Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Livros fechados, não fazem letrados.



Ia eu formosa e segura, mas calçada pela Biblioteca Mais Linda do Mundo e Arredores, quando resolvo deter-me um pouco no “estaminé” da poesia. Da da poesia Lusitana, claro está. Tenho a confessar que lamentavelmente não paro por lá muitas vezes. Deveria de permanecer um pouco mais de tempo por aqueles lados. É que é ponto assente que a poesia é a língua natural dos deuses... 
Ora como estava a dizer, ia eu, ora  pegando um livro aqui, ora pegando noutro livro ali… quando no meio da estante, eu verifico que um dos livros estava mesmo a precisar de cuidados especiais. Teria que ser sujeito a restauro, para lhe prolongar um pouco mais a sua existência. Pego então no livro danificado, só que com ele vem um outro atrás. Que me acabaria por cair em cima de um pé. Nada de danoso há a lamentar. O livro era leve e leve ficou. Contudo no processo da queda, o livro abriu-se a meio e mostrou-me esta bela poesia, que eu aqui passo a transcrever:

"Dizem que o rei cruel do Averno imundo
Tem entre as pernas c@ralhaz lanceta,
Para meter do c” na aberta greta
A quem não f*der bem cá neste mundo:

Tremei, humanos, deste mal profundo,
Deixai essas lições, sabida peta,
F*da-se a salvo, coma-se a p*nheta:
Este prazer da vida mais jucundo.

Se pois guardar devemos castidade,
Para que nos deu Deus p#rras leiteiras,
Senão para f*der com liberdade?

F*dam-se, pois, casadas e solteiras,
E seja isto já; que é curta a idade,
E as horas do prazer voam ligeiras!"*

Como é sabido, deve-se ler sempre as páginas que se abrem à nossa frente. Quando um livro, livremente se nos oferece. Se abre assim como que ao calhar. Há inclusive aquele que abre um qualquer livro (preferencialmente de salmos ou mesmo a Bíblia), e aquilo que lhe sai, é aquilo que é lido. E depois disso, a pessoa fica absolutamente convencida que aquela mensagem fora destinada para si e só para si. Precisamente naquele momento que fora o mais adequado.
Tenho a dizer que se o caso for esse, a mim calhou-me como mensageiro o desconcertante e inigualável Bocage. O de boa memória e de múltiplos interesses. E veio justamente com uma tal conversa, tão proverbial e eloquente, que faria corar tudo o que é pedra da calçada. Mas se é essa a minha convicção, porque raio é que acabei por postar esta "pérola poética", neste meu cantinho tão iluminado e decente? Porque aquilo deu-me muito que pensar.
Tenho a dizer em minha defesa que não conhecia tão ímpar soneto. Conhecia outros igualmente intrigantes e plangentes. Mas este especificamente, não. E o que ali se diz, deve fazer-nos reflectir um pouco.
O perigo, segundo o poeta, deve de estar no momento em que passarmos deste para o outro mundo. Na altura em que tivermos que apresentar contas. Adivinha-se que à entrada do mesmo (do outro mundo), haja um porteiro. É expectável e até recomendável para a organização do espaço. Pela conversa, fica-se a saber, que a palavra passe para ingresso futuro, deverá corresponder à tomada de conhecimento daquilo que se andou a fazer cá por este mundo. Existem muitas pessoas que afirmam que, na hora da passagem derradeira, nos é perguntado, sobre o que fizemos de positivo nesta vida que nos coube em sorte. Se praticámos o bem. Se fizemos felizes os nossos semelhantes… Se amámos os animais e a Natureza. Se fomos sempre generosos com os pobrezinhos...
Pois, sim… Mas ao que parece, o poeta Bocage tinha outro tipo de informação. Pelo que o tal porteiro, a quem podemos chamar pomposamente de Antunes para facilitar, perguntar-nos-á:
“Ouça cá, oh companheiro! Você diga-me cá uma coisa? Lá em baixo como é que passou os seus tempos livres? Você fo*** bem?" (Eu peço desculpa pelo palavreado, mas foi o Bocage quem começou).
Só que a pessoa recentemente falecida, ainda deverá estar bastante confusa. Não deverá conhecer ali ninguém. Muito menos o Antunes. E com toda aquela conversa funesta, deverá ficar verdadeiramente estarrecida. E pensará: “Mas em que é que pode interessar a este aqui, sobre aquilo que eu fo** lá em baixo? Fonix?” Mas estas suas palavras, serão produzidas unicamente em pensamento. É que pela boca morre o peixe. E o incauto ali presente, já morrera uma vez.
Devido ao mau estar provocado, adivinha-se que a resposta tarde. E o Antunes é capaz de ficar um bocado exasperado. É que deve haver por ali... sempre muito trabalho. E a fila é capaz de se começar a avolumar… Pelo que perdendo um pouco da sua já secular paciência, ele lá acabará por explicar:
“É que é ponto de referência, e medida sujeita à aprovação por parte dos nossos superiores, saber como é que foi todo o seu desempenho sexual lá em baixo. Saber sobre a quantidade, mas também sobre a qualidade daquilo que vivenciou. Apurar por exemplo, se viveu intensamente a sua vida… Mas sempre e só na perspectiva da libido. Outros assuntos, já não são do nosso interesse. Não são pois para aqui chamados”.
Ante aquela informação inesperada, o recém-falecido torcerá nervosamente as mãos. Ficará mesmo muito apavorado. É que por aquela é que ele não esperava. E de nada lhe valerá confessar, que passou a vida à espera de uma qualquer princesa adormecida. Que era sua intenção fazer com que, mal a avistasse, a despertaria com um encontrão. De nada valerá às senhoras, dizerem que procuraram por todo o lado, (mas que infelizmente nunca encontraram), o tal “bom partido” perfeito que as fizesse felizes e folgazãs para todo o sempre. De nada valerá, testemunhar um conjunto de boas intenções, onde se aponte no fim, que a culpa do insucesso não fora sua, mas sim do pai, da mãe da prima, do cão... Ou então mais prosaicamente afirmar, que a culpa é inteiramente toda... do homem do talho. E esqueçam lá também, as desculpas das dores de cabeça. Que eram crónicas.
É que se se atender ao conteúdo deste “belíssimo” e informativo soneto, se não se apresentarem resultados efectivos e incontestáveis de "galderice", o Antunes não terá outro remédio, senão abrir as suas potentes goelas e gritar lá para dentro:
“Oh Senhor Rei do Averno! Faça o obséquio de se aproximar. Há aqui mais trabalho para si. E por favor não se esqueça: traga também a sua grande ferramenta. É que se não a trouxer, eu ver-me-ei obrigado, a passar-lhe uma multa. Por falta de material. Depois ser-lhe-á descontado um tanto, na sua folha de vencimento. É que lá por ser rei…”
E virando-se depois para o faltoso, o Antunes concluirá: “Quanto ao senhor, por gentileza, passe já aí para essa saleta do lado. Pode, é também já se ir descalçando.” E no fim, retomando rapidamente a sua posição inicial, aclarando a voz, o Antunes prosseguirá:
“E que venha o próximo!”
Peço imensa desculpa pela brejeirice apresentada, mas não fui só eu que tive a culpa. Foi aquele livro que se abriu. Ali mesmo e em cima do meu pé. Só que olhem bem… o alerta ficou dado. Há com cada uma!…
Sugestão de leitura para esta semana: “Antologia Poética” de Manuel Maria Barbosa du Bocage.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


Nota: E não é que já se passaram dois anos sobre a inauguração deste Estaminé? Deus do Céu! Até parece que foi ontem. E ainda há tanta coisa para contar…
*Titulo da poesia postada: Soneto do Amor Efémero.
DIVIRTAMSEMAZÉ! Com boas e reconfortantes leituras.

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