A dupla composta pela Miquelina e
pelo Serafim, constituem um casal (de papel passado e tudo), muito feliz vai já
para 55 anos. E ambos já perfazem a imponente idade, correspondente à dos
octogenários. Contudo e apesar de contarem com algumas mazelas próprias da
terceira ou da quarta vivência, ainda continuam a ter capacidade para viverem, na
companhia um do outro e na sua própria casa.
A filha dilecta, preocupa-se muito
com a segurança dos seus progenitores. E uma vez que ela se dá conta, de que os
seus pais podem muito bem ser presa fácil de meliantes, anda-lhes sempre a fazer muitas
e variadas recomendações. É que finalmente se inverteram os papéis. Se antes
aquilo que ela mais ouvia dos pais era: “Não dês conversa a estranhos”, “Não
andes de boleia com quem não conheces”, “Não comas nada que te seja oferecido
por quem ainda não te foi apresentado” e “Não fumes, pela tua rica saúde” e por
aí fora. Agora é ela (e como membro legitimo da geração mais nova), quem avisa. E a filha repete até
ficar roxa: “Não abram a porta a ninguém”. “Se é para receber visitas, elas que
avisem primeiro que vêm”. “Eu tenho chave para entrar na vossa casa, pelo que
não tenho necessidade nenhuma de tocar à campainha, para vos confundir”. “Nunca
pensem que quem toca à campainha, possa ser eu”. E por último: “Cuidado também com quem
falam na rua (ou mesmo ao telefone). "E cuidado com as informações que dão a
estranhos”. “E se é alguém que não conhecem, ou que têm dúvidas em conhecer que
se vos dirige, o melhor a fazer é virar as costas, mesmo correndo o risco de
parecerem mal-educados”.
Os velhinhos, regra geral lá vão
aceitando as recomendações que como facilmente se verifica, até são para o seu bem. Contudo torna-se um bocado difícil, fazer-lhes ver as coisas. Em primeiro lugar,
porque os tempos de hoje são diferentes (e muitíssimo mais perigosos, que os de
antigamente, no tempo em que os nossos heróis de hoje, ainda eram jovens).
Depois porque nem sempre é fácil dar conselhos aos mais velhos. Ainda mais aos
mais velhos, que durante décadas foram eles que deram (e repetiram até à
exaustão), conselhos aos seus filhos. Na altura, era como se dominassem todos os perigos, enfrentando tudo com coragem e determinação. Mas agora,
é importante realçar o facto de que devido ao avançar da idade, os seus
sentidos já se encontram mais debilitados. E eles muitas vezes, já não conseguem
compreendem tudo o que lhes é transmitido na perfeição, e “à primeira”.
Regra geral, eles não se dão conta
do perigo, nem do facto de já não terem a energia de antigamente. Os que são
filhos de pais velhinhos (de quem gostam muito, e se preocupam com eles) sabem
daquilo que aqui se está hoje a falar.
E os perigos, que são cada vez
mais e disfarçados em formulas absolutamente impensáveis, usando dos recursos e
dos palavreados mais elaborados. Os nossos velhotes são muitas vezes abordados
por indivíduos que são “perigosos lobos com pele de inocentes cordeiros”.
Bem, mas as abordagens a velhinhos (e como se sabe)
fazem-se também (e muitas vezes), através de chamadas telefónicas. É que muitos velhinhos
insistem em continuar a ter telefones fixos. E alguns (serão muito poucos é
verdade), parecem demonstram um grande ódio e uma grande antipatia pelos telefones
móveis, vulgares telemóveis. É o caso do desgramado do Serafim. A filha sempre a
insistir: “Era bom, que tu usasses um telemóvel. É que quando sais, tal apetrecho podia-te
ser muito útil. Puderes telefonar ou para mim ou para qualquer outra pessoa, caso
te visses mais enrascado”. Enfim... é… o blá, blá, blá de sempre.
Mas o Serafim insiste: “Pois, falas
bem mas… eu não quero. Eu não percebo
nada disso. Essas coisas já não são para a minha idade. Ainda mais, eu até
posso ser roubado, precisamente por me verem de telemóvel nas unhas”. E as
desculpas continuam e lá se vão sucedendo ad
eternum.
E a filha lá se vai penitenciando
e concluindo que alguma coisa ela deve de ter feito, para ter merecido... um pai
tão teimosinho.
Mas houve um dia (e não foi há tanto
tempo assim), em que o número do telefone fixo daquele simpático casal saiu na
rifa. Ou seja, durante alguns dias, houve alguém que telefonou para aquele mesmo
número, dezenas de vezes. E mal tocava, lá ia um ou outro dos membros do casal
atender. E do lado de lá, nada diziam, por mais que os velhinhos insistissem em
estabelecer a ligação. Vendo bem a coisa, aquele quadro repetiu-se muito mais do
que aquilo que era desejável. O telefone tocava, os passinhos já cansados
levavam-nos até onde o aparelho permanecia, pegavam-no com carinho e muita dedicação.
Diziam um: “Está lá?”, já meio tremente e algo rouco, mas no lado de lá… nada.
Quando a filha lá foi a casa e ao
assistir àquilo, ficou muitíssimo preocupada. Já tinha ouvido falar que o
recurso às chamadas para os telefones fixos, era uma forma dos meliantes se inteirarem,
se os residentes estavam em casa ou não. Apercebiam-se desta maneira, se se
podia ou não assaltar uma casa sem ter lá os seus habitantes. E aquela
prestimosa filha, mais uma vez os avisou sobre todos esses perigos. Mas… depois
lá o telefone tocava. Ela própria também lá foi atender uma ou duas vezes, e
teve exactamente a mesma resposta, ou melhor, não teve resposta nenhuma.
Como a situação se tornou
insustentável, a filha sugeriu que o telefone fosse desligado e se acabasse de
vez com aquela situação. “Não”, foi o que ela ouviu como resposta do seu pai
Serafim. É que o seu progenitor temia muito, o facto de se não atender uma
qualquer ligação importante se se desligasse o telefone. Mas que chamada tão
importante, poderiam eles receber? “Uma que dissesse que eles eram herdeiros de
uma imensa fortuna?”. “Outra, que dissesse que eles haviam sido escolhidos como
o par modelo nascido na década de 30. E que por isso iriam fazer um grande
cruzeiro pelas Caraíbas, com tudo pago?”. Ou: “outra que os informasse que eles
haviam recebido um prémio valioso. Tinham era que lá ir buscá-lo mas… tinham
que ir todos nus” ou então outra “que informasse que o senhor doutor da Mula
Russa, afinal não poderia dar a consulta de Quinta-Feira, pois tinha uma
urgência qualquer (que regra geral nada mais é, do que querer assistir a uma
partida de futebol de um campeonato manhoso, só que isso… eles nunca dizem)?”
Bem, alguma coisa o Serafim poderia
esperar, isso era mais que evidente. E a filha lá encolhia os ombros e condescendia.
Se calhar ele até tinha razão…
Mas no meio da azáfama, e durante
o tempo em que Serafim foi atender o telefone pela septuagésima quinta vez, a
Miquelina segura no braço da filha e segreda-lhe ao ouvido: “Sabes. Eu ando cá
desconfiada. Sabes o que é que eu acho? O teu pai está à espera de uma chamada
qualquer. E quase que tenho a certeza de que é daquela vizinha ali do prédio da
frente. Sim dessa mesma. Daquela que já é viúva… e que tem umas mamas muito grandes,
que chegam até aqui! (e pôs as suas frágeis mãozitas à altura da cintura). É
que o teu pai e ela… simpatizam muito um com o outro”.
A filha ficou engasgada com uma gargalhada
entalada na garganta. Mas essa risada não poderia nunca ver a luz do dia.
Devido às circunstâncias ali vivenciadas. Mas sossegou a mãe conforme pode. E
disse-lhe ainda que: “Talvez não fosse isso. Afinal como é que a vizinha havia
conseguido o número deles? Ainda mais sabendo que a esposa lá estava?” Resposta
da velhinha: “Daahh!”, ao mesmo tempo que passava com a sua mão aberta em
frente da cara.
Sabemos que os velhinhos ficam
com uns tiques engraçados de observar. E desenvolvem um conjunto de critérios
muitíssimo estranhos. Ficam tementes do que é inócuo por definição, e muito à
vontade quando o perigo é evidente. Dai o facto de Miquelina temer mais a
vizinha, que já é tão coxa e até já ouve e vê tão mal. Que anda sempre a falar
no falecido. Que usa pó de arroz aos magotes e umas sobrancelhas postiças,
riscando na testa, com um lápis bem carregado, uns longos arcos muito
assimétricos. Que leva mais de duas horas a percorrer cem metros. E no entanto,
não teme alguém que pode ser muito perigoso. Alguém possivelmente jovem e muito
ágil, e que só quer fazer-lhes mal pois pretende roubá-los.
Desgraçadamente e como bem
sabemos, estes grupos de verdadeiros gangs, usam cada vez mais, de maior grau de
violência. Devem de estar reunidos em cartéis, que mais parecem sindicatos de
meliantes a auxiliar-se naquele que é o seu ofício. Onde a formação
profissional se deve de dar, mesmo com apresentações em workshops. E com formadores credenciados. Devem de fazer demonstrações de bases de dados, com programas para trocas de informações várias. Infelizmente
(e para mal da nossa segurança pessoal) conseguem ser cada vez mais bem-sucedidos
naquilo que fazem. Devendo de cumprir quase sempre, os seus perversos objectivos...
Valha-nos o São Sinfrónio.
Sugestão de leitura para esta
semana: “O som e a fúria” de William Faulkner
DIVIRTAMSEMAZÉ!!! E dai-nos
Senhor muita paciência…

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