Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sábado, 23 de junho de 2012

Lamentações.


Há uns anos eu fui a Israel. E fui integrada numa Peregrinação de gente muito religiosa. Eu não serei a pessoa mais crente do mundo (pelo menos comparando-me com as pessoas que são muito crentes e que têm muito orgulho nisso. Pessoas que nunca têm dúvidas). Mas eu também  fui à Terra Santa e respeitei. Também é o que se exige não é?
Em Jerusalém, eu quis também ir ao Muro das Lamentações. Na mão direita eu levava alguns papelinhos. Levava um meu, (naturalmente contendo os meus mais secretos e inconfessáveis desejos). E também alguns papéis de amigos (que eu abri e li, pois não queria correr o risco de ser correio inocente de desejos que pudessem pôr em perigo toda vida da humanidade).
Diz a tradição que o referido Muro é a ligação mais directa e necessariamente mais curta entre o ser mortal e Deus Nosso Senhor. E eu não poderia nunca perder uma oportunidade dessas. Eu que me assumo como a  mais pecadora e imperfeita das criaturas de Deus, achei que também poderia haver ali um lugarzinho  para mim. E muito agarrada eu fiquei ao Muro.
Mas ao chegar perto do Muro deparei-me com uma grande dificuldade. É que é muito difícil chegar ao pé das pedras, pois está lá sempre muita gente. Para quem não sabe, tenho a dizer que, o Muro se encontra dividido em duas partes. De um lado está o lado reservado aos homens. Do outro está a parte utilizada pelas mulheres. Refiro ainda que a parte dos homens é bem maior que a parte das mulheres. Será para aí quatro vezes maior, sem exagero. Mas eu apesar das dificuldades, cheguei-me à frente, com toda a determinação que me é característica. Coloquei mesmo lá toda a papelada que levava comigo, muito bem arrumadinha entre os espaços das pedras. Não pude foi ficar lá ficar muito mais tempo, porque as minhas colegas detentoras de "passarinha", também lá queriam permanecer, rezar e colocar outros papéis. Aquilo é mesmo bastante frequentado. E pronto.
Curiosa eu olhei depois para o lugar ao lado, que é o lugar reservado às orações masculina. E vi que o mesmo para além de ser muito maior, estava também muito menos frequentado. As mulheres para além de serem muito mais religiosas, têm também ali muito menos espaço e consequentemente muito menos conforto. A descriminação é algo que nos acompanha desde há muito. E contrariamente aquilo que é costume em mim, eu resignei-me. Não me pareceu ser ali, o local mais adequado, para formular todo um discurso que falasse da necessidade de igualdade de oportunidades para todos, não é? Mas aquele pequeno espaço, não é de todo proporcional, à nossa grande e reconhecida inteligência feminina, disso vos garanto.
Ainda consegui bater no Muro onde eu Lamentei, para aí umas três vezes com a minha cabeça. Depois coloquei lá os supra-citados papéis e acabei por sair dali às arrecuas. É que diz a tradição, que não se deve nunca virar as costas ao Muro. É que se o fizermos, será a mesma coisa que estar a virar as costas ao próprio Deus. E nestas coisas como em tudo, há que ser previdente e fazer como se vê fazer. Ouvir quem já aqui anda há muito mais tempo que nós e que já viu acontecer muita coisa. Tenho a dizer que daquela função, eu me saí muito bem. Reverenciei Deus e não caí uma única vez. E há que confessar, fiquei muito contente em ali ter estado a participar.
Ao ter completado todo aquele ritual, eu depois fui ter com todos aqueles que me acompanharam naquela Peregrinação. Ora dos meus companheiros de viagem, fazia parte um senhor de idade, que ali estava muito indignado. E fazia questão de demonstrar toda essa sua revolta ao Senhor Padre, que também nos acompanhou à Terra Santa. E o homem leigo, lá se insurgia com toda aquela descriminação presente no tratamento diferenciado dado a homens e a mulheres. "E como tal era  possível?", O homem lá se queixava: "Porque é que os homens não podiam ir ao Muro das Lamentações na companhia das suas queridas mulheres, fossem elas amigas, esposas, filhas, irmãs, sogras, cunhadas, amantes, ou manicuras? Onde é que Deus havia determinado, que as mulheres fossem afastadas da companhia dos homens? Se a própria continuidade da espécie era conseguida, devido à união do homem e da mulher. E da plena cavaqueira e convívio entre os seus órgãos genitais? É que tem que haver diversão e desfrute para que a espécie continue". Bem, mas como em tudo, há sempre lugar para aqueles que fingem que não gostam do acto em si. E fazem disso um grande sacrifício. Com dores de cabeça e tudo. E o homem lá continuava: "Porque é que também aqui, tem que haver lugar para tão clara e condenatória discriminação?"
E o Reverendíssimo Padre ouvia tudo aquilo com muita atenção. No fim, lá lhe comunicou que a coisa tinha que ser mesmo assim. Havia que se proceder à fundamental "separação das águas". E continuou, fazendo outras comparações, a meu ver muito hilárias. Ele comparou toda aquela necessidade de separação de sexos, com aquilo que se passa por exemplo nas Mesquitas. Lá nas Mesquitas os homens têm que rezar à frente das mulheres. E as mulheres têm que ser colocadas em sítios muito recatados. E lá continuou o Padre com as suas predicas: "É que ao rezar-se 'à maneira árabe' coloca-se o traseiro espetado para o ar. E o que é que seria se um homem tivesse a rezar atrás de uma mulher, quando ela também estivesse a rezar nos mesmos propósitos? Imagine-se por exemplo se ali ocorresse uma grande rajada de vento provocada por uma qualquer 'ventoinha louca'. É que a Mesquita para todos os efeitos, é um lugar fechado e resguardado de inoportunas ventanias?" Segundo o padre, essa inesperada situação poderia muito bem, provocar o acabar das orações e o começar de actos condenatórios, pelo menos se executados dentro dos muros de um Templo de Oração, credo! Mas do que é que os padres se lembram!!!
E depois e, com muita confiança lá continuou aquele respeitável Ministro de Deus. Segundo ele, antigamente as pessoas "fornicavam" (eu juro que ele disse isso), à maneira dos animais. E mais explicou este muito Informado Senhor. Já que gesticulando ele explicou-nos a todos, em que consistiam aquelas práticas animalescas: As mulheres colocavam-se de cócoras e os homens por detrás lá iam cumprindo a sua função reprodutora. Sim, para os padres, (e para o Bagão Félix), as práticas sexuais só têm como único fim, o da procriação.
Como eu já aqui disse, eu não sou muito de ir à igreja nem de rezar (pelo menos em público). Mas admito que acredito em algo, contudo não tenho necessidade de o personalizar. Contudo ali eu fiquei muito orgulhosa com os conhecimentos daquele Pároco. Tratava-se efectivamente um ser muito conhecedor de práticas, que naturalmente lhe estão afastadas do seu dia-a dia. Pelo menos é o que eu acho. Ter ali alguém tão conhecedor sobre a forma como as pessoas copulavam num passado remoto, é poder contar com todo um manancial  de esclarecimentos, do mais elaborado que imaginar se possa.
Mas depois eu perguntei-me: "Mas o que é que a bota tinha a ver com a perdigota?", e lá estou eu mais uma vez a recorrer aos ditados populares. Se assim fosse, a separação entre sexos tinha que ser generalizada. Existir por exemplo, um autocarro para homens, outro para mulheres. Uma praia para homens, outra para mulheres.
E o perigo que haveria em irmos ao Mercado Municipal, na companhia dos nossos colegas que são detentores de falo? E se ali alguém pedisse nêsperas, ou uma regueifa? Tal situação poderia dar azo a muita perdição. Já para não falar no perigo que corria, a imprevidente senhora que demonstrasse ao verdureiro da sua preferência (que será obviamente o que lhe faz os preços mais vantajosos), do seu desejo em comer uma boa salada de pepinos e tomates. É que vendo bem as coisas, nós não teríamos plena noção de todo o perigo a que estaríamos sujeitos/as. E digo mais, deveria mesmo haver legislação própria para nos advertir e salvaguardar enquanto contribuintes.
Mas no Muro das Lamentações? Não me parece que seja assim o sítio mais perigoso (se bem que para lá entrarmos, temos que passar por uma máquina de Raio X). No Muro das Lamentações nós poderíamos (e deveríamos de ir), na companhia dos homens (se assim fosse permitido). É que no Muro, estamos todos vestidinhos e de pé a rezar. Ali, o mais certo é estarmos, muito imbuídos no pensamento divino. E depois, muito preocupados em colocar todos os bilhetes na ordem devida. Os tais dos pedidos inconfessáveis... Não me parece que ali, haja muito tempo e espaço, para pensamentos e actos pecaminosos.
Agora perigoso, perigoso a meu ver é ir-se ao cemitério! O perigo que não poderá existir!... Estar a colocar flores novas dentro de uma jarra, muito lavadinha. Depois começar-se a lavar os mármores...com um esfregão de arame encharcado em detergente alcalino. Em seguida, usar-se um paninho, de forma a que se consigam tirar outras sujidades. Só que depois...e  sem que se dê conta, lá poderá vir um homem por trás e... Cruzes, credo e canhoto! Eu nem quero pensar nisso. E o perigo que não é,  ficar-se ali e no deleite por cima das campas todas.
Sugestão de Leitura para esta semana: "As Sandálias do Pescador" de Morris West.
DIVIRTAMSEMAZÉ e votos de uma boa vida.


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