Claudina tem trinta e picos. Meã de altura quando comparada a uma
nórdica, ela orgulha-se de sempre ter tido um bocadito de peso a mais. Mas não
muito à que convir. É só o suficiente, para lhe permitir chegar às lojas e
falar em números um bocadito maiores do que a sua própria idade. E se o seu
físico já fez torcer o nariz a alguns "jovens" da sua idade, junto aos mais
velhos ela sempre teve as melhores aceitações. “Ah cachopa, tu tás tão
jeitosa!” Ouviu ela sempre e junto dos mais rugosos. Ao que ela modestamente
baixava as vistas, aceitando assim e definitivamente aquele veredicto insofismável.
Certa vez fora mesmo o vizinho da sua mãe. O homem tinha já para lá de
setenta anos. Era viúvo e até algo pacato. E quando a avistou e achando-a
descomprometida, (é que o diacho da cachopa não havia meio de desfilar lá na
Praceta com alguém), se abeirou da mesma e assim como que à queima-roupa se lhe
dirigiu:
“O mundo só pode estar perdido, mazé! Tu aqui sempre sozinha rapariga!
Sozinho, também eu estou. Só que eu já sou velho. Agora tu? Mas que raio de
coisa. Sabes uma coisa catraia: eu por ti, ia ao fundo do mar e vinha se tu
precisasses”.
Claudina ficou muito ensimesmada. Ela que até havia conhecido a
falecida. Que até há tão pouco tempo, ainda gastava os cotovelos no postigo da janela.
A quem depois dera uma travadinha que a fizera ir repousar lá para o cemitério.
Se calhar, ela ainda era bem capaz de estar quente. E o vizinho ali, já a
tentar a sua sorte. Que isto é um bocado como quem atira o barro à parede. Existe a
probabilidade do mesmo cair. Mas se o barro lá ficar… Só que Claudina pensou
(também ela era detentora dessa característica), e achou que era melhor não
aceitar o convite. É que nem ela queria correr risco de vida. Nem desejava que
o vizinho se matasse com o mergulho. E as suas vidas lá prosseguiram sem
maiores dramatismos.
E era desta maneira, que a Claudina sempre contara com a corte de outros tantos
velhotes. Calhava-lhe assim. Não tinha ainda era cedido à tentação. E quando os
mesmos já haviam enviuvado, a coisa até se resolvia. Era não lhes ligar e
pronto. O pior era quando ainda existiam as Mariazinhas. É que essas ao verem o
fogaréu dos seus “santinhos”, se punham para ali, muito revoltadas a rogar
pragas, e a "coser na casaca da gostosona". E a pobrezita que estava para ali, sempre tão inocente… Que as
velhas bem podiam dormir descansadas.
Mas o melhor aconteceu quando Claudina teve que acompanhar o seu
querido padrinho a uma festa. A festa que até seria maioritariamente
frequentada pela camada mais idosa da população. Era assim um encontro de
funcionários (reformados e no activo) de uma empresa portuguesa. Mas nesses
acontecimentos regista-se de forma bastante considerável, muita presença de ex-funcionários.
A festa costuma ser aberta a todos, claro está. Contudo era previsível que os
funcionários que ainda estivessem no activo, não tivessem grande interesse em
rever os seus colegas. Nem mesmo daqueles “que mamam” com resistência, as tetas
entumecidas da Caixa de Previdência. E que por isso mesmo, são seres bastante
odiados pelo “nosso querido” Governinho. Os funcionários no activo,
pressupostamente, vêm os colegas todos os dias. E em relação ao sentimento que
os liga aos velhos? Pois não dá assim tanto azo para a existência de grandes
saudades. Até será melhor que os mesmos não se vejam muito para além do que é expectável.
Previsivelmente.
Só que o padrinho de Claudina já era reformado havia mais de trinta
anos. E gostava muito de ir a tudo aquilo. Só que do seu tempo, ele lamentava-se
que via… cada vez menos gente. Até já lhe custava muito saber das novidades,
que os seus dois ou três colegas, que eram mais ou menos da sua idade, lhe iam insistindo
em comunicar.
E a Claudina? Não fosse devido ao afecto puro e descomprometido que a
ligava ao padrinho, ela não poria nunca lá os pés. Mas sem ela… ele não ia… Ela
sabia previamente que naquelas festas ela não conheceria ninguém. Ela que nunca
havia trabalhado naquela empresa. Nem iria em tempo algum, para ali trabalhar.
Faltavam-lhe os conhecimentos do tal do Senhor da Cunha. E por isso e por muito mais, ela achava que
aqueles encontros eram absolutamente fastidiosos. Aquilo assemelhava-se um
pouco à dinâmica dos casamentos. Pelo menos dos de outrora. Só que ali, ninguém
se matrimoniaria. Pelo menos no local e à vista de toda a gente.
E o Programa das Festas era o seguinte: logo de manhãzinha, entravam
todos para as cinquenta e cinco camionetas. Já instalados, eles falavam em tons bastante acima dos decibéis aconselhados. Paravam depois num lugar… pra bucha.
E depois noutro, que era mais para esticar o pernil. Mas no bom sentido
obviamente. No que será menos… definitivo. E só depois disso, é que eles iam para
um local, preferencialmente a dez mil milhas de distância da povoação mais
próxima. E era ali que começava a verdadeira festa. Sentavam-se todos nas
mesas combinadas e comiam para cima de cinco ou seis pratos. E bebiam muito
vinho. Nos intervalos (e se conseguissem) eles voltavam a falar dos tempos do
antigamente.
A seguir a tal “combíbio”, um grupo musical desafinado, desatava para ali,
a esgrimir emoções. E que lindo que aquilo era! Os “velhos”, já bem quentinhos
decidiam-se a ir dançar. E depois era ficar para ali, a assistir ao desempenho
funesto nas artes cénicas, por parte da antiguidade. Onde não faltavam, os velhinhos
muito garbosos e encerados. Uns com o cabelinho bem ralo e fatos a preceito.
Outros, assim mais… para o desportivo. As velhotas é que iam sempre bem. Cheias
de joias e com muito batom. Mesmo nos dentes da frente. E com as faces bem
rosadas por sopuesto.. E como eles todos dançavam Santo Deus! Até
mesmo os coxos. Usando-se assim das mais variadas coreografias.
Inicialmente a Claudina ainda se punha para ali a olhar. É que dançar
ela não dançaria. Definitivamente. Mas depois fartou-se. Ela começou a achar
que aquilo também era… sempre muito igual.
Com o continuar da frequência de tais festas, ela começou por levar uns
livros, umas revistas e até o Tablet. Também já havia andado a roubar flores. E
até já lá escrevera alguns dos melhores posts,
para um dos Blogues da Concorrência. É que havia de se passar o tempo da melhor
maneira possível. E como as festas se davam em grandes Quintas onde por vezes
até existiam… Parques Ajardinados…
A seguir ao baile, havia o tal do lanche ajantarado. E a finalizar as
hostilidades aquele grupo cantava com muita emoção o hino lá do sítio. E
depois? Era finalmente o tempo das despedidas, com muitos abraços e beijos. E
promessas (algumas que lamentavelmente ficariam por cumprir) de regressar.
Ora foi numa dessas festas e naqueles momentos finais, que Claudina
conheceu o auge do seu protagonismo. Passeava-se ela por entre as mesas rumo ao
exterior, a fim de respirar um pouco de ar menos carregado. E secretamente, ela
já dava graças de tal festa estar quase a chegar ao terminus. Envergava com desenvoltura a sua querida boina castanha. E
maneava a preceito as suas coxas roliças. Eis se não quando, um velhote que ela
não conhecia de lado nenhum, se dirigiu a ela desta maneira: “Mas que mulher
tão bonita você é!” Claudina estanca rapidamente o seu movimento. Pensa um
pouco naquilo que acabou de ouvir, e atreveu-se a responder:
“O senhor desculpe esta minha falta de modéstia. Mas por aqui essa
realidade até costuma ser evidente. É que regra geral eu acabo por ser sempre
das mais novas…”
“Não, não”, respondeu-lhe o idoso: “A senhora é mesmo bonita. E
belezas como a sua não costumam abundar, nem por aqui nem por lado nenhum.”
Claudina achou que tinha o dia ganho. É que é sempre gratificante
receber um elogio. Era evidente, que ela não tinha assim grande responsabilidade
sobre a sua beleza. Afinal herdara-a. A resposta estaria mais nos genes e
pronto. Ela tinha maiores culpas era na beleza do seu caracter. Que era
inquestionável. Agora em relação à fisionomia…
E quando Claudina sorrindo à clara investida, se preparava finalmente para
deixar aquele espaço, foi finalmente surpreendida pela mais recente intenção do
idoso senhor. Quando o mesmo lhe disparou:
“Olhe, eu aproveito para me apresentar, e também dar-lhe a conhecer estes
meus oito queridos amigos. Este aqui é o S. que é dono de um supermercado com
muita clientela. Este aqui é o C. tem a vantagem de ter muitas Acções daquelas
que dão algum dinheiro, mesmo nos tempos das… “vacas magras”. Este aqui é o E. é
ainda agente comercial eu não sei de onde. E tem também uma bela reforma. Estes
dois são sócios. Exploram com muito sucesso três estações de serviço. Este aqui
é…”
E a Claudina conheceu assim e de uma assentada, nove vigorosos
senhores. Muito garbosos e fundamentalmente muito bem de vida. Pelo menos era o
que parecia. E quem é que no seu perfeito juízo (e com a crise que se atravessava),
se recusava a aceitar a proposta de um dono de um Supermercado? Ou a dos proprietários das
tais Estações de Serviço? Ou seria que eles já estavam todos bêbados e no dia seguinte
já não se lembrariam de qualquer… Acção? Claudina contudo, dispôs ali, da admiração de todo um
manancial de nove verdadeiros “pedaços de mau caminho”. Só que não escolheu
nenhum.
Sugestão de leitura para esta semana: “A Força da Idade” de Simone
de Beauvoir.
DIVIRTAMSEMAZÉ! Com uma excelente e gratificante Páscoa.
Sem comentários:
Enviar um comentário