“No plaino abandonado
Que a morna brisa
aquece,
De balas trespassado.
Duas, de lado a lado-,
Jaz morto, e
arrefece.
Raia-lhe a farda o
sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus
perdidos.
Tão jovem! Que jovem
era!
(agora que idade
tem?)
Filho único, a mãe
lhe dera
Um nome e o
mantivera:
«O menino de sua
mãe.»
Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está
inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não
serve.
De outra algibeira,
alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço… deu-lho
a criada
Velha que o trouxe ao
colo.
Lá longe, em casa, há
a prece:
“Que volte cedo, e
bem!”
(Malhas que o Império
tece!)
Jaz morto e apodrece
O menino da sua mãe
Fernando Pessoa
Este menino aqui… morreu,
coitado. Mas nem sempre isso acontece aos “meninos de sua mãe”. E… felizmente. É
que morrer, eles acabam todos por morrer. Só que muitas vezes, eles morrem é já
em velhos.
E em relação à temática: “os meninos
de sua mãe”? Pois tenho a dizer que me é também, muito apelativa. Mais pelo
ridículo que decorre, de algumas das situações geradas. Quando por exemplo o
tal “menino” cresce, e se torna adulto. Mas continua a ser para todo o sempre…
o “menino da sua mãe” com tudo o que isso implica realmente. E aí a coisa, pode
tornar-se mesmo, muito dramática.
Tenho a ideia de que as mulheres
se têm tornado, muito mais independentes que os homens. Actualmente até é
natural que os paradigmas se tenham mudado um pouco. As mães dos rapazes tendem
a educá-los para a vida. E quer eles, se casem, coabitem, se amantizem ou
simpatizem somente com alguém, (ou mesmo que nada disso aconteça), eles são
perfeitamente capazes de realizar as tarefas elementares, que lhes permitem ter
uma existência condigna.
Contudo nem sempre assim foi. E
para isso é capaz de ter contribuído muito, toda a educação que regra geral, as
mães forneciam aos seus mancebos no passado. Que eram criados como uns verdadeiros lords. Um bocado à semelhança dos seus
paizinhos. As meninas (e por seu turno) eram criadas como verdadeiras
aprendizas de mulher-a-dias. Tinham que participar, desde muito novas nas
tarefas domésticas. Compunham-se também para elas, gigantescos enxovais. E
enquanto os rapazes, nas datas comemorativas eram presenteados com brinquedos e
roupas muito fashion, as meninas
recebiam colchas e panos da loiça. Mas que maravilha! Devia de ser cá uma
empolgação?
Esses enxovais tinham que chegar,
pelo menos até ao dia, em que as meninas passassem à condição de defuntas.
Preferencialmente lá muito mais para a frente. Quando as mesmas já fossem
trisavós. Elas eram educadas assim e com muito esmero. É que se esperava sempre
que elas fossem, as cuidadoras únicas do lar e da família que elas ajudariam a
fundar. E o marido? Pois seria sempre tido, como o grande senhor lá do sítio. Dizia-se
que era a ele, que competia levar o dinheiro lá para casa. Mas, e as mulheres?
Elas que muitas das vezes, também tinham os seus empregos? E depois da jornada
laboral e diária, ainda tinham que realizar as tarefas domésticas lá de casa?
Sem poderem contar nunca, com qualquer ajuda masculina?
Sim, depois porque as meninas
eram sempre educadas para se casarem. Mas e se alguma delas, mostrasse interesse
em não seguir por essa via? E pretendesse também ela divertir-se muito? O mais
certo era ser olhada pela sociedade, como um bicho raro. E era mesmo tida, como
alguém que devia de ser detentora, de um gravíssimo problema. Fosse físico ou mesmo
psicológico. É que só podia ser! O lindo e o aconselhável, era seguir sempre no
“carreiro das outras formigas”. É pois, mais do que evidente, que a rebeldia ao
instituído, assim como o livre pensamento assustaram sempre (e muito) grande
parte da comunidade.
Agora e felizmente as coisas têm
mudado progressivamente. E se a situação não é perfeita, (longe disso),
tendencialmente, já se visualiza um pouco, o bem-estar dos vários elementos da
família. Onde a mulher tende a não ser esquecida.
Contudo existem muitas excepções.
E todos nós conhecemos algumas, não é verdade?
Mas eu hoje vou dedicar a minha
atenção, a “dois meninos de sua mãe”, que eu bem conheço. E penso mesmo estar
segura, aqui neste meu virtual palanque. É que eu tenho uma forte suspeita, que
os mesmos “meninos” nem desconfiam da existência de um blogue, que tem no seu
nome, três erros crassos. E numa só palavra. É que nem eles, nem as suas queridas
mãezinhas. Credo!
O primeiro “menino de sua mãe”,
nunca encontrou a sua “moira” encantada. Se calhar também nunca a procurou. Parece
pois, que se tornou para ele, bem mais confortável, poder permanecer ali, à
beirinha da mãe. Bebendo-lhe com sofreguidão, todos os seus dogmas e crenças. E
aceitando sempre todas as suas decisões. Este menino tem hoje cinquenta e muitos
anos. A sua queridíssima mãe abeira os noventa. Estão e infelizmente os dois,
muito mal de saúde. Pelo que já, nem um nem outro conseguem subsistir
condignamente… sem ajuda. Já não executam a mais simples e elementar tarefa.
Não conseguem sequer proceder à sua higiene íntima. Muito menos já se alimentam
sem apoio.
Ora mas em certo dia, eu fui dar
com os dois a conversarem alegremente um com o outro. E cada um deles estava
sentadinho, na sua respectiva cadeirinha de rodas. No diálogo, todas as frases
que eles proferiam, eram entrecortadas com risos, mais ou menos excêntricos.
Naturalmente que os tais risos muito audíveis, também eram proferidos por aquele
verdadeiro “par de jarras”. Apercebi-me depois, que a mãe e o filho rejubilavam
porque este nunca se havia casado, nem constituído família. E abençoavam ali mesmo,
a sua boa estrela. “Assim é que nós estamos bem”, concluíam assim e sempre a
rir, aquela dupla. Mas estavam bem, porquê? Pensei eu para os meus botões. Sim,
porque aquele homem feito e precocemente tão envelhecido, fez a proeza de estar
toda a sua vida, por debaixo da asa muito firme, da sua queridíssima
mãe-galinha. E esteve sempre ali, tão sem cuidados nem demais preocupações. Se
houvesse casado, é certo que não seria a eventual esposa que escolhesse, que o
livraria de maiores trabalhos e da falta de saúde. Mas nem era preciso casar.
Que ele pelo menos tivesse saído, alguma vez da casa materna. Que depois se
fosse casando. Ou não. Mas pelo menos, ele teria tido a coragem de procurar
(sem a ajuda maternal e castradora), uma forma diferente de existir. Esse
senhor, nunca na vida, criou as suas próprias asas. Nunca teve a coragem de
deixar o ninho. E também nunca teve a transcendental experiência, de se poder
considerar… como alguém independente. E poder sentir-se como o responsável
máximo pelas suas decisões. Fossem elas as mais acertadas. Ou até nem por isso.
E hoje e sempre, ele sofre e sofrerá na pele, as consequências dessa sua
desdita. E permanecerá para sempre, umbilicalmente ligado à sua querida mãe. Só
que agora num lar de idosos. Estando ali, como se compusessem os dois… um estranho
e muito disfuncional casal da quinta idade.
Mas eu conheço um outro caso, que
também poderá ser digno de nota. Que é o que se deu em consequência, da
oposição total à escolha da namorada do seu filho, por parte de uma muito
opinativa mãe. Isaura tem uns rijos setenta e muitos anos. O filho César está
quase a chegar aos quarenta. E foi no bar que mais frequenta, que ele teve a
sorte de encontrar uma mulher feita, que lhe encheu as medidas. E deu sentido e
funcionamento a uma ferramenta que ele quase se esquecera que tinha. Mas que já
havia nascido com ele. Com a Marta, (era esse o nome da moçoila), ele aprendeu
a beijar. E muito apaixonadamente. E, depois concluíram os dois, (quando o
convívio se tornou mais frequente), que o melhor que tinham a fazer, era irem
viver juntos. Mas para casa da Marta. Que vivia sozinha, ou melhor, vivia na
companhia do seu gato siamês. O problema foi dizer a intenção daquele casal, à
Isaura, que se via agora promovida, à condição de sogra. É que no fundo, o que ela
mais gostava, era de ter o seu querido filhinho a morar lá em casa. Só que não
teve, foi a ousadia, de se antagonizar de imediato, àquela nova situação. Mas e
quanto à Marta? Pois ela foi brindada, com a visualização com uma cara de muita
revolta e de ódio. Justamente a número 37, que era pertença exclusiva da sua estimadíssima
sogra.
Em casa de Marta, os amantes foram
muito felizes. Viviam (ele pela primeira vez), as delícias de um amor
amplamente correspondido e satisfatório. Só que o filhinho César (que também era
um menino/homem muito dedicado) continuava a visitar a sua mãezinha. E com
muita regularidade mesmo. Aproveitava e comunicava-lhe também, do bom que
estava a ser para ele, viver aquelas tão novas experiências. E com tantas
emoções à mistura. A mãe ouvia-o atentamente, mas lá ia retorcendo o seu amplo nariz.
E dobrava também as suas orelhas com muita determinação. Bem dizem, que o nariz
e as orelhas são os únicos órgãos, que continuam a crescer até à hora da morte…
Mas foi quando o filho lhe transmitiu,
que às vezes a sua Marta, costumava andar lá por casa, em trajes menores, que o
caldo foi ali, definitivamente entornado. É que a mãe Isaura, abrindo muito os
seus olhos de ave de rapina, gritou: “Nua? Estás-me a dizer que a galdéria que tu
arranjaste, anda lá em casa nua? Mas onde é que mora a decência? Tu volta mazé
aqui para casa, porque essa mulher não te merece. Logo a ti que me custaste
tanto a ter! E que foste sempre por mim, tão bem educado!”
E perante tal retórica o que é
que o César fez? Pois, incompreensivelmente aceitou a reprimenda alheia e
regressou de armas e bagagens, à casa materna. E de nada serviram as inúmeras súplicas
e os pedidos de reconsideração que a Marta lhe fez. É que no fundo eles até se podiam
considerar muito felizes. Entendiam-se tão bem! De nada valeu, a Marta implorar-lhe,
contando-lhe pela enésima vez, que padecia de uns afrontamentos muito
estranhos. Que vira na volta, ela ficava p’rá ali prostrada. É porque sofria bastante,
com uns certos “escaldamentos”. No início era só mais um fogacho de calor, que
lhe ia subindo pelas pernas acima. Depois disso, formavam-se, umas altas
pressões, lá pela região central do corpo. Perante isso, o Anticiclone também costumava
influenciar. Assim como as fases da Lua. Finalmente, todo aquele processo culminava,
com a transformação de uma enorme tempestade de calor, que lhe subia rigorosamente,
até à ponta da cabeça. E após todas essas ocorrências… dava-se o delírio. Aquilo
até podia matar uma pessoa!...
Mas o namorado tivera a
capacidade, de a poder refrescar devidamente. Pelo que utilizando uma certa mangueira…
Bem, e para quê dizer mais. Todos nós sabemos muito bem, como é que estas
coisas costumam acabar.
E tudo correria maravilhosamente,
não fosse a reles intervenção da sogra. O príncipe- filho, lá regressou ao
regaço sagrado da rainha-mãe. E deixou a sua amada Marta tão a “pão e água”. Logo
ela, que tanto esperara pelo amor verdadeiro!
Mas e depois? E com o passar do
tempo? Bem, o que aquele “príncipe” chorou! É que ele queria aconchego. E queria
poder continuar a brincar aos bombeiros. Muito receptiva, a mãe lá o sossegou.
Passando-lhe a mão já engelhada, pelo mui ralo cabelo do filho. E prometeu-lhe vir
a tomar medidas. Arranjar-lhe-ia por fim, uma noiva decente. Mas ao gosto dela e
contando com a sua total aprovação. E que depois de devidamente aceite, ela iria
viver com eles lá para casa. Que depois fizesse a lida do lar com muita
dedicação. Mas que andasse sempre toda muito compostinha.
Não sei se aparecerão muitas
candidatas, mas a existirem, dificilmente irão passar pelo “crivo estreitíssimo”
da velha. Mas, e na eventualidade de se habilitarem? Pois coitadas. Ainda não
devem de estar fartas… de viver bem.
Agora, e infelizmente já sem
emprego, aquele “príncipe” pré-quarentão, vai limpando com as calças, as
cadeiras das esplanadas lá da rua. E pode mesmo gastar três euros por dia. Que
é todo o dinheiro que a sua rica mãe lhe disponibiliza. Sim, porque até à
actualidade, é a mãezinha que administra literalmente, toda a vidinha do filho.
Ah pois é!
Mas para acabar, que a conversa de
hoje até já vai longa, relembro por graça, aquela família italiana. Essa, era
exactamente o oposto dos casos acima postados. É que aquela família teve que
meter a polícia ao barulho e tudo. A fim de poder tirar lá de casa, o filho
cinquentão e emplastro. Esse que achava muito bem, estar p’rá ali, muito
encostado à ascendência. E a comer e a beber à conta. É que ele alimentava a
profunda convicção de achar que assim, é que as coisas estavam nos trilhos. Só
que para seu grande azar, a família… não tinha a mesma opinião.
Sugestão de leitura para esta
semana: “O Homem Sem Qualidades” de Robert Musil.
DIVIRTAMSEMAZÉ!
Nota: o mais lindo, é verificar que o som vem muito depois do tempo do abrir das bocas. Isto deve de ter a ver, com a velocidade do dito.

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