Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sábado, 8 de março de 2014

No campo, era um descanso.




Quando eu era mais nova, passava muito tempo da minha existência, no meio rural. Mais lá para o centro. Dizem até que é lá que se encontra o coração do país. Assim como uma forte presença de vestígios templários. A praia foi algo a que nunca me habituei. E cara pálida que sou, tal aparente incompatibilidade, até é capaz de me ter dado um certo jeito. E no campo, era mesmo um descanso.
Era naquele ambiente que eu tinha a possibilidade de participar em algumas das actividades que ali se vivenciavam. E era mesmo só ali. Quase sempre eu participava na condição de “artista convidada”. Hoje ainda sei muito bem como se plantam os legumes. Sei muito bem o que é mondar. E também sei colher, tarefa aliás que sempre foi da minha particular preferência. E se a coisa ainda der mais para o torto, sou pessoa para ter uma horta e cuidar de um burro e de uma cabra, (animais que são da minha total predilecção), como aliás são outros tantos. E em presença desta verdadeira declaração de honra, sempre dispensei Framville’s player's e outras virtualidades. No campo é bem melhor. É ao vivo e a cores. E as saudades que eu tenho desses tempos…
E de todas as actividades que eu ali vivenciara, houve uma que sempre despertou mais a minha atenção, por se tratar de algo com especiais particularidades. E sendo eu na altura uma rapariga romântica (era nova e crente),  era muito tocante o momento em que levávamos os animais a namorar com os seus noivos e noivas. Previa-se, está claro que eles se reproduzissem, a fim de darem lucros suplementares aos seus donos.  Longe estavam ainda os tempos dos créditos facilitados. Falava-se mais no Verão Quente que na crise generalizada. O Durão Barroso ainda era capaz de andar a mudar as cadeiras de sítio. Naquela altura, grande parte dos meus amigos rurais, dispunham somente de duas ou três cabras. De um porco p’rá matança (e essa para mim era uma verdadeira tragédia). Uma ou duas ovelhas… E de machos não havia sinais? Pois não havia sinal. Era só mesmo o porco, mas esse infelizmente iria para a banca, um objecto feito em madeira com quatro pés. Não era o local preferido dos tecnocratas, e de outros tantos seres igualmente bem intencionados.
Os meus amigos (com os respectivos animais), tinham que procurar em outras casas (algumas bem longínquas), os animais masculinos e viris. E era quase sempre a mesma família, quem detinha os machos. Eu nunca compreendi muito bem tais critérios. E questionava-os sobre o facto de que seria procedente, criar também um bode, um carneiro... e evitar assim calcorrear por vezes longas distâncias, com um animal visivelmente apaixonado, mas também claramente transtornado com a viagem e com o escasso trânsito que existia na altura. Afinal havia já à época tanta erva. Que custava ter mais duas ou três cabeças de gado? Além do mais, ficaria tudo em casa. E a dita reprodução, até poderia ser facilitada. Essa é uma questão que os farmevilles workers devem de saber responder de cor.
Ora atendendo às circunstâncias acima explanadas, era mais do que certo de quando as tais bichas acordavam para o amor (que regra geral coincidia com uma Lua qualquer), era assim necessário levá-las à casa de seus noivos. E como já referi, tal acção poderia implicar alguns quilómetros trilhados. Eu ia a título gracioso. Nunca me deixaram conduzir qualquer animal. Ia era no segmento, pois não deixava de apreciar alguma movimentação das massas presentes. E o movimento (claro está) era feito a “pedantes”. E participavam unicamente mulheres. E não sei (nem nunca soube), porque raio é que os homens não poderiam participar em tais actividades. Daria ideias? Por exemplo no caminho, entre árvores e silvados, e tal… As velhas diziam-me na altura, que não nutririam qualquer consideração por homens que se disponibilizassem a efectuar tais acções. Quem o fizesse, (e fosse homem) sentiria assim e para sempre, uma espada a baloiçar perigosamente por cima da sua cabeça. Quem sabe se para sempre não fosse dado como um ser potencialmente invertido? Longe ainda estávamos dos possíveis (e já bastante difundidos) casamentos gay.
E recordo com alguma nostalgia, o facto de ir sempre na companhia de mais duas ou três crianças (meninas, claro está), na companhia de uma senhora (a tal que conduzia o animal). E aquilo era uma festa, senhores!
E nas caminhadas, nós encontrávamos necessariamente muitas pessoas (os campos não estavam desertificados como na actualidade). De uma vez, uma Ti Maria qualquer estranhou toda aquela nossa persistência. É que íamos todos os dias, já há tanto tempo… E não havia maneira de… Pelo que a velhota resoluta, tomou logo ali a iniciativa. E abeirando-se da cabrinha, levantou-lhe o rabinho, olhou atentamente e disse: “Pois… a vossa cabrinha está atrasada… ainda não está de maré!” Bem, atrasada ela não estava. Nós passávamos quase sempre à mesma hora. E naquela altura, não tínhamos assim uma agenda muito preenchida. E como é que a velha sabia se estava de maré ou não? A praia localizava-se a algumas dezenas de quilómetros. E o que era estar de maré? Como é que ela chegou tão facilmente à conclusão, usando uma simples e rápida observação visual? Estaria lá alguma coisa expressa? Avaliaria a cor? O teor da humidade? Ou então a disposição anímica da cabra? Mas achei mal. Calculo que a Ti Maria se oporia se a observassem assim a ela, ou não? Os animais devem de ter garantida, alguma da sua privacidade. E aquele assunto era algo que deveria de pertencer somente ao conhecimento da própria. Quando muito também ao conhecimento de seu noivo. Para quê tanta exposição?
E chegados finalmente à casa desejada, o animal entrava para um curral. E era lá deixado com o seu noivo eventual, a fim de que se conhecessem melhor. E cá de fora, quer os convidados que os donos da casa, envolviam-se em longas conversas que versavam sobre os mais variados temas… Tínhamos ali oportunidade de conhecer aspectos vivenciados por outras pessoas… especialmente… das pessoas que estavam ausentes. Tal era uma tendência clara. E ali se estava. À espera. Recordo o dia em que uma senhora resolveu intervir. Farta que estava das constantes viagens e do pouco caso da sua bicha para o assunto, ela decidiu também entrar para o curral. E ali ficaram os três. Aparentemente, ela forçou o bode a tomar a iniciativa. Motivou-o assim, a tomar a posição necessária à execução do acto. Só que na cabra claro. Eu calculo... Mas fiquei estarrecida. Então a mulher não teve assim qualquer problema de interferir na intimidade das criaturas? Mais tarde, muito mais tarde mesmo, eu ouvi falar da Menage a Trois. Mas naquele ambiente tal facto, fora absolutamente invulgar.
E num dia a propósito dessas mesmas deambulações, um primita minha emitiu um parecer que ficou para sempre no álbum de recordações familiares. A pequena era muito nova. Contava somente três ou quatro anos. E era também incapaz de pronunciar a letra “C”. E quando à mesma ela se queria referir, ela pronunciava a letra “T”. Ora nesse dia, uma vizinha já velhota, questionou a tal pequena, sobre o facto da mesma já estar levantada tão cedo. Tão fresca e fofa... E então perguntou-lhe: “Mas o que é que tu andas a fazer, minha filha? Tão cedo e já a pé? E já chegada de um lado qualquer?” A pequena nem pensou. E de rajada, ela respondeu: "Pois eu já fui com a porta ao porto. E já venho a tomer tastanhas!”
Sugestão de leitura para esta semana: “Casa de Campo” de José Danoso.
DIVIRTAMSEMAZÉ!




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