Quando Ela o vira pela primeira vez, ficara-lhe indiferente. Pouco lhe tocara o facto dele se apresentar sempre de cara franzida e com roupa irrepreensivelmente engomada. Ainda menos lhe cativara o facto de o mesmo pouco falar. Ora se não falava era porque não queria, claro está. Ou seria também ele um sofredor de Mutismo Selectivo? Pois, num primeiro momento Ela não soubera nada disso, nem nada quisera saber.
Só que inexplicavelmente, ele lá lhe foi procurando a companhia. Buscava-lhe o olhar no silêncio da inevitabilidade dos dias que passavam. E por fim, mas no fim mesmo, ele lá lhe procurara, a palavra. E Ela ficou também a calcular que ele também lhe procurava o consolo. Erradamente, pois muitas são as vezes em que o coração de uma mulher tenta percorrer caminhos jamais idealizados pelo outro diabo. E, foi quase sem dar conta, que ela já estava na dele. E perdidamente exaltada.
Não que os olhos dele, olhos castanhos, cansados e tristes, lhe tivessem feito ver novas e prometedoras realidades. Não que as parcas e pobres palavras por ele proferidas tivessem nela um efeito de tal forma estimulante, que lhe melhorassem de forma significativa toda a sua existência. Não. O que contava é que ele estava ali. E sem aviso prévio, ele ia por ali estando, preenchendo-lhe depois e inexplicavelmente, todas as vagas do seu pensamento.
E, fora a partir dali, que ela sonhara em lhe poder mostrar que as noites de Estio são tão belas! Apascentara igualmente a ideia, de que, e numa noite qualquer, Ela lhe daria a mão e levá-lo-ia a ver as estrelas. E com isto, ela não se estava a referir a um despótico e pouco propositado orgasmo. Nem a outras cenas refractárias, retiradas à sorte de um qualquer Kama Sutra. Não! Ela quisera somente mostrar-lhe… as estrelas. Só isso. E se se deitassem e olhassem para cima, eles veriam juntos, constelações e constelações infinitas. Daria depois para imaginar vidas que, a existirem ou não, em planetas longínquos, também na direcção deles pudessem estar a olhar. Ao olharem para cima, eles perderiam a consciência de que estavam para ali amarrados à terra. E por poucos instantes até poderiam imaginar que estavam a voar. Finalmente livres de quaisquer amarras. E entrariam finalmente em toda aquela imensidão. Pois, todos esses exercícios, haviam sido já experienciados por Ela.
Em outras ocasiões, eles poderiam contar as vezes que o vento ondeava a seara madura. Ouvir-lhes a música que daí resultasse. E fazer jogos com perguntas engraçadas de fazer, em que a resposta era obtida através do número de vagas obtidas. Ou então através da contagem das ondas do mar. Verem os barcos que passavam no mar alto.
Quisera Ela também mostrar-lhe as maravilhas que constituem os dias de Outono. Mostrar-lhe todas as cambiantes florestais. Procurar com ele as paletas de cores, até ali desconhecidas. Para Ela era tudo tão simples, tão diáfano e infantil! Quisera pois Ela amá-lo na simplicidade suprema.
Houve uma altura em que para ele olhara e se enchera finalmente de coragem E quisera chegar a ele. Tentara emociona-lo. Pretender assim levá-lo finalmente com Ela? Tarefa desditosa. Mas, e… contra todas as expectativas, convidara-o a sair. Mandou-lhe uma carta. E depois ficou para ali à espera da volta do correio.
Contudo o tempo veio a confirmar que de nada valera aquele convite. Já que a vontade, se alguma vez existiu, aparentemente se perdera por essas ondas hertzianas afora. Se calhar a mensagem foi ter com as outras mensagens mortas à partida por não serem absolutamente necessárias. Quem sabe se estão todas no além a conversar, ainda meio tontas, sobre aquilo que lhes havia acontecido. Ou melhor: a falar daquilo que não havia acontecido.
Mas para Ela, a raiva se a houve, morrera quase à nascença. E a mágoa, se a houve não chegou sequer ao acto de contrição. Para sempre contudo, ficaram todas as expectativas criadas. E os cenários por ela (e por outros) imaginados, são bem capazes de habitar numa outra dimensão qualquer.
E os anos passaram. Muitos anos aliás. Ela já envelhecida, e munida de um saco, circulava com vagar por um Centro Comercial muito na berra. E das montras, ela via coisas a brilhar. Muitas coisas a brilhar. Depois ela vislumbrava também, roupas coleantes e de cores infinitas. E peles que haviam habitado em outros corpos, que depois seriam sacrificados à vaidade humana. Seguiam-se também lojas com muitos bolos e chocolates. E gelados e gomas em perfusão. Isto apesar da palavra “dieta”, fazer sempre parte da ordem do dia de uma comunidade amorfa.
E Ela, girava por lá. Não que aquele espaço fosse para Ela, o mais apetecido. Dos objectos que Ela por ali via, pouco ou mesmo nada tinha. A sua reforma era pequena, e não dava para muito. Mas também, disso não tinha assim tanta pena. As roupas, não era ali que Ela as comprava. Os chineses eram simpáticos e pediam-lhe poucos ”eulos”. Os ciganos da feira, também eram engraçados de ouvir. E depois disso, as vestimentas nela, duravam-lhe eternidades. E fora por mais do que uma vez, que ela se pusera a remendar. E conseguia fazê-lo com tal arte, que ninguém, mas mesmo ninguém, lhe havia notado a reparação.
O que ela gostava ali de ver, era o movimento das pessoas. Todo aquele frenesi. Umas pessoas, uma grande maioria, estavam sempre muito agitadas. Carregavam sacos e sacolas, que à primeira oportunidade lhes escorregavam das mãos. Outras mais como ela, olhavam somente e tomariam mentalmente nota daquilo que por ali estava exposto. “Quem sabe se lhes viria um dia um Euromilhões no sapatinho? Quem sabe se não iria acontecer uma dádiva (era mais fácil mesmo ganhar o Euromilhões), qualquer governamental? E passeavam-se assim mais calmas, alisando desta feita a espuma dos seus dias.
Ela, também gostava de ver a interacção entre os jovens, carregando com eles as suas inúmeras “maquinetas” modernas. Enquanto que os mais velhos, levavam os seus sacos de plástico, recheados de jornais e de outras demais recordações. E depois, Ela ainda tinha tempo para sorrir a quem por ela passava. Mas a maior parte nem lhe ligava. Achá-la-iam louca? “Olha o Raio da Velha! Mas que petulância!” Quase que pareciam dizer. Mas sempre existia um ou outro que lhe sorria também e com ela assim também interagia. Conseguindo-se à partida uma sinalética que recordava vagamente que mais do que as posses monetária que se guardavam nos bancos, pesava um pouco mais o facto de pertencerem ambos à condição humana.
E foi já perto da saída, que Ela olhou para um casal. Ele de fato elegante, unhas bem cuidadas e com a cara a rigor. Ela bem mais nova, também muito elegante e extremamente bem maquilhada. E os anéis dela refulgiam brilhos em todas as direcções possíveis. E foi por um brevíssimo instante, que Ela pareceu recordar uns tais de uns olhos castanhos. Que um dia no seu passado ela achara tristes. Ele, e por um momento também, pareceu também tê-la reconhecido. Pelo que a olhou mais um pouco, franziu o sobrolho… E, resolutamente, lá deu o braço à sua tão distinta madame, entrando logo em seguida em mais uma loja.
Dos sacos que eles levavam, saiam publicitações várias. Ela ainda teve a oportunidade de ver referências às Canetas Monte Alpinas. E também aos melhores relógios, que dizem ser os rolantes. E num ápice ela vislumbrou ainda outras publicidades a demais roupas das marcas mais luxuosas, que permanecem impolutas de tão desejadas no cimo desta côdea terrestre. Assim e com tanta coisa, seria de prever, que ninguém pudesse ficar levemente decepcionado. “Mas… e seria mesmo, ele?”
“Não”, pensa finalmente Ela. “Não podia ser!”, “Ou então até podia, só que não me reconheceu, no meio de tanta ruga... Ou então, ele não me quis reconhecer”.
Mas, e depois? Pois já nada disso importava. É que para trás das costas tudo fora jogado. Agora ficara-lhe somente alguma nostalgia de alguns dos tempos passados. Em que ela era mais jovem e ligeira. Em que via com muito melhores olhos, o nascer e o por do sol. Em que tinha os seus olhos verdes, ainda carregadinhos de esperança. Em que tinha ainda, a sua querida mãezinha. Em que tinha…
E por fim lá foi Ela. Lá foi prosseguindo o seu caminho. Sem muitas pressas, ou ânsias desnecessárias. Ela que levava com Ela, um único saco. Um saco somente. Que ia cheio de sonhos, polvilhadinhos de açúcar. E isso, bastava-lhe. Como aliás, sempre lhe havia bastado.
Sugestão de Leitura: O Imaginário Medieval de Jacques Le Goff.
DIVIRTAMSEMAZÉ!

Sem comentários:
Enviar um comentário