Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Turismo religioso.


Quem gosta de viajar, gosta e ponto final. As condições da mesma viagem é que podem variar. Mas eu cá digo: o proibido mesmo é recusar uma saída, seja para fora, seja para o interior deste belo país lusitano.
Como sou oriunda de uma família de fortes tradições religiosas (especialmente da parte paterna), eu acompanho com muito gosto (diga-se) o meu pai a destinos religiosos de excepção. Uma vez fomos a Lourdes. E fomos utilizando como via de transporte o autocarro e não o avião. Pode parecer enfadonho e cansativo? É-o de facto. Contudo e a par de algum desconforto fica-se a conhecer algumas das mais belas paisagens espanholas, não é? Para mim Espanha foi a verdadeira revelação. E não propriamente o santuário mariano francês.
No turismo religioso, vai principalmente quem é por definição muito religioso. E vão os crentes e vou eu. Naquela situação especifica, o grupo viajou com três párocos: um mais idoso e dois mais jovens. Tenho a dizer que simpatizei especialmente com um que era dos mais jovens: Não, mentes viperinas. Eu jamais ousei tentar desviar o pároco do seu bom caminho. Contudo o mesmo era e é, muito divertido e muito cooperante com pensamentos mais liberais, como o meu. E muitas gargalhadas nós demos os dois.
Nessas viagens há sempre tempo para a realização da missa. Eu como membro não "arregimentado", aproveito esse tempo para conhecer um bocadito mais da terra onde a igreja está implementada. Creio que grande parte das pessoas aceita esse meu comportamento, mas há sempre um/a ou outro/a que me olha um bocadinho de lado. Mas isso é como em tudo e têm bom remédio: comecem a olhar de frente. Mas são poucos os incomodados.
Mas no meio daquilo, o que eu aprecio mais são as chamadas visitas guiadas. Há sempre alguém muito documentado no local, que faz uma explicação exaustiva sobre determinada temática. Neste caso concreto (turismo religioso) vai-se e em abundância a igrejas e catedrais. Mas eu gosto.
Nessa viagem, fomos a uma catedral espanhola de grande nomeada e absolutamente deslumbrante. Ao lado da mesma havia um Museu que tinha e em grande número, originais livros de horas, de mais orações, transcrições da Biblia feitas pelos copistas medievais... Aqueles documentos eram profusamente ilustrados por magnificas iluminuras. Eram mesmo de tirar o folego. Ora eu ali estava no meu mundo. Não na parte religiosa em si, mas na dos documentos antigos. Sendo a minha formação em História eu sempre adorei a disciplina de Paleografia, que nada mais é do que a transcrição para a língua actual, das mensagens escritas no português de outrora (bem anterior a qualquer AO (acordo ortográfico pernicioso e decapante). Eu adoreiiiiii estar no meio daquilo tudo!!!!!!!!!!!!!
Mas antes daquela visita o padre mais velho, havia-nos informou-nos sobre a beleza e a importância daquilo que iríamos ver. Falou-nos também da grandiosidade (em termos numéricos) do que ali estava exposto. Pelo que sugeriu que, e só naquele dia, se sacrificasse a missa a fim de se ver com toda a atenção o material exposto. Eu rejubilei e abençoei intimamente tão dedicado e atencioso sacerdote. Mas a minha alegria durou muito pouco. Ao meu lado estava a D. Alzira. Esta senhora ao ouvir a sugestão do padre não foi de modas. E colocando vigorosamente as duas mãos no ar, disse que não estava nada de acordo com aquilo. Que ela não dispensava a missa. Esse seu desejo foi apoiado por mais cinco ou seis senhoras. 
Assisti depois ao ar desconcertado do pároco. Está bem que o mesmo deveria de ver com bons olhos todo aquele "seguidismo". Contava assim um grupo de apoio muito vigoroso e barulhento, mas... Ali isso não dava jeito nenhum, nem a ele nem a mim, que sou manifestamente uma ovelha desgarrada, mas pouco preocupada com isso. Até pode ser que eu encontre um dia um Pastor jeitoso (lol).
O padre e de uma forma inteligente a meu ver, tentou e conseguiu "alegrar" um pouco a todos. Pelo que se sacrificou um pouco do tempo que era para ser dedicado à visita ao Museu, e fez-se uma Missa mais curta. Eu diria, fez-se um género de trailler da missa. A D. Alzira rejubilante respirou de prazer. Ia assim ter direito a mais uma missinha. Mas eu pensei: "Caramba, o que não faltam em Portugal são missas. Ela querendo podia começar de manhã e acabar à noite. Podia ainda fazer um periplo por todas as igrejas nacionais. Mas ali em Espanha!!! E só por um dia ela não poderia sacrificar-se um pouco em prole do bem comum? Pelo menos em prole do meu próprio bem e do do padre?" Pois que não! Gostei muito da exposição, vi aquilo que foi possível no pouco tempo que tive disponível. E depois foi a vez da ocorrência de uma missa a que mais uma vez não assisti. 
Mas ao caminhar por uma das ruas daquela encantadora cidade espanhola, deparo-me com o Sr. Alfredo que era também ele, um dos participantes daquela peregrinação. O mesmo e a rir,  informou-me que e mais uma vez a ala dos religiosos profundos havia ganho a sua batalha. Especialmente a D. Alzira que era uma senhora... muito importante na vida do padre. Foi o senhor Alfredo quem assim me "apresentara" a D. Alzira. E eu fiquei a entender tanta coisa!
Alzira tinha setenta e tal anos. Havia ficado viúva do seu marido há cerca de 15. Alzira sempre fora uma pessoa muito religiosa, contudo apegou-se mais à devoção quando enviuvara. Alzira viveu na igreja a fuga de uma solidão a que jámais estivera acostumada. E também simpatizava muito com o senhor padre.
Alzira para além de algumas tarefas de monta, realizadas na igreja e na casa paroquial, prontificara-se em lavar a roupa intima do padre, em especial as suas cuecas. Intimamente a D. Alzira tinha muito orgulho nessa sua tarefa que cumpria com muita responsabilidade. E era também com muito desvelo e devoção que ela cumpria religiosamente toda uma série de rituais. 
O padre entregava-lhe semanalmente as cuecas sujas, que havia usado durante a semana. Alzira colocava-as todas num saco de pano, escondendo as ditas de olhares mais preversos. Em casa, ela lavava as cuecas em água fervida. Usava inicialmente sabão azul e branco (a fim de evitar qualquer tipo de alergia). Depois lavava-as com um amaciador, que não era mais do que uma solução incolor mas a cheirar a alfazema. Já muito branquinhas e a brilhar, era a vez de as colocar no estendal. Mas Alzira conhecia muito bem as suas vizinhas. Sabia do que as mesmas eram capazes. Sabia que quando se tratava de falar mal da vida alheia, as suas vizinhas não eram "nada coxas". E, o que diriam elas se vissem cuecas de homem no seu estendal, alegremente a ondularem ao vento? Ainda mais cuecas tão avantajadas e consequentemente tão visiveis ao longe? Bem, a Alzira tinha que se proteger, não é? Pelo que ocultava as ditas cuecas sacerdotais com um enorme lençol de linho, que há muitos anos lhe havia sido ofertado pela sogra. A ocultação das cuecas, para além de não dar azo a maiores e perniciosos falatórios, também evitava que os raios solares queimassem a fibra e retirassem do tecido alguma da sua coloração. Além do mais evitava que o elástico perdesse a sua forma e vigor. Alzira nem queria pensar, na tragédia que seria se ao padre da sua preferência, um dia lhe caissem as cuecas aos pés devido a um qualquer elástico deslaçado.
Depois de secas, e já ao luar, Alzira apanhava as cuecas. Já no interior da sua casa ela recatadamente, verificava se as mesmas precisavam de algum remendo. Depois eram remendadas se houvesse necessidade disso. Após essa verificação, Alzira passava-as a ferro. Não lhes punha goma, pois a rigidez excessiva das mesmas poderia ser muito irritante à parte sensível do sacerdote. No fim, as cuecas eram exaustivamente dobradas e acondicionadas dentro de uma pequena malinha, própria para aquele efeito. A entrega das mesmas dar-se-ía imediatamente no dia a seguir à sua lavagem e secagem. A demora só poderia ser devida às más condições climatéricas. Mas o padre tinha muita roupa interior.
Agora e ali em Espanha, Alzira estava longe de executar essa tão importante tarefa. O padre havia trazido com ele as cuecas necessárias para todos os dias da excursão. E como Alzira estava radiante! Para ela era um gosto ver o "seu" padre discursar de forma tão activa para o rebanho bem comportado. Logo aquelas palavras que eram na sua maioria dirigidas àqueles que não andavam nos trilhos da boa e eficaz religiosidade. Membros pérfidos e desenvergonhados, pertencentes ao "rebanho das ovelhas ranhosas". Essas não quiseram assistir à missa. Malvadas! Mas também essas já estavam condenadas de todo. Para elas já não havia nada a fazer. Que fossem todas ter com o Belzebú.
E Alzira olhava mais uma vez para o Senhor Padre. Admirava-lhe o vigor, as suas boas cores, a sua boa disposição, a barriguinha crescente. E estava de crer que aquele bem estar do sacerdote se devia a inúmeros factores. Mas de entre os principais, estaria necessariamente o facto do padre poder contar sempre, com cuecas lavadas e a cheirar a alfazema. Pelo menos era assim que cheiravam quando ele as vestira.
Sugestão de leitura para esta semana apresento o livro: "Aprender a Rezar na Era da Técnica" de Gonçalo M. Tavares.
Divirtamsemazé e olhem pelo próximo e pelo seu bem estar.

 

2 comentários:

365gulosos disse...

Vamos ver se consigo que o meu comentário "cole" aqui, ultimamente tem sido difícil!
Ora então, permita-me chamar a este Post- o cueca post! Fiquei baralhada com tantas cuecas... mas notei alguma inveja, não de lavar as cuecas mas de as ver?! ;P ('tou a reinar)
Não a conseguia ver a rezar todas as noites com seu respectivo páraco e mais a sua lavadora de cuecas...

Adorei mais uma vez o Post!

Sugestão: vá sozinha com o Sr.Cuecas viajar! - agora fora de brincadeiras eles viajam muito e conhecem muitos sítios interessantes, é de aproveitar porque perante o que li (e só posso imaginar), talvez haviam mais pessoas interessadas em passear e não rezar!

E permita-me ainda fazer uma sugestão para este Post, é que tem tudo a ver....
Ler: o chocolate
Ver: o filme com o mesmo nome

Beijinhos e até à próxima... e sempre a olhar em frente ;P

Mimi disse...

Aposto que o Sr. Padre tem muito orgulho em ter uma senhora com tanto esmero na sua congregação! Quanto a mim quase que fiquei com inveja dela, é que lavar as cuecas do Sr. Prior não é para qualquer alma mortal!!! Resta saber quem é que lhe lava.................................... as meias, claro!!! Divirta-se e olhe, reze mais que não seja quando poder!!!