Porque tristezas não pagam dividas.
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sexta-feira, 19 de julho de 2013

Pelos Caminhos de Portugal - 1.




Um dia destes, tive a oportunidade de visitar o Buddha Eden Garden. E foi então que tive a possibilidade de passear por um espaço de cerca de 35 hectares, onde a estatuária de imensos Budas, aparece ali em perfusão. O verde da vegetação também está ali muito presente. E existem também alguns lagos, o que confere uma beleza muito especial àquele espaço. Os lagos, que também são habitados por alguns cisnes e peixes. Que estão por ali, sempre muito contentes e a nadar.
Aquele jardim foi pensado pelo mais famoso comendador lusitano de há alguns anos a esta parte: Pelo Comendador Berardo. E a ideia surgiu-lhe como resposta à destruição que foi perpetrada aos Budas Gigantes de Bamyan. Naquela que foi uma acção pérfida e absolutamente inconsequente protagonizada por um Governo Talibã. 
Com aquela acção nociva, apagaram-se para todo o sempre da memória mundial, verdadeiras obras-primas datadas do período tardio da Arte de Gandhara.
Foi desta maneira, e contando com uma muito meritória e boa intenção, que surgiu a construção daquele extenso jardim oriental. O comendador pretendeu assim, homenagear os colossais Budas, esculpidos na rocha do vale de Bamyan, (localizado no centro do Afeganistão), que durante séculos, serviram como referências culturais e espirituais aos povos que por ali permaneciam. Ou àqueles que por ali aportavam.
Aquele espaço, está assim localizado junto às Caldas da Rainha e é mesmo muito agradável de ser visitado. Aquele poderá ser mesmo um lugar capacitado, a nos reconciliar com o mundo. E como nós estamos necessitados disso! A fazer-nos esquecer por momentos, de alguns daqueles factores que por vezes parecem ser passíveis de tornar a nossa existência muitíssimo desagradável. Os que nos infernizam a vida.
Aquele espaço contudo, não detém em si, qualquer tendência religiosa. Está assim aberto para todos, independentemente das suas crenças, ideologias e dogmas. E é propício também, a todo aquele que não consegue reunir em si, qualquer fé em algo etéreo, que lhe seja superior, e que o transcenda. Tenho a desconfiança que naquele jardim, qualquer pessoa se poderá sentir por alguns momentos "de bem com a vida". E aproveitar para fazer mesmo alguns exercícios. (daqueles sincronizados, que nos fazem parecer uns verdadeiros robots), enquanto se passeiam calmamente, por aquele espaço tão verdejante. 
Eu visitei aquele jardim, na companhia de um grupo de pessoas. Sim, e eram já (na sua grande maioria), bastante idosos. E acreditem, a companhia deles dá-me sempre um prazer especial. Dá-me até uma certa confiança. Se eles estão ali bem, e até já resistiram a tanto, quem sabe se não me poderá também acontecer o mesmo? Como os observo, sempre os poderei emitar.
E depois sempre dá para aproveitar as explicações de guias, que costumam acompanhar tais visitas, que por inerência deverão estar muitíssimo bem informados. E que nos chamam ali a atenção para todos os pormenores. É também por isso que eu vou. E tenho mesmo a dizer, que sou alvo de muita aceitação, por parte daquela comunidade de velhinhos e velhinhas. E como se aprende naqueles passeios! Não são só os pormenores daquilo que se visita, como se conhecem verdadeiras histórias de vida. Como é que vocês acham, que eu consigo sempre, ter tanta história para contar? Onde é que vocês acham, que eu vou buscar alguma da minha inspiração? É também ali. :-D
E aquela voltinha, foi de tal maneira compensadora, que na companhia de tais pessoas, a conversa rendeu muito e foi mesmo muito prazerosa. Pusemo-nos pois todos, ali em amena cavaqueira. Sem termos com isso referido, ou feito qualquer alusão, àquele que vive em Belém, Credo! Que na altura ainda estava de "casa e pucarinho" com o ministro primeiro. Não, a nossa conversa versou outras temáticas. Menos surreais. E tanto foi assim que a dada altura, acabámos mesmo por perder a guia.
E como é que era a guia, que nos coube em sorte? Pois era mesmo, mesmo uma guia muito sui generis. Como aquela eu nunca mais vi nenhuma. É que naquela sua condição de guia, a mesma não detinha em si qualquer tipo de auto-estima. E a todo o momento, ela repetia até à exaustão: "Tenho pena, mas eu percebo muito pouco sobre esta temática (Budas e Budismo). Sou é informada, do que para aqui estou a tentar dizer-vos, por todos aqueles que visitam este espaço."
Estaríamos nós a ouvir bem? Afinal... e se assim era, o que é que ela lá estava a fazer? Não é suposto as guias turísticas estarem sempre muitíssimo bem informadas? E quando por exemplo não sabem qualquer detalhe, prometerem ir pesquisar mais, para na próxima conseguirem ter mais informação? E informação fidedigna? Pois afinal não é essa a sua profissão? Referenciar informação oportuna, não fará parte integrante da mesma? Imagine-se por exemplo, uma bibliotecária a fazer uma visita guiada lá no lugar onde labora. No meio da visita, ela assume que não percebe nada, sobre a forma de como os livrinhos estão arrumados. E até poderá informar que os livros são arrumados, segundo os critérios dos leitores. Por todos aqueles que visitam e usufruem daquele espaço. Depois admite, o seu total desconhecimento sobre literatura. Demonstra não ter, qualquer conhecimento sobre a tipologia das diferentes literaturas ao longo dos séculos. De cor, ela não saberá falar de umas boas dezenas de autores. Já para não falar em centenas. Concordarão que aquela Biblioteca deva estar muitíssimo mal representada, ou não?
Mas ali, e junto aos Budas, aquela guia não estava nada preocupada, com a má figura que para ali estava a desempenhar. Só se lembrava é que tinha um grande vício. Que era o vício do fumo. Pelo que volta e meia, ela lá acendia mais um cigarro. Esfumaçando não só para cima dos Budas, como para cima de nós. Fossemos nós velhinhos ou não. Se calhar, era dos nervos. Depois lá ia repetindo, mais dois ou três lugares comuns, dos mais comuns de todos. Que qualquer um dos visitantes poderia reproduzir com a maior facilidade. Se para isso tivesse lido um qualquer Almanaque da Bertrand. Nos anos oitenta.
Se calhar aquela guia, só estava ali a substituir uma outra guia (essa muito mais documentada), que eventualmente tivesse ido tirar sangue para fazer análises. Ou então, a nossa visita, calhou mesmo na altura certa, em que a outra teve que ir fazer xixi. É que se assim não fosse, logicamente que aquela senhora, não teria ali lugar. E ainda mais naquele lugar tão específico. Tão zen!
E naquele meu grupo adorável, foi gente que viu um Buda daquele tamanho, pela primeiríssima vez da sua vida. Graças à presença e actuação daquela pseudo-guia, a visita ficou muito longe das expectativas criadas. Mas à parte disso, o ambiente que se viveu ali, foi muitíssimo tranquilizador. Se calhar perdemos a guia, porque algum velhote, farto de tanta imprecisão, a atou num qualquer tronco de árvore. E depois talvez lhe tenha colocado um lenço, fortemente amarrado à sua bocarra.
Mas a guia e apesar de (e continuadamente) se confessar tão pouco conhecedora do que ali constava, ainda teve a oportunidade de nos informar, que aquela presença ali (a do Jardim da Paz), não foi de todo pacifica. Já que existem pessoas, que consideram que a presença ali dos Budas, é uma grave intrusão às crenças e costumes do povo lusitano. Que é um povo mais tendencialmente ligado à fé Católica Apostólica Romana. Há quem afirme, (designadamente quem peregrine por um espaço considerado sacro, localizado ali nas imediações), que a presença dos Budas ali, perturba bastante as suas caminhadas rumo ao Divino. Pessoas a quem a palavra "ecumenismo", não deve de fazer lá muito sentido. Deve de ter que ser inclusivamente, banida do dicionário. Por falta de oportunidade. Ou então que seja uma palavra que no máximo, possa ser aludida, nas descrições das obras literárias de Ficção Cientifica.
Para mim, essa é a coisa mais condenável nas religiões. Ou seja, toda essa atitude firme por parte dos seus seguidores. Em que se consideram, que só mesmo eles, é que estão certos. É muito perverso pensar-se assim. É que tal nem concorre em benefício deles. Tais atitudes podem mesmo afastar qualquer intenção, por parte de alguém que eventualmente queira saber mais sobre a religião concreta. De tal forma que pode evitar mesmo, o aumento gradual de algum seguidismo. E conclui-se facilmente que nem para a sua causa, eles são bons. E quem é que no seu perfeito juízo, não tenta vislumbrar o todo, (na sua natural diversidade), como fazendo parte de uma só realidade? Que é a nossa? De todos nós? E quanto às diferenças? Essas terão que ser aceites e respeitadas por todos. E que viva a liberdade de pensamento! E também a variedade!
Quanto a mim, tenho a dizer, que não vi ali nenhum daqueles Budas a tratar mal ninguém, E até digo mais: estão ali todos muito quietinhos, roliços e pacificados com o meio que os envolve. Exibindo mesmo doces e graciosos sorrisos. Não há pois motivos para se temer, uma qualquer possível... concorrência. É que há lugar para todos. Eu acho que deve de haver gente, que encara esta coisa da religião como se fosse uma partida de futebol. E depois deve de adorar, pertencer à claque de um determinado Deus. E de apregoar aos "sete ventos": "O meu Deus é muito melhor que o teu". E depois, após tal declaração de interesse, eles devem também achar muito perigoso, juntar as suas representações do Divino, às representações do Divino dos outros. E num mesmo espaço físico. Como se a concorrência ali gerada, pudesse determinar uma hecatombe qualquer.
À saída do Jardim, tivemos a oportunidade de nos passearmos, por uma considerável loja de vinhos. Ah pois é! Sim, porque isto do espiritual, (e por si só), não dá de comer a ninguém. Nem mesmo de beber, claro está. E o tal do Comendador já anda nestas coisas, vai para muito tempo. Ele já há muito que perdeu a virgindade.
Então quem quis, teve oportunidade de levar para casa, o bom do vinho da Bacalhoa. E quanto aos velhinhos? Pois prometeram que naquele dia, não tomariam os seus remédios habituais. Alguns tiveram mesmo, a vida facilitada. Eles comprariam uma garrafinha, ao invés de comprarem os comprimidos. E esta escolha (nesta época), é facílima de fazer. Então eles puderam comprar, o belo do vinho fino, generoso e moscatel. Ou então o mais comum J. P. Entre muitos outros.
E como eles estavam ali tão contentes com a expectativa! Contudo também, e quando se olhou um bocadinho lá mais para cima, teve-se a oportunidade de observar algo no mínimo, bastante intrigante.É que por cima das prateleiras, das que contém as prestimosas garrafas da inspiradora bebida de Baco, tomou assento uma muito considerável colecção de penicos. Sim leram bem, são penicos, senhores. São penicos! Todos eles muitíssimo bem decorados. De feitios e de tamanhos bem diferenciados entre si. Respeitando, claro está, os gostos mas também os diferentes tamanhos, por parte dos seus eventuais utilizadores. E, cada penico tem mesmo... a sua própria tampa.
Mas... vejamos: qual será a ligação daquilo? Pôr vinhos e penicos no mesmo sítio? Se calhar, os penicos têm ali serventia, para quando o vinho estiver estragado. Ou então, para quando se apanhar aquela grande "piela". Poder depois, contar assim e rapidamente com um penico, para se poder ir "ao Gregório". É que só pode mesmo ser isso. Outra coisa eu não estou a ver. Mas eu cá digo: na minha simples e modesta opinião de leiga na matéria, não acho que seja um slogan propagandistico lá muito eficiente. Não concordam?
Em vez dos penicos, bem poderiam lá colocar algumas fotografias de portugueses. De desempregados e a desempregar. Assim com um ar bastante famélico. É que cagar, já há muito que nos estão a cagar em cima. Essa seria efectivamente a imagem mais real, daquilo que se está a conseguir, com esta idiotice da "austeridade". Depois e na parede, pintada a azul (mas em azulejos), constaria a celebérrima frase de outrora, mas adaptada: "Beber vinho pode dar de comer a... (e colocaria-se a referencia ao número total dos sofredores deste país), milhares de portugueses. E mais em baixo colocar-se-ia: "Mas não se ralem muito com eles, porque eles até já estão a desaprender, a comer e a beber". E assim, quando viessem os turistas alemães...
Poder-se-ia usar um daqueles painéis utilizados para quando o Rock in Rio, se realiza em Portugal. E o número dos dias que faltam... está para ali sempre a diminuir. Só que desgraçadamente, o número dos desempregados cá do burgo, estará sempre, sempre a aumentar. Desta forma, dar-se-ia mais uma referencia à miséria que por aqui vai grassando. E aquela sim, é uma frase altamente propagandistica. E deve de orgulhar muito, qualquer governo que se preze. Como pelos vistos, é este que temos. Que não tendo condições nenhumas, se acha sempre o maior.
E o triste painel, serviria até ao dia, em que toda a população acabe por sair de Portugal. É que como as coisas estão a ir, será mesmo de duvidar que por cá fique alguém. Passará isto depois, a ser uma reserva de caça. Para usufruto somente de ministros, assassinos e quejandos.
Sugestão de leitura para esta semana: "A Casa dos Budas Ditosos" de João Ubaldo Ribeiro.


DIVIRTAMSEMAZÉ e boas leituras. Estes conselhos a serem seguidos, bem poderão ser uma boa evasão, aos actuais cenários da desgraça. E beba-se também vinho em simultâneo.
Mas este passeiozinho ficou somente a meio.

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