Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sábado, 10 de dezembro de 2011

Incidentes de percurso.


Parte integrante e de muita importância em todo o processo das viagens é a alimentação. E quem é que nunca ouviu comentários tipo: "Não há comida como a portuguesa!", "Em Portugal é que se come muito bem..." etc, etc.
Depois de alguns dias fora, o pessoal começa todo a desabafar, falando da "bela sopa", "do belo cafezito lusitano". A esse propósito sabemos  da opinião dos estrangeiros quanto ao nosso café. Referem-se a ele como sendo pó de café em profusão,  misturado com muito pouca água. Mas nós gostamos tanto dele assim, isso é algo absolutamente inquestionável.
De uma vez e de viagem ao Brasil, ouvi da boca de alguns portugueses, que como eu estavam lá pela primeira vez coisas como: "Então esta é que é a terra da café? Como é que nos servem uma mistela tão "mixuruca"?" Usaram esta expressão natural do Brasil para transmitirem  ares de grandes entendidos, não é?
Mas, falemos hoje um pouco dos cuidados a ter com a alimentação, quando andamos em viagem. A primeira questão que germina nas nossas mentes de pessoas cuidadosas é: "Será que as saladinhas são bem lavadinhas?", "E o gelo que refresca tanto a nossa bebidinha, será que não foi conseguido através da água do charco?", "Será que os cadáveres dos bichinhos, enterrados nesse gelo não ofereceram o seu corpinho à ciência?" Eu juro que de uma vez vi uma senhora a obrigar um cozinheiro, que cozinhava ao ar livre num jardim a deitar uma quantidade imprecisa de ovos fora. O homem tentava fazer... uma omeleta. Ora a mulher cismou que um ovo, que ele tinha colocado na frigideira, estava estragado e, o que é que se havia de fazer? A mulher foi tão determinada na sua argumentação, que o profissional atirou com a omeleta para o lixo. Ora tanto a mim como ao cozinheiro nos parecera que aquele ovo estava absolutamente igual... a todos os outros, mas...
Pois é, amigos,  todos nós temos medo, muito medo de uma coisa! Que a nossa acção fique  limitada com a ocorrência de distúrbios gástrico-intestinais.
Quando fui ao Egipto, acontecia que as baixas provocadas por tão funesto mal iam sendo graduais e progressivas. Por exemplo, ontem o senhor X. ficara indisposto no hotel. Hoje era a vez da sua mulher e da sua filha. Amanhã, adivinhava-se que seria a vez da sogra, da tia solteirona e do canário. O senhor X. entretanto havia regressado à lide, mas vinha muito amarelinho e só comia as pontas de um panado de galinha. E depois sempre e com uma voz muito sumida, lá explicava a todos, que a mulher e a filha tinham ido só de noite, umas duzentas vezes à sanita (ele só conseguira contar as primeiras setenta). Eu ouvia solidária temendo muito o dia de amanhã. É que eu também poderia ter que contribuir para as estatísticas, não é? Mas acreditem, até agora tal situação em viagens, nunca me aconteceu. (Um momento pois estou a bater três vezes no meu telefone de madeira!!!) Já estou isolada.
Há uns anos, um moço de quem eu gostava muito, justificou-se numa manhã, o facto de não ter podido sair comigo à noite. Não pudera sair pois  havia sido acometido de... distúrbios gástrico-intestinais. O meu sentimento de raiva e perante aquela confissão, deu lugar ao facto de ter achado a cena... absolutamente encantadora. Imaginá-lo toda a noite, a correr de calças na mão, sentar-se na sanita e ter o seu ténue e passageiro momento de alívio. Depois e muito a medo, reerguer-se daquele "trono" e de nádegas bem apertadinhas, dirigir-se à sala e sentar-se novamente no sofá. Não descalçaria os chinelos, porque a "contracção seguinte" poderia vir a qualquer momento. Bem, todos nós sabemos que o nosso sentido crítico e a nossa capacidade de discernimento fica dramaticamente abalada quando nos apaixonamos, não é?
Ora uma aflição algo similar a esta, teve contudo contornos bem distintos numa viagem que eu há anos fiz à Polónia. A tal viagem com os padres. As pessoas que me acompanhavam tinham todas já uma certa idade e tiveram o azar de ficar, quase na sua totalidade e ao mesmo tempo, com os problemas acima transcritos. Os que iam escapando, estavam muito preocupados com a continuidade daquela situação. Ora tudo aquilo fora vivido com muito drama e com muito horror por alguns, mas com um sentido de oportunidade desta vossa amiga que se assina e de mais uma outra jovem que na altura me acompanhava. É que nós ali apostávamos uma com a outra, dinheiro e outros favores. Eu explico: Aquela cena faz-me lembrar muito a minha querida avó Maria. Essa rija mulher que já faleceu há alguns anos era camponesa. E entre muitos, tinha um hábito diário de que não abria mão: Por volta das 17 horas, ela abria as suas queridas galinhas da capoeira. Ora eu deliciava-me a ver aquilo. Eram as galináceas  todas a sair ao mesmo tempo. Umas passavam por cima das outras. Depois divergiam nos seus percursos já que ia cada uma para seu lado, cacarejar à vontade e esgaravatar a terra procurando as minhocas mais suculentas.
Agora estava na Polónia e com pessoas, é certo. Contudo, mal se parava numa estação de serviço qualquer, todos aqueles que estavam acometidos por aquela desgraça (e eram muitos), queriam sair do autocarro ao mesmo tempo. Acho contudo que ninguém passou por cima de ninguém. Mas ao contrário das galinhas da minha avó, aquelas pessoas convergiam todas para um único destino: os sanitários. Ora o que é que eu e a minha amiga fazíamos ao olhar toda aquela cena? Pois apostávamos em quem conseguia lá chegar primeiro. Se era a D. Aida, ou se era o Sr. Joaquim? Ás vezes era muito fácil ganhar a aposta, pois quem saía do autocarro primeiro conseguia ter um grande avanço sobre os demais.
Este assunto e não sei porquê, leva-me a pensar num título e a sugerir a sua leitura. Então como sugestão de leitura para esta semana, proponho o livro "Apuros de um Pessimista em Fuga" de Mário de Carvalho.
Divirtamsemazé e BOAS LEITURAS, misturadas com muita alegria. Sei que esta receita não é fácil de conseguir nos dias de hoje mas pelo menos... tentem, não é?


Estamos sempre a aprender. Afinal o nosso mal (e a nossa necessidade), já vem de longe.
DIVIRTAMSEMAZÉ, mas reflictam por favor neste belo poema. E como ele é magnificamente interpretado. 

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