Artur
tem quarenta anos. Há cerca de três apareceu-lhe uma doença que começa com a
letra C, e que já há muito deveria ter sido erradicada do cimo da terra. E
Artur foi operado. Fez também os tratamentos a que teve direito. Muito
violentos por sinal. E tudo, ele suportou, com uma dose muito elevada de heroísmo. Como
tantos outros e outras aliás. E ficou também com o desejo, de nunca mais se ver
metido em outra que tal.
Mas
há cerca de um ano ele começou a ter uma dor profunda e continuada na perna
esquerda. E consequentemente ele também começou a caminhar com muita
dificuldade. Seria que o grande e funesto C havia voltado? Com ele, toda a
família, amigos e conhecidos desejaram firmemente que não. E até os que eram mais
crentes, lhe dedicaram umas orações especiais.
Com
o tempo e com os exames realizados, descobriu-se que a doença estava dominada.
Toda a gente respirou de alívio. Mas descobriu-se que a causa daquela dor
cerrada era devida aos tratamentos que o Artur realizara. Os mesmos foram de
tal forma agressivos, que lhe queimaram as vias de alimentação do osso, grosso
modo. O mesmo (e consequentemente), estava a ficar cada vez mais fraco, com a
possibilidade muito presente da ocorrência de uma fractura à primeira
oportunidade. Era pois necessário colocar uma prótese. E o mais rapidamente
possível.
A
referida intervenção foi então marcada. Com a antecedência considerada
necessária para similares casos. E na altura devida, o Artur foi à consulta com
mais meia dúzia de velhotas, que tal como ele também tinham os ossos a
necessitar de substituição. E no grupo, ali foi dito que a prótese de Artur
teria que ser da melhor qualidade possível. E diferente da das velhotas. Afinal
o Artur ainda é um homem muito novo. Prespectiva-se mesmo que o mesmo venha a
viver por mais algumas décadas. E venha a assistir à continuidade da sua
espécie, até a mesma se tornar adulta e voar pelas suas próprias asas.
Mas
um dia ou dois antes da marcação da cirurgia, o Artur foi avisado que a mesma
teria que se realizar uma semana depois, porque a prótese ainda não havia
chegado.
Artur
não desanimou com isso. Afinal o que é que era mais uma semana? Ele que já
havia passado por tanto… Nada de muito ruim poderia suceder-se com a espera de
mais sete dias. Ele se tivesse cuidados redobrados, era natural que a temida fractura
não sucedesse naquele espaço de tempo. E uma semana passa rapidamente.
Passada
que foi a tal semana, vem finalmente o telefonema a confirmar a operação. O
Artur teria era que se apresentar no hospital no dia à tardinha. Depois de
devidamente instalado, ele tomaria uma refeição. A partir dessa altura, ele não
poderia tomar mais nada.
E
depois de um sono, que se desejaria descansado (dentro das possibilidades), far-lhe-iam
os procedimentos habituais. Tomaria o banho, seria desinfectado, tomaria a tal pré-anestesia,
e dirigir-se-ia já sem ser pelos seus meios, à sala de operações.
E
foi assim que aconteceu, com muita simpatia e desvelo à mistura. Artur sentiu
antes de adormecer, que estava com sorte. Afinal a doença era traiçoeira, mas o
tratamento era possível. E a vida estava logo ali ao virar da esquina de mais um
incómodo suplementar.
Chegado
então à Sala de Operações (e para que a narração continue a ser possível),
vamos acompanhar a fala e também o pensamento de alguns dos profissionais que
por ali estavam.
Diz
o médico: “Cá estamos!” Ao que responde um enfermeiro: “É verdade, cá estamos.
Para mais uma rotina hospitalar”. E pensa o médico: “Bem, é verdade. Já se
trata de uma rotina. As pernas que eu já substituí, não têm conta… eu só queria
ter mil euros suplementares agora, por cada operação que já realizei.”
Pensa
o enfermeiro: “Mais outra anestesia. Mas este aqui ainda é novo! Este mal
desgraçado, está a acontecer a cada vez por mais gente. Já lhe dei os
procedimentos que o Dr. Girivaldo prescreveu. E a coisa só pode correr bem.”
E
todos se põem a postos. As tarefas habituais de iniciação ao processo são
realizadas. Os instrumentos necessários já formam um batalhão. E o médico
operador diz finalmente:
“Oh
Antunes, tu traz mazé aí a prótese, para a colocarmos a este cidadão.”
“A
prótese” Exclama Antunes, “Mas qual prótese? E onde é que ela está?”
E
põem-se todos ali a procurar. E de um lado, ela não estava. Do outro também não.
Abrem-se gavetas e até se espreita por debaixo do penico. E a prótese não
estava em lado nenhum? Será que a mesma se independentizara e saíra finalmente
da casa dos pais?
Enquanto
isso Artur dormia. Nem desconfiava do que lhe estava a suceder. E a operação
era assim protelada até aos limites do impossível.
Veio-se
a confirmar que a magana da prótese ainda estava na alfândega. Se calhar havia
tido problemas com o passaporte. Algum engano com a sua data de nascimento. Ou
então com a ocorrência de alguma duvida sobre algum dos seus apelidos. É que é muito
comum esquecerem-se algumas letras. E a palavra Carvalho, surge muitas vezes com
outra significação.
O
que é facto é que o Antunes, teve mesmo que sair dali. E pegar no carro e ir
buscar o osso metálico. Veio passadas algumas horas. A operação ainda foi realizada
naquele mesmo dia. Só que já na parte da tarde. Com o Artur a acordar a meio e
a duvidar da sua real condição. O enfermeiro? Esse olhou-lhe logo para a cara e
para os olhitos pestanejantes. E oportunamente o profissional concluiu: “Então já
está acordado? Olhe…” E mais palavras para quê?
Artur
na confusão mais que natural (atendendo às circunstâncias), achou que aquele
ser também poderia ser o São Pedro, que é à muito o guardião do céu. Não
segurava era em nenhuma chave, mas num serrote qualquer.
Numa
outra situação temos António. Também ele doente oncológico. Há já cerca de
cinco anos, fora-lhe diagnosticada a doença. Consequentemente ele fora operado ao cólon. E durante
cinco anos, ele não tivera mais manifestações da doença. Só que passados o tal tempo, o grande e terrível C. regressou. E António sabia, desta vez ele
teria mesmo que ser ostomizado. Não tinha outra hipótese. Ora bem, tudo menos morrer.
A vida é um bem tão raro e preciso, que tem que ser vivida até ao tutano. Mesmo
até à última gota. Infelizmente o caso de António não é raro. Há tanta gente
nas mesmas condições do que aquela, que ele iria viver dali para a frente… Agora
havia que agir novamente. E com alguma rapidez. E passado algum tempo, o António foi contactado pelo Hospital no sentido de
se lhe dar conhecimento sobre o dia da operação. Não fora a mesma médica
habitual que lhe fizera o telefonema, mas em princípio não havia nada a
estranhar. Afinal os médicos trabalham em equipa. E passam necessariamente entre
eles, a informação relativa à situação clínica dos vários doentes. E… no dia e
hora aprazados, António foi intervencionado. Sem demoras ou outras queixas.
A
operação correu bem. E quando o António até já estava no seu sétimo dia do pós-operatório,
e a reagir satisfatoriamente, ele recebe mais uma chamada telefónica. Desta vez era a sua médica habitual. E a
informar que o António… seria operado já na semana seguinte.
Digam
lá então que o Sistema Nacional de Saúde português não é eficaz? Vá tenham lá a
coragem de o afirmar? Onde uns não sabem onde param as próteses, enquanto que os
outros querem (porque querem) operar duas vezes a mesma pessoa. E só com uma
semana de intervalo, Santo Deus! O António ficou para ali a pensar. Mas ele fora operado
na vez de quem? E a quê? Mas pelo menos de uma coisa ele tinha a certeza. Já
verificara reconhecido, que não havia sido submetido, a nenhuma operação de mudança de
sexo. É que o seu Carlos Alberto Júnior ainda por ali estava. E estava a cumprir devidamente a sua
obrigação.
Sugestão
de leitura para esta semana: “Médicos
Fantoches” de Robin Cook.
DIVIRTAMSEMAZÉ!
Nota: é evidente que
tudo isto é triste, como tão bem refere o célebre fado. E aconteceu efectivamente em
duas unidades hospitalares distintas, a funcionar neste país sobejamente
já intervencionado. E estar para aqui a apelar ao divertimento, após uma conversa
deste teor, é capaz de ser um acto a roçar a esquizofrenia. Só que infelizmente, o
mal já foi feito e sentido. Resta é desejar aos implicados rápidas e efectivas melhoras. E
que depois de tudo isto bem digerido e ultrapassado eles se…
DIVIRTAMSEMAZÉ!

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