Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sexta-feira, 16 de maio de 2014

With love.



Queridos Senhores: esta é uma hora muito dolorosa para mim. Apresentou-se-me finalmente o dia da vossa partida. E acredito que este sentimento é capaz de ser comum a tantos outros, portugueses e portuguesas, que tal como eu, por vocês se apaixonaram. E que sabem também à partida, que vos amarão até ao final das suas vidas. Reconhecidamente. Mas dita a decência, que eu fale somente por mim. É que tudo o que tem a ver com sentimentos é matéria melindrosa e muitíssimo pessoal.
Recordo já com muita saudade, o dia em que vocês foram chamados. E depois, como vieram tão ligeiros, senhores! Tal qual o Pepe Rápido. Existem paixões que tardam a aparecer, contudo vocês… até parece que já estavam à espera. E vieram direitinhos, sorridentes e como muita vontade de nos fazer as contas. E bisbilhotarem-nos em tudo. Vieram fazer-nos as contas que nós não soubemos, não sabemos, nem nunca haveremos de saber fazer. É que reconhecidamente, vocês têm essa capacidade imanente e transcendental. Tudo onde vocês tocam, é muito bem capaz de se transformar em ouro. Pelo menos era aquilo que nós esperávamos à altura da vossa chegada. Conseguiram ou não? Bem, se não o conseguiram a culpa não é definitivamente vossa. Nós é que somos uns grandessíssimos estragadões e uns portentosíssimos calaceiros.
Mas vocês vieram e tomaram a vossa posição. E afortunadamente as vossas teorias e práticas obtiveram sempre, (mas sempre mesmo), muitos fiéis e insuspeitos seguidores. Vocês, queridos senhores, tiveram todo um país a seguir-vos indiscutivelmente, apesar dos cortes cegos e sucessivos. E outras tantas ilusões perdidas. Mas vocês estavam, estão e sempre estarão irredutíveis. Vocês é que a sabem toda. E a vosso lado até esteve mesmo, aquela senhora muito benemérita. Aquela da pedinchice nos supermercados. E que bem e tão assertivamente ela veio falar-nos dos bifes. Ora pois… quem somos nós para querer comer bifes todos os dias! Logo os bifinhos daquela tal vaca, que morreu faz tanto tempo! E depois, veio ainda com a ideia do Facebook. De estarmos todos sempre para ali… agarradinhos. Pois… nós somos mesmo uns desditosos e pouco agradecidos seres. Ali, sempre tão incrustadinhos às redes sociais, em vez de nos estarmos a escravizar ainda mais! Pois ainda bem que os senhores estiveram cá! Para nos por na linha, dar educação e resolver todos os nossos problemas.
E como se não bastasse, esteve também do vosso lado, aquele senhor muito altruista, bondoso e muitíssimo bem-intencionado. Um tal que teve, e tem, cargos muito reconhecidos nos bancos. O que nunca falha e que tem exactamente as mesmas dúvidas, que aquele o outro de Belém. E este radioso senhor,  veio assim gloriosamente afirmar, que nós (Portugueses) aguentamos! É claro que aguentamos! E vamos ainda conseguir aguentar muito mais. Ah pois claro! A mim, isso não me custa nada a acreditar. Ainda mais vindo da cabeça de uma pessoa tão boa e que na certa até já sofreu tanto na vida. Com tantas dificuldades financeiras. Coitadinho!
E toda a nossa dificuldade crónica, deveu-se ao facto de nós sermos todos uns grandessíssimos alucinados. Que não sabemos (nem nunca soubemos) qual é que é o nosso lugar. E nem somos sabedores, das nossas próprias possibilidades. Em suma, nós não sabemos fazer as tais contas. Só que vocês sabem! E ainda bem.
Tudo porque um dia nós achamos, que tínhamos direito a ter uma casa. Ter uma casa só nossa, imagine-se! E de aquisição facilitada, devido à acção concertada dos bancos e dos banqueiros, calcule-se! Querer uma casa só nossa? Pois… e que para longe vá o agouro. Então não soubemos nós na altura, que tal direito só pode ser reservado, para alguns pouquíssimos lusitanos? Pois afinal para que é que se fizeram as pontes? Tantas pontes? E os viadutos? Na certa que muito mais gente lá caberá ainda, sob a sua protecção. Assim e mais para o apertadinho, caberemos muitos mais, com certeza. E procedendo assim, deveremos também melhorar em muito, a nossa vida social. Desta maneira, prescindiremos alegremente das tais redes. E constatando isso, teremos que dar razão à tal senhora que tem como hobbie, alimentar os mais pobrezinhos. Temos é que ir reverencialmente beijar-lhe a sua mãozinha caridosa. É que mais tarde ou mais cedo, ela também terá que se ocupar de nós.
E mais a mais há que convir: para que é que nós precisamos de uma casa? Temos que estar é muito mais tempo na casa do patrão. E com franqueza, de onde é que veio a ideia das trinta e cinco horas de trabalho semanal, quando a semana é composta de cento e sessenta e oito horas. Cento e sessenta e oito, senhores! E porque não inverter as coisas? E folgar somente as trinta e cinco horas? Veja-se pois a discrepância.
E depois disso, ter feriados para quê? Para festejarmos a nossa inoperância e a de outros tantos que nos precederam. E que tiveram a sorte de morrer mais cedo, sem terem que assistir a todo este resgate? Pois. Aquele que de nós ainda conserva o emprego, agradece muito encarecidamente ao Divino, poder chegar assim ao fim do mês e receber metade do que recebia há dez anos atrás. É claro que tal é uma fortuna. Até é demais, senhores! O importante e o recomendado, é estar para ali no emprego e a desoras. E poder fazer a higiene pessoal nos balneários públicos. Que antigamente ocupavam os centros das praças. Sim, porque debaixo das pontes e viadutos ainda não existem chuveiros, nem bidés. E desculpem-me por favor queridos senhores, esta minha petulância, mas parece-me que tal situação é problema vosso. Essa medida do saneamento livre e popular, nunca foi previsto naquele vosso excelente e muito vencedor Memorando de Entendimento.
E depois, mantiveram sempre a vossa, Senhores! Austeridade é o que mais se quis e quer. E quando vocês vinham, apareciam sempre com os vossos fatos caros e pastas de cabedal. Sorridentes e muito confiantes pelos corredores do Aeroporto. Era aí que o meu coração mais rejubilava. E para meu sofrimento, por mais que uma vez eu ouvi, vozes de pessoas com os corações muito mais empedernidos que o meu, exclamarem: “Mas estes g@jos já cá estão outra vez?” Quando mais parecia que vocês nem de cá haviam saído. O que vocês devem de ter trabalhado!
Da mesma forma que foi imperdoável, aquilo por que fizeram passar a um dos vossos troikos. Precisamente lá no Aeroporto. Quando não o deixaram seguir livremente, alegando que existiam problemas com o seu visto. Mas onde é que já se viu tal desfaçatez! Impedir assim alguém de entrar? Logo alguém que é declaradamente um dos salvadores da nossa Pátria? Deste lusitano país, agora tão cheio de Sol? Fazer isto, logo aos Senhores que vieram sempre. Mesmo nos dias de maior intempérie. E até com ventania, quando um de vocês até é tão careca! Vieram porque reconhecidamente, vocês também nos amam. Querem sempre o nosso bem. E amarão para sempre, disso eu tenho a certeza. E depois de tanto sentimento, como foi possível sujeitarem-se assim a tais “agradecimentos”? Com franqueza!
Mas o país está melhor! Muito melhor! Pelo menos é o que dizem. Eu, é que ainda não dei assim… muito conta disso. Se calhar é devido ao facto de eu estar para aqui tão deprimida. Por causa da vossa tão recente partida. E de estar assim com os olhos tão inchados de tanto chorar. Na volta, perdi também alguma sensibilidade. E algum discernimento. Assim como uma parte muito considerável do meu salário. Mas se há melhorias (e quem sou eu para disso duvidar), a tudo isso vocês assistiram. E patrocinaram. E deram ainda mais força a que assim acontecesse. E isso apesar de, por alguns momentos, vocês ficaram para lá de desiludidos. Tão tristinhos! Mas isso aconteceu somente em pouquíssimas ocasiões. É que nós estamos aqui muito vergados, senhores. Com as calças já a meio das pernas. Para vos servir somente. E foi só muito raramente que, nós não seguimos a par e passo, no vosso jogo do monopólio. Como o esperado. Como o que vocês esperavam. “Às vezes foi mau”, pensarão vocês hoje. E declaradamente ainda assumiram perante nós, um vosso verdadeiro… terror. E licito! E que grande medo vocês têm, caríssimos. Afinal trata-se do vosso dinheiro. Ou melhor, vocês apresentaram-se aqui como os seus fidelíssimos depositários. Dinheiro esse, que terá que ser pago. Com juros de sangue. E que medo sentem então vocês, pelo fantasma arrepiante do Tribunal Constitucional! Qual Monstro do Lago Ness, qual carapuça!
Mas meus queridos senhores, vocês estão quase, a chegar às vossas casinhas. Vão deixar-nos portanto muita saudade. Assim como muito coração partido. O meu claramente está em fanicos. Irrecuperável até.
Só que há uma esperança, amiguinhos. Ainda nada está perdido. É que eu ouvi um dia destes (num programa de rádio), que vocês prometem voltar. Voltar muitas vezes e até daqui a muitos anos. E eu soube até, que o Nosso Primeiro já vos ofereceu o sofá da sala. Lá da sua casinha de Massamá, como é evidente. Que deve de ter sido paga também, à custa de tanto sacrifício…
Com amor desta cidadã perdidamente apaixonada, mas que também ficou, francamente espoliada.


Sugestão de leitura para esta semana: “Notícias do Paraíso” de David Lodge.
DIVIRTAMSEMAZÉ!

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