Crise: Palavra perversa, terrível e hedionda. Muito repetida e infelizmente muito sentida por todos, ou por quase todos. A ideia de poupar até à exaustão. Trabalhar até morrer e depois quem ficar, continuar a pagar tudo ao Estado. Um dia destes, deram-me a ideia de fazer uma pequena mudança no preenchimento do meu IRS, ou seja, no local onde é para pôr as pessoas que temos ao nosso cargo, eu passe a colocar: o Presidente da República, o Primeiro Ministro, a Presidente da Assembleia da Republica, uma parga de ministros e também umas centenas de deputados. Pois...
Fala-se e torna-se a falar das causas que deram origem a toda esta situação. O dinheiro que era fácil e que vinha de uma União Europeia muito optimista. Depois os subsídios para tudo, para Agricultura, para as Pescas, para a Criação de Gado etc. Depois foi a vez de se acabar com a Pesca, com a Agricultura e com a Criação de Gado. Fizemos assim a vontade a uma Europa Unida (?) porém algo bipolar. Depois veio a maravilhosa época da Expo 98 e do Euro 2004. E andámos todos aos pulos na rua e muito orgulhosos com a nossa alegre situação (mas no Euro, quem nos lixou... foi a Grécia). Mas agora sabemos que no fim... perdemos os dois.
Hoje somos acusados de termos vivido muito acima das nossas possibilidades. Mas que vergonha!!! É que tivemos a coragem e a ousadia de ir passar umas férias às Caraíbas, (cruzes, credo e canhoto!!! Isso não era para nós, que somos e seremos sempre... muito pobrezinhos!) Muitos de nós até nos esquecemos onde ficava a Costa da Caparica (essa sim, é uma praia que está de acordo com as nossas reais possibilidades!!!). Mas agora... o mal já está feito, pelo que o melhor mesmo é... aguentar.
Hoje somos acusados de termos vivido muito acima das nossas possibilidades. Mas que vergonha!!! É que tivemos a coragem e a ousadia de ir passar umas férias às Caraíbas, (cruzes, credo e canhoto!!! Isso não era para nós, que somos e seremos sempre... muito pobrezinhos!) Muitos de nós até nos esquecemos onde ficava a Costa da Caparica (essa sim, é uma praia que está de acordo com as nossas reais possibilidades!!!). Mas agora... o mal já está feito, pelo que o melhor mesmo é... aguentar.
Mas conheço gente que se debate com o problema da crise com muita inteligência, pelo menos é o que eu penso. É que no fundo, todos nós pretendemos diminuir as consequências desta crise. Mas nisto e como em tudo, a imaginação é o limite.
O casal Ferreira é um casal composto por dois idosos de setenta e poucos anos. Um dia destes quase que tiveram uma sincope quando souberam que iam perder os 50% de desconto a que tinham direito no preço dos transportes públicos. Contudo e superado o susto, eles não se deixaram abater. Compraram uma bicicleta de dois lugares e agora é vê-los a percorrer grandes distâncias um atrás do outro. Regra geral o senhor é que vai no lugar da frente. E que belas conversas eles devem de ter enquanto pedalam.
Tenho uma amiga que um dia destes decidiu aceitar ir jantar fora com o vizinho do terceiro andar. Bem jantar fora é como quem diz, pois o vizinho e por causa da crise, convidou a minha amiga a ir jantar lá na casa dele. O vizinho tem cinquenta e tal anos e ainda vive com o seu paizinho. É detentor de um poderoso metro e oitenta e de um muito generoso bigode. Não fora a crise e a minha amiga ficava sem conhecer os predicados do homem: o mesmo é um grande cozinheiro, quase um master chef. E comeram regaladamente os três, um peixinho cozido ao vapor com ervas e um arrozinho de grelos.
Mas as surpresas não ficaram por ali. A minha amiga foi convidada a ir (e a pretexto de observar uma grande mancha de humidade que se formara na parede), ao quarto do seu vizinho. E não é que ela ficou muito emocionada! Não, não ficou admirada com uma grande mancha irregular e amarelada de bolor que "decorava" uma das paredes, não foi isso. O que ela apreciou mesmo foi o edredon cheio de folhos e com muitas florzinhas, que estava a cobrir escrupulosamente, uma minúscula cama. A minha amiga ainda disse ao seu querido vizinho: "Mas que belo edredon o vizinho tem?" Mas ele nada respondeu. E ficou também muito ruborizado.
E mais. A minha amiga teve oportunidade de verificar que o seu solicito vizinho, para além do facto de dormir (naturalmente muito encolhidinho naquela caminha), ainda fazia a dita com muito desvelo e atenção. Para além disso, o delicado homem, faz colecção de bibelots. E como a minha amiga rejubilou ante a prespectiva de imaginar aquele seu vizinho, de grandes dimensões e de bigode, de paninho na mão e a limpar o pó que naturalmente, não deixa acumular por muito tempo. Acredito piamente na união futura daquelas duas almas gémeas. E a sua aproximação deu-se... por causa da crise.
E mais. A minha amiga teve oportunidade de verificar que o seu solicito vizinho, para além do facto de dormir (naturalmente muito encolhidinho naquela caminha), ainda fazia a dita com muito desvelo e atenção. Para além disso, o delicado homem, faz colecção de bibelots. E como a minha amiga rejubilou ante a prespectiva de imaginar aquele seu vizinho, de grandes dimensões e de bigode, de paninho na mão e a limpar o pó que naturalmente, não deixa acumular por muito tempo. Acredito piamente na união futura daquelas duas almas gémeas. E a sua aproximação deu-se... por causa da crise.
Sei também que o senhor António é cada vez mais solicitado. O senhor António tem quase oitenta anos. É viúvo já há alguns anos, e toda a vida se prestou a resolver aqueles pequenos problemas que acontecem nas casas de todos nós: mudar uma lâmpada, arranjar um interruptor, colocar um quadro na parede... Ele é procurado maioritariamente por mulheres solitárias que não têm facilidade nem jeito de executar esses trabalhos. Um dia destes, a D. Hermínia, que ficara viúva há dois anos, solicitou os serviços do António pela primeira vez. Hermínia é uma viúva de setenta e sete anos, mas ainda em muito boa forma. Precisava que o senhor António lhe substituisse o arrancador da lâmpada da cozinha. O senhor António, obviamente não se fez rogado e fez o trabalho solicitado com toda a dedicação. No fim e satisfeito, ele subiu para um tripé (que serve de pequeno banco e que o acompanha para todo o lado), e começou a coreografar e a cantar com voz de barítono a pérola seguinte: "Delícia, delícia, assim você me mata, aí se eu ter pego, ai se eu te pego aí..." Inicialmente a D. Hermínia estranhou tudo aquilo, mas depois "fingiu" que fugia para a Sala de Estar. Não fora a crise e a D. Hermínia teria chamado um "electricista encartado", que para além de lhe levar um preço muito mais elevado, também não teria para ela, nenhuma atenção especial.
Da mesma ordem de ideias, corresponde uma outra realidade. Um grupo de amigas, frequentava até à pouco tempo um ginásio. Mas e como está tudo a subir de preço, elas chegaram à conclusão que a mensalidade do referido ginásio, estava a ficar incomportável. Decidiram deixar o ginásio e começar a fazer grandes caminhadas. Como trabalham, só tinham tempo de executar aquele exercício tão livre e barato, à noite. E as senhoras tinham muito medo de serem assaltadas. O passo seguinte, foi o de convenceram os seus maridos e amantes a acompanharem-nas naquelas incursões nocturnas. Ficaram desta maneira todos a ganhar. Não pagam nada pelo exercício. Quando chove (o que infelizmente tem sido raro), ou faz muito frio, aquele conjunto de pessoas reúnem-se, ora na casa de uns, ora na casa de outros. Juntam-se ali com um objectivo... o de se exercitarem. Fazem muitas flexões. Um dia destes, até descobriram que o senhor Aires faz umas belas massagens (aprendeu a técnica quando andava na tropa). Pelo que aquelas pessoas têm ali, mais uma excelente motivação para fazerem alongamentos e serem simultaneamente muito felizes por serem assim tão unidos. Não fora a crise...
Depois há um prédio, habitado maioritariamente por quarentões. Estas pessoas gostavam muito de sair à noite. Iam a bares, discotecas, ao cinema, ao teatro... enfim... Só que descobriram, que grande parte dos seus orçamentos se perdia naqueles agradáveis, porém muito dispendiosos divertimentos. Foi durante uma Reunião do Condomínio, que por acaso se falou daquela tão dramática situação. Concluíram que corriam o risco de se tornarem pessoas bem mais tristes e solitárias, pois teriam que permanecer mais... lá por casa...
Com o decorrer da conversa e para combaterem todo aquele desanimo, eles decidiram, experimentar festas conjuntas na casa ora de um, ora de outro. As primeiras party´s correram muito bem. Antes tinham ido comprar e em conjunto, uma série variada de géneros alimentares e muitas bebidas (foram ao Pingo Doce, porque é mais barato). Depois e em conjunto, eles confeccionaram e comerem opíparas refeições.
Acabada a refeição, bem alimentados e satisfeitos eles foram "remoer". Andaram a dançar com uma vassoura, tirando depois os pares uns aos outros. Seguiu-se o lindo Jogo das Cadeiras, jogo em que o perdedor é justamente... aquele que perde o acento. Faço-me entender, não é? Porém toda aquela rotina, mudou um destes dias. É que Rosalinda, a porteira, atirou para longe com a vassoura e pôs-se a dançar à volta de um bengaleiro que por ali estava. Depois o tempo começou a aquecer e a Rosalinda começou a tirar a roupa, peça a peça. Passados poucos minutos, já toda a assistência estava também... muito acalorada. Logo a Rosalinda, a tal que tanto passava umas escadas a pano, como recebia diariamente... o carteiro, quer ele tocasse duas, quer ele tocasse três vezes. Aquela sua inovação fez ali toda a diferença.
Com o decorrer da conversa e para combaterem todo aquele desanimo, eles decidiram, experimentar festas conjuntas na casa ora de um, ora de outro. As primeiras party´s correram muito bem. Antes tinham ido comprar e em conjunto, uma série variada de géneros alimentares e muitas bebidas (foram ao Pingo Doce, porque é mais barato). Depois e em conjunto, eles confeccionaram e comerem opíparas refeições.
Acabada a refeição, bem alimentados e satisfeitos eles foram "remoer". Andaram a dançar com uma vassoura, tirando depois os pares uns aos outros. Seguiu-se o lindo Jogo das Cadeiras, jogo em que o perdedor é justamente... aquele que perde o acento. Faço-me entender, não é? Porém toda aquela rotina, mudou um destes dias. É que Rosalinda, a porteira, atirou para longe com a vassoura e pôs-se a dançar à volta de um bengaleiro que por ali estava. Depois o tempo começou a aquecer e a Rosalinda começou a tirar a roupa, peça a peça. Passados poucos minutos, já toda a assistência estava também... muito acalorada. Logo a Rosalinda, a tal que tanto passava umas escadas a pano, como recebia diariamente... o carteiro, quer ele tocasse duas, quer ele tocasse três vezes. Aquela sua inovação fez ali toda a diferença.
Na festa seguinte foi a vez da menina Elsinha tomar coragem. Elsinha era uma trintona solteira, belfa, muito miúpe e recatada que trabalhava nos Correios. Elsa pensou, pensou e achou que estava na altura de desfrutar um pouco da vida. E era ali entre os seus vizinhos, que era como estar entre a sua própria família. Com coragem e ousadia (tal qual a de todos aqueles que haviam passado férias nas Caraíbas), ela também andou a dançar à volta do bengaleiro, tal qual fizera a porteira. Hoje Elsa é uma nova mulher. Começou por subir a bainha de todas as suas saias. Também já usa um baton muito carmim nos lábios. Ainda usa óculos, pois se não os usar, ela corre o risco de andar a colidir contra as coisas. Contudo pondera usar lentes de contacto e até está disposta a gastar algum do seu dinheiro, na colocação de umas unhas de gel. E vai finalmente entrar na "Loja das Brasileiras". Como se vê, foi a crise que aproximou e uniu todas estas pessoas. É pois urgente ver o lado positivo das coisas.
Mas à conta da crise, eu lembro-me de um dialogo que tive à uns anos com um jovem brasileiro. O mesmo fora à biblioteca. A dada altura e fazendo um pouco a figura de conselheira (figura que não me assenta muito bem), eu falei ao jovem da necessidade... de o mesmo juntar dinheiro. Resposta pronta do rapaz: "Juntar dinheiro? Mas porquê eu? É que não fui eu que o espalhei!" Ah pois não!!!
Mas à conta da crise, eu lembro-me de um dialogo que tive à uns anos com um jovem brasileiro. O mesmo fora à biblioteca. A dada altura e fazendo um pouco a figura de conselheira (figura que não me assenta muito bem), eu falei ao jovem da necessidade... de o mesmo juntar dinheiro. Resposta pronta do rapaz: "Juntar dinheiro? Mas porquê eu? É que não fui eu que o espalhei!" Ah pois não!!!
Sugestão de leitura para esta semana: "A Biblioteca Pública como Conhecimento Público" de Bob Usherwood.
DIVIRTAMSEMAZÉ e combatam a crise, mais que não seja através de um sorriso.
PS: Foi ao assistir ao jogo do Real Madrid, que o senhor António aprendeu a dança da sedução que dedicou à D. Hermínia. E eu tenho cá uma desconfiança que a D. Hermínia até já deu uma dentadinha naquele seu "merengue".

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