Francisco
da Graça tem para cima de setenta anos. Reformado há mais de vinte ele tem tido uma
vida muito sofrível. Sim, porque ele insiste em comer todos os dias. Ele e mais
a sua Maria. E se algum dia ele vai ao médico (é mais a Maria do que ele), ele
faz contas. Faz muitas contas. E resiste. Ou melhor, lá vão resistindo. Se
calhar tal insistência (multiplicada por outros seres com similares
particularidades), é capaz de enervar um bocado toda a “nossa” turba
governamental.
E
Francisco, p’ós amigos o Xiquinho, tem filiação já criada, e a tratar d’outras.
Para além do mais, o Francisco é muito religioso. Acredita pouco é em milagres.
E por vezes é ainda muito pouco convencional.
Um
destes dias, Xico teve que ir levar o lixo. E fê-lo mesmo com muita convicção. Resolutamente ele
dirigiu-se para a Ilha Ecológica a funcionar la na Praceta. Para um lado, ele pôs o plástico, no outro,
a garrafita de vinho, previamente já chupada. E para o outro, o material biodegradável…
E depois disso, ele foi à Mercearia, buscar os dois mantimentos que ele conseguia pagar
naquele dia. A ideia do Xico era, depois de levadas as compras a casa, sair
novamente munido desta vez, de um pesado missal, para ir ao encontro do senhor prior e mais de todo
o seu grupo de fãs. E depois irem rezar em conjunto, pela pacificação do mundo e dos seus
arrabaldes. Já à porta de casa, o Xico olhou para as mãos, nelas ele segurava um
saco onde constava um pão fresquinho e mais um litro de leite... Nos bolsos ele verificou que para além de um porta moedas desabitado ele não tinha
mais nada: E gritou: “MAS ONDE RAIO É QUE EU DEIXEI AS CHAVES?”
Aparentemente,
o dia para ele já estava ganho. E ficou para ali absolutamente transtornado. “ E agora?” Ele
pensava e repensava. É certo que a sua Maria, também tinha as chaves dela. Assim como os filhos. Contudo as chaves do Xico eram da sua pertença, já para não dizer de que lhe
faziam muita falta… E sem ter muito tempo para ficar ali a pensar na vida, pois os
seus pensamentos atropelam-se-lhe na cabeça, ele dirigiu-se com muita velocidade… à Ilha Ecológica. Onde
anteriormente ele havia colocado os saquinhos daquilo que já não lhe fazia falta. Com tanta dedicação. "Será que foram para ali?" Pergunta-se de si para si o Francisco. Pelo que sem perder mais tempo, ele pôs as suas parcas compras no chão. E… abriu a primeira tampa do lixo. E olhou lá
para dentro, depois abriu a tampa do lado. Olhou também. Depois ainda a outra. E ali e in loco, o
Francisco teve a oportunidade de verificar, que os vizinhos andavam a fazer muito
lixo. Deviam de estar a viver bem, era o que parecia. É que os sacos vinham até cá
acima. Mas das chaves? Dessas nem uma ponta. Não as viu, mas reflectiu. “Se calhar
eu não as vejo… porque estou no lado de fora”. Pelo que, com alguma altivez, ele alçou
uma perna (perna septuagenária porém ainda bastante ágil), e foi lá para dentro. E qual a ilhota que foi escolhida? Pois foi a dos géneros biodegradáveis.
Já
lá dentro e instalado, Francisco verificou que os sacos cederam um pouco. Mas nada muito
digno de nota, é que ele ainda conseguia ver as cuecas que sacolejarem suavemente, ao
sabor vento e no estendal da vizinha… E depois procurou incessantemente pelo meio dos sacos. Mas
nada da chave. Oh maldição! E os sacos foram cedendo mais qualquer coisa.
De
repente ele ouviu uns passos. Ouviu também uma voz. E do lado de fora ele tinha a
vizinha do quarto esquerdo a perguntar-lhe: “Mas o que é que o vizinho anda a
fazer dentro do lixo? Resposta pronta do Xico: “Olhe vizinha, nada mais natural de
acontecer. Perdi as chaves. E depois entrei no contentor do lixo, não fosse
dar-se o caso… Só que as chaves aqui não estão”. A vizinha abismada, coçou levemente
a cabeça já grisalha. E depois? Depois começou também ela a procurar. Só que do lado de
fora, claro está. Mas nada de chaves… concluíram os dois em simultâneo. Pelo menos ali.
O
Francisco reergueu-se. De fora só tinha mesmo o coruto da sua cabecita careca e
de vez em quando algo tresloucada. E disse à vizinha: “Sabe, a chave aqui não
está. Só que agora eu verifico uma coisa. Eu sozinho não consigo… sair daqui para fora.” Resposta da solicita
vizinha: “E agora, senhor Francisco? Eu também não tenho força para o tirar daí
sozinha.”
Xico
enrubesceu da careca. Pelo menos era aquilo que na altura mais se via. E passado mais algum
tempo, a vizinha repara que na estrada iam a passar dois jovens rapazes. Pelo que, pondo as maozitas a fazer de megafone, ela abriu as goelas e pôs-se ali a
chamar por eles.
Os
solícitos rapazes abeiraram-se imediatamente do local do crime. E dando cada um deles a mão a
Francisco, o retiram finalmente do meio de tantos sacos e de outros
desperdícios que com o peso se estavam lentamente a afundar.
Francisco
saiu de lá com um belo cheirinho! E umas cascas de cebolas enfiadas nas algibeiras... Agradeceu reconhecidamente à vizinha. Agradeceu ainda mais aos simpáticos
jovens, que ficaram também eles com uma história para contar. “E,”… Francisco
lembrou-se que também havia ido à mercearia. O melhor era mesmo não entrar nas outras
ilhotas. Desta vez podia não contar com a sorte. E envergando o tal cheirinho
(e levando na mão o saco das compras) ele foi mais uma vez à mercearia. Encontrou
as chaves à entrada da lojeca. Bem no meio da relva. As maganas, haviam sempre
ali estado. Em plena liberdade. E ao pé de um campo de flores bem cheirosas.
Durante duas horas inteirinhas.
Sugestão
de leitura para esta semana: “Os
Despojos do Dia” de Kazuo Ishiguro.
DIVIRTAMSEMAZÉ!
E um EXCELENTE
CARNAVAL para todos!

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