Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sábado, 7 de julho de 2012

A magia do ovo.


Quando eu fui ao Japão eu já era uma balzaquiana, ou seja, eu já tinha uma certa idade. Contudo dizem as pessoas, que eu tenho uma aparência muito jovem. Regra geral nunca me dão a idade que está comprovadamente atestada, na consulta ao meu Cartão de Cidadão. E convenhamos, ainda bem que é assim. 
Contudo tal temática não é para mim muito preocupante. Considero que devemos de manter o espírito jovem. E o corpo, minimamente funcional. As rugas para além do facto, de comprovarem que já por cá andamos há algum tempo, significam que devemos de ter muitas estórias para relembrar e contar. E voltamos a rir novamente, com uma série de coisas, que no passado, nos tiraram do sério. Ou então que de tão divertidas que foram, nos fizeram rir tanto, que nos chegaram a provocar, o derrame de algumas lágrimas. Eu confesso, eu adoro as minhas rugas de expressão. São como que troféus para mim.
Mas nem sempre foi assim. E eu nem sempre tive uma aparência jovem. Quando eu tinha quinze ou dezasseis anos, eu fui pela primeira vez (e única, se calhar fiquei com algum trauma), ao Teatro de Revista. A peça chamava-se: "Lisboa; Tejo e Tudo". E a figura de topo que ali actuava era o actor Carlos Miguel, mais conhecido pelo Fininho, entretanto já falecido. Ora aquele senhor fazia lá uma rábula dedicada à temática do beijo. O homem actuava, falava sobre o assunto e no fim da sua actuação, vinha para junto do público. Depois ele dava (e a meu ver indiscriminadamente), beijinhos a grande parte da assistência, que também na altura já não abundava. A mim também me coube o simpático cumprimento. Até aqui tudo bem. O pior veio depois, quando após uma breve troca de palavras, o actor me solicita que eu depois dê um beijinho ao meu marido, referindo-se ao senhor que estava sentado ao meu lado. Ora o senhor que estava sentado ao meu lado, era o meu pai. O meu PAI. Pessoa que tem (e Deus queira que por muitos anos ainda), mais vinte e oito anos que eu. 
Eu sabia que era muito comum a ocorrência de enlaces matrimoniais em que os seus elementos tinham uma grande diferença de idades um do outro. Mas convenhamos. Eu tinha quinze anos. E para piorar aquilo tudo, o meu "pressuposto marido" era nem mais nem menos, que o meu próprio pai. Aquilo na altura chateou-me um bocado. E deixou-me muito mal humorada. Pensei: "Será que já tenho ar de ser... uma mulher casada?" E confesso, eu na altura não fiquei, com nenhuma vontade de me divertir.
Mas com o passar dos anos, ocorreria precisamente o contrário. E como tudo isso agora me diverte! 
Ora no Japão e nas proximidades do Monte Fuji, mais concretamente na cidade de Hakone, são lá vendidos uns ovos cozidos, de aspecto muito duvidoso, pelo menos para mim. Bem cozidos será uma metáfora. A cor dos mesmos é preta (como aliás atesta a fotografia aqui postada), são cozidos no vapor de um vulcão. Sujeitos a todo aquele enxofre. Ora são cozidos... mas cozidos é como quem diz. É que quando se abrem, eles estão praticamente crus. Eu nunca entendi o porquê da paranóia dos japoneses para tudo aquilo que é cru. Será muito saudável, certo. Mas a comida deles... não sabe a nada! Sim, poderei não ser a pessoa mais requintada do mundo. Mas definitivamente... aquilo não me convence. E estou convencida que depois de passar toda esta moda, se voltará em massa, ao Bacalhau à Gomes Sá e também ao arrozinho de grelos.
Ora naquela cidade eu decidi comprar seis. Seis ovos pretos. É que ali os ovos, não se vendem à unidade! Reza a lenda, que aqueles ovos são mágicos. Diz-se que quem comer um daqueles ovos, prolonga a sua vida em sete anos. Os ovinhos ao serem  cozidos (bem serão mais... aquecidos) na fuga do próprio vulcão, estão sujeitos a toda uma série de químicos que ali abundam e que lhe conferem aquela tonalidade tão escura. Assim como lhe atribuem, todas as suas propriedades mágicas.
Eu comi um, confesso. Mas aquela experiência não foi assim muito memorável. Foi até bastante penosa. Eu só consegui comer um. É que não é nada agradável para mim, colocar na minha boca um ovo... cru. Eu que até nem gosto nada de gemadas. Mas ali eu não poderia perder a oportunidade, não é? Agora sempre posso contar com um acréscimo de mais sete aninhos. E viverei assim e gloriosamente até aos 157. Pelo que foi no sossego do meu quarto de hotel que a muito custo, eu lá emborquei um ovo cru, mágico e japonês. Tal qual como se o fizesse, com um muito pouco confiável shot.
No dia imediatamente a seguir, eu estava pacatamente a tomar o meu pequeno almoço. E um casal português que estava, tal qual eu, em pleno gozo de férias em terras nipónicas, decidiu perguntar-me a idade. Eu sem rodeios, respondi que tinha quarenta anos. Nem mais nem menos. O homem põe-se a olhar para mim, depois para a sua patroa. A mulher olha para o seu compagnon de route, depois fez uma cara de grande incredulidade. E no fim disse-me: "Pois bem... eu não lhe dava mais que vinte e oito.
E foi assim meus amigos, que com um simples ovo japonês, eu perdi, e numa penada... doze anos. Não tive que recorrer a cirurgias, nem tive que fazer nenhuma dieta estapafúrdia. Também não tive que colocar nenhum botox. Nada! Foi somente necessário... engolir um ovo cru japonês.
Mas agora, eu estou aqui a pensar. Terá que ser mesmo um ovo japonês? Não poderá dar-se o milagre com um ovo de uma outra qualquer nacionalidade? Se calhar...? E vendo bem, também não foi assim tão custoso comer aquele  ovo cru, que diabos. Também não foi assim nenhuma tragédia. E na volta o ovo por si só é que nos faz parecer bem mais novas. E se calhar até nem são assim tão necessários... os gazes vulcânicos. E eu que até ali tenho dois ovos no frigorifico. Um momento porque eu agora, vou comer uma gemada (...)
Pronto! Já regressei, sinto-me outra. Muito mais leve. Muito mais positiva. Muito mais bonita. Mais... tudo.
Mas o que é isto, Meu Deus? Eu estou cheia de borbulhagem na testa. Será alguma reacção alérgica? Ou será o inicio da minha puberdade?
Sugestão de leitura para esta semana: "O Estranho Caso de Benjamim Button" de F. Scott Fitzgerald.
DIVIRTAMSEMAZÉ e vivam boas e inesquecíveis experiências.


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