Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Fazendo buracos.



António havia nascido no ano da graça de 1926. Foi assim nado e criado numa aldeia bem perto da capital portuguesa. Contudo à época, e avaliando a inexistência de uma rede de transportes efectiva, viver perto da capital seria quase a mesma coisa que viver numa terra localizada no interior do país.
Sem profissão definida, António fazia o que havia para fazer. Era senhor e dono de dois ou três terrenos e ocupava grande parte do seu tempo na labuta dos mesmos. Praticava desta maneira uma agricultura de subsistência.
António casou, teve filhos e foi feliz. Podia até ter protagonizado um vídeo, com a música “Casa Portuguesa”, brilhantemente cantada pela saudosa Amália Rodrigues.
António gostava ainda e também de uma bela pinga, que lhe aquecia não só o coração como a alma. E António tinha aquilo que muitos consideram, de bom vinho. Já que bem etilizado, o “nosso” António nunca ficava violento. Muito antes pelo contrário. Já que falava amiúde, se bem que revelando uma certa e natural atrapalhação no seu discurso… falava da sua vida, assim como também dos, seus muitos afectos.
António era muito amigo de Celestino, que exercia a profissão de coveiro com muita dignidade e espírito solidário. E Celestino, jamais se recusara a enterrar alguém. Fosse velho ou novo, rico ou pobre, homem ou mulher…
Mas certo dia, Celestino foi acometido de uma grave e incapacitante moléstia, que determinou a sua “baixa” forçada e não remunerada, ao serviço. “E agora o que fazer?” Pensou Celestino aflito. Quem é que iria proceder ao necessário e bom enterramento? É que mesmo durante um ou dois dias, a morte não daria tréguas. E continuaria sempre a fazer as suas aquisições. Pelo que (e antes que fosse tarde), Celestino resolveu pedir ajuda António, que era o seu amigo de todas as horas. Pediu-lhe assim que o substituísse. E seria por muito pouco tempo. Era o que ele previa. Pois logo, seria capaz de exercer novamente as suas funções. Com muita propriedade e desvelo.
António considerou a proposta. Ainda pensou recusar. Pois que os corpos esperassem pelas melhoras do Celestino. Mortos já estavam, não era? E dois ou três dias sem enterramentos, não haveria de fazer grande mal à vida da comunidade. Contudo depois pensou melhor. Celestino era o seu grande amigo. O amigo de todas as ocasiões. Dos bons e dos maus momentos. Celestino era também uma excelente companhia para a pinga. E nos dias de grande confraternização não era raro ver os dois a cantar, as melodias locais, acompanhados pelo som fanhoso de uma rudimentar concertina. Pelo que António aceitou ser coveiro por um tempo. E não havia de ser nada.
E logo antes do primeiro sepultamento, o António decidiu beber dois ou três copitos. Para lhe dar mais coragem. E também algum suplementar poder de encaixe para a execução daquela profissão. E à hora aprazada, para o início da cerimónia, o António só estava levemente “quentito”. Mas só muito levemente.
No cemitério ele já havia providenciado à execução da cova. Com as medidas aconselhadas e que o Celestino lhe solicitara que fizesse. As ferramentas necessárias também estão logo ali à mão. E muito bem arrumadas. Agora é esperar.
Passados alguns minutos, o António avista ao longe o cortejo composto pelos familiares e amigos daquele que falecera. Brilhante vinha ainda o caixão, ocupado pelo seu legítimo dono. À frente vinha o padre com um sacristão. E aquela aproximação deu-se rapidamente, apesar dos passos serem demorados. Era António que não tinha pressa nenhuma em começar com aquilo.
Já perto da cova, António aproveita e faz o sinal da cruz. Também havia conhecido o morto. Por momentos dera também em recordar, os tempos em que o mesmo estava vivo e bem vivo. E de bem com a vida. Agora estava ali tão esticadinho. Com tantas rendas à volta do pescoço. E pedaços de algodão enfiados nas narinas. António dá assim em pensar na vida e no sentido para a mesma. E fica com um nó muito apertado no peito.
António dá depois de caras com aquela recente viúva, que muito chorosa ainda não se habituara àquela sua nova condição. A mulher havia perdido o seu homem. A companhia de uma vida. Aquilo tocava-lhe de forma profunda, o seu tão amolecido coração. António ficou assim, como sem saber o que fazer ou o que dizer. Mas decidiu ir consolar a viúva, usando as palavras de circunstância: “Pois que tenha paciência. Que a vida é ingrata. E a morte que só leva quem é bom e que faz falta…” E em simultâneo, dá um abracinho leve à desolada viúva.
Depois, e quando a sente mais calma, António vai para o pé do caixão e da cova. E depois com algum esforço, ele consegue colocar o esquife, lá no fundo. A cal e os procedimentos da praxe já haviam sido realizados também. E António dá depois uma generosa pazada na terra, e atira-a para cima da cova aberta e já ocupada. Aí a viúva dá em chorar abertamente mais uma vez. António fica com pena. Fica mesmo com muita pena. Pousa a pá e vai mais uma vez para perto da viúva. E fala-lhe mais uma vez. Com as palavras de conforto daquele santo homem, a chorosa fica mais calma. De novo António solta-se da desolada mulher e pega mais uma vez na pá, conseguindo colocar mais duas pazadas de terra.
Toda aquela cena foi composta, pela intenção profunda do António fechar a cova e depois de ir consolar a viúva. Num movimento perpétuo que ia da abertura da cova com o caixão la no fundo, até ao pé da viúva, tentando consolar a inconsolável. No fim, e já estando o caixão rudimentarmente coberto, António abraça mesmo com muita força a viúva. E os dois juntos desatam ali a chorar num pranto muito audível. Naquela que foi uma execução em uníssono, de grandes lamurias e demonstração de sentimentos profundos.
António viu-se forçado a executar todos os serviços que lhe haviam solicitado. E ocupou por dois dias, o lugar que era muito legitimamente ocupado pelo seu grande amigo Celestino. Contudo fê-lo não desprovido de emoção. Celestino ficou bom ao fim de um par de dias. E retomou o serviço funerário lá da terra.
E foi a partir daquela altura, que António (e nas suas rezas diárias) jamais se esqueceria de pedir saúde, muita saúde para o seu amigo. Pois era seu grande desejo jamais vir a substitui-lo. Por uma única vez que fosse. António definitivamente, não tinha vocação para exercer aquela tão útil, porém tão funesta profissão.


Sugestão de leitura para esta semana: “Doces Recordações” de Ellen Greene.
DIVIRTAMSEMAZÉ!

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