Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sábado, 30 de junho de 2012

Gato, o intruso.


Joaquim era um rapaz muito divertido. Vivia numa pequena aldeia e namoriscava todas as moças das redondezas. Joaquim estava convencido de que era homem suficiente para encantar um grande número de raparigas que, como ele, tinham muita vontade de amar. E para que conste era nessa sua intenção, muito bem sucedido.
Mas havia na aldeia uma excelente moça, recheada de muitas e viçosas carnes. Na altura, tal excesso de carnadura era tido como algo muito bem visto pela sociedade, particularmente pela sociedade lusitana rural. A fome e em tais ambientes, durante o Estado Novo grassava. Pelo que a pessoa que era mais forte, era tida com alguém, capaz de pertencer à classe dos mais ricos. Uma vez que (e visivelmente isso era comprovado), não sofria de qualquer carência alimentar. E podia comer tudo o que queria.
Alice era o nome da "rapariga forte". E ela era uma rapariga muito divertida, filha única de um casal remediado. Ela achava que o amor tinha que ser vivido na mais perfeita plenitude, sem qualquer atropelo. Sem preconceitos bacocos. E, com o tempo, também Alice se embeiçara pelo garboso Joaquim. Este de sorriso maroto no rosto, não se negava a ninguém.
Num ápice, e depois da Missa Dominical, Alice começou a conversar com Joaquim. Num momento,  eles se agradaram muito um do outro. E prometeram um ao outro, que se iriam encontrar muito mais vezes. Para contento das duas partes.
Aqueles tempos eram bem diferentes dos que se vivem na actualidade. Mas que ninguém julgue que o sexo, era somente, acontecimento pós nupcial, não senhor! E uma prova de tal, é a história que eu hoje aqui conto. Com o continuar das conversas, Alice acabou por convidar o Joaquim a ir lá a casa, mas de uma forma muito pouco convencional. Alice não estava muito interessada em apresentar o belo do Joaquim aos seus progenitores. Não. Ela queria lá saber disso? Ela não queria estar para ali a "namorar de janela", a enxotar mosquitos e a gritar e a ouvir (com dificuldade, devido à distância), promessas vãs. Não. O que ela queria mesmo... era acção.
Mas o encontro teria que ser dado a altas horas da noite. E a entrada na casa não poderia ser... através da convencional porta de madeira da entrada principal. A reunião dos dois, obrigava a que Joaquim fizesse uma escalada de três ou quatro metros de altura. E depois realizaria uma entrada em pleno, que se daria por uma janela escancarada e, munida com umas muito belas cortinas em croché...
Após este encontro tácito, o mais previsível seria... começar ali uma festa grandiosa, necessariamente silenciosa, pois os pais da moça estavam a dormir logo ali ao lado. E se os namorados se safassem... óptimo, porque isto é como quem diz: coração que não vê (ouve), coração que não sente. E os encontros de amor foram-se assim sucedendo. As alegrias foram contagiando ainda mais, aqueles dois corpos jovens e desejosos de paixão e de cambalhotas.
Mas numa bela e muito quente noite de Agosto, aconteceu uma pequena imprevidência que nunca esteve nos projectos mais remotos daquele jovem casal. É que ao entrar pela janela do amor, o Joaquim desequilibrou-se e teve que se segurar a uma telha para não cair. Sendo o Joaquim um homem elegante, não era de todo desprovido de peso, claro está. Pelo que ao segurar-se na telha, fez com que a mesma saísse do seu local e se estatelasse no chão com um grande estardalhaço.
É evidente que a barulheira, acordou o muito comportado casal de progenitores, que muito castamente dormia no quarto do lado. Do quarto da sua adorada e muito dinâmica filha. O casal de amantes, ficou estarrecido com o sucedido. E do quarto ao lado, ouve-se a voz aflita de uma mãe de meia idade, muito preocupada com a segurança da sua filha. E diz aflita: "Mas o que foi isso, minha querida filha? Estás bem? Não tens nenhum ferimento...?"
Ao que num imediato responde a despachada Alice: "Pois o que é que havia de ser minha mãe? Foi o desarvorado do nosso gato!"
O casal mais idoso ficou mais tranquilo. Continuou assim na mais perfeita harmonia. Presumivelmente destapados (pois tratava-se de uma noite muito quente de Verão), mas em cima da sua casta cama. Enquanto que a filha, naturalmente que "cabreolou", mais uma vez, com o muito jeitoso e dotado Joaquim.
Com esta história e naturalmente na minha cabeça, contudo ficou uma preocupação. Quantos gatos têm sido acusados ao longo de toda a História da Humanidade, por crimes que nunca cometeram? É fácil acusar um pobre felino que apenas mia, e que não tem capacidade para se defender. Que não usa do nosso tipo de linguagem. E não pode contar com a 'tradução simultânea'.  Já para não falar de todos aqueles gatos que foram assassinados no tempo da Santa Inquisição. Tempos negros em que muitas mulheres foram acusadas de serem bruxas assim como os seus gatos de estimação. E depois acabavam  todos, a servir de combustível a uma grande fogueira.
É tempo de se mudarem os paradigmas e de cada um assumir as suas próprias culpas. Nem que para isso uma filha solteira, considerada muito casta e mulher de bem, seja encontrada a "ginasticar-se" em cima de uma cama, com um garboso e enérgico senhor.
Sugestão de leitura para esta semana: "Viagens com o meu gato" de Claire de Vries.


PS: Esta história contou com o Alto Patrocínio de Júlio César, que sendo gato, me quer fazer crer que não têm todas as culpas de que eu o tenho acusado. E mais, mia-me dizendo que tem levado algumas chineladas em vão. 
Outra coisa: escusam de estar a tirar conclusões precipitadas: É que eu sou muito nova, para ter vivido no tempo do Estado Novo.
DIVIRTAMSEMAZÉ!!!

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