Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sábado, 14 de janeiro de 2012

Turista versus Viajante.


O grande Gonçalo Cadilhe (que é praticamente o meu guru espiritual), afirma que se deve começar por viajar em grupo. Depois devemos de nos ir libertando e começar a viajar em grupos mais restritos, em termos numéricos, ou mesmo sozinhos. Tenho a afirmar que sozinha mesmo eu ainda não viajei, mas quem sabe um dia. Viajar como é sabido é uma filosofia de vida. Vai-se liberto de amarras e com um pouquinho de conhecimento da língua inglesa, a pessoa até se safa. Eu regra geral, viajo em grupos de pessoas que eu não conheço, ou conheço mal, quando a saída é para fora da Europa. E com amigos, quando se visitam os países deste velho continente. A propósito disso, tenho a afirmar que por vezes sou mais turista, quando vou em grupos de amigos, e mais viajante quando viajo com os tais semi-desconhecidos. Esse é um facto absolutamente inquestionável.
Com amigos e sem grandes planos definidos, tudo poderá correr pelo melhor, contudo deveremos de nos dar relativamente bem com quem viaja connosco, assim como ter idênticos objectivos. Tudo depende da filosofia da coisa. A propósito, lembro-me de uma visita que fiz à cidade de Bruxelas. Viajei com um grupo de amigos. Tudo muito boa gente é certo. Contudo com formas de ver a vida (e de viajar), muito diferenciadas da minha. Recordo com um sorriso nos lábios, a Cátia. Esta, durante o tempo em que lá permanecemos, insistiu sempre numa coisa: todos os santos dias ela tinha que ir ao pé da estátua do Mannaken Piss, formalizando assim uma autêntica Via Sacra. E quem é esta figura? Esse Mannaken Piss? Pois, é a estátua daquele menino enegrecido e pigmeu que está ali ao relento. Como contrato laboral do rapaz, existe somente uma clausula onde consta uma simples palavra. E qual é a palavra? Pois, é urinar. E será a minha amiga pedófila? Não cruzes! Nada disso. O que a minha amiga tinha que apurar, era se a estátua do tal menino estava vestida. E se estivesse, ela tinha a obrigação de lhe tirar fotografias para depois mostrar cá na terra.
Durante aqueles dias, nós rumamos todos àquele muito concorrido local. Levávamos connosco uma enorme dúvida existencial. Ignorávamos assim se a estátua estaria vestida ou de minhoto ou de campino. Para grande desgosto da minha amiga Cátia, enquanto ela ali esteve, o Menino esteve sempre nu. Cátia ficou assim...  absolutamente desolada. É que não poderia mostrar aos amigos as suas fotografias de turista, mostrando um estafermo anão de pedra, porém vestido. Vestido mas sempre a segurar o seu minúsculo pirilau e a mijar. Abençoados rins e com poucas dores nas pernas.
Toda aquela ralação começara no dia, em que um amigo de Cátia, (que estivera também ele em Bruxelas),  apanhara, o "Rapaz Mijão", vestidinho de proxeneta. E o sucesso que aquilo havia sido!!! A apresentação de uma panóplia de fotografias quer aos amigos, quer à família. Depois a mostragem e a partilha das mesmas fotos nas chamadas Redes Sociais. As mesmas que serviram depois  para muitas discussões em tempo real, no Twitter e no Facebook. Pois...
Depois foi a vez de se ir a um magnifico Museu, que tinha uma série de obras dos melhores pintores e escultores de toda a humanidade. Mas a determinada Cátia logo ali postulou: "pois que não podíamos ali estar mais de vinte minutos". É que ainda faltava ver: a "Pequena Europa". E o que é a Pequena Europa? Bem são miniaturas dos monumentos mais emblemáticos da Europa. E aqui eu naturalmente questionei-me e continuo ainda a questionar-me: Se eu quero ver um determinado monumento, não será melhor ir vê-lo onde o mesmo está localizado, ao vivo e a cores? Não sei. Mas estou em crer que sim.
O que eu sei é que fiquei muito mais tempo naquele Museu, que o tempo que ela previamente havia determinado. Ela acompanhou-me e no fim até deu razão à minha insistência. Estivemos somente uns cinco minutos, na tal da "Pequena Europa". Onde tivemos oportunidade de visualizar "verdadeiros bibelôs de monumentos", espalhados por uma relva, formando assim um triste e deprimente "presépio" europeu, ilustrativo de uma Europa já em plena pré falência.
No fim, ainda consegui que os tais amigos se sentassem comigo numa explanada. Comemos gostosamente... Mexilhões com Batatas Fritas. Bebi também e muito repimpada, uma cerveja gigante e bem gelada. Sentados ali, nós parámos um pouco  e observámos agradavelmente a vida de todos aqueles que por nós passavam. Viajar também é isso: é ver para além do visível, é parar, é reflectir. É conhecer outras pessoas, outras formas de estar na vida. E perante isto o que é que interessa o "Menino Incontinente"? Bem, mas o meu desejo é que ele continue a urinar por muitos e muitos anos, não é? E que jamais sinta necessidade de... recorrer à hemodiálise.
Quanto a mim, depois disso continuei a viajar, de outras formas e para outros países. Recordo com nostalgia um casal inglês que eu conheci num país da América Latina. Ora o casal que abeirava os setenta anos, andava ali sozinho e sem pressas. Procuravam conhecer novos cenários, novas pessoas. E isto com toda a calma do mundo e sem maiores preocupações monetárias. Eram os dois reformados. Com a conversa eles estranharam a minha proveniência, assim com a minha juventude (já vos disse que pareço mais nova!), e o facto de estar tão longe de casa. Ao olharem para mim, concluíram que eu ainda não deveria de estar reformada. "Pois não", respondi eu, estava ali mas tinha os meus dias (assim como o meu dinheirinho) muito contadinhos. Mas eu não viajava sozinha claro está. Os meus companheiros de viagem, os tais semi-desconhecidos estavam ali nas imediações.
Aquele casal britânico, já se encontrava a viajar havia dois meses. Começaram a sua viagem no extremo mais a sul daquele belo continente. E só iriam acabar a sua/deles incursão, quando chegassem à parte situada mais a norte do Canadá. Ai meus amigos, aqui eu tenho que vos confessar uma coisa: Senti uma tão profunda pontada de inveja, pelos rins acima!... Mas, e a que se deveria tal dor? Questionei-me mentalmente. Seria devida a alguma praga do Mannaken Piss? Em virtude de eu não professar a "sua religião"? Bem, eu estou convencida que não!
Sugestão de Leitura para hoje: "Turista por Acidente" de Anne Tyler.
Divirtamsemazé e votos de boas viagens (Nem que as mesmas e com a crise, sejam meramente ficcionadas).

 Agora sou uma turista... 

... mas hei-de chegar a viajante! 
DIVIRTAMSEMAZÉ!!! 
 

2 comentários:

MJB disse...

Para que a uma deslocação de um lugar para outro se possa chamar viagem, temos de nos deixar viajar também por dentro.
E como acontece "cá fora", nunca podeos afirmar com certeza o que iremos encontrar.
Essa é a beleza e o fascinio de uma viagem.

divirtamsemaze disse...

Pois é! Esse é efectivamente o verdadeiro sentido da viagem. Deixar-nos levar na corrente. Agora numa deslocação eterna e permanente ao "rapaz aflito e desnudado", como se dizia no meu tempo: "Não há pachorra". Divirtamsemazé|