Porque tristezas não pagam dividas.
Só mesmo os sacrifícios dos Funcionários Públicos...

sexta-feira, 12 de julho de 2013

É porque também é meu, esse sangue que te corre nas veias...







Quem não se recorda (e por vezes até trauteia) do célebre poema, que fala de “um menino de sua mãe”?

“No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado.
Duas, de lado a lado-,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino de sua mãe.»

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço… deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
“Que volte cedo, e bem!”
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto e apodrece
O menino da sua mãe

Fernando Pessoa

Este menino aqui… morreu, coitado. Mas nem sempre isso acontece aos “meninos de sua mãe”. E… felizmente. É que morrer, eles acabam todos por morrer. Só que muitas vezes, eles morrem é já em velhos.
E em relação à temática: “os meninos de sua mãe”? Pois tenho a dizer que me é também, muito apelativa. Mais pelo ridículo que decorre, de algumas das situações geradas. Quando por exemplo o tal “menino” cresce, e se torna adulto. Mas continua a ser para todo o sempre… o “menino da sua mãe” com tudo o que isso implica realmente. E aí a coisa, pode tornar-se mesmo, muito dramática.
Tenho a ideia de que as mulheres se têm tornado, muito mais independentes que os homens. Actualmente até é natural que os paradigmas se tenham mudado um pouco. As mães dos rapazes tendem a educá-los para a vida. E quer eles, se casem, coabitem, se amantizem ou simpatizem somente com alguém, (ou mesmo que nada disso aconteça), eles são perfeitamente capazes de realizar as tarefas elementares, que lhes permitem ter uma existência condigna.
Contudo nem sempre assim foi. E para isso é capaz de ter contribuído muito, toda a educação que regra geral, as mães forneciam aos seus mancebos no passado. Que eram criados como uns verdadeiros lords. Um bocado à semelhança dos seus paizinhos. As meninas (e por seu turno) eram criadas como verdadeiras aprendizas de mulher-a-dias. Tinham que participar, desde muito novas nas tarefas domésticas. Compunham-se também para elas, gigantescos enxovais. E enquanto os rapazes, nas datas comemorativas eram presenteados com brinquedos e roupas muito fashion, as meninas recebiam colchas e panos da loiça. Mas que maravilha! Devia de ser cá uma empolgação?
Esses enxovais tinham que chegar, pelo menos até ao dia, em que as meninas passassem à condição de defuntas. Preferencialmente lá muito mais para a frente. Quando as mesmas já fossem trisavós. Elas eram educadas assim e com muito esmero. É que se esperava sempre que elas fossem, as cuidadoras únicas do lar e da família que elas ajudariam a fundar. E o marido? Pois seria sempre tido, como o grande senhor lá do sítio. Dizia-se que era a ele, que competia levar o dinheiro lá para casa. Mas, e as mulheres? Elas que muitas das vezes, também tinham os seus empregos? E depois da jornada laboral e diária, ainda tinham que realizar as tarefas domésticas lá de casa? Sem poderem contar nunca, com qualquer ajuda masculina?
Sim, depois porque as meninas eram sempre educadas para se casarem. Mas e se alguma delas, mostrasse interesse em não seguir por essa via? E pretendesse também ela divertir-se muito? O mais certo era ser olhada pela sociedade, como um bicho raro. E era mesmo tida, como alguém que devia de ser detentora, de um gravíssimo problema. Fosse físico ou mesmo psicológico. É que só podia ser! O lindo e o aconselhável, era seguir sempre no “carreiro das outras formigas”. É pois, mais do que evidente, que a rebeldia ao instituído, assim como o livre pensamento assustaram sempre (e muito) grande parte da comunidade.
Agora e felizmente as coisas têm mudado progressivamente. E se a situação não é perfeita, (longe disso), tendencialmente, já se visualiza um pouco, o bem-estar dos vários elementos da família. Onde a mulher tende a não ser esquecida.
Contudo existem muitas excepções. E todos nós conhecemos algumas, não é verdade?
Mas eu hoje vou dedicar a minha atenção, a “dois meninos de sua mãe”, que eu bem conheço. E penso mesmo estar segura, aqui neste meu virtual palanque. É que eu tenho uma forte suspeita, que os mesmos “meninos” nem desconfiam da existência de um blogue, que tem no seu nome, três erros crassos. E numa só palavra. É que nem eles, nem as suas queridas mãezinhas. Credo!
O primeiro “menino de sua mãe”, nunca encontrou a sua “moira” encantada. Se calhar também nunca a procurou. Parece pois, que se tornou para ele, bem mais confortável, poder permanecer ali, à beirinha da mãe. Bebendo-lhe com sofreguidão, todos os seus dogmas e crenças. E aceitando sempre todas as suas decisões. Este menino tem hoje cinquenta e muitos anos. A sua queridíssima mãe abeira os noventa. Estão e infelizmente os dois, muito mal de saúde. Pelo que já, nem um nem outro conseguem subsistir condignamente… sem ajuda. Já não executam a mais simples e elementar tarefa. Não conseguem sequer proceder à sua higiene íntima. Muito menos já se alimentam sem apoio.
Ora mas em certo dia, eu fui dar com os dois a conversarem alegremente um com o outro. E cada um deles estava sentadinho, na sua respectiva cadeirinha de rodas. No diálogo, todas as frases que eles proferiam, eram entrecortadas com risos, mais ou menos excêntricos. Naturalmente que os tais risos muito audíveis, também eram proferidos por aquele verdadeiro “par de jarras”. Apercebi-me depois, que a mãe e o filho rejubilavam porque este nunca se havia casado, nem constituído família. E abençoavam ali mesmo, a sua boa estrela. “Assim é que nós estamos bem”, concluíam assim e sempre a rir, aquela dupla. Mas estavam bem, porquê? Pensei eu para os meus botões. Sim, porque aquele homem feito e precocemente tão envelhecido, fez a proeza de estar toda a sua vida, por debaixo da asa muito firme, da sua queridíssima mãe-galinha. E esteve sempre ali, tão sem cuidados nem demais preocupações. Se houvesse casado, é certo que não seria a eventual esposa que escolhesse, que o livraria de maiores trabalhos e da falta de saúde. Mas nem era preciso casar. Que ele pelo menos tivesse saído, alguma vez da casa materna. Que depois se fosse casando. Ou não. Mas pelo menos, ele teria tido a coragem de procurar (sem a ajuda maternal e castradora), uma forma diferente de existir. Esse senhor, nunca na vida, criou as suas próprias asas. Nunca teve a coragem de deixar o ninho. E também nunca teve a transcendental experiência, de se poder considerar… como alguém independente. E poder sentir-se como o responsável máximo pelas suas decisões. Fossem elas as mais acertadas. Ou até nem por isso. E hoje e sempre, ele sofre e sofrerá na pele, as consequências dessa sua desdita. E permanecerá para sempre, umbilicalmente ligado à sua querida mãe. Só que agora num lar de idosos. Estando ali, como se compusessem os dois… um estranho e muito disfuncional casal da quinta idade.
Mas eu conheço um outro caso, que também poderá ser digno de nota. Que é o que se deu em consequência, da oposição total à escolha da namorada do seu filho, por parte de uma muito opinativa mãe. Isaura tem uns rijos setenta e muitos anos. O filho César está quase a chegar aos quarenta. E foi no bar que mais frequenta, que ele teve a sorte de encontrar uma mulher feita, que lhe encheu as medidas. E deu sentido e funcionamento a uma ferramenta que ele quase se esquecera que tinha. Mas que já havia nascido com ele. Com a Marta, (era esse o nome da moçoila), ele aprendeu a beijar. E muito apaixonadamente. E, depois concluíram os dois, (quando o convívio se tornou mais frequente), que o melhor que tinham a fazer, era irem viver juntos. Mas para casa da Marta. Que vivia sozinha, ou melhor, vivia na companhia do seu gato siamês. O problema foi dizer a intenção daquele casal, à Isaura, que se via agora promovida, à condição de sogra. É que no fundo, o que ela mais gostava, era de ter o seu querido filhinho a morar lá em casa. Só que não teve, foi a ousadia, de se antagonizar de imediato, àquela nova situação. Mas e quanto à Marta? Pois ela foi brindada, com a visualização com uma cara de muita revolta e de ódio. Justamente a número 37, que era pertença exclusiva da sua estimadíssima sogra.
Em casa de Marta, os amantes foram muito felizes. Viviam (ele pela primeira vez), as delícias de um amor amplamente correspondido e satisfatório. Só que o filhinho César (que também era um menino/homem muito dedicado) continuava a visitar a sua mãezinha. E com muita regularidade mesmo. Aproveitava e comunicava-lhe também, do bom que estava a ser para ele, viver aquelas tão novas experiências. E com tantas emoções à mistura. A mãe ouvia-o atentamente, mas lá ia retorcendo o seu amplo nariz. E dobrava também as suas orelhas com muita determinação. Bem dizem, que o nariz e as orelhas são os únicos órgãos, que continuam a crescer até à hora da morte…
Mas foi quando o filho lhe transmitiu, que às vezes a sua Marta, costumava andar lá por casa, em trajes menores, que o caldo foi ali, definitivamente entornado. É que a mãe Isaura, abrindo muito os seus olhos de ave de rapina, gritou: “Nua? Estás-me a dizer que a galdéria que tu arranjaste, anda lá em casa nua? Mas onde é que mora a decência? Tu volta mazé aqui para casa, porque essa mulher não te merece. Logo a ti que me custaste tanto a ter! E que foste sempre por mim, tão bem educado!”
E perante tal retórica o que é que o César fez? Pois, incompreensivelmente aceitou a reprimenda alheia e regressou de armas e bagagens, à casa materna. E de nada serviram as inúmeras súplicas e os pedidos de reconsideração que a Marta lhe fez. É que no fundo eles até se podiam considerar muito felizes. Entendiam-se tão bem! De nada valeu, a Marta implorar-lhe, contando-lhe pela enésima vez, que padecia de uns afrontamentos muito estranhos. Que vira na volta, ela ficava p’rá ali prostrada. É porque sofria bastante, com uns certos “escaldamentos”. No início era só mais um fogacho de calor, que lhe ia subindo pelas pernas acima. Depois disso, formavam-se, umas altas pressões, lá pela região central do corpo. Perante isso, o Anticiclone também costumava influenciar. Assim como as fases da Lua. Finalmente, todo aquele processo culminava, com a transformação de uma enorme tempestade de calor, que lhe subia rigorosamente, até à ponta da cabeça. E após todas essas ocorrências… dava-se o delírio. Aquilo até podia matar uma pessoa!...
Mas o namorado tivera a capacidade, de a poder refrescar devidamente. Pelo que utilizando uma certa mangueira… Bem, e para quê dizer mais. Todos nós sabemos muito bem, como é que estas coisas costumam acabar.
E tudo correria maravilhosamente, não fosse a reles intervenção da sogra. O príncipe- filho, lá regressou ao regaço sagrado da rainha-mãe. E deixou a sua amada Marta tão a “pão e água”. Logo ela, que tanto esperara pelo amor verdadeiro!
Mas e depois? E com o passar do tempo? Bem, o que aquele “príncipe” chorou! É que ele queria aconchego. E queria poder continuar a brincar aos bombeiros. Muito receptiva, a mãe lá o sossegou. Passando-lhe a mão já engelhada, pelo mui ralo cabelo do filho. E prometeu-lhe vir a tomar medidas. Arranjar-lhe-ia por fim, uma noiva decente. Mas ao gosto dela e contando com a sua total aprovação. E que depois de devidamente aceite, ela iria viver com eles lá para casa. Que depois fizesse a lida do lar com muita dedicação. Mas que andasse sempre toda muito compostinha.
Não sei se aparecerão muitas candidatas, mas a existirem, dificilmente irão passar pelo “crivo estreitíssimo” da velha. Mas, e na eventualidade de se habilitarem? Pois coitadas. Ainda não devem de estar fartas… de viver bem.
Agora, e infelizmente já sem emprego, aquele “príncipe” pré-quarentão, vai limpando com as calças, as cadeiras das esplanadas lá da rua. E pode mesmo gastar três euros por dia. Que é todo o dinheiro que a sua rica mãe lhe disponibiliza. Sim, porque até à actualidade, é a mãezinha que administra literalmente, toda a vidinha do filho. Ah pois é!
Mas para acabar, que a conversa de hoje até já vai longa, relembro por graça, aquela família italiana. Essa, era exactamente o oposto dos casos acima postados. É que aquela família teve que meter a polícia ao barulho e tudo. A fim de poder tirar lá de casa, o filho cinquentão e emplastro. Esse que achava muito bem, estar p’rá ali, muito encostado à ascendência. E a comer e a beber à conta. É que ele alimentava a profunda convicção de achar que assim, é que as coisas estavam nos trilhos. Só que para seu grande azar, a família… não tinha a mesma opinião.
Sugestão de leitura para esta semana: “O Homem Sem Qualidades” de Robert Musil.
DIVIRTAMSEMAZÉ!


Nota: o mais lindo, é verificar que o som vem muito depois do tempo do abrir das bocas. Isto deve de ter a ver, com a velocidade do dito.

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