Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Os vinhos e os amores, os velhos são os melhores.



Que o amor não escolhe idades é um lugar-comum. Do mais comum de todos. E é com uma dose muito elevada de desvelo, que ouvimos falar de pessoas que se apaixonam por outras, mais novas ou mais velhas, sem terem muitos problemas com isso. E os numerosos casos de amor que acontecem cada vez mais nos lares de terceira idade? Apaixonarem-se assim, na curva bem descendente da existência? E depois disso, eles até costumam casar. E fazem muitíssimo bem. É que ao invés de estarem p’rá ali a dormir cada um para seu lado, ou num quarto com numerosíssimas camas, mas ocupadas por elementos do mesmo género que o seu, o recém casal obtém assim um quartinho. E de portas fechadas, eles poder-se-ão entregar às delícias próprias da vida conjugal. E depois podem assim ajudar a aquecer, os pezinhos do parceiro. Ou de outras partes do corpo, que eventualmente também necessitem de aquecimento. Nos dias de maior calor, eles poderão soprar ao de leve para o ser amado. Mas não com muita força. Para prevenir, será conveniente terem no quarto, uma botija de oxigénio, não vá o diabo tecê-las. Mas, e na eventualidade de tudo correr bem, digam lá que tal não é maravilhoso?
Contudo não há bela sem senão. É que por vezes são os invejosos dos filhos que se opõem com todas as suas forças e determinação, à felicidade dos pais. E isso não é justo. Ninguém, (mesmo ninguém) tem o direito de afastar quem quer que seja, do caminho da felicidade. Essa é que é essa.
O senhor Aníbal tinha 93 anos. Aos 88 ele tivera um enorme desgosto: perdera a sua queridíssima mulher, com quem partilhara a vida durante seis décadas. Assim, e durante dois ou três anos, ele andou muito macambúzio com a lástima em que se havia transformado a sua vida. Ia à Biblioteca com alguma frequência. Levava dois ou três livros que lia com avidez. Só não perdia era uma oportunidade, para criticar as escolhas e os recursos estilísticos seguidos pelos escritores mais jovens. Aníbal preferia na maior parte das vezes, requisitar as obras dos escritores que ascenderam à categoria de clássicos. Autores que ele considerava serem, muito mais capazes e talentosos. É que (e segundo ele), os clássicos não o decepcionavam nunca.
E depois, eu lá trocava com ele uma palavrinha de ânimo. No sentido de o reabilitar (um pouco) para a vida, dentro das minhas parcas e muito limitadas capacidades. E o “convívio” era tal que (e somente quando ele o solicitava), eu lá lhe ia sugerindo uma ou outra leitura. E como o tempo vai atenuando as dores das feridas que insistem em não se fechar, eu depois ia-lhe falando em autores, que ainda eram do seu total desconhecimento. Mas não necessariamente os mais jovens. Eu que na altura até já lera duas ou três centenas de livros. E alguns dos escritores que eu mais gostava, o Aníbal ainda não havia lido.
Foi a ele que eu, em certo dia sugeri a leitura do livro “O Sumiço da Santa” de Jorge Amado. Que foi um livro de que eu muito gostei de ler. E como eu me diverti! Até podia ser que aquele velhote (em recuperação) também gostasse. Só que depois, e passados os dias do empréstimo, eu cheguei mesmo a recear o encontro com o Aníbal. É que esse meu comportamento e a minha voluntariedade tão natural, muitas vezes me deixam (e porque não admiti-lo), algo receosa. Eu tento fazer a minha parte, contudo… sei lá eu, se as pessoas vão reagir bem ou não às minhas sugestões? É que sugerir leitura, não deixa de ser um risco. É um risco calculado, é verdade. Mas não deixa de ser um risco.
Naquela ocasião específica, a coisa não foi diferente. E depois eu quase que evitava o Aníbal. Só que o velhinho não me evitou a mim. Pois mal me viu, abriu um sorriso de orelha a orelha, e acercou-se imediatamente da minha pessoa. Depois deu em agradecer-me muito embevecidamente a sugestão que eu lhe fizera. E referiu mais, aquele ancião. É que inicialmente ele achara estranho, aquele meu tão à vontade, especialmente com as pessoas mais idosas. Sugerir-lhes assim leituras… com algumas maroteiras lá descritas. Só que depois concluiu, "que como eu era uma rapariga nova e muito moderna"… Contudo no fim, ele havia gostado da leitura. E isso é que era preciso. Ao que eu lhe respondi: “Mas olhe que o Jorge Amado é rapaz para andar aí pela sua idade!”. O que naquela altura, era absolutamente verdade.
Com o passar do tempo, Aníbal melhorou um pouco o seu semblante. E ia-se esquecendo um pouco, das longas tardes de estio, em que ele e a falecida, se entretinham a fazer puzzles de 25 000 peças. E depois, pouco a pouco, ele começou a sorrir mais, e a ter muito mais cuidado com o seu vestuário. E a começar a envergar com muita regularidade, o seu elegante chapéu panamá.
E foi num dia, assim à queima-roupa, que ele assumiu grande coragem ao perguntar-me, se eu conhecia alguma senhora, pertencente à sua faixa etária, (mas que fosse de confiança), que com ele quisesse partilhar a velhice? E eu, meus amigos? Eu fiquei ali sem palavras. Mas depois, fiquei também muito contente, com o entusiasmo e a confiança demonstrada. Foi desta maneira que me lembrei da D. Deolinda, que era também já muito velhota. Que também era viúva. Só que tinha um temperamento muito mais calmo que o do Aníbal. Ela nem sequer frequentava os bailes da terceira idade. Se calhar, era porque ninguém a convidava. E pensando bem, quem sabe se ela também não gostaria de conhecer o Aníbal? E decidi usar de todas as minhas forças, naquele mui benemérito "empreendimento. Depois, e a muito custo (mais da parte dela, que se ia mostrando mais indisponível), eu lá os apresentei. Só que a situação não conheceu grandes desenvolvimentos. No fim, os dois alegaram incompatibilidades diversas.
Mas passados alguns meses, houve um acontecimento que fez toda a diferença. Numa certa Segunda-Feira, quando o Aníbal já tinha os tais 93 anos, ele chegou ao pé de mim e disse-me: “Veja lá bem a minha vida: Hoje eu ia sendo apanhado pela filha da minha namorada!” Eh lá!!! Então o que é que era aquilo? Pensei eu. E intimamente, eu dei graças: “Senhor, abençoados os que chegam a esta idade! E que conseguem conservar esta vitalidade toda. Assim como toda esta vontade de viver.”
E passando-lhe poucos instantes sobre a minha total estupefacção, o nonagenário lá me explicou: É que já havia passado algum tempo sobre a data inaugural da sua tão sofrida viuvez. A solidão era muita. E por isso o Aníbal havia finalmente conseguido arranjar uma namorada. Conhecera-a certa vez, quando os dois almoçavam pacatamente (e cada um em sua mesa) num restaurante da capital. Aníbal gostou da postura de Ana, firme e muito aristocrática. Gostou também muito, de lhe ver os lábios pintados, com um vigorante tom carmim. Assim como lhe apreciou muito a máscara de pó de arroz, cheiroso e bastante visível. Ana (era esse o nome da amada) apercebeu-se também logo dele. E muito lhe admirou o porte. Assim como as roupas bem cuidadas e muito engomadas. E as unhas, irrepreensivelmente limpas e muito polidas. Agradou-lhe também muito, assistir à forma encantadora, como o Aníbal se via livre, dos caroços das azeitonas.
O amor nasceu ali, irremediavelmente, entre aqueles dois. Só que a Ana era bem mais nova. Tinha 88 anos. Com as palavras que trocaram, as mesas passaram a uma somente. É certo que também já não ouviam lá muito bem. E era de mau tom, porem-se p’rá ali a gritar. E depois, convenhamos, é muito melhor, comer-se acompanhado. Pelo que o Aníbal muito firme e erecto, levantou-se da sua mesa, e foi para o pé daquela, que seria, (e num futuro muito próximo), a sua bem-amada. No processo ele não se pôde esquecer, de ajeitar muito bem as suas calças, que estavam muito bem vincadas. E eram de finíssimo corte.
A conversa rendeu. E foi completamente ao gosto de ambas as partes. Depois disso, foram trocados contactos , assim como outras informações dignas de nota. E aos almoços, seguir-se-iam os fantásticos e muito higiénicos passeios pedestres, quando os dois e de mão na mão apreciavam a beleza e a extensão do Tejo. Assim como a maravilhosa circulação dos cacilheiros. Adoravam também ir ver e apreciar, a imponência dos navios de cruzeiro, que iam estando (e cada vez com mais frequência) encostados ao porto de Lisboa. E dengosos, eles lá prometiam um ao outro, que no futuro, também eles poderiam ir dar uma voltinha pelo mundo. E depois disso? Eles selavam aquela muito nobre e desejável intenção, com um beijo. E depois? Eles davam mais outro beijo. Beijos que tingiram muitas vezes, de carmim, os dentes da frente do Aníbal. Dentes, firmemente fixos com a imponente Corega. E o namoro lá continuava.
Só que os passeios também deixaram de ser suficientes. É que os corpos pediam mais envolvimento. O Aníbal, claro está, queria porque queria, conhecer a casa da sua amada. A Ana vivia na capital, o Aníbal num dos seus arredores. Era muito mais fácil a Aníbal visitar a sua "Dulcineia", e não o contrário. Aníbal sentia também, muita curiosidade em lhe conhecer e sentir toda a delicadeza das fronhas e dos atoalhados. Verificar toda a complexidade dos seus bordados. E eles, lá combinaram a melhor forma de se encontrarem. Só tinham mesmo que ter um cuidado muito especial. Os encontros tinham que se dar na ausência da filha de Ana, que vivia ainda em casa paterna. A filha contava já sessenta e picos. E era claramente uma pessoa muito invejosa. Pelo menos sentia uma raiva profunda, pela mais que evidente beleza e exuberância de sua mãe. Assim como (e também), pela sua invejável forma física.
Só que tendo algum cuidado, aquele casal idoso, não tinha muito a recear. A tal impertinente filha tinha hábitos muito calculados. Conservava muitas rotinas. E as suas ausências faziam-se, quase sempre às mesmas horas. E por longos períodos. Pelo que o casal idoso não teve outro remédio, que redobrar os seus cuidados. Mas não deixou de se encontrar. Muito antes pelo contrário. Fê-lo até com muita regularidade. E na eventualidade de acontecer, algo inesperado, eles inventaram e utilizaram uma linguagem secreta. Só do conhecimento dos dois.
Foi desta forma, que a vida de Aníbal conheceu muita animação. E foi mesmo muita, a adrenalina que lhe circulou pelas veias. O Aníbal quase todos os dias visitava o seu amor. E nas imediações da casa da namorada, ele avaliava se a costa estava ou não estava livre. E na maior parte das vezes, até estava. É que a Ana avisava sempre, o seu adorado Aníbal, da presença perversa da “emplastra” lá em casa. E se estivesse pendurado no estendal, um enorme toalhão de cor-de-rosa vivo, as vias estavam desimpedidas. E o amor era possível. O amor é lindo! É ou não é?
Mas eu (e algo preocupada com a integridade física daquele meu amigo) perguntei-lhe, se aquele código não seria também entendido pelas vizinhas? E por outras pessoas igualmente invejosas? É que eu achei que aquele método era algo arriscado. Tentei assim (mas à posteriori é certo), avisar o meu amigo nonagenário. É que as vizinhas podiam achar estranho, a Ana estar ali sempre a estender, uma toalha enxuta. E depois… a estender sempre a mesma toalha. É certo que a “emplastra” da filha estava lá poucas vezes. Mas por inerência, a tal toalha também era muitas vezes estendida. Não seria melhor procederem ao contrário. Estender a toalha, quando o sentido fosse proibido? É que… nunca confiando. E não seria mais simples e muito menos arriscado, avisarem-se de eventuais impedimentos, através de uma simples mensagem no telemóvel? Ou de um toque só? “Pois que não”, respondeu-me o Aníbal. Esse podia ser mesmo um acto falho. Uma verdadeira desgraça. É que muitas vezes, o seu velho Nokia carecia de novo carregamento de bateria. Era de prever, claro está? E atendendo às circunstâncias… já muito o Aníbal fazia.
Retomando a narrativa. Então, e depois de visualizada a presença do toalhão, o Aníbal ficava todo contente. Caminhava até mais depressa, e com muito mais vigor. Subia a escada, degrauzinho a degrauzinho. E não seria de esperar outra coisa. Ele estava bem, é certo. Só que já estava velhinho. Mas dobrava ainda (e com alguma firmeza), os seus já envelhecidos joelhos. Avançava mesmo com bastante desenvoltura. E depois disso, ele tinha no terceiro andar, uma porta escancarada e à sua espera. Nessas circunstâncias a regra era, a Ana vestir somente uma combinação preta. E semitransparente. E o amor deles começava logo ali, no meio do hall. Segundo o Aníbal, a amada apreciava muito, demoradas festinhas. Assim como… posições diferentes.
E era desta maneira que a coisa lá de ia dando, para grande contentamento daquela dupla. Só que naquele dia, a coisa tomou contornos diversos. Já que o inesperado aconteceu. É que a “emplastra”, a moinante da filha, chegou muito mais cedo, quando o casal de amantes procedia a uma posição muito complexa, que exigia mesmo alguma flexibilidade extra. -Oh diabo, e agora o que fazer? É que o Aníbal não podia correr o risco de vir a sofrer de um torcicolo. Ou mesmo de uma pontada nas costas. Tais moléstias, jamais haviam sido previstas. E o que é que as pessoas podiam dizer, se o vissem a sair do prédio, com a cabeça de lado? Ou então com um andar novo?
Pelo que foi necessária alguma calma, (devido também ao avançado da idade), para eles se desemparelharam. E depois, sub-repticiamente o idoso, escondeu-se na marquise. Estava era nu. A seguir, ele aproveitou o momento em que a sua enteada tão antipática usou a casinha de banho, para se escapulir da casa da sua adorada. Despachou-se como pode, e pelas escadas abaixo. E só se conseguiu vestir totalmente, quando chegou ao primeiro andar.
Quando ele me viu e me narrou toda aquela sua odisseia, ainda lhe faltava um bocadinho o ar. Tal foi a aflição sofrida. É que sobre aquela ocorrência toda, já se haviam passado algumas horas. Ele até já havia viajado de comboio. Mas ainda era um estado de verdadeiro terror, aquele que lhe habitava no peito. Peito que estava mesmo tão apaixonado. Coitadinho!
Eu acho que havia de haver uma lei, que proibisse, filhas traumatizadas (e já com muita idade para terem juízo), de serem antagonistas à felicidade dos pais. É que objectivamente, o que é que elas têm a ver com isso? Procurem também elas (e para si), a felicidade. Sejam ousadas. Será que elas ao serem assim umas delambidas “empata fadas”, não ficam com um grande peso na consciência? E como é que conseguem impedir, o livre desenvolvimento da vida sexual dos velhinhos? Que estão ali sempre tão contentes, a fazer o que é… impensável para tanta gente mais nova?
Sim estes velhinhos são uns verdadeiros fenómenos. Eles é que a vão sabendo toda. E bem nos podiam dar lições de vida. A toda a comunidade que os cerca. E informarem-nos devidamente, sobre as suas práticas para uma vida saudável. As que eles sempre usaram. E que claramente os ajudaram a chegar, até àquelas idades tão avançadas. E ainda tão fresquinhos. Ah pois é!
Mas eu cultivo uma convicção firme. Que me tem acompanhado há já alguns anos: o amor é o melhor de todos os tónicos. Para uma vida que se quer longa e feliz.
Sugestão de leitura para esta semana: “Jogos da Idade Tardia” de Luis Landero.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


Nota: Soube hoje que o Aníbal faleceu. Mas não foi em consequência do susto aqui narrado. Não. Ele ainda deve de ter tido a oportunidade, de ter testado o Kama Sutra até à página 150. Foi mesmo a idade avançada que o levou. Paz à sua alma. Ou melhor, que esteja num bom lugar. Onde nunca lhe falte… muita diversão.
DIVIRTAMSEMAZÉ!

Sem comentários: