Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

terça-feira, 4 de março de 2014

A procura inusitada.


Francisco da Graça tem para cima de setenta anos. Reformado há mais de vinte ele tem tido uma vida muito sofrível. Sim, porque ele insiste em comer todos os dias. Ele e mais a sua Maria. E se algum dia ele vai ao médico (é mais a Maria do que ele), ele faz contas. Faz muitas contas. E resiste. Ou melhor, lá vão resistindo. Se calhar tal insistência (multiplicada por outros seres com similares particularidades), é capaz de enervar um bocado toda a “nossa” turba governamental.
E Francisco, p’ós amigos o Xiquinho, tem filiação já criada, e a tratar d’outras. Para além do mais, o Francisco é muito religioso. Acredita pouco é em milagres. E por vezes é ainda muito pouco convencional.
Um destes dias, Xico teve que ir levar o lixo. E fê-lo mesmo com muita convicção. Resolutamente ele dirigiu-se para a Ilha Ecológica a funcionar la na Praceta. Para um lado, ele pôs o plástico, no outro, a garrafita de vinho, previamente já chupada. E para o outro, o material biodegradável… E depois disso, ele foi à Mercearia, buscar os dois mantimentos que ele conseguia pagar naquele dia. A ideia do Xico era, depois de levadas as compras a casa, sair novamente munido desta vez, de um pesado missal, para ir ao encontro do senhor prior e mais de todo o seu grupo de fãs. E depois irem rezar em conjunto, pela pacificação do mundo e dos seus arrabaldes. Já à porta de casa, o Xico olhou para as mãos, nelas ele segurava um saco onde constava um pão fresquinho e mais um litro de leite... Nos bolsos ele verificou que para além de um porta moedas desabitado ele não tinha mais nada: E gritou: “MAS ONDE RAIO É QUE EU DEIXEI AS CHAVES?”
Aparentemente, o dia para ele já estava ganho. E ficou para ali absolutamente transtornado. “ E agora?” Ele pensava e repensava. É certo que a sua Maria, também tinha as chaves dela. Assim como os filhos. Contudo as chaves do Xico eram da sua pertença, já para não dizer de que lhe faziam muita falta… E sem ter muito tempo para ficar ali a pensar na vida, pois os seus pensamentos atropelam-se-lhe na cabeça, ele dirigiu-se com muita velocidade… à Ilha Ecológica. Onde anteriormente ele havia colocado os saquinhos daquilo que já não lhe fazia falta. Com tanta dedicação. "Será que foram para ali?" Pergunta-se de si para si o Francisco. Pelo que sem perder mais tempo, ele pôs as suas parcas compras no chão. E… abriu a primeira tampa do lixo. E olhou lá para dentro, depois abriu a tampa do lado. Olhou também. Depois ainda a outra. E ali e in loco, o Francisco teve a oportunidade de verificar, que os vizinhos andavam a fazer muito lixo. Deviam de estar a viver bem, era o que parecia. É que os sacos vinham até cá acima. Mas das chaves? Dessas nem uma ponta. Não as viu, mas reflectiu. “Se calhar eu não as vejo… porque estou no lado de fora”. Pelo que, com alguma altivez, ele alçou uma perna (perna septuagenária porém ainda bastante ágil), e foi lá para dentro. E qual a ilhota que foi escolhida? Pois foi a dos géneros biodegradáveis.
Já lá dentro e instalado, Francisco verificou que os sacos cederam um pouco. Mas nada muito digno de nota, é que ele ainda conseguia ver as cuecas que sacolejarem suavemente, ao sabor vento e no estendal da vizinha… E depois procurou incessantemente pelo meio dos sacos. Mas nada da chave. Oh maldição! E os sacos foram cedendo mais qualquer coisa.
De repente ele ouviu uns passos. Ouviu também uma voz. E do lado de fora ele tinha a vizinha do quarto esquerdo a perguntar-lhe: “Mas o que é que o vizinho anda a fazer dentro do lixo? Resposta pronta do Xico: “Olhe vizinha, nada mais natural de acontecer. Perdi as chaves. E depois entrei no contentor do lixo, não fosse dar-se o caso… Só que as chaves aqui não estão”. A vizinha abismada, coçou levemente a cabeça já grisalha. E depois? Depois começou também ela a procurar. Só que do lado de fora, claro está. Mas nada de chaves… concluíram os dois em simultâneo. Pelo menos ali.
O Francisco reergueu-se. De fora só tinha mesmo o coruto da sua cabecita careca e de vez em quando algo tresloucada. E disse à vizinha: “Sabe, a chave aqui não está. Só que agora eu verifico uma coisa. Eu sozinho não consigo… sair daqui para fora.” Resposta da solicita vizinha: “E agora, senhor Francisco? Eu também não tenho força para o tirar daí sozinha.”
Xico enrubesceu da careca. Pelo menos era aquilo que na altura mais se via. E passado mais algum tempo, a vizinha repara que na estrada iam a passar dois jovens rapazes. Pelo que, pondo as maozitas a fazer de megafone, ela abriu as goelas e pôs-se ali a chamar por eles.
Os solícitos rapazes abeiraram-se imediatamente do local do crime. E dando cada um deles a mão a Francisco, o retiram finalmente do meio de tantos sacos e de outros desperdícios que com o peso se estavam lentamente a afundar.
Francisco saiu de lá com um belo cheirinho! E umas cascas de cebolas enfiadas nas algibeiras... Agradeceu reconhecidamente à vizinha. Agradeceu ainda mais aos simpáticos jovens, que ficaram também eles com uma história para contar. “E,”… Francisco lembrou-se que também havia ido à mercearia. O melhor era mesmo não entrar nas outras ilhotas. Desta vez podia não contar com a sorte. E envergando o tal cheirinho (e levando na mão o saco das compras) ele foi mais uma vez à mercearia. Encontrou as chaves à entrada da lojeca. Bem no meio da relva. As maganas, haviam sempre ali estado. Em plena liberdade. E ao pé de um campo de flores bem cheirosas. Durante duas horas inteirinhas.
Sugestão de leitura para esta semana: “Os Despojos do Dia” de Kazuo Ishiguro.
DIVIRTAMSEMAZÉ! 
E um EXCELENTE CARNAVAL para todos! 



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