Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sábado, 15 de março de 2014

Retalhos de vida... dos pacientes.



Artur tem quarenta anos. Há cerca de três apareceu-lhe uma doença que começa com a letra C, e que já há muito deveria ter sido erradicada do cimo da terra. E Artur foi operado. Fez também os tratamentos a que teve direito. Muito violentos por sinal. E tudo, ele suportou, com uma dose muito elevada de heroísmo. Como tantos outros e outras aliás. E ficou também com o desejo, de nunca mais se ver metido em outra que tal.
Mas há cerca de um ano ele começou a ter uma dor profunda e continuada na perna esquerda. E consequentemente ele também começou a caminhar com muita dificuldade. Seria que o grande e funesto C havia voltado? Com ele, toda a família, amigos e conhecidos desejaram firmemente que não. E até os que eram mais crentes, lhe dedicaram umas orações especiais.
Com o tempo e com os exames realizados, descobriu-se que a doença estava dominada. Toda a gente respirou de alívio. Mas descobriu-se que a causa daquela dor cerrada era devida aos tratamentos que o Artur realizara. Os mesmos foram de tal forma agressivos, que lhe queimaram as vias de alimentação do osso, grosso modo. O mesmo (e consequentemente), estava a ficar cada vez mais fraco, com a possibilidade muito presente da ocorrência de uma fractura à primeira oportunidade. Era pois necessário colocar uma prótese. E o mais rapidamente possível.
A referida intervenção foi então marcada. Com a antecedência considerada necessária para similares casos. E na altura devida, o Artur foi à consulta com mais meia dúzia de velhotas, que tal como ele também tinham os ossos a necessitar de substituição. E no grupo, ali foi dito que a prótese de Artur teria que ser da melhor qualidade possível. E diferente da das velhotas. Afinal o Artur ainda é um homem muito novo. Prespectiva-se mesmo que o mesmo venha a viver por mais algumas décadas. E venha a assistir à continuidade da sua espécie, até a mesma se tornar adulta e voar pelas suas próprias asas.
Mas um dia ou dois antes da marcação da cirurgia, o Artur foi avisado que a mesma teria que se realizar uma semana depois, porque a prótese ainda não havia chegado.
Artur não desanimou com isso. Afinal o que é que era mais uma semana? Ele que já havia passado por tanto… Nada de muito ruim poderia suceder-se com a espera de mais sete dias. Ele se tivesse cuidados redobrados, era natural que a temida fractura não sucedesse naquele espaço de tempo. E uma semana passa rapidamente.
Passada que foi a tal semana, vem finalmente o telefonema a confirmar a operação. O Artur teria era que se apresentar no hospital no dia à tardinha. Depois de devidamente instalado, ele tomaria uma refeição. A partir dessa altura, ele não poderia tomar mais nada.
E depois de um sono, que se desejaria descansado (dentro das possibilidades), far-lhe-iam os procedimentos habituais. Tomaria o banho, seria desinfectado, tomaria a tal pré-anestesia, e dirigir-se-ia já sem ser pelos seus meios, à sala de operações.
E foi assim que aconteceu, com muita simpatia e desvelo à mistura. Artur sentiu antes de adormecer, que estava com sorte. Afinal a doença era traiçoeira, mas o tratamento era possível. E a vida estava logo ali ao virar da esquina de mais um incómodo suplementar.
Chegado então à Sala de Operações (e para que a narração continue a ser possível), vamos acompanhar a fala e também o pensamento de alguns dos profissionais que por ali estavam.
Diz o médico: “Cá estamos!” Ao que responde um enfermeiro: “É verdade, cá estamos. Para mais uma rotina hospitalar”. E pensa o médico: “Bem, é verdade. Já se trata de uma rotina. As pernas que eu já substituí, não têm conta… eu só queria ter mil euros suplementares agora, por cada operação que já realizei.”
Pensa o enfermeiro: “Mais outra anestesia. Mas este aqui ainda é novo! Este mal desgraçado, está a acontecer a cada vez por mais gente. Já lhe dei os procedimentos que o Dr. Girivaldo prescreveu. E a coisa só pode correr bem.”
E todos se põem a postos. As tarefas habituais de iniciação ao processo são realizadas. Os instrumentos necessários já formam um batalhão. E o médico operador diz finalmente:
“Oh Antunes, tu traz mazé aí a prótese, para a colocarmos a este cidadão.”
“A prótese” Exclama Antunes, “Mas qual prótese? E onde é que ela está?”
E põem-se todos ali a procurar. E de um lado, ela não estava. Do outro também não. Abrem-se gavetas e até se espreita por debaixo do penico. E a prótese não estava em lado nenhum? Será que a mesma se independentizara e saíra finalmente da casa dos pais?
Enquanto isso Artur dormia. Nem desconfiava do que lhe estava a suceder. E a operação era assim protelada até aos limites do impossível.
Veio-se a confirmar que a magana da prótese ainda estava na alfândega. Se calhar havia tido problemas com o passaporte. Algum engano com a sua data de nascimento. Ou então com a ocorrência de alguma duvida sobre algum dos seus apelidos. É que é muito comum esquecerem-se algumas letras. E a palavra Carvalho, surge muitas vezes com outra significação.
O que é facto é que o Antunes, teve mesmo que sair dali. E pegar no carro e ir buscar o osso metálico. Veio passadas algumas horas. A operação ainda foi realizada naquele mesmo dia. Só que já na parte da tarde. Com o Artur a acordar a meio e a duvidar da sua real condição. O enfermeiro? Esse olhou-lhe logo para a cara e para os olhitos pestanejantes. E oportunamente o profissional concluiu: “Então já está acordado? Olhe…” E mais palavras para quê?
Artur na confusão mais que natural (atendendo às circunstâncias), achou que aquele ser também poderia ser o São Pedro, que é à muito o guardião do céu. Não segurava era em nenhuma chave, mas num serrote qualquer.
Numa outra situação temos António. Também ele doente oncológico. Há já cerca de cinco anos, fora-lhe diagnosticada a doença. Consequentemente ele fora operado ao cólon. E durante cinco anos, ele não tivera mais manifestações da doença. Só que passados o tal tempo, o grande e terrível C. regressou. E António sabia, desta vez ele teria mesmo que ser ostomizado. Não tinha outra hipótese. Ora bem, tudo menos morrer. A vida é um bem tão raro e preciso, que tem que ser vivida até ao tutano. Mesmo até à última gota. Infelizmente o caso de António não é raro. Há tanta gente nas mesmas condições do que aquela, que ele iria viver dali para a frente… Agora havia que agir novamente. E com alguma rapidez. E passado algum tempo, o António foi contactado pelo Hospital no sentido de se lhe dar conhecimento sobre o dia da operação. Não fora a mesma médica habitual que lhe fizera o telefonema, mas em princípio não havia nada a estranhar. Afinal os médicos trabalham em equipa. E passam necessariamente entre eles, a informação relativa à situação clínica dos vários doentes. E… no dia e hora aprazados, António foi intervencionado. Sem demoras ou outras queixas.
A operação correu bem. E quando o António até já estava no seu sétimo dia do pós-operatório, e a reagir satisfatoriamente, ele recebe mais uma chamada telefónica. Desta vez era a sua médica habitual. E a informar que o António… seria operado já na semana seguinte.
Digam lá então que o Sistema Nacional de Saúde português não é eficaz? Vá tenham lá a coragem de o afirmar? Onde uns não sabem onde param as próteses, enquanto que os outros querem (porque querem) operar duas vezes a mesma pessoa. E só com uma semana de intervalo, Santo Deus! O António ficou para ali a pensar. Mas ele fora operado na vez de quem? E a quê? Mas pelo menos de uma coisa ele tinha a certeza. Já verificara reconhecido, que não havia sido submetido, a nenhuma operação de mudança de sexo. É que o seu Carlos Alberto Júnior ainda por ali estava. E estava a cumprir devidamente a sua obrigação.
Sugestão de leitura para esta semana: “Médicos Fantoches” de Robin Cook.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


Nota: é evidente que tudo isto é triste, como tão bem refere o célebre fado. E aconteceu efectivamente em duas unidades hospitalares distintas, a funcionar neste país sobejamente já intervencionado. E estar para aqui a apelar ao divertimento, após uma conversa deste teor, é capaz de ser um acto a roçar a esquizofrenia. Só que infelizmente, o mal já foi feito e sentido. Resta é desejar aos implicados rápidas e efectivas melhoras. E que depois de tudo isto bem digerido e ultrapassado eles se…
DIVIRTAMSEMAZÉ!

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