Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sábado, 28 de janeiro de 2012

Bacallao.


Os nossos vizinhos aqui do lado (espanhóis), têm a fama de cozinhar muito mal. Bem, muita gente diz que depende da zona para onde se vá. Diz-se que na Galiza por exemplo, a gastronomia é muito razoável, já na Extremadura... aí a coisa piora totalmente.
Um ano destes, visitei com alguma calma e contemplação a Espanha e, comecei a pensar que é efectivamente um país muitíssimo interessante a todos os níveis, (menos na Tauromaquia). Por essa ordem de valores... a Catalunha é mesmo perfeita. Acabem pois de vez com as torturas de todos os animais!!!
Quando estava em Madrid, fui jantar com um extenso grupo de amigos lá num restaurante, onde fomos brindados com uma muito sofrível ementa. O início das hostilidades, começou com uma sopinha que me pareceu ser de lentilhas. A sopinha, que foi servida em pratos medianos, tinha no meio aquilo que me pareceu ser uma batata inteira porém descascada e necessariamente cozida. Como sou uma pessoa que conclui coisas com alguma facilidade, logo achei que a presença inusitada daquela batata ali, serviria mais como um elemento de decoração. Mas formava contudo, mais um alimento sugeito à degustação, porém... muito pouco apetecível. Ao que me pareceu, os meus queridos amigos pensaram o mesmo que eu, ou seja, comer lá comemos todos as lentilhas, porém a batata... regressou à procedência. Afirmo que poucas foram as pessoas que comeram aquela estranha e desoladora semelha. Mas eu comi-a! É que tenho algo que me acompanha e quanto a isso não há nada a fazer. Quando vejo comer desperdiçado, começo logo a pensar em todos aqueles que passam fome, pelo que... fazendo algum esforço, lá trinchei e comi a batatinha!
O segundo e principal prato que veio para a mesa era o "Bacallao". Pela segunda vez da minha vida, me apareceu à frente, uma posta de peixe (que me asseguram ser bacalhau fresco), absurdamente mergulhado num composto de molho de tomate. Mais nada. Com graça, mas também a fazer-me de grande entendida na coisa, lá fui dizendo aos meus amigos, que aquele prato era composto unicamente por aquilo. Não haveria mais nada para comer, só o "Bacallao".
Mas ao meu lado, estava a Ernestina, que é uma grande amiga, mas que tem um grande defeito: duvida muitas vezes das minhas versões. Pelo que olhou para mim, com os olhos mais arregalados do mundo  e respondeu-me... que: "aquilo não podia ser!!!". Depois, e de forma muito energica, começou a gritar e a agitar os braços para o empregado de mesa. O mesmo veio, passado alguns instantes. Foi então e usando-se de um formidável "espanholês",  que a minha querida amiga, começou por pedir ao homem, mais comida, na forma de um alimento que pudesse servir de acompanhamento àquele estranho "Bacallao". E mais fez a danada: começou por dar ideias ao homem: "poderia vir para a mesa: uma massinha, um arrozinho, mais uma saladinha e em ultima análise até poderiam vir... umas batatinhas". O senhor que era pouco simpático, mas apesar disso tentava ser solicito, começou por olhar para toda aquela conversa com cara de caso. Primeiro dizia não entender (eles nunca entendem nada, até dá raiva!!!). Depois e fazendo mais um esforço, lá foi dizendo que não tinha mais nada. Mas e lá no fim e já em pleno desespero de causa, ele assegurou que batatas... ele tinha. A minha amiga Ernestina ficou rejubilante. Olhou para mim com a cara mais trinfante do mundo e disse-me: "Vês! Tu da outra vez só comeste o "Bacallao", porque não tens o meu domínio perfeito nas linguas estrangeiras. Soubesses tu falar o "espanholês" como eu, e tudo poderia ter funcionado melhor. Afinal este "Bacallao" não é servido somente assim. Não vês que o homem prometeu trazer... batatas". E mais fez a inconveniente Ernestina, passou a mão pela frente da cara e disse: "Daaahhh". Eu fiquei literalmente, sem pinga de sangue. Há que dar a mão à palmatória. E reconhecer uma derrota.
Passados alguns minutos, chega o empregado de mesa acompanhado com as suas ricas batatas. E, como é que elas vinham servidas, perguntam-me vocês? Pois, descascadas elas estavam, mas inteiras. Estavam também cozidas. E... vinham ainda polvilhadas, com algumas lentilhas. Eu dei uma das mais gloriosas gargalhadas da minha vida, ali naquele restaurante madrileno. Ah pois era!!! As batatas apareceram de facto, mas eram muito provavelmente todas aquelas que haviam sido recusadas por aquele grupo de alegres comensais. Tudo indicava que fora essa a solução encontrada. Eu própria reconheci algumas. A minha é que não estava lá, pois eu havia-a comido a pensar nos carenciados.
Sugestão de leitura para esta semana: "Um Almoço Nunca é de Graça" de David Lodge.
DIVIRTAMSEMAZÉ e não desperdicem nada. É que não estamos em tempo disso. Nem nunca estivemos.

1 comentário:

Patrícia disse...

Então, eles pensaram rigorosamente o mesmo, já que querem batatas comem estas que não quiseram à bocado pois não se pode estragar, é assim mesmo!