Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

No princípio era o verbo, mas hoje faz-se um balanço.



Desde que me conheço, que sempre fui uma fascinada por esta aventura que consiste em ouvir e contar estórias. Bem pequena e inserida em épocas estivais e demais férias escolares, num meio rural, era à lareira e nas noites de invernia, que eu ouvia as melhores epopeias. E os melhores contadores eram por unanimidade e em exequo, o Ti Manel e a sua dedicadíssima nora, que era também a minha querida tia A. (tia dedicada e sem descendência).
E enquanto ela vagueava por histórias de bruxas e de lobisomens, que identificava como sendo os seus próprios vizinhos, (e como eu procurava nos mesmos, as marcas que a minha tia insistia em dizer que eles detinham), tinha era que ser muito discreta (assim avisava a titia), porque se os visados desconfiassem quem ficava amaldiçoada era eu, o ti Manel perdia-se em enigmáticas descrições, em que a protagonista era (sempre, mas sempre mesmo) a dona de uma loja de venda directa a retalho. Pequeno estabelecimento situado lá nas imediações. E nessas histórias, nós tomávamos conhecimento que a lojista aviava com muito esmero, pacotes de arroz e de farinha. Mas era também muito competente em se aviar ela própria, de cinco ou seis dos seus fregueses. Daqueles que eram os mais jeitosos e assíduos.
E o desenvolvimento da coisa? Pois o ti Manel era parco em comentários. Afinal nós eram apenas, simples e inocentes crianças. Mas quando a temática devia de aquecer, o Ti Manel ria-se muito para ali sozinho. Até às lágrimas, mostrando-nos descaradamente a totalidade dos seus dois ou três dentes. Nós, muito intrigados ficávamos. E pedíamos-lhe impacientes para que ele nos desenvolvesse toda a trama, ou seja, que nos falasse sobre aquilo que efectivamente lhe provocava tanto riso. E que não nos escondesse nada. Mas ele? Ele olhava para nós e ria-se ainda mais. Aquele magano!
Já adolescente, era já eu quem criava as minhas próprias estórias. E quem eram as minhas personagens principais? E quem é que me dava a verdadeira inspiração? Pois eram os meus colegas, professores e pessoal auxiliar. Às vezes chegavam mesmo a entrar nas minhas tramas, até os familiares desses meus amigos.
E como eu gostava daquilo, senhores! E o impacto que tudo aquilo fazia! Tenho a dizer, que não detenho comigo nenhuma dessas historietas, se bem que algumas dessas minhas amigas de longa data, me asseguram que ainda conservam com elas, esses “meus romances”. Guardam-nos quase como se se tratasse de “um verdadeiro tesouro”. E dizem-me que ainda hoje, elas se fartam de rir com todos aqueles meus verdadeiros disparates. Resta-me dizer que as minhas amigas, são também pessoas muito generosas.
Ora as personagens eram mesmo elas. E com a leitura dos mesmos, até certa altura tudo indicava que elas iriam ser muito felizes ao lado dos moços de quem elas mais gostavam. Era pois muito previsível, que elas lessem tudo aquilo, não só com muita voracidade, como também com muita emoção. E elas ficavam para ali convencidas, que as “suas” estórias iriam conhecer um final feliz! Tudo indicava, disse bem, porque mesmo no finalzinho elas (as minhas personagens), chegavam à conclusão que afinal elas não amavam aqueles rapazes belos, viris e simpáticos rapazes, mas sim o professor de matemática, que tinha para cima de noventa e seis anos. Esse sim é que era o verdadeiro galã da história. Quem também fazia muito sucesso e casava sempre no fim, era o jardineiro. Que sendo já velhote e simpático, não devia de gostar lá muito de tomar banho. Seria mais adepto em guardar o máximo da água, para as suas flores, que consequentemente até estavam sempre muito viçosas.
Recordo que certa vez, o tal do professor de matemática, casou com três das minhas amigas. E na mesma cerimónia, com todas elas muito contentes com o que lhes estava a acontecer. E também muitíssimo emocionadas. O seu final (indesejado à partida) era fruto de uma ironia do destino. Que é como quem diz, era devido a toda a minha funesta e perversa vontade.
E com o desenvolvimento da leitura e a sua conclusão? É certo que elas continuavam a ser minhas amigas. Mas por momentos elas ficavam possessas. Quase sem poderem enfrentar o tal professor de matemática. Que por inerência não tinha culpa nenhuma. E maldiziam até o próprio Teorema de Pitágoras. E depois? Ainda iam pisar a relva do outro, que era também o "nosso" fiel jardineiro. Depois, mas algum tempo passava. Regressava-me a inspiração. E nos momentos imediatamente antes da leitura do próximo romance, elas continuavam a acreditavam piamente, que os “seus finais”, poderiam desta vez, conhecer desenvolvimentos diferentes. Muito mais satisfatórios para elas. Elas caiam sempre, aquelas lorpas!
Só que depois eu cresci. Mas, e o gosto pelas estórias? Esse felizmente permaneceu. Recordo com alguma nostalgia, uma troca de correspondência tida entre mim e um certo cavalheiro de quem eu gostava muito. E, como eu gostava dele, senhores! E a meio das desditosas e muito inspiradas missivas, (que eu entabulava só para ele), o mesmo lá me transmitiu que os meus comentários, (fora exactamente assim que ele se referiu às minhas estórias delirantes), “eram deliciosos”. Tenho a dizer que aquele dia, foi um dia muito feliz para mim. E devido a tanta felicidade, eu até acabei por fazer na perfeição, uma espargata e mais três saltos mortais.
Mas, com o decorrer da comunicação, eu fui-me apercebendo que o meu grande amor, afinal era só meu. Oh ignomínia, oh martírio, oh desventura! E o tal sujeito aparentemente, entrou para uma ordem monástica, das que privilegiam o silêncio mais absoluto. Que Deus Nosso Senhor o tenha pois, inscrito no livro dos cavalheiros que lhe são mais dedicados. E eu fui somente um fait divers, sem maiores consequências (passo a redundância), para um período de tempo potencialmente aborrecido. Mas o tempo? Essa continuou a ir passando. Irreversivelmente. E actualmente até já sinto mesmo muita dificuldade, em lhe recordar as feições.
Depois amadureci. Só que aparentemente, o desenvolvimento físico não foi proporcional ao desenvolvimento mental. E para sempre fiquei convencida, que bem poderia conservar um pouquinho só, da “frescura” dos meus verdes anos. Não a nível corporal. Pois eu já sei bem, o que é ter umas rugas (poucas) e uns cabelos brancos (menos ainda)! Contudo achei que seria possível, continuar-me a rir de coisas parvas. Apesar de um certo professor de português, nos ter reproduzido certo dia, a sua opinião, ao dizer-nos: “que quem se ria de coisas parvas era parvo”, ah pois era! Só que eu? Nunca quis saber disso para nada. Ele coitado até já lá está. Na Terra da Verdade. E eu acredito que teria sido muito melhor para ele, se ele se tivesse divertido mais, do que aquilo que se divertiu.
E passados foram mais alguns anos. E apareceu o blogue. Este blogue. Sei de blogues que visito com muita regularidade e que têm só num dia as visitas que eu só consigo ter num ano. Mas isso não me incomoda absolutamente nada. Longe disso. Quando criei este blogue achei que seria somente eu a lê-lo. E a rir-me desassombradamente com alguns dos imensos disparates que aqui são postados. Contudo é com agrado que verifico semanalmente, a visita de leitores que estão em regiões tão fantásticas como a Rússia, os Estados Unidos, o Brasil, a Alemanha, a Ucrânia… Uns vieram cá só uma vez ou duas e isso bastou-lhes. Outros continuam a aparecer. Uns são ainda provenientes daquelas visitas do vampirest e quejandos, que não contam para a estatística, já que o objectivo das suas visitas (feita aleatoriamente e por máquinas) é que depois a nossa curiosidade nos faça ir visitar também os seus sites. Sabem bem daquilo que falo, não é verdade?
Mas eu fico mesmo muito reconhecida e tocada, é com a visita daquele que me lê. Efectivamente. É que no fundo, até já existe uma certa ligação entre nós. Silenciosa é certo, mas viva. Eu que também sou leitora de alguns blogues. Se calhar leio também algum dos vossos sítios de eleição. E também quase nunca comento. Prefiro ficar tranquilamente, a surfar pelas ondas da minha vontade. E também pela livre e descomprometida comunhão com outras estórias fantásticas, vivênciadas por outros que não eu. Um pouco como se juntos, nos fossemos periodicamente encontrando, na lareira bem gostosa, destas linhas virtuais.
Sugestão de leitura para esta semana: “O Jardim do Éden” de Ernest Hemingway.
Um FANTÁSTICO ANO de 2014 para todos!



DIVIRTAMSEMAZÉ!

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