Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Um "Serviço de Referência".


As nossas queridas Bibliotecas! Há que dizer que são lugares mágicos, cheias de conhecimento e de "boas vibrações". São por isso e por definição, locais agradáveis de se permanecer, pelo menos é o que me acontece na grande maioria das Bibliotecas que eu frequento e visito. E as pessoas que ali trabalham também são parte muito importante do processo de sedução que a Biblioteca deverá  ter, perante quem a procura.
Adérito era um senhor com sessenta e tal anos que trabalhava numa Biblioteca Pública. Tinha uma cultura geral invejável, muito acima da média. Se calhar e por isso, os responsáveis daquela muito interessante Biblioteca, acharam que o melhor lugar para Adérito estar, era a dar apoio aos leitores que se dirigissem e permanecessem... na Sala de Adultos. E tudo poderia correr na mais perfeita harmonia e profissionalismo, não fora dar-se um muito relevante facto: é que o Adérito não era o homem mais simpático do mundo, muito antes pelo contrário. Ele sendo a pessoa que era (com um excelente nível cultural, como aqui já foi referenciado), só gostava de atender todo aquele que se lhe dirigisse com questões (diria no mínimo) inteligentes.
Adérito tinha grandes conhecimentos na área da Literatura com especial ênfase para a Poesia e para o Teatro. A sua preferência ia também para a História e para a Arte em Geral. Assim como também gostava (e sabia muito) de Filosofia. Quem fosse à Biblioteca onde o Adérito trabalhava e lhe colocasse uma questão dentro dessas áreas específicas, mas que  a fizesse provida de sentido, o Adérito tudo fazia para procurar uma válida e inquestionável resposta. Procurava soluções à referida inquirição com todo o esmero de que era capaz. Chegava a falar inclusivamente, da sua própria experiência enquanto leitor e de como era ávido de obter sempre novos conhecimentos.
Contudo o seu semblante mudava radicalmente se a pergunta que lhe fosse dirigida, correspondesse a uma área que não fosse do seu total agrado. Recordo que ele não tinha paciência nenhuma para os leitores de Paulo Coelho, Danielle Steel, Margarida Rebelo Pinto ou Nora Roberts. E se por um acaso, alguém lhe perguntasse por um qualquer titulo desses autores, ele fazia a sua cara de fastio número 57, levantava dolentemente o braço e apontava na direcção das referidas monografias. E depois, dizia: "Estão p'ra ali. Se quiser mesmo esses livros, tem que os ir procurar. É que a minha consciência não me permite que eu contribua para a continuidade da sua ignorância e para o seu declínio, enquanto leitor."
E o leitor, embasbacado com a resposta, encolhia os ombros e dirigia-se para o local onde os livros deveriam de estar "estacionados". Mas esses livros nunca pagavam muito "parqueamento", pois estavam sempre a sair. É que os mesmos tinham sempre muitos leitores, para desgosto do nosso herói de hoje ou seja, para desgosto do Adérito.
Alguns leitores não ficavam nada contentes com as respostas que obtinham, pelo que se punham a reclamar do seu mau feitio. Mas não o faziam à frente dele, pois tinham-lhe um certo respeito e também algum receio. É que se o confrontassem, corriam o risco de poder ouvir na boca daquele profissional, alguma critica muito fundamentada, não só dirigida ao tipo das suas leituras, como também ao nível dos seus interesses. 
Depois Adérito fazia meditações profundas, sentado à sua secretária e necessariamente na presença do público. Às vezes chegava mesmo a ressonar. E também numa vez ou outra, alguém lhe viu um fio de baba a escorrer pelas suas possantes barbas. Corria o boato que as tais das "meditações profundas" eram devidas à medicação que ele tomava para as suas alergias, mas (e nisso também), ninguém tinha a coragem de lhe fazer qualquer pergunta. 
Estávamos ainda no tempo do início do acesso generalizado da Internet. De uma forma geral, toda a gente se mostrava muito atraída pela sua importância crescente e pela funcionalidade desta aglutinadora rede de conhecimento. Configurada que era (e é), na maior Rede de Base de Dados a nível planetário (sem concorrentes). Mas o Adérito andava em bolandas. É que ele não percebia muito disso. E pior... não mostrava muito interesse em perceber muito mais sobre aquele assunto específico. Para ele o conhecimento (pelo menos para o conhecimento que ele mantinha e queria continuar a cultivar), encontrava-se escrito, e bem escrito nos livros. E por muitas vezes ele se questionava: "Mas quem é que poderia assegurar, que o que estava contido na Internet, era absolutamente digno de nota e totalmente fidedigno?" Adérito mantinha sobre esse assunto sérias dúvidas. 
Como é do conhecimento geral, as Bibliotecas Públicas tiveram um papel muito importante na implementação e uso democratizado dessas novas (à altura) tecnologias. Recordo que no início, o acesso à Internet ainda era pago, com preços simbólicos. Mas passado muito pouco tempo,  o seu acesso passou a ser totalmente gratuito. E o Adérito lá ia ouvindo as pessoas. Era com muita pena que ele verificava de que as pessoas, já não mostravam assim muito interesse em ler livros. Queriam apenas aceder à Internet e retirarem daí toda a informação que pretendiam adquirir. Os trabalhos escolares, por exemplo, eram conseguidos totalmente com a consulta da Internet. Palavras como o copy/past começavam a ganhar, um preocupante sentido. E como tudo isso enervava o Adérito!...
Naquela altura as pessoas tinham dúvidas, tinham muitas dúvidas e por tudo e por nada, lá o iam "chatear". Mas ele já não estava pelos ajustes. As perguntas tinham a ver com o hardware, com o software mais adequado a instalar, link's, emails, formas de se rentabilizar uma impressão, etc etc. Para algumas questões muito básicas o Adérito ainda conseguia responder, porém quando a coisa se tornava muito complexa, ele desistia e recorria aos serviços de um simpático jovem, amante de informática e de outros quejandos. 
Mas uma vez aconteceu algo que marcou toda a diferença, e ainda hoje é lembrado por todos aqueles que na altura também ali trabalhavam. Certo dia, fora àquela biblioteca, uma senhora de meia idade. A senhora queria e teve oportunidade de aceder à Internet. Porém tinha dúvidas, tinha mesmo muitas dúvidas. E o Adérito lá a ia ouvindo, absolutamente enfastiado com "tais miudezas". E a senhora continuava a perguntar. E o Adérito ouvia muito mais... do que aquilo que falava. E a mulher inquiria, inquiria... No fim e já em absoluto desespero de causa o Adérito respondeu-lhe: "Olhe, a senhora se quer usar os computadores que aqui estão, tem que trazer consigo conhecimentos prévios, que lhe permitam aceder aos mesmos, sem estar para aqui com tantas perguntas."
A mulher ouviu-o, mas a sua cara "tingiu-se" com todas as cores do arco-íris. "Até onde é que poderia chegar a petulância?" pensou ela. E, absolutamente revoltada ela quase que lhe gritou, afirmando que: "as Bibliotecas tinham que servir para ajudar as pessoas a usar devidamente os computadores". E continuou dizendo a implicada senhora: "e os funcionários tinham que ter conhecimentos acrescidos dentro da área da informática, para poderem auxiliar quem à Biblioteca fosse, com o objectivo de usar os computadores... da Biblioteca". Agora foi a vez de Adérito responder. E muito indignado o fez: "Era só o que me faltava ouvir! Isso não, nunca". E mais disse aquele sapiente homem do passado. "Se isso assim fosse, nós estávamos obrigados a outras coisas. É que a Biblioteca tem aqui livros. Tem mesmo muitos livros. E asseguro-lhe de que aqui, ninguém ensina ninguém... a ler."
Com esta resposta o Adérito para além de ter enervado muito uma senhora utente, deu-nos a todos a deliciosa possibilidade de ficarmos... com uma história para contar.
Sugestão de leitura para esta semana: "A Casa das Perguntas" de Fernando Campos.
DIVIRTAMSEMAZÉ e votos de boas e gratificantes leituras.


E não é que eu já estive no outro lado da rua da Biblioteca de Alexandria e não entrei no seu interior? Sim, esse é um dos desgostos que me acompanha. Em primeiro lugar porque toda a gente que me acompanhava na altura, preferiu ficar a comprar coisas, no outro lado da via. E depois, acredite-se ou não, eu não consegui atravessar a estrada sozinha. É que o transito do Egipto é algo que eu nunca havia presenciado. Sem qualquer regras, aquilo é absolutamente caótico. "Sem rei nem roque". Aquilo sim, é que é uma perfeita anarquia.

Sem comentários: