par disso tudo Rita via,
que a assistência ia diminuindo consoante as partilhas se iam sucedendo. A Partilha Primeira havia sido um sucesso. Com grande parte da comunidade local,
sentada pomposa e expectante em cadeiras de café. Na Segunda Partilha, Rita
assistiu muito divertida à fuga de Ernesto. Ernesto que era o dono da mercearia
ali do sítio. E Ernesto havia também partilhado na vez primeira. E se à
primeira viera ao engano, e ficara pelo Reiki, à segunda ele viera, porque pensara
que naquele café, e naquela noite fossem servidas outras iguarias que não as
tais das palestras. E disso, já bem lhe bastara a da outra vez. Pelo que, e tentando não
dar muito nas vistas, e após ter olhado para a Estrela e mais a sua partener, ele deu “corda aos sapatos” e
saiu ligeirinho dali para fora. Naturalmente procurando de seguida a taberna
mais próxima. E corneando claramente aquele café literário e seu poiso costumeiro.
E as partilhas? Essa lá se foram
sucedendo. Lica a jovem mulher havia sido a criadora daqueles encontros. Depois
procurara auxílio na pessoa do seu grande Mestre. Que era Estrela, claro está.
Lica que até tinha poucos estudos e má fluência. Mas queria porque queria, ser
também ela um dia uma iluminada. Quem sabe uma futura Grande Cometa? Tal situação
a acontecer, só poderia estar nas mãos dela. Mas contando sempre com o auxílio
do seu queridíssimo mestre Estrela.
E com as ditas partilhas, lá se
ia publicitando níveis numerados de outras iniciações à prática. Que praticadas
(era assim que era prometido), iriam com certeza melhorar a existência de
todos. Só que os tais dos “cursos” eram pagos. E bem pagos. Diziam os
entendidos, (que a Rita não conhecia de lado nenhum), que nos tais ensinamento
teria que haver troca. “Recebes ensinamentos bons para ti e para todos os teus
vizinhos e depois pagas”. Ah pois era! “E quem sabe se uma dia, depois de seres
reconhecida como uma Grande Galáctica Brilhante e Confirmativa, não serás
também tu, a ensinar aos pouco-esclarecidos e sacares-lhe também tu umas
maçarocas? Porque isto em tempos de crise…”
Pois… Mas vejamos também uma
coisa: e se alguém reprovasse nos tais cursos iniciáticos? Será que depois também
não seria entendido, como um Grande Buraco Negro?
Mas Rita só sabia que não se
queria iniciar em coisa alguma. Ainda mais em iniciações cobráveis. E bem
cobráveis! Ela só ali ia para ouvir. Para se aperceber de uma ou outra ideia
diferente da sua.
E as Partilhas? Essas lá continuavam a suceder-se. A dedicadíssima assistente Lica
lá ia aparecendo. Sempre a sorrir. Suas bochechas encarniçavam só de olhar para o Grande
Estrela. Buscava-lhe pontualmente a aprovação, mas também o reconhecimento. E
quem sabe se não também a sua incontornável admiração? É que era transparente o facto de
Lica estar para ali muito apaixonada e a suspirar pelo Estrela Maior. Só que lamentavelmente, era mais do que certo,
que o Grande Estrela não lhe correspondia aos impulsos. É que auto-proclamado mago, auto-posicionava-se
na Estratosfera. E a Lica ocupava somente a cadeira mais modesta da estação de
Metropolitano do Areeiro.
E as conversas prosseguiriam. E as
pessoas revezavam-se. Umas foram só às primeiras partilhas e isso bastara-lhes.
Outras foram a todas e iniciaram-se mesmo na prática. Umas afirmavam ter muito
medo dos fantasmas que as perseguiam até casa. Outras juravam por tudo, que o Egas Moniz mais toda a sua família, residia pacatamente lá em casa. E sempre de corda ao pescoço. O que os isentava de pagarem qualquer renda, senhores!
E quanto à Rita? Pois a Rita ouvia e
tirava também as suas conclusões. Se calhar fortemente influenciada pela sua
visão clássica de mulher ligada às letras e às vivências do passado. Vidas
circunscritas a tempos passados e não aos tempos da actualidade. É que lhe
custava imenso a crer, que o Bocage ainda andasse por cá, a cobrir umas e outras. E a
relatar os acontecimentos vividos nos bordéis e demais prostíbulos. Nem concebia
que o António José da Silva, continuasse a insistir em guerras infindas, onde
nunca faltava nem o alecrim nem a manjerona. Esses (achava ela) já haviam
partido há muito tempo atrás. Levando consigo experiências vivenciadas e
únicas. E muitos pensamentos flamejantes.
Mas ali, era outra coisa, o que
o Grande Estrela dizia. E a “sua” dedicadíssima Lica confirmava. E até a D. Engrácia
jurava, que conseguia ouvir todas as noites o Infante D. Henrique a ir à casa de
banho. Lá pelas quatro da madrugada… Só não puxava nunca, era o autoclismo…
Mas, e uma vez que os
ensinamentos e as partilhas, se começaram a repetir, Rita ficou sem grande
vontade de prosseguir com aquela romaria cíclica. Aprendera umas coisas, outras
refutara por não compactuar com inverdades de acontecimentos que a própria aprendera
nos bancos da Faculdade. Ou então nas suas leituras. Dizer por exemplo, que a
Bíblia só fora traduzida do latim ao tempo do acontecimento Vaticano II era
algo que ela não poderia silenciar. E as igrejas reformistas? E Calvino? E
Lutero? Não existiram? E qual é que fora uma das principais preocupações deles?
Não foi a de traduzir para línguas que todos entendessem, as palavras do Senhor?
Pois. Mas o Estrela até era pessoa para aceitar certas criticas.
Estrela, o Grande Estrela, até tinha um certo poder de encaixe. E Lica tinha a
virtude e a abnegação de amar o seu Grande Mestre. O magano é que não ia na
conversa. Aquele malvado!
Mas após uma prolongada ausência,
Rita decidiu voltar às partilhas. Havia sido mais uma vez convidada pela dona
da tasca. Que ao vê-la na rua, a alertara para tão importante
acontecimento. E até podia ser que a coisa, já tivesse evoluído para patamares
superiores. Onde Rita fosse ouvir e aprender outras ideias. Outros pensamentos.
E no dia aprazado lá estava ela.
E mais outras duas ou três ouvintes. No palco já estava Lica. A apaixonada e
muito devotada a seu Mestre. E a Lica ainda estava mais incandescente. E a Rita
verificou in loco que aquela paixão
continuava. Os rubores faciais duplicaram e passaram-lhe até para os dentes. E o
Estrela? Esse continuava na rectaguarda, claro está. Mas, e em relação aos
temas debatidos propriamente ditos? Pois foram quase os mesmos dos das outras vezes.
No fim da noite, Rita ouviu ainda falar
no Banco Alimentar Contra a Fome. Explicaram-lhe que aquilo era uma vergonha! Só dava lucro era
ao Belmiro de Azevedo. À Jonet. E ao Estado Português. Cruzes credo! Senhores! “Malvados
sejais, seus bandidos! Mais todos os vossos milhões”! Pareciam querer dizer. E a Rita perguntava-se
para si própria: “Mas onde raio é que será, que esta gente vai às compras? Será
que vão ao chamado comércio tradicional? Se calhar sim. Mas mesmo nesses
estabelecimentos, não se pagam também valentes impostos? E não será melhor contribuir de alguma maneira,
do que ficar para aqui a criticar, sem fazer nada em prole dos pobrezinhos?
Coitadinhos! É que agora são eles, mas um dia destes…
E aquela sessão foi abrilhantada
com um final surpreendente. Com uma super-tirada da Lica. Da apaixonadíssima
Lica. Quando confessou que também ela um dia havia pago uma refeição a um
pobrezinho. Ela que nem gostava de se enfileirar por essas práticas. Que por si só, não
resolviam grande coisa. Só favoreciam mesmo era os mais ricos. E a continuidade
ad eternum da condição de pobreza. Já a sua
família havia sido tão desfavorecida…
Pois Lica comunicou para a
tribuna, que num dia de invernia, também um pobrezinho se chegara ao pé dela.
Mesmo na altura em que ela se amanhava com um entusiasmante pequeno-almoço. E
o pobrezinho, coitadinho, pedinchou-lhe?
“A senhora não fazia o obséquio
de me pagar qualquer coisinha? É que eu estou cá com uma fome de cão...”
Lica olhou algo receosa pra cima.
Depois rodeou de atenções o seu croissant recheado. Com o fiambre e o queijo em
devaneios. Provocantemente a espreitarem. Depois, ela vislumbrou temerosa de
ataques, o seu leitinho com café de máquina. Quente e moreno como ela tanto
gostava. E no fim, depois de muito pensar, ela lá acabou por condescender:
“Está bem, vá. Diga lá então o que é
que quer.”
E esperou. Ficou para ali mesmo muito
medrosa com o que dali adviria.
Mas, e o pobrezinho, coitadinho?
Pois bem. Ele pediu uma sandes (só com margarina) e um copinho de leite
simples, simples. Bem branquinho e nutritivo. Coitadinho do pobrezinho! “É que
assim, via-se mesmo que ele estava com fome! Com muita fominha mesmo!” Concluía
finalmente Lica, a benemérita-mor.
Perante o exposto foi então muito
fácil de adivinhar. Se o pobre homem tivesse tido a ousadia de pedir um bolo e um
galão directo, sairia dali com um valente pontapé. Ou então com um portentoso sermão, que incidiria totalmente sobre o “Grande Guia dos Comportamentos
Espectáveis Para um Pobrezinho em Condições”.
Sugestão de leitura para esta
semana: “O Diário Oculto de Nora Rute” de Mário Zambujal.
DIVIRTAMSEMAZÉ!
BOM NATAL!!!, com muita saúde e alegria, junto de todos os familiares e amigos. E se tiver que ser com algum pobrezinho também (e pobrezinhos estamos, quase todos nós cada vez mais!), que se use de solidariedade efectiva. Sem lamechismos, mas sobretudo, sem preconceitos.
E DIVIRTAMSEMAZÉ! É um imperativo, amigos.

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