Maria Alice nasceu bem no início da década de 30 do século
transacto. Teve uma infância difícil igual a tantas outras. Nasceu e cresceu na
capital lusitana, mas seus pais haviam vindo da Beira Interior. Sempre bem-disposta,
ela aproveitava a vida da melhor forma possível. Seus pais, que eram somente de
condição remediada, proporcionaram aquilo que lhes foi possível aos seus quatro
filhos. Pelo que promoveram aos quatro somente a instrução primária. Situação aliás,
em nada diferenciada da vivida pela maioria dos outros núcleos familiares.
Maria Alice contudo era feliz. Cresceu, divertiu-se e
procurou o amor. E foram as canções de Francisco José que a conseguiram tirar mais
do sério e sonhar em vir a ser protagonista de uma “bela história de encantar”.
Como ela sonhou com uns olhos castanhos, de encantos tamanhos que fossem motivo
para que ela pecasse, mas de que se não viesse nunca a arrepender. E era tal a
adoração pelo cantor, que tanto ela como as amigas da sua idade, perseguiam o
artista mal sabiam do percurso que ele iria percorrer num determinado dia.
Maria Alice chegou mesmo a romper três meias solas e uma peúga por baixo. Elas
corriam assim e desarvoradas atrás do carro onde o artista de boa figura e voz
se fazia transportar. Bem correr, correr é como quem diz… andavam em passo muito
acelerado, pois não era considerado de bom-tom à altura, que moças novas
andassem a correr atrás dos homens. A Pide podia achar isso suspeito. Podia
tomá-las como umas comunistas desfragmentadas.
E ao que parece, para Alice, os esperados “olhos
castanho”, apareceram-lhe rapidamente, pois ela casou relativamente cedo. Tinha
18 anos. E teve três filhos. Mas tal como a precedente, a sua inaugurada
família não conheceu também substancial riqueza. Foram também eles remediados,
seguindo a mais pura tradição lusitano-salazarista. E nem mesmo depois, com a
Revolução dos Cravos, a coisa melhorou significativamente.
Maria Alice contudo foi muito feliz, atendendo às
circunstâncias. Tanto ela como o marido Augusto viveram em grande harmonia.
Quem os queria ver era sempre em dupla e de braço dado. Depois já com os
filhos. Muito aquela família se gostava de passear pelas ruas. E gostavam de
demonstrar a sua felicidade a toda a hora. Contudo usando sempre do maior
recato. Aliás, era impossível à época ser de outra maneira.
O marido trabalhou toda a vida como “mangas de alpaca”,
enquanto que Alice se ocupou sempre da lida da casa, como doméstica e educadora
principal dos filhos. Mas sabemos que a roda-do-tempo é imparável e
irreversível. E toda aquela felicidade familiar durou até ao momento em que
Augusto com sessenta e poucos anos, morreu fulminado por um ataque cardíaco. Nessa
altura, os filhos já estavam criados e independentizados. E a Maria Alice ficou
inconsolável. Morrera assim aquele que lhe dera uma vida feliz e remediada. Devido
a tal agonia, ela vestiu-se de preto, dos pés à cabeça e chorou muito a morte
do seu querido falecido. Haviam estado juntos por quarenta e nove anos: três de
namoro e quarenta e seis de casamento.
Mas passado algum tempo Maria Alice apercebeu-se que tinha
que sobreviver ao desgosto sofrido. Tal era imperioso e absolutamente
espectável. Ela sabia que a vida era mesmo assim. Quando Maria Alice era muito
nova, era hábito naquela altura, pensar-se (e ainda na altura da celebração do
casamento), que um dos noivos já se encontrava viúvo. Mas será que nessa altura
ninguém congeminava, a possibilidade de que o casal que se estava a formar poder
vir a morrer, e ao mesmo tempo, vitimado por um acidente de viação qualquer? E
que raio de coisa para se pensar num momento tão festivo? Bom, é que há sempre
aquele que insiste em ver o “raio” do copo, meio vazio.
Para poder sobreviver melhor ao luto, Maria Alice
procurou a companhia das suas amigas do passado. Senhora de boa aparência,
mesmo já em época tardia, ela também foi para um ginásio exercitar-se. Ficou
ainda em melhor forma e com os glúteos mais ensaiados. Depois tirou
definitivamente a cor preta da sua vestimenta, coloriu as faces, abrilhantou as
unhas e… continuou a viver.
Mas o destino provocou-a num dia e num momento em que
ela tropeçou na rua, perto de casa. Com o desequilíbrio, ela estatelou-se no
chão e ao comprido. Depois de todo aquele aparato, foi prontamente ajudada a
erguer-se pelo seu vizinho do lado. Contudo no processo, operou-se ali algo que
a Maria Alice não compreendeu. É que no acto, o vizinho inexplicavelmente e
naquele dia ficou, aos olhos de Alice com muito melhor aspecto. Já eram
vizinhos um do outro, há mais de trinta anos. E sempre estiveram ali, porta com
porta. Conheciam-se assim, e mais a algumas das respectivas idiossincrasias dos
lares. Mas ali e naquela hora, àquela agora semi-levantada do chão, o vizinho parecera-lhe
muito com o Brad Pitt no filme Tróia? E o vizinho que nem estava a envergar
nenhuma mini-saia composta por chapas de metal! Mas a Alice rapidamente se
compôs. E achou que tal modificação só se deveria de estar a operar na sua
cabeça. Provocada quem sabe se por algum traumatismo craniano que ela arranjara
com a queda. É que uma queda no lancil e o respectivo esparramar, é coisa para
doer e deixar marca.
Erguida e sacudida, a Maria Alice agradeceu a atenção
do vizinho e procurou regressar rapidamente ao seu domicílio. Mas não é que o
diacho do vizinho não lhe largava a mão? E sempre a perguntar-lhe se ela estava
bem. A fazer-lhe festinhas no cabelo!… Logo o raio daquele ser… recém-jeitoso! “Mas
estaria tudo doido”, pensou ela? Seria devido a algum alucinogénio que
estivesse naquele momento a pairar no ar?
O tempo prosseguiu sem grandes altercações de alma. Mas
a Maria Alice contudo, deu para sonhar com o Silva, e achá-lo sexy mesmo na
hora em que o mesmo ia despejar o lixo. E Maria Alice começou também ela a
regular-se pelos tempos do vizinho. Pôs na cabeça, a ideia de que o “seu” lixo
seria muito melhor reciclado e aproveitado, se os dois se encontrassem na referida
tarefa. E as saudações habituais começaram a ser dadas com muito maior
entusiasmo. Depressa os “Bons-Dias” deixaram de ser suficientes. E à conversa
habitual, começaram a acontecer, outras muito oportunas conversas de ocasião. E
a desculpa variava entre: o estado calamitoso do país. A incerteza da vida
profissional da descendência. A procura exaustiva dos locais onde os produtos
eram mais baratos. As dores nas articulações. E o tempo que se fazia sentir e que
já não era o de antigamente…
Passado algum tempo, procuraram também coincidir, nos
horários em que os dois iam comprar o pão. E as conversas dos dois iam
prosseguindo, aparentemente sem maiores cuidados ou culpas. Contudo aquele seu vizinho
Silva, era ainda… um homem casado. E Ana, a sua mulher começou a desconfiar um
bocado daquela enigmática amizade que ali ia crescendo. Procurou contudo
compreender, fazendo para isso um esforço hercúleo, para não levar nada daquilo
a mal. Nem mesmo quando o marido insistia em ser ele a ir regar as flores que
estavam… na varanda. Nem mesmo quando ele comprou três regadores novos. Nem mesmo
quando ele procurou trinta e nove tipos de fertilizante, diferentes. Nem mesmo
quando ele afirmava que a hortelã da vizinha estava muito mais… repolhuda e
viçosa… que a dela…
E na hora da rega, o Silva aproveitava (e na varanda),
para falar mais um bocadinho com a vizinha. Que também ela estava na varanda, a
regar com muito empenho… as suas miosótis. Ana só não perdoou quando viu que toda
a sua numerosa colecção de manjericos morreu, devido ao excesso de água. Mas e
lentamente, a coisa estava-se a compor. E pouco a pouco ia adquirindo contornos
catastrofistas. Tipo “panela de pressão”.
E foi numa ocasião em que a Maria Alice e o Silva se
encontraram nas escadas do prédio, e aproveitando o facto da luz do edifício se
ter apagado, que eles finalmente trocaram o seu primeiro e muito apaixonado
beijo. E mais uns certeiros apalpões. E foi mesmo por muito pouco, que eles não
foram mais longe naquela actividade libidinosa. Não fora o carteiro a fazer-se
anunciar! Que tocou duas vezes como aliás é o seu costume. Os dois vizinhos,
depois de afilados e muito ofegantes ficaram com uma certeza. Afinal já não
restava a menor dúvida. O amor nascera inevitavelmente entre aqueles dois. E o
sentimento não fora produto da imaginação de ninguém, como desgraçadamente acontece
tantas vezes. Só que o caldo estava assim e irremediavelmente… entornado. E a
Ana passava assim para as “calendas gregas”, mesmo com a crise instalada nas
duas nações.
O casal apaixonado decidiu depois (e não sem a
ocorrência de algumas lutas e trocas de palavras, pouco amistosas), ir viver um
com o outro. E para onde é que eles foram morar? Justamente para a casa de
Maria Alice. O Silva ficou assim com a incumbência de regar (e em exclusivo), a
gerbera principal e favorita de Alice. Só tinha era que evitar a hora em que a
Ana, a sua ex-esposa, estava lá no outro lado a regar, os seus cardos roxos. É
que a situação era delicada e incontornável. Viverem assim todos na maior das
desarmonias. Num género de “paz podre”. Numa autêntica Guerra Fria. Calcule-se
só a agitação presente por exemplo, nas Reuniões do Condomínio? Por outro lado,
Maria Alice procurou também não descer as escadas às mesmas horas em que Ana passava
por lá a fungar. É que a separação, para além de umas vigorosas e
desconfortáveis hastes, trouxe também a Ana uma séria sinusite. Mas a coisa lá
prosseguiu, apesar de Alice ter agora muito medo da ocorrência, de acidentes
com quedas em escadas. É que fora justamente numa queda que começara todo
aquele reboliço.
Aquela troca motivou muita conversa, particularmente
por parte das vizinhas invejosas. Muitas delas sendo casadas vai para tanto
tempo, já não conseguiam obter, os carinhos e os amassos de outras eras. É que
a Lei da Gravidade é tramada! E sem os subsídios, o comprimido azul, tornara-se
assim, num produto de luxo. Que se embrulhava como uma preda e se oferecia no
Natal. E as vizinhas mal-comidas, falavam cada vez menos com os seus esposos. É
que para piorar tudo, havia o facto de não haver pior solidão, do que aquela
que é vivida a dois.
Agora resta desejar a Ana, a ocorrência de bons
encontros. E ela que olhe mais para o lado. Quem sabe se não encontra (e também
ela), um George Clooney lá na Praceta.
Sentado num banco de jardim, e com um saco de plástico na mão. Ou então, dar-se
o milagre, quando por exemplo, ela for levar a vacina da gripe, que este ano é
gratuita. É presente para os velhinhos por parte do nosso querido governo, que
entretanto também lhes ficou com os subsídios. Foi mais ou menos… troca por
troca. Pode até ser, que a Ana encontre o “seu bem”, lá no posto médico. É que
está comprovado que os enfermeiros gostam muito de picar. São assertivos. Mas
ganham é cada vez pior. Como grande parte da população portuguesa.
E quanto ao Silva, recomenda-se também a ele, atenção
redobrada. Não vá ele alguma vez… enganar-se na porta.
Sugestão de leitura para esta semana: “O teu rosto será o último” de João Ricardo Pedro.
DIVIRTAMSEMAZÉ!!!
PS: A última imagem deste vídeo é algo despropositada.
Mas deu-me tanta vontade de rir!!

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