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quinta-feira, 21 de agosto de 2014

O "aborto" ortográfico.




Se há coisa aberrante e que jamais contou com um “pingo” que fosse da minha simpatia, foi o amaldiçoado do Acordo Ortográfico. E após ter tido recentemente uma Formação em que a dada altura, foi abordado com algum detalhe tal assunto, eu confesso, fiquei ainda a odiá-lo mais.

Não que a formadora em questão fosse incompetente. Muito longe disso. Ela esforçou-se ao máximo (e sempre) para dar as melhores contribuições, a fim de que o entendimento de tal “aborto”, fosse possível. Contudo, nós sabemos todos que é impossível fazer um bom bolo, com maus ingredientes, por muito bom que seja o pasteleiro.

E a coisa, senhores, roça a mais pura e profunda imbecilidade. Onde não existe uma regra válida e perceptível. Só excepções. E más excepções. Porque “exceções”, não são definitivamente a mesma coisa.

Ora quis o azar que tivéssemos no nosso país, seres muito obtusos, que não tendo muito mais coisas para fazer, ou com que se preocupar, resolveram dedicar-se a tal absurdo. E existindo várias formas de dizer uma mesma coisa, uma mesma acção, achou-se por bem reduzir tudo à mesma coisa. À mesma comunidade. Impondo um sistema de fala e de linguística de nove ou dez milhões, a um universo composto por muitíssimo mais gente.

Na ascensão da Republica, houve essa necessidade. Procedeu-se a uma reforma da ortografia vigente. Mais tarde, quando o Salazar já estaria na sua meia-idade, realizou-se uma outra reforma. Contudo o brilhantismo maior surgiu já no início da década de noventa do século transacto, em que meia dúzia de iluminados tecnocratas, acharam assim de um pé para a mão, que tinham que fazer uma tal reforma, que abrangeria na totalidade, toda a comunidade mundial que eventualmente se expressasse em português. E como havia ainda uma ínfima e minúscula dose de bom senso, se tal é possível referir no que a tal assunto concerne, a forma da “imposição”, teria que ser ratificada pela totalidade dos oito países que compõem a chamada CPLP. E foi durante algum tempo, que se acreditou ingenuamente nessa possibilidade. Muito à imagem do “come e cala”. Mas o que aconteceu efectivamente, foi que a maioria dos países visados, se recusaram a assinar tal. Mas porque é que seria? Sendo que aquilo é “tão bom”! É mesmo um conceito tão vencedor!

E então depois, com a arrogância que caracteriza somente alguns, a meio do jogo, mudaram-se as regras. E, a tal idiotice passaria, com apenas os votos de três visados: a registar: Portugal (como é óbvio), o Brasil (igualmente óbvio e compreensível, uma vez que para eles, a “coisa” pouco ou nada muda) e Cabo Verde. Então, a vontade destes três estados soberanos seria imposta aos outros cinco, os tais que se recusaram a assinar à partida. Perante o exposto, tenha-se então a coragem de negar, que o espírito do Salazar não nos sopra ainda muito no cangote? Fale-se então, se tal for possível, em democracia e na vontade expressa de uma maioria? Pois… isso? É só para os outros. Estamos pois perante uma metrópole grandiosa e incontestável, apesar de minúscula territorialmente e de ter sido sujeita a um Resgate Externo Tenebroso e Humilhante. Mas de peito inchado fez pensar a alguns, que conseguiriam desta maneira, ter sete aprendizes, que precisam mesmo muito de aprender, “com quem é grande”.

E as mudanças? Pois são a coisa mais ridícula e obtusa, que me foi dado a assistir na vida.

Escreve-se somente aquilo que se lê: E desta maneira o Egipto perdeu o seu “p”. coitadinho! Mas os egípcios mantém-no. Ah valentes! Isso até é mesmo aconselhável atendendo às circunstâncias. Pela mesma ordem de ideias, a situação associada àquelas pessoas que se perdem a olhar para um ecrã televisivo sofreu também alterações. E deixaram de ser espectadores para passarem a… “espetadores”. Calculem! Mas tudo isto se pode explicar. É que todos sabemos que a televisão está cada vez pior. Poucos serão ainda aqueles, que a conseguem aguentar. Então, só lhes restará mesmo… espetar. Isto, se para tal, ainda conservarem o engenho e a arte. E depois, que o façam também os egípcios. O “Egito” é que já não consegue, coitado. Uma vez que (aparentemente) ele foi sumariamente decepado.

O “rectal”, também já perdeu o seu “c”. Pois… à primeira vista, parece-me que tal situação, será absolutamente antagónica à sua própria natureza. E vamos lá a ver se ele não perde mais nada! Porque se assim for, ele fica mesmo mesmo… um desgraçadinho. E a um desgraçado, tendencialmente não se sente afecto. No mínimo fica um “afeto”, que é o mesmo… que quase nada.

Algumas das palavras que possuíam hífen entre si, deixam de o ter. A tendência é juntar as duas palavras uma à outra: Mas como é omnipresente em toda esta idiotice, há sempre muitas excepções.

Desta maneira, deixamos de ter um “anti-religioso” e passamos a ter um “antirreligioso”. Cruzes, credo e canhoto! Digam lá que isto não parece ser mesmo coisa do demo. A palavra que surge, lembra-me tudo, menos a figura daquele que anda para aí a pregar a inexistência de Deus e a perseguir os adoradores Daquele em que ele se recusa a acreditar. Convenhamos, a palavra “Antirreligioso”, só me apela mesmo, a uma possível marca para um… raticida. Ah pois, eu já percebi. Mata ratos, mas também poderá matar… religiosos. Só basta mesmo… é prová-lo.

Por outro lado é aconselhável àquele que alguma vez escreveu palavras como: microondas ou microndas, que procure com urgência um sacerdote, e que lhe implore pelo perdão divino. É que a justiça do homem já o condenou. Pois contrariamente ao que por ali se clama, na inteligência torpe e tecnocrata daqueles “linguistas” da treta, a palavra vai ser: micro-ondas. Ou seja, fará o percurso inverso. Passará assim da infância muito recente à hora do parto. Muito à semelhança de um Benjamin Button qualquer. Isto porque se assume, que a palavra tem uma vida. E ocupará uma fase específica do seu estágio existencial. Umas palavras estarão assim mais próximas do seu nascimento/surgimento, outras já estarão na sua adolescência (na puberdade, e com borbulhas no rosto), outras na sua fase adulta. E por aí fora… Ora micro-ondas, são justamente aqueles “seres” que aquecem, mas que se recusam a descongelar convenientemente, os alimentos que nós queremos consumir. E o Salazar, não tinha com toda a certeza, nenhum “desses bichos” lá na cozinha. Nem mesmo a tão voluntariosa D. Maria. Eles só tinham mesmo guardado, era um daqueles raspadores das sobras, que assumiu a própria identidade daquele viúvo que nunca o foi. Um tal objecto que está tão em moda (cada vez mais, se me permitem) nos dias da actualidade.

E “cor de laranja” deixa de ter hífen, mas cor-de-rosa não. Assim, teremos duas cores com tratamentos diferenciados. Mas terá isto alguma coisa a ver com a política, senhores? Libertaram-se desta maneira os laranjinhas, de todas e quaisquer amarras, ao passo que o roseiral permanece para ali igual a si mesmo? Pois não é essa a explicação correcta, garantiram-me. As palavras estão é em tempos diferentes. Ou seja, asseguraram-me que a cor de laranja surgiu muito antes da cor-de-rosa. Daí o tratamento distinto. Mas isso também não me espanta nada, dilectos amigos. E o que é que me pode mais espantar agora? É que eu ainda aqui não confessei, mas tal temática que foi abordada em minha presença, a fim de que eu me pudesse tornar também sua fiel discípula, me fez passar muito mal. Tive mesmo alguns acessos de raiva assim como muitos suores frios. E por breves instantes, eu tive até mesmo, muita vontade de agredir alguém. E quem confessa a verdade…

Mas, e em relação às cores citadas? O que é que poderá ter acontecido? Pois... Não me parece que o Afonso Henriques se gostasse muito de passear de cor-de-rosa. É que  se os mouros o vissem assim trajado, seriam bem capazes de não o levar lá muito a sério. O que ele era bem capaz de ter, era umas pantalonas cor de laranja, que como se sabe, é uma cor muito mais viril. Além do mais, a senhora sua mãe, era pessoa para ter umas camisas de dormir, também em cor de laranja. Lá para as noites de devaneio, entre ela e o Conde de Andeiro. E a causa primeira, seria devida ao facto de que a cor de laranja lhe favoreceria bastante a tez, habitualmente sempre pálida e desgostosa, por ter um filho que lhe batia. E depois, porque trajada de cor de laranja, ela era muito mais visível ao toque, um bocado na onda: “Tu vê lá se me encontras. Mas se não me encontrares, fica sabendo que eu estou logo ali, por detrás daquela arca”.

Da mesma forma, não será expectável, achar que a Rainha Santa, tenha levado rosas, daquela cor que ainda não havia sido inventada. E à palavra do rei: “Mas o que é que tu levas aí, mulher? Escondido no avental?” ela tenha respondido: “São rosas senhor, são rosas! Mas repara bem, oh senhor do meu destino: são todas brancas, amarelas e vermelhas. Não trouxe nenhuma daquela cor que eu não sei dizer qual é.”

Resposta mais que provável do rei: “Pois, vai em paz, mulher! Que desta vez escapas! Mas tu já sabes, eu não gosto nada de subverter o sistema. E vê lá também se acabas, com essa mania de andares para aí a depenicar o jardim todo. É que manifestamente, tu não ganhas nada com isso. E eu depois fico prá aqui… sem nada para cheirar.”

O cor-de-rosa deve de ter sido inventado só no tempo do D. Sebastião. É mesmo provável que ele tenha seguido para Alcácer Quibir, com um modelito em rosa bebé. Ou será rosa-bebé? Assim como também um lencinho de assoar, bordadinho em ponto cruz.. E também não me custa nada a crer, que o próprio Cardeal D. Henrique, tenha tido em grande estimação, um belíssimo par de cintas de ligas, nessa mesma cor. Da cor de algumas das rosas.

Mas nós estamos em desvantagem. Declaradamente. É que eu acredito também que os inventores do “Acordo Ortográfico”, estejam muitíssimo bem informados. Muito mais do que nós (sic). Eles sabem disso tudo e de muito mais coisas. O que se passa, é que eles andaram para aí a perguntar às pessoas, como é que elas falavam. Se diziam “acto” ou “ato”, independentemente de também terem os sapatos desatados. Se diziam “óptimo” ou “ótimo”, isto apesar de se estar a viver na mais profunda penúria. Ou se diziam “eréctil” ou “erétil”, apesar de terem dado a última, antes do Vinte e Cinco de Abril. Logo a seguir “Às Conversas em Família” do Marcello Caetano.

E depois disso esses “especialistas” apuraram, veja-se lá a paciência, qual havia sido a palavra mais pronunciada. E seria justamente essa, a que ganhava. A tal que teria então a honra de figurar nos dicionários. Mas seguindo esta mesma lógica eu questiono: Então, e quando é que surgirá a palavra “treuze”? A palavra “chalxixa”? E a Salada de Carangueijo”? Ai, ai senhores tecnocratas! Garantidamente os senhores não fizeram todo o vosso “trabalhinho de casa”. Merecem pois um tautau…

A dada altura, foi suscitada naquela Formação, a possibilidade de no futuro, todos nós escrevermos: Campequeno. E não senhores, não se trata da variante mais mortal dos cupcakes, nem a referência a um qualquer homem que tenha apenas como seu, uma pequenita courela de terra. “Aquilo” quererá referir-se àquela Avenida Lisboeta que tem também aquele pavilhão de tortura animal e de outras tantas bestialidades humanas. Que está para ali colocado mesmo antes do Campo Grande. Ou será que um dia também escreveremos: Capgrande? E depois vejamos lá outra coisa, se eles, os tais iluminados, têm a certeza de que será mesmo assim que um dia se escreverá, porque não mudar logo tudo com esta reforma? Para quê deixar então para amanhã, aquilo que já se pode fazer hoje? Ai, aí António Variações, tu é que a sabias toda. E infelizmente, deixaste-nos demasiadamente cedo.

E além disso convenhamos, neste trabalho de recolha não houve dúvidas! Ganhou então a democracia (sic, outra vez!). E desprezaram-se naturalmente, as opiniões das três ou quatro pessoas mais cultas e avalisadas, que por ali também fossem a passar.

Mas eu questiono: tenho esse direito, ou não tenho? Se isto é assim, e se se escreve só aquilo que se diz, penso então haver aqui uma séria e muito preocupante discriminação. Mas quem é que foi à Ilha de S. Miguel, Açores, perguntar àqueles mui validos cidadãos, como é que eles falam? É que falar, e perdoem-me por favor o pleonasmo, é muito fácil. E para quando o surgimento… de uma tal medida mais abrangente? É que todos nós temos o direito, e o dever, de convosco falar. Entrevistem-nos a todos, pois então! É que em matéria tão importante como a que aqui é citada, nós não nos podemos fazer representar só por alguns. Façam então mais entrevistas. De todos os milhões. É que amiguinhos, ou há democracia… ou comemos mesmo todos.

Aqui fica então lançado o desafio, aos senhores tecnocratas, que claramente também não têm assim muito mais em que se ocupar. Comecem então lá por Rabo de Peixe, por exemplo, e ponham no papel todas aquelas palavras. Mas todas! Depois vão à Povoação, a Vila Franca do Campo, às Furnas… E continuem mesmo por aí fora. Nas outras ilhas e em todo o Continente. Na Madeira, poderão até apontar a palavra: "Quebanus". Esta eu dou-lhes de barato. E só depois disso queridíssimos, é que nós deveremos novamente conversar, sobre este verdadeiro atentado “abortivo”, que nada poderá ter a ver, com os reais  e soberanos interesses da Língua Portuguesa.

Sugestão de leitura para esta semana: “Vogais e Consoantes Politicamente Incorrectas” de Pedro Correia.
DIVIRTAMSEMAZÉ, mas por favor resistam a tal imbecilidade.





2 comentários:

Tink disse...

Muito bem! A brincar, a brincar, colocou questões muito pertinentes. Eu também não desisto de lutar contra esta aberração denominada Acordo Ortográfico de '90.E preparo-me para lutar contra novos atentados à Língua Portuguesa que se anunciam, vindos do Senado do Brasil.

divirtamsemaze disse...

A luta será grande, Mas no fim venceremos. Disso tenho a certeza. Seja pois muito bem vindo, Blueocean. Estarei atenta, prometo. E ... boa sorte!